quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Lisboa revisitada


Mistérios de Lisboa (Idem, França/Portugal, 2010)
Dir: Raúl Ruiz



Mistérios de Lisboa deve ser o maior filme do ano, em mais de um sentido. Penúltimo trabalho (sem contar um filme inacabado) dirigido pelo chileno radicado na França, Raúl Ruiz, morto ano passado os 70 anos de idade, trata-se de um drama de época grandioso, de tons novelescos, mas nunca superficiais. Reúne um sem-número de personagens com seus segredos que vão sendo desnudados ao sabor dos conflitos. O maior desfrute em assisti-lo é a ampliação desse painel de tipos e situações, o que torna o filme um sério candidato a épico cinematográfico pela força com que impõe sua grandiloquência narrativa.

Adaptado da obra homônima do romancista português Camilo Castelo Branco e encomendada pela TV francesa como uma minissérie de seis episódios, a versão para o cinema consta de 4h30 (dividida em duas partes), mas passa sem pesar, tão leve e conciso é o texto de Castelo Branco e, principalmente, tão sutil é a mão do cineasta franco-chileno. Raúl Ruiz filma com propriedade, sem pressa, demonstrando uma noção de encenação absurda na forma como movimenta lentamente a câmera e, principalmente, como orquestra a marcação dos atores no quadro, fazendo parecer fácil dirigir, tamanha a naturalidade em contar essas histórias.

Não deixa de ser um ritmo interessante para um enredo com tantos personagens, acontecimentos e reviravoltas. Dispondo de tempo, o filme monta com cuidado um mosaico de histórias que se desdobram à medida que novos personagens são apresentados e seus mistérios passam a fazer parte da teia que o filme constrói, conectando-se uns com os outros, mas nunca abruptamente.

É como se Ruiz, tomado pela elegância do ambiente aristocrático que registra (mesmo expondo os podres de muita gente mais ou menos tarde), fosse polido o suficiente para nos apresentar a cada um desses personagens, sempre acompanhados por movimentos e enquadramentos de câmera que só acentuam a beleza e as vicissitudes daquele ambiente nobre.

Se a história do pequeno João (João Arrais), órfão num convento, é o fio condutor de um roteiro que vai passear pelo século XIX, entre Portugal, França, Itália e Brasil, muitos outros tipos passarão pela tela trazendo seus segredos. João recebe repentinamente a visita da mãe que nunca conhecera, vive aos cuidados do padre Dinis (Adriano Luz), que, por sua vez, tem de lidar com a chegada do misterioso negociante Alberto de Magalhães (Ricardo Pereira) e com os desejos de vingança da Condessa de Montfort (Clotilde Hesme), sem falar nos próprios mistérios que ele mesmo carrega.


Cada novo personagem é uma promessa de novos caminhos que o filme percorre, justamente o que torna Mistérios de Lisboa tão delicioso e intrigante de acompanhar. Há ainda as liberdades narrativas que o diretor utiliza, buscando uma quase fuga da naturalidade que geralmente marca o tom do filme nesse ambiente burguês. Assim, num determinado momento em que uma senhora é confrontada verbalmente por uma réplica indesejada durante um baile, ela fraqueja e cai ao chão, como se o golpe moral tivesse ali um efeito físico, impositivo.

Como produto de rara beleza e também força narrativa, para além de toda a suntuosidade da produção (direção de arte e figurinos saltam aos olhos), Mistérios de Lisboa é um passeio agradável pelos mistérios humanos, esses que uma hora ou outra virão à tona. Estão ali, escondidos, por entre salões, alcovas e descampados. O que Ruiz faz é trazê-lo à luz, da forma mais bonita possível. Coisa de mestre. 


4 comentários:

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

realmente um filme belíssimo. talvez o melhor de ruiz.

O Falcão Maltês

Rafael Carvalho disse...

Antonio, não vi quase nada do Ruiz, mas parece que ele só melhora com o tempo.

Rodrigo Duarte disse...

Filmaço! Elegância absoluta! Assim como você, eu também não conheço muito o Ruiz, além de Mistérios, vi apenas A Comédia da Inocência. Imperdível!

Rafael Carvalho disse...

Rodrigo, pra mim já é o melhor do ano e acho difícil algum bater nessa altura do campeonato. É tudo muito bonito, bem composto, bem encenado. As horas passam voando. Comédia da Inocência não vi, mas tenho boas referências.