quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Festival de Brasília – Parte VII



O Nó do Diabo (Idem, Brasil, 2017)
Dir: Ramon Porto Mota, Gabriel Martins, Ian Abé e Jhésus Tribuzi


O filme é episódico, mas mais do que buscar uma unidade entre os segmentos, O Nó do Diabo quer contar uma mesma história, pretensiosamente a história da incorporação da população negra no cenário sociopolítico brasileiro através dos tempos. São cinco partes, a começar num futuro super próximo (2018) e que vai regredindo a tempos de outrora. Fora isso, é moldado a partir de um mergulho profundo nos gêneros de horror, trash e gore e que ajudam a formar também essa unidade em termos de conceito e construção estética.

Não deixa de ser corajoso e desafiante que o filme se proponha a fazer tal estudo social via marcas de gênero que tanto têm servido para espelhar as mazelas e todo tipo de arbitrariedades políticas em sociedades no mundo todo. Na verdade, é importante se questionar: o filme parte do horror para fazer crítica social ou o inverso? O que veria primeiro nas intencionalidades do grupo de quatro realizadores que se juntaram para articular e produzir esse corpo estranho da filmografia brasileira? Sim, porque existe um claro trabalho em conjunto senão na direção dos segmentos, na concepção dos roteiros de cada parte que são, geralmente, assinados por mais de uma pessoa – às vezes pelos quatro juntos.

Também vale destacar que, de certo modo, os diretores paraibanos Ramon Porto Mota, Ian Abé e Jhésus Tribuzi encabeçam o projeto por serem eles mais próximos e visivelmente apaixonados pelo cinema de horror, sendo o filme feito no seio da produtora que eles fundaram em sociedade, a Vermelho Profundo. O mineiro Gabriel Martins foi convidado a entrar no time. Curiosa essa escolha que, a despeito das proximidades e amizades entre eles, chama atenção por Gabriel ser o único negro dentre os realizadores, e sem um histórico de produção no cinema que caminhasse por esse gênero – e mais curioso ainda é poder afirmar que o segmento que ele dirige é mesmo o melhor dos cinco.

Parece-nos importante fazer tais considerações porque O Nó do Diabo é claramente um filme que busca pensar a figura do sujeito negro a partir de um ponto de vista pouco usual: são protagonistas em quase todos os episódios, sujeitos e não mais objetos das ações dos costumeiros personagens brancos. É como se o filme buscasse contar a história da escravidão no Brasil e suas perceptíveis consequências sociais enraizadas na sociedade atual partindo do olhar e dos dilemas desses personagens, geralmente usados como coadjuvantes em outras narrativas – algo que inevitavelmente tomou conta do fenômeno de discussão sobre o tema a partir dos debates em torno de certos filmes no Festival de Brasília (sim, estou falando de Vazante e Café com Canela).

Porém, se o gesto de colocar em cena esse viés da história é algo a ser louvado, o filme não está isento de outros enviesamentos que lhe são consequentes. A utilização do horror acaba reforçando, via marcas do gênero, um imaginário de dor e sofrimento a que o corpo negro é sujeitado há muito tempo. Nesse sentido, o filme parece partir do terror para se chegar a essa discussão social, mas estando o gênero à frente de tudo; ele é quem rege os movimentos e passos que o filme segue ao redor das micro-histórias que conta e de um macrocosmo que busca atingir.

Ora, o terceiro episódio do filme – que se passa em 1921 –, por exemplo, dirigido por Ian Abé, traz duas irmãs que ainda são tratadas como escravas na fazendo de um rico proprietário – de sobrenome Vieira, presente em todos os segmentos e sempre interpretado pelo mesmo ator, o ótimo Fernando Teixeira. Ou mesmo a parte dirigida por Martins (que se passa em 1987) coloca o casal de protagonista em uma situação de coação, violência e degeneração do corpo quando eles pedem emprego numa estranha casa rural em meio a um engenho decadente onde os senhores e a própria casa começam a persegui-los e maltratá-los, invocando uma força maligna que emana de sua essência. Não se trata aqui de esconder a força da violência, de negá-la ou negligenciá-la como dado histórico mesmo, mas de sempre voltar a ela como subterfúgio imprescindível para falar desses sujeitos, de suas vivências e passagem pela História do Brasil. 

Os diretores e roteiristas precisam explorar a figura da dor e do sofrimento do corpo negro, potencializados agora pelas marcas e “exigências” do filme de terror trash e gore a que o filme se filia. Daí que pensar as mazelas sociais que a escravidão deixou como herança maldita começa a parecer, no filme, um mero capricho, tal qual um bônus, a partir do momento em que o filme se mostra muito encantado pelo próprio fetiche de se estar fazendo cinema de gênero no Brasil – algo que vem crescendo a partir de outras experiências parecidas e bem-sucedidas, como o trabalho de Rodrigo Aragão e sua trilogia trash total (Mangue Negro, A Noite do Chupa-Cabras e Mar Negro), ou de filmes como O Diabo Mora Aqui, de Dante Vescio e Rodrigo Gasparini. O Nó do Diabo pode claramente ser posto ao lado dessas produções em termos conceituais, mas na tentativa de dar um passo adiante, acaba se enrolando e correndo o risco de reforça aquilo que pretendia denunciar.

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