sábado, 1 de fevereiro de 2014

Show de horrores

O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street, EUA, 2013)
Dir: Martin Scorsese 


Depois de seguir um viés curioso na carreira com um conto infanto-juvenil de tons fantasiosos com A Invenção de Hugo Cabret, eis que Martin Scorsese retorna com um filme adulto de viés biográfico, mais uma vez expondo lados podres de personagens complexos. Mas antes de um retorno a seus temas preferidos das famílias unidas – ou destruídas – pelo crime, via thrillers policiais e histórias de máfia, O Lobo de Wall Street pode ser visto como um inesperado circo de horrores sobre o mundo milionário e transgressor das finanças.

Porque essa cinebiografia do ex-magnata e corretor de ações Jordan Belfort é mais do que a trajetória de ascensão e queda de um oportunista (cinismo é sua marca maior, não se enganem), mas um retrato muito grotesco do que é de fato o universo da especulação financeira e o mundo impetuoso das ações de mercado nos Estados Unidos. Wall Street é o coração desse universo, o símbolo máximo do poder que o dinheiro (visível ou não) exerce sobre os homens. É ali que Scorsese aponta seu olhar, dessa vez recheado de sarcasmos.

Para tanto, pega carona na história de Belfort que, desde muito jovem, aprendeu a sobreviver sugando o dinheiro dos investidores que ele e seu time de pé rapados super espertos aprenderam a embolsar. Enriqueceu rapidamente à custa de seus investidores e passou a ostentar não só a imagem de um jovem animal predador com faro finíssimo para os negócios, mas também a de um homem que tomou gosto pela ostentação que a grana pode lhe trazer.


Mas ao invés de levar necessariamente a sério suas histórias e os tipos que dela participam, Scorsese prefere o caminho do sarcasmo e da escrotidão, pisando fundo no acelerador da insanidade a que seu protagonista se entrega. É uma espécie de freak horror show, visto de dentro, sem muitos pudores, ainda mais pelas doses abundantes de sexo e drogas nível hardcore que se associa a uma vida de pura curtição. É um mundo débil, mas que o filme nunca julga diretamente, embora esteja longe de vangloriá-lo, como muitos vêm afirmando.

É esse tipo de olhar que torna o filme algo tão curioso e potente dentro na carreira do septuagenário cineasta, ainda capaz de manter por três horas uma história que é puro vigor narrativo. Para além dos diálogos inspirados, há de se lembrar, mais uma vez, do importantíssimo trabalho de montagem idealizado por sua habitual colaboradora, Thelma Schoonmaker.

Existe um equilíbrio central na forma como as sequências por vezes passam rápidas apenas pontuando certas situações absurdas, enquanto outras se alongam a fim de dar consistência às insanidades dos personagens (como na incrível sequência em que Belfort, chapado, tenta alcançar seu carro, chegar em casa e impedir o personagem de Jonah Hill – ótimo em cena também – a não falar no telefone grampeado, com direito a uma incrível referência a Popeye; ou mesmo nos discursos de Belfort a sua equipe). Mas também é importante pontuar que o filme perde quando a edição insiste em alguns rápidos fashbacks para deixar explicadinhas certas situações, o que não desmerece o trabalho como um todo. 

E Leonardo DiCaprio tem se firmado como um grande colaborador do cineasta, além de ter sido quem adquiriu os direitos de adaptação do livro escrito pelo próprio Belfort. É a atuação dele que também eleva o filme a um patamar acima, o que comprova como o ator só cresceu desde que passou a trabalhar ao lado do diretor ítalo-americano. Ele se entrega com muito despudor e adrenalina (como o próprio filme, sendo a alma do filme, portanto) a um personagem ignóbil, mas do qual não queremos deixar de olhar. O Lobo de Wall Street se beneficia muito de um tom que, longe de inovador e altamente anárquico, confere um gás muito bem-vindo à produção norte-americana recente.

Um comentário:

Stella Daudt disse...

Mais um para a lista dos imperdíveis!