A
Academia das Musas (La
Academia de las Musas, Espanha, 2015)
Dir:
José Luis Guerín
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O filme se
dispõe a fazer esse homem erudito discutir e trocar ideias com seus alunos e
outras pessoas – tal como sua esposa, por exemplo, o que logo se transforma
numa deliciosa DR erudita. Temas como amor, o belo, desejos, sedução,
princípios do que seja o masculino e o feminino, enfim, questões que compõem o
campo da arte e da inspiração, surgem em profusão num filme que muitas vezes
nos questiona sobre sua natureza ficcional ou documental.
Trata-se de um filme essencialmente
dialógico, calcado muito na palavra e nos planos que privilegiam os rostos em
paralelo dos personagens que falam e confrontam-se em suas ideias. Engraçado
como A Academia das Musas pode ser visto como um filme tão diferente de Na Cidade de Sylvia, a obra mais
festejada do cineasta, ao mesmo tempo em que estabelece com ele grande diálogo.
Qual a melhor representação contemporânea da musa senão a mulher que o
personagem obcecado persegue durante o filme?
Mas aqui Guerín consegue fazer desse
falatório todo um filme delicioso que não deixa de ser, ainda, sobre as
relações amorosas ou, antes, sobre como enxergar o outro, a beleza do outro. Há
uma precisão na forma como essas conversas são ordenadas na montagem com o
passar dos dias, sem nos deixar se perder
no emaranhado discursivo, mas também sem fazer dele um peso teorizado. Um filme
sem igual.
Francofonia (Idem, França/Alemanha/Holanda,
2015)
Dir:
Aleksandr Sokurov
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O
Museu do Louvre acaba sendo o eixo pelo qual essas vertentes convergem, mais
exatamente no período de ocupação da França pelas tropas do eixo durante a II
Guerra Mundial. É menos um filme sobre a arte e mais sobre como um espaço de
preservação e solidificação da cultura mundial resiste em tempos difíceis.
Sokurov
mistura muitos registros aqui, uma fragilidade do filme em nunca se apegar com
afinco a um deles, tateando por muito tempo um a solidez narrativa. Pode ser
visto como um ensaio poético-político, misturando imagens de arquivo,
reconstruções ficcionais e ainda invoca a persona de um Napoleão Bonaparte
bonachão para passear pelos corredores e salões do museu.
Mas
talvez a grande força do filme é fazer brotar dessa história – que tem muito de
didatismo para situar o espectador no contexto histórico da época – a importância
de um elemento central para continuidade e resistência do museu diante do
invasor, a saber o então diretor do Louvre, Jacques Jaujard. Diante do peso da
História e da Arte, surge essa figura humana, em contraponto a outro sujeito, o
conde Wolff-Metternich, general da ocupação nazista em Paris. Mas é Jaujard
quem Sokurov escolhe para centralizar a simbologia da resistência: o homem e
sua história pessoal contra a adversidade da História maior, eis o grande
embate.
The
Lobster
(Idem, Irlanda/Reino Unido/França/Grécia/ Holanda, 2015)
Dir:
Yorgos Lanthimos
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Pessoas
são “internadas” num resort de luxo para que possam se apaixonar por outras e
formar um casal, de preferência feliz. Caso contrário, elas serão transformadas
em um animal de sua própria escolha. The
Lobster é mais um mergulho num mundo de tons
fabulares, ainda que o tratamento seja naturalista. Todos parecem estar de bem
com essa formalidade, apesar de correrem contra o tempo para salvarem a pele.
Lanthimos
investe não só nessa fábula de estranhezas, como também injeta boas doses de
humor negro na história – a piada com o filme Conta Comigo, por exemplo, é impagável. Aos poucos o diretor, que
também assina o roteiro, amplia esse universo que é um prato cheio para a circulação
de personagens estranhos que se comportam de modo esquisito. É quando o filme
passa a girar em torno das possibilidades de estranheza que aquele universo
possibilita – ainda que seja dinâmico, apresentando novos personagens, saindo
de uma zona de conforto – até chegar num final que realmente tem algo a dizer.
Existe
no filme uma ideia clara de ridicularização da instituição do matrimônio ou dos
relacionamentos amorosos perfeitos como sinônimos de felicidade que muitos
almejam. The Lobster revela aí uma
espécie de descrença na união conjugal entre homem e mulher, no simulacro que
pode ser essa união. Enquanto isso, o amor estaria acima disso tudo, num gesto
de sacrifício que fala mais sobre o sentimento das pessoas – e que só seria
possível ao quebrar todas as convenções. O amor como ato revolucionário, em
muitos sentidos. É uma ideia muito forte, mas que se dilui no mar de bizarrices
que é esse filme.
Os
Irmãos Lobo (The
Wolfpack, EUA, 2015)
Dir:
Crystal Moselle
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Eles
vivem num prédio no bairro de Manhattan e seu maior contato com o mundo externo
são através de filmes. São tão fascinados por alguns deles, e suas únicas
percepções do mundo exterior, que passam grande parte do tempo reencenando e
gravando amadoramente clássicos do cinema americano, desde Cães de Aluguel até Os Bons
Companheiros.
Os Irmãos Lobo, para além da
surpreendente história, resgata esse sentido de reinvenção da cinefilia, tem
momentos muito curiosos e engraçados, mas vale muito por tentar entender a
mentalidade daquelas pessoas, como esse enclausuramento e a possibilidade de quebrá-lo
mexem com aquele núcleo familiar.
Tem a mãe e o pai, que
defendem com afinco, e os filhos espremidos entre o carinho e a limitação que
sentem profundamente. Chrystal Moselle, em seu primeiro filme como diretora,
consegue ouvir e extrair uma melancolia evidente daquelas pessoas, sem
julgamentos ou comiseração. Em certo ponto, o filme deixa de apresentar novidades
na rotina daquela família, mas é um estudo incrível sobre as demandas de espaço
e contato humano que uma pessoa exige.
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