quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Lavando a louça suja

O Casamento de Rachel (Rachel Getting Married, EUA, 2008)
Dir: Jonathan Demme

Talvez o último grande filme de Jonathan Demme tenha sido Filadélfia, em 1993, depois do sucesso de O Silêncio dos Inocentes. E por pensar nesses filmes, chega a ser inusitado que justo ele faça um filme como esse O Casamento de Rachel, drama familiar de acerto de contas, com gosto agridoce no fim da sessão. É o tipo de filme agradável de se ver, porque as escolhas de direção e roteiro são certeiras, mas cuja situação não gostaríamos de vivenciar. Mesmo.

Kym (Anne Hathaway) sai por um tempo da clínica de reabilitação de uso de drogas direto para os preparativos do casamento da irmã Rachel (Rosemarie DeWitt, linda). Quando volta para casa, faz reviver os dramas e dificuldades que tanto abalaram a família, também marcada por uma tragédia da qual ela é responsável. Junta-se a isso a personalidade difícil e por vezes descontrolada de Kym, ainda não totalmente recuperada.

Com uma corretíssima câmera na mão, acentuando o desconforto do momento, Demme espreita cada detalhe e capta cada mudança de expressão ou um pequeno e significativo gesto, revelando aos poucos informações sobre cada personagem, ao mesmo tempo que o passado volta e meia ressurge para incomodar a todos. O clima festeiro da cerimônia se contrapõe aos amargos fantasmas do passado.

O excelente roteiro é assinado pela estreante Jenny Lumet, filha do veterano diretor de mesmo nome, e tem um texto ágil que podia cair na fácil discussão de respostas rápidas e frases de efeito, mas sabe ser inteligente o suficiente para dinamizar a narrativa, fugindo dos possíveis clichês. É uma surpresa, por exemplo, presenciar uma cena de discussão que muda surpreendentemente de rumo com a revelação de uma notícia por uma das personagens. Ou mesmo a excelente sequência da brincadeira de arrumar a lava-louça, tão ingênua, mas que acaba de forma arrasadora.

Seria muito fácil, também, inserir um subtexto sobre racismo, já que o noivo de Rachel, e toda sua família, são negros; ou então uma visão esperançosa sobre os dependentes de drogas. Mas o filme não quer falar disso, mais importante para a narrativa é o comportamento das pessoas a partir da simples presença de Kym, sua personalidade catalisadora e as angústias que traz consigo.

Anne Hathaway, minha preferida entre as indicadas ao Oscar, está iluminada, compõe sua personagem no tom exato e parece manter em sua expressão a dimensão de sua personalidade marcante. Rosemarie DeWitt é também um grande destaque, acrescido da presença de Bill Irwin como o pai das duas. Debra Winger, a mãe, pouco aparece e um tanto apagada, mas tem uma grande importância na história.

A visita da ovelha negra da família só faz abrir as feridas que ainda estão cicatrizando. Mesmo assim, o filme não põe um ponto final na situação. O drama daquela família é tão orgânico que não podia simplesmente se resolver em duas horas de filme. E pelo visto, as feridas continuarão abertas por muito tempo.

4 comentários:

Kamila disse...

Você é mais um que colocou a Anne Hathaway como favorita entre as indicadas ao Oscar 2009 de Melhor Atriz. Como fã da atriz, fico felicíssima de vê-la conquistando elogios dos blogueiros cinéfilos.

"O Casamento de Rachel" sempre foi o filme da temporada Oscar que eu mais quis assistir. Adoro longas com temáticas da reunião familiar e acho que esta obra do Jonathan Demme será um dos bons exemplares do gênero.

Hélio disse...

Serio que vc acha "Filadelfia" um grande filme? Vc tem gostos estranhos, Rafael... hehehe

Gostei desse novo, Hathaway tb era minha escolha pra levar o Oscar, e eu queria MUITO estar numa festa de casamento como aquela.

Abraços!

Vulgo Dudu disse...

Deve ser melhor do que aquela bomba Noivas em guerra, no qual Hathaway está beirando o deprimente! Pelo menos esse parece ser um filme com bem mais conteúdo para ela exercitar o talento.

Abs!

Rafael Carvalho disse...

Pode apostar Kamila. O filme é ótimo, bem filmado, atuado e conta com um texto afiadíssimo.

Ué Hélio, você odiu Desejo e Reparação, gostou de Hancock, é fã do Shyamalan e eu é que tenho gosto estranho? Enfim, assisti a Filadélfia faz um bom tempo, mas lembro que gostei na época. Sobre Rachel, também gostaria de estar na festa, mas não como membro da família, talvez como vizinho do amigo do primo do noivo. Corro de problemas!!!

Dudu, nem me fale nesse filme. A Hathaway é uma ótima atriz, mas se ela continuar fazendo esse tipo de filme, ela vai se queimar. E ainda esse ano estreia um suspense com ela chamada Passageiros. Não tem uma cara muito boa, não! Ela que se cuide.