The Canyons (Idem, EUA,
2013)
Dir:
Paul Schrader

É
um filme meio torto na forma como equilibra os conflitos dos personagens e cria
uma série de reviravoltas e um jogo de segredos a serem revelados, na tentativa
de tornar a história mais empolgante, nessa sua roupagem de thriller erótico. Mas esconde em sua
natureza de produto alternativo, de baixo orçamento, um frescor muito latente
em fazer cinema, num filme provocador e sem pudores.
Há
o estranho triângulo amoroso (embora nem de todo baseado em afetos) o que vive
Tara (Lindsay Lohan), seu rico namorado e empresário do ramo cinematográfico Christian
(James Deen), e o ator com quem ela mantém um caso, um amor do passado que tenta
conseguir um papel importante na próxima produção bancada por Christian. Esses
e mais outras peças farão parte desse jogo de sedução e traição.
Marca
presença ainda toda uma carga sexual que envolve os fetiches de Christian ao
obrigar Tara a transar com homens e/ou mulheres na sua frente, o que revela uma
ponta de sua personalidade dominadora e egocêntrica; traços de psicopatia não
demoram a aparecer.
Embora
James Deen (na vida real, um ator pornô) se esforce para criar um sujeito odiável,
não deixa de ser uma atuação cheia de tiques de expressão, meio amador. Mas é
incrível como Schrader consegue extrair um desempenho ótimo de Lindsay Lohan, sua
personagem exalando fragilidade e submissão, dessa vez convencendo muito como
atriz. Num filme sobre degradações, isso é muito curioso.
A Grande Beleza (La Grande Bellezza, Itália/França, 2013)
Dir: Paolo
Sorrentino

Não
é pouca coisa, mas Sorrentino consegue tocar em vários pontos sem
necessariamente ser taxativo sobre eles; existe um tom que sempre passeia do sarcasmo
ácido à dureza de certas constatações. Dá até para perdoar o cineasta pelo seu
filme anterior, o terrível Aqui é Meu
Lugar. É também um longa diferentes de obras como O Divo e As Consequências do
Amor, em que o trabalho de encenação do diretor tinha algo de calculado, de
muito marcado (com resultados infinitamente melhores no segundo caso).
Mas
aqui o tom é outro. Já de início, cenas que evocam uma contemplação da Natureza
e da majestosa arquitetura romana são interrompidas pelas sequências de uma
superfesta, estranha e com gente esquisitíssima, que o jornalista bon-vivant Jep Gambardella (Toni
Servillo) dá em sua mansão. Está marcado aí o jogo de futilidades que nega a
beleza da existência, algo do qual o filme vai se ocupar em observar (e
criticar). Impossível não lembrar Fellini e seu A Doce Vida, ambos compartilhando as mesmas preocupações temáticas,
embora o filme de Sorrentino seja bem mais efusivo.
A
classe artística, a Igreja Católica, os políticos e homens de poder, todos são
postos na mira do filme, e de Jep também, ele cheio de si, elegante e egocêntrico,
mas que parece olhar para esse mundo num misto de desprezo e compreensão,
enxergando a si mesmo com melancolia, embora sem abrir mão da pose altiva.
Embora consciente de que faça parte desse universo e com ele contribua para sua
decadência, é sob a perspectiva do personagem que cruzamos com uma gama de
outros tipos que expõem esse mundo de quase horrores.
O
texto de Sorrentino (em parceria com Umberto Contarello) é dono de um bom humor
refrescante. Talvez o filme fosse bem mais cansativo nas suas mais de duas
horas, ocupado em criticar tanta coisa e tanta gente, se o texto não segurasse
tão bem as situações. Mas o melhor é como ele nunca parece simplesmente
condenar os personagens e aquilo que representam. Por mais decadentes que eles
soem, há muito de humanidade ali, de natureza falível. Sem isso, sua crítica
seria vazia. A beleza da vida parece ser essa coisa que está ali, em meio à
decadência, mas poucos conseguem enxergar.
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