Halley (Idem, México,
2012)
Dir:
Sebastian Hofmann

É
uma proposta a ser aderir. Muita gente pode não se afeiçoar ao ritmo moroso da
narrativa, mas acima de tudo existe uma coesão muito interessante aqui, via
proposta surreal em que um homem passa a subexistir como um morto-vivo. Seu
corpo deteriora-se na nossa frente, mas ele continua vivo. Arrasta-se, sempre
cansado, despedaçando-se literalmente, mas vivo.
O
filme se esforça bastante para traduzir o estado sensorial desse indivíduo em
estado peculiar, desfocando a imagem, embaralhando os sons ambientes, com se tentasse
colocar o espectador nesse lugar tão estranho. Mas há também muito de humor
negro que se tira daí (uma longa sequência no necrotério é impagável), meio por
não sabermos muito como lidar com aquela situação e com os desdobramentos que
ele acaba tendo nessa condição de desfacelamento físico. É portanto um filme
que inquieta e isso já é muito positivo em termos de impressão.
O
problema maior talvez seja o fato de que, para além de construir esse clima mórbido-cômico,
o filme não consegue ir além de criar cenas e mais cenas engraçadas e escatológicas.
Entendemos já no início a condição e o próprio universo não-realista em que o
personagem se encontra, mas não existe um comentário a mais sobre sua condição,
sobre seu estado de solidão, o descaso de todos ao seu redor.
Gare du Nord (Idem, França,
2013)
Dir:
Claire Simon

É
tudo muito bem cuidado em termos de direção e texto, com personagens plausíveis
carregando seus conflitos pessoais. Mas para além da ideia de reunir anônimos num
lugar de tanta gente, o filme é mais um retrato de corações solitários que se
encontram e desencontram nesse grande espaço de circulação que é a maior
estação de trem da França.
Há
ali um universo de vidas que se cruzam a todo instante, da qual a diretora
pinça algumas delas para compor seu quadro de dramas. Mathilde (Nicole Garcia)
é uma mulher de meia idade solitária que conhece e se apaixona pelo jovem
estudante (Reda Kateb). Eles vão conhecer também Sacha (François Damiens), à
procura por sua filha desaparecida que fugiu de casa, e Joan (Monia Chokri),
uma mulher dividida entre o trabalho e a família, indo constantemente de Paris
a Londres.
Apesar
da sensibilidade na abordagem, o filme é morno ao dar consistência ao todo porque
não há muito o que retirar dali para além do reprocessar dos dramas pessoais
que cada um enfrenta, cercado por uma atmosfera de melancolia. Soa até mesmo
enfadonho muitas vezes, apesar das ótimas intenções.
Heli (Idem,
México/França/Alemanha/Holanda, 2013)
Dir:
Amat Escalante

Se
nos trabalhos anteriores o diretor estava muito mais preocupado na forma e
dizia muito pouco como conteúdo, geralmente trazendo personagens pelos quais
era difícil ter consideração, em Heli
ele consegue de cara nos afeiçoar por Estela (Andrea Vergara), essa garota
colegial que se apaixona por Beto (Juan Eduardo Palacios), jovem inconsequente envolvido
no contrabando de drogas. Ele vai acabar escondendo mercadorias clandestinas na
casa da garota, o que traz problemas para sua família, em especial seu irmão
Heli (Armando Espitia).
Mas
não seria um autêntico Escalante se já não começasse com uma cena de
assassinato brutal. O filme vai retomar essa sequência depois, encaixada na
história, à medida que vamos entendendo aos poucos, e sem meios explicativos, o
pequeno quebra-cabeças que envolve os conflitos dos personagens.
É
muito interessante quando um diretor consegue construir esse universo que lhe parece
tão caro e o caracteriza, mas vai evoluindo sua linguagem e lapidando melhor
sua narrativa. Heli apresenta essa
melhora e parece que estamos no mesmo terreno arenoso já visto antes, inclusive
através do mesmo tom de fotografia e ritmo de tempo. É também a história de
como a vida bandida e os perigos do narcotráfico invadem a vida dos de bem, destruindo
famílias e passando por cima da dignidade.
Nenhum comentário:
Postar um comentário