domingo, 16 de agosto de 2009

Rito de passagem

À Deriva (Idem, Brasil, 2009)
Dir: Heitor Dhalia



O novo trabalho de Heitor Dhalia é forte e me deixou bastante surpreso. Podia jurar pelo material de divulgação que se tratava de um filme mais água com açúcar, filmado de forma clássica e simples, o que seria uma inconstante na filmografia do cineasta que realizou o sombrio Nina (que numa revisão, caiu bastante em meu conceito) e o sensacional e sujo O Cheiro do Ralo, ainda seu melhor filme.

Felipa (a novata Laura Neiva) está de férias em uma casa de praia com os pais e o casal de irmãos mais novos. O pai (Vincent Cassel, relativamente bem falando português) é um escritor francês, naturalizado brasileiro, que se envolve com uma mulher mais jovem (Camilla Belle) enquanto a esposa (Débora Bloch) se entrega à bebida e vê seu casamento se desmanchando.

Se à primeira vista À Deriva apresenta-se como a história da adolescente que vai descobrindo os melindres do amor e também do sexo, a obra cresce mais ainda quando a questão familiar entra na equação para também tratar de amor e sexo, sob um aspecto mais adulto. Mas sempre através do olhar confuso de Felipa, tão próprio da adolescência. É como esse turbilhão de emoções que a jovem terá de lidar, uma espécie de provação.

O maior mérito do filme é dar consistência a todos os personagens, mesmo os secundários, pois a relação da protagonista com todos eles é o que enriquece o filme, através das experiências da garota. Nada soa forçado e há ainda o alívio de um roteiro que trata o espectador com a maturidade necessária, mesmo através da história de uma jovem iniciando seu crescimento como mulher.

Boa também é a forma como Dhalia filma a juventude, suas descobertas, decepções, incluindo aí as noções de amor, amizade e a descoberta do sexo. Já os problemas de relacionamento dos pais surgem para Felipa de forma menos compreensível justo porque trazem questões mais complexas, e ainda ganham outras nuances perto do fim do filme. São nessas duas frentes, aparentemente distintas, que a narrativa se encontra e ganha coerência.

O elenco ajuda muito, com os atores mais jovens fazendo bom trabalho e Vincent Cassel tentando não parecer deslocado; no entanto, a melhor em cena é Débora Bloch, em domínio total de seu personagem, fazendo com que sua mãe não soe controladora. Pode-se dizer também que o diretor não possui lá um estilo próprio de filmagens. Aqui, Dhalia filma com a câmera o mais próximo de seus atores na tentativa de captar os mais simples, porém significativos gestos. Porque para Felipa, à flor da pele, tudo a afeta, para o bem ou para o mal. Mas é assim que se cresce, não?

4 comentários:

Diego Rodrigues disse...

Não sou fã do Dhalia, mas tenho interesse por À Deriva. Quando eu assistir, deixo mais a minha opinião. À primeira vista, me parece interessante apenas.

Vulgo Dudu disse...

Muito bom! Eu acho que esse filme é a prova de amadurecimento de Dalhia. O cara tem tudo para nos entregar grandes obras no futuro. Acho que o mais bacana de À deriva é o texto. Bons textos são raros hoje em dia. A metáfora do mar como estado de espírito também é assustadoramente bem feita. Ou seja, é um filme cheio de classe!

Abs!

Kamila disse...

Ainda não assisti a este filme, mas estou com as expectativas em alta em relação à obra. Só li maravilhas a respeito desse longa!

Rafael Carvalho disse...

Diego, talvez você goste mais desse filme, não possui as esquizitices dos anteriores, é mais clássico, mas não menos interessante. Uma grande surpresa, na verdade.

Dudu, também vejo o amadurecimento do cineasta, embora eu goste bastante de O Cheiro do Ralo. E esse aqui tem classe mesmo, um ótimo roteiro, como você apontou. Trata de coisas bem complexas, mas dá conta do recado e não soa pretensioso. Bom mesmo.

Também vi muita gente elogiando o longa, Kamila. Que bom, pois o Dhalia merece.