segunda-feira, 21 de junho de 2010

Natureza selvagem

O Fantástico Sr. Raposo (Fantastic Mr. Fox, EUA/Reino Unido, 2009)
Dir: Wes Anderson



Quando o personagem de Nicolas Cage encontra a Bruxa Boa do Oeste no final de Coração Selvagem, de David Lynch, ele, ao ser desprezado por sua companheira por conta de sua personalidade agressiva, diz ser “selvagem por natureza”, apesar do amar a mulher. Pois esse é exatamente o drama que o Sr. Raposo irá enfrentar: a sua natureza selvagem (ele é uma raposa, ora) versus a responsabilidade de estar à frente de uma família.

É incrível o que um autor é capaz de fazer com uma história aparentemente inocente e simplória. Wes Anderson, dono de um projeto de cinema que valoriza demais as questões de família, em especial das disfuncionais, se utiliza muito bem dessa fábula para fins dramáticos, embora tudo possua uma leveza incrível, a despeito do perigo que cerca os personagens.

Em pareceria com Noah Baumbach (outro cara que adora abordar temas familiares em seus filmes), o roteiro de O Fantástico Sr. Raposo é baseado no livro de Roald Dhal, o mesmo escritor de A Fantástica Fábrica de Chocolate. Por não conhecer o material original, não sei dizer se o livro possui um tom infantil, mas o filme sabe ser profundo na sua investigação de responsabilidades.

Os diálogos são primorosos, a exemplo do anúncio da gravidez, a conversa do casal na mina de ouro, o acerto de contas entre pai e filho, para ficar em poucos exemplos. Com isso, o roteiro é capaz de criar um rico desenvolvimento de personagens, todos bem tratados pela história. Para isso, destaque para o trabalho de dublagem que confere grande personalidade a cada um (Meryl Streep é minha favorita como a voz doce e sábia da Sra. Raposo).

O aspecto retrô da animação valoriza não só a direção de arte, quanto a técnica de stop motion, e também a música country mais caipira, favorecendo a ambientação da história. Por fim, tudo é embalado pela trilha sonora agradabilíssima e sempre discreta de Alexandre Desplat.

O filme ainda consegue aplicar boas doses de aventura a partir do momento em que os fazendeiros passam a perseguir as raposas, tudo por causa da teimosia do Sr. Raposo. Mas é a partir disso que ele, mais do que qualquer um, vai aprender as regras de se viver em conjunto, mesmo que para isso seja necessária uma adaptação.


PS: Outro paralelo interessante desse filme é com O Lutador. Na obra de Aronofsky, Randy busca uma nova fora de vida, menos agressiva do que vem levando há muito tempo. Mas ele simplesmente não consegue, ele abraça sua natureza selvagem a qual se habituou. Duas visões distintas, portanto, mas que formam um belo par.

9 comentários:

João Daniel Oliveira disse...

Adorei o Mr. Fox, o filme realmente é uma delícia. Possivelmente, foi o visual mais sofisticado do cinema americano no ano passado.

Você se lembrou de O Lutador, eu lembrei mais foi de A Fuga das Galinhas, rs, embora este seja um filme bem mais ingênuo- mas não menos inteligente.

Psiu: no final do filme de David Lynch, quem aparece na verdade é a Bruxa Boa, rs

Elizio disse...

Agora divergimos bastante...
Eu assisti essa semana ao MR.FoX e ele me pareceu tão sem graça.
E olha que eu entrei na temporada de animações.
Três estrelas, estourado.
Alguns diálogos bons... Mas, uma sensação drástica de tudo ser um conto de fadas mal contado.

Gustavo disse...

Curioso contraponto com WILD AT HEART (que não gosto).

Rafael Carvalho disse...

Vixe, João, realmente, é a Bruxa Boa. Que besteira, com aquele final de redenção, nunca que ia ser a Bruxa Má, né! Erro corrigido. E realmente, a animação tem um visual sensacional e extremamente cuidadoso em sua composição. Só não peguei a relação do filme com A Fuga das Galinhas. Será pela ambientação?

Ita, meu caro Elizio, acho que isso vai gerar uma certa discussão porque não consigo enxergar o filme como história mal contada, não mesmo. A noção de instinto está toda lá no personagem desde o início do filme e acho que a grande discussão é essa, como equilibrar esse instinto e um senso de responsabilidade. Acho os diálogos bons demais (a cara dos filmes do diretor), além de que o visual é muito caprichado. Não entendi suas reclamações.

Gustavo, se não fosse pelo Cidade dos Sonhos, Coração Selvagem seria meu Lynch favorito, gosto demais da atmosfera do filme. O final, então, é sublime.

Wallace Andrioli Guedes disse...

Já estava na minha lista e, depois do seu texto, fiquei mais animado ainda com o filme. Gosto bastante do Anderson.

Matheus Pannebecker disse...

Esse filme é adorável!

Rafael Carvalho disse...

Wallace, o filme pode parecer uma coisa diferente dentro da filmografia do Anderson, mas a história tem muita relação com os principais temas do diretor, como questões de família. Se você gosta dos filmes dele, acho que não vai se arrepender.

Matheus, realmente, adorável e ao mesmo tempo bem ácido.

Vulgo Dudu disse...

Adorei esse filme! Acho que a forma como Anderson trata do instintivo, da animosidade, é bastante rica e complexa - exatamente como nos filmes que dirige. A trilha sonora é ótima também. E o fato de ser stop motion, indo contra a mania dos 3Ds, é outro ponto pro cara!

Abs!

Rafael Carvalho disse...

Então Dudu, o que mais me encanta no projeto é que, além de ser uma animação deliciosa, com um apuro visual muito bom, o filme ainda está conectado ao estilo do diretor. Nesse tempo de 3D, uma boa animação em massinha parece ter um gosto especial.