O Lobo de Wall Street (The Wolf of
Wall Street, EUA, 2013)
Dir:
Martin Scorsese
Depois
de seguir um viés curioso na carreira com um conto infanto-juvenil de tons
fantasiosos com A Invenção de Hugo Cabret, eis que Martin Scorsese retorna
com um filme adulto de viés biográfico, mais uma vez expondo lados podres de personagens
complexos. Mas antes de um retorno a seus temas preferidos das famílias unidas
– ou destruídas – pelo crime, via thrillers
policiais e histórias de máfia, O Lobo de
Wall Street pode ser visto como um inesperado circo de horrores sobre o
mundo milionário e transgressor das finanças.
Porque
essa cinebiografia do ex-magnata e corretor de ações Jordan Belfort é mais do
que a trajetória de ascensão e queda de um oportunista (cinismo é sua marca
maior, não se enganem), mas um retrato muito grotesco do que é de fato o universo da
especulação financeira e o mundo impetuoso das ações de mercado nos Estados
Unidos. Wall Street é o coração desse universo, o símbolo máximo do poder que o
dinheiro (visível ou não) exerce sobre os homens. É ali que Scorsese aponta seu
olhar, dessa vez recheado de sarcasmos.
Para
tanto, pega carona na história de Belfort que, desde muito jovem, aprendeu a
sobreviver sugando o dinheiro dos investidores que ele e seu time de pé rapados
super espertos aprenderam a embolsar. Enriqueceu rapidamente à custa de seus
investidores e passou a ostentar não só a imagem de um jovem animal predador com
faro finíssimo para os negócios, mas também a de um homem que tomou gosto pela
ostentação que a grana pode lhe trazer.
Mas ao invés de levar necessariamente a sério suas histórias e os tipos que dela participam, Scorsese prefere o caminho do sarcasmo e da escrotidão, pisando fundo no acelerador da insanidade a que seu protagonista se entrega. É uma espécie de freak horror show, visto de dentro, sem muitos pudores, ainda mais pelas doses abundantes de sexo e drogas nível hardcore que se associa a uma vida de pura curtição. É um mundo débil, mas que o filme nunca julga diretamente, embora esteja longe de vangloriá-lo, como muitos vêm afirmando.
É
esse tipo de olhar que torna o filme algo tão curioso e potente dentro na
carreira do septuagenário cineasta, ainda capaz de manter por três horas uma
história que é puro vigor narrativo. Para além dos diálogos inspirados, há de
se lembrar, mais uma vez, do importantíssimo trabalho de montagem idealizado
por sua habitual colaboradora, Thelma Schoonmaker.

E Leonardo DiCaprio tem se firmado como um grande
colaborador do cineasta, além de ter sido quem adquiriu os direitos de
adaptação do livro escrito pelo próprio Belfort. É a atuação dele que também
eleva o filme a um patamar acima, o que comprova como o ator só cresceu desde
que passou a trabalhar ao lado do diretor ítalo-americano. Ele se entrega com
muito despudor e adrenalina (como o próprio filme, sendo a alma do filme,
portanto) a um personagem ignóbil, mas do qual não queremos deixar de olhar. O Lobo de Wall Street se beneficia muito
de um tom que, longe de inovador e altamente anárquico, confere um gás muito
bem-vindo à produção norte-americana recente.
Um comentário:
Mais um para a lista dos imperdíveis!
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