segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Rigor do horror

O Iluminado (The Shining, EUA/Reino Unido, 1980)
Dir: Stanley Kubrick


É incrível o poder de uma sessão de cinema. Mesmo já tendo visto O Iluminado algumas vezes antes, só agora, durante a exibição no Cineclube Glauber Rocha, projeção potente para filme grandioso, é possível entender, de fato, que esse se trata de um filme de terror. Não o mais básico porque Kubrick nunca foi muito clássico, mas há algo de pavoroso numa história que se abre a muitas visões possíveis.

O filme surge com uma força imensa desde a cena inicial com aquela música onipresente e câmera aérea que acompanha um carro na estrada. Antevê, de cara, um destino tenebroso para seus personagens. E logo apresenta um hotel que, aos poucos, vai formatando-se como personagem macabro, com seus corredores extensos, salões imensos, silêncio sepulcral, mistérios à espreita.

É o majestoso Hotel Overlook onde se passa quase toda a ação do filme, com a família de Jack Torrance (Jack Nicholson) tendo aceitado passar o inverno no lugar quando não há hóspedes e o hotel precisa de vigilância. Seria o lugar ideal para que Jack se dedique ao seu propósito de escrever um romance, aproveitando-se de toda uma quietude ao redor.

Há de se ver O Iluminado tanto pela perspectiva da fantasia macabra quanto da perturbação psicológica. Jack, em processo de piração paulatina, toma-se de ódio e descontrole quando se vê frustrado em seu trabalho solitário. Curioso notar que desde o início, durante a visita ao gerente do hotel para fechar o emprego, ele já parece carregar um sorrisinho cínico no rosto, algo de sarcástico, ou antes é só a cara canastrona de Nicholson. Mas é nesse personagem que reside a carga de loucura insana que o faz perseguir a própria família, entre visões e encontros enigmáticos com gente de outros tempos pelos corredores.
Mas há também o filho Danny (Danny Lloyd), garotinho com potencial de acesso a um mundo sobrenatural, visitado várias vezes por imagens e espectros de gente morta, capaz ainda de prever tragédias futuras. Esse tom fantasioso só acrescenta mais mistério a uma trama longe de mostrar clareza (a cena final, por exemplo, faz entender que desde muito tempo aquele lugar tem algo de macabro, insondável). É a chegada desses personagens, com propensão à loucura ou à “clarividência”, que desperta forças não humanas naquele ambiente. 


Por fim, Wendy (Shelley Duvall), mãe e esposa que se dedica às tarefas de cuidar do hotel, é quem mais sofre com os horrores que ali se desdobram. Não chega a ser uma grande atuação, mas Duvall, incontestavelmente, confere uma fragilidade quase patética àquela mulher confrontada com o desequilíbrio mortal do marido.

Kubrick trabalha no seu habitual rigor formal, perceptível na rigidez de construção dos planos, no texto bem formatado, no tom crescente de mistério e medo. Mas aqui ele apresenta um novo tipo de abordagem, pois subverte os elementos do terror clássico. Primeiro porque nos apresenta tudo às claras, literalmente. Não há vultos atrás de portas, sombras fugidias ou fantasmas sussurrantes. Todas as aparições ou o que quer que sejam confrontam os personagens de frente, subitamente, por vezes demorando a revelar sua natureza perturbadora – toda a conversa de Jack com o garçom na festa é exemplar nesse sentido.

Depois porque o cineasta vai mais fundo ao explorar o efeito do pavor em coisas não características. Cenas como a que Wendy descobre o que Jack tem escrito todo esse tempo de solidão é assustadora pela tomada de consciência que ela tem do estado mental do marido. E mesmo quando Danny encontra as gêmeas, de repente, num virar de corredor, a cena tem mais força pela composição de imagem e som do que pela busca de um mero susto. 

Nem mesmo a música, comumente utilizada para reforçar um espanto aqui e ali em filmes do gênero, ganha agora contornos fáceis porque ela pesa sobre os acontecimentos que vão crescendo em estranheza e delírio. O Iluminado perfaz-se, portanto, como obra de classe inigualável, gradualmente revelando horrores ou implementando novos mistérios. É daí que tira sua força como filme assombroso, em muitos sentidos.

2 comentários:

Stella Daudt disse...

Quem disse que tenho coragem de assistir "O Iluminado " de novo? Canastrão ou não, aquele olhar louco do Jack Nicholson é apavorante!

Ótima crítica, Raphael!

Rafael Carvalho disse...

Pois é, Stella, eu revi no cinema e só assim tive noção do pavor que esse filme oferece. Mas é de um cuidado extremo a forma como o Kubrick faz isso.