segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Filmes de outubro*



 
1. Ted (Seth MacFarlane, EUA, 2012) **

2. Vestida para Matar (Brian De Palma, EUA, 1980) ****½

3. My Winnipeg (Guy Maddin, Canadá, 2007) ****½

4. Os Infiéis (Jean Dujardin, Gilles Lellouche, Emmanuelle Bercot, Fred Cavayé, Michel Hazanavicius, Eric Lartigau e Alexandre Courtès, França, 2012) **½  

5. Vampiros de John Carpenter (John Carpenter, EUA/Japão, 1998) ***

6. O Enigma de Outro Mundo (John Carpenter, EUA, 1982) ***½

7. O Ultraje (Takeshi Kitano, Japão, 2010) **

8. A Música Mais Triste do Mundo (Guy Maddin, Canadá, 2003) ***½

9. Ninfa (Pen-Ek Ratanaruang, Tailândia, 2009) ***½

10. Espionagem na Rede (Olivier Assayas, França, 2002) ****


*Nessa lista não constam os filmes visto da Mostra SP que serão listados em outro post futuro.

 

sábado, 3 de novembro de 2012

Mostra SP – Parte 8





O Frágil Som do Meu Motor (Idem, Portugal, 2012)
Dir: Leonardo António


Do frutífero cinema que nos tem chegado de Portugal (só na Mostra tem dois grandes, Tabu e O Gebo e a Sombra), há também uns filmes sofríveis, desses que a cada nova reviravolta ou desdobramento do roteiro revela-se um desastre narrativo, além da sensação de não querer terminar nunca. O Frágil Som do Meu Motor é desses, reprocessando dentro do gênero policial ideias interessantes, mas nunca bem trabalhadas, uma bagunça tremenda.

O filme abandona as histórias inventivas que os irmãos lusitanos têm feito para cair nas bobagens de uma investigação criminal por parte de uma enfermeira, amiga do detetive que cuida do caso, e que trabalha no hospital em que uma das vítimas, uma mulher grávida que foi inteiramente queimada, está entre à beira da morte. Junta-se a isso a crise no casamento da mulher e seu envolvimento sexual com um homem secreto que ela nunca vê e que pode ser o assassino.

Temos então um emaranhado de situações e possibilidades. Mas parece que o filme faz as piores escolhas narrativas possíveis, sempre abusando da inteligência do espectador. O final é um desastre de absurdos e de condescendências para os personagens bonzinhos, fazendo tudo terminar de modo satisfatório para o espectador mais certinho à espera de finais confortantes.

Na verdade, existe até uma grande ideia aqui: quem narra o filme é um bebê que ainda está na barriga da mãe. É assim que o filme começa, com esse off estranho, mas apresentando um ponto de vista interessante. Pena que o filme logo abandona essa sua melhor sacada (só iremos ouvir o bebê novamente no fim) para cair nos lugares-comuns das investigações do assassinato enquanto o filme vai dando pistas falsas da identidade do assassino.  Na verdade, o filme todo é uma pista falsa, um erro.


Tiro na Cabeça (Headshot, Tailândia/França, 2012)
Dir: Pen-Ek Ratanaruang

Esse filme talvez tenha um dos argumentos mais interessantes de todos que vi aqui: assassino de aluguel é baleado na cabeça, fica de coma e quando acorda passa a enxergar tudo de ponta cabeça, literalmente. O que acaba se tornando uma grande decepção porque esse mote é totalmente desperdiçado por uma narrativa frouxa que ora não sabe se emula o filme policial ou se atém às inquietações psicológicas do seu protagonista.

Vindo da Tailândia, cuja nossa maior referência no cinema é o trabalho zen-metafísico de Apichatpong Weerasethakul, é bastante interessante conhecer esse mesmo país do ponto de vista urbano e seu estado de violência. Mas Pen-Ek pouco filma ação, tem mais de introspecção que deixa a narrativa arrastada e desinteressante. Não que as dúvidas e inquietações do personagem não sejam válidas, mas o filme nunca encontra uma roupagem ideal para representar essas situações, parece mais psicologia barata do homem que conversa a sós com seus demônios.

Quando entra no campo da ação, é mau filmado, sem tensão. É decepcionante também presenciar um personagem que conhece o mundo do crime e suas artimanhas (ou que supunha conhecer) caindo em armadilhas fáceis de bandidos e de mulheres fatais, se enroscando cada vez mais no jogo de gato e rato (ele tenta descobrir quem o quis morto). Como o fato do protagonista ver as coisas de cabeça para baixo quase nunca é usado no filme como aspecto de estranheza e fator de adaptação, Tiro na Cabeça é mais um filme que desperdiça grandes sacadas, preferindo o caminho mais banal, mais sem sal.


Herança (Inheritance, França/Israel/Turquia/Palestina, 2012)
Dir Hiam Abbass


Hiam Abbas é uma ótima atriz, figurinha carimbada em filmes judeus e árabes, possui postura e presença ideias quando precisa interpretar mães coragem em meio aos conflitos políticos e ideológicos do Oriente Médio (a própria Abbas atua aqui justamente nesse papel!). Como diretora estreante em longas-metragens, no entanto, parece mais interessada em diversificar sua carreira porque seu filme tem muito pouco a dizer.

No seio de uma família palestina, no prenúncio de mais um confronto bélico no Líbano, surgem os conflitos de sempre. Filha quer casar com um inglês, pondo a perder a tradição da família; tio faz acordos com israelenses para conseguir cargo político; outro cai em desgraça porque é estéril e não pode ter filhos. Tudo isso quando o patriarca da família fica mal de saúde e os segredos e iras se potencializam.

Herança vem para reprocessar as mesmas histórias com os mesmo tipos de desdobramentos da cultura árabe e de seus conflitos políticos na região, coisas que já conhecemos de outros filmes e narrativas, nada muito de novo. Como cinematografia, o filme não faz feio, passa sem tropeços de ritmo. Mas é seu roteiro acomodado que não deixa margem para aprofundamentos e desdobramentos mais relevantes.

Dirigido por uma figura feminina forte, o papel da mulher numa sociedade de machismo arraigado tem lugar cativo como questão centralizada pelo filme, a mulher sempre em desvantagem. Mas mesmo aí a história não consegue ir além do que já sabemos sobre esse cruel traço cultural. Herança é um filme facilmente esquecível.


Melhor Não Falar de Certas Coisas (Mejor No Hablar de Ciertas Cosas, Equador, 2012)
Dir: Javier Andrade


No final de um dia péssimo para filmes, eu precisava arriscar e tentar ver alguma coisa interessante. Esse produto equatoriano era o único que se encaixava no horário e apostei minhas fichas sem informação nenhuma do que veria. Não é que compensou? Para um país que filma pouquíssimo por ano (uma média de sete longas, isso se o ano for bom), esse aqui não se sai tão mal.

O cineasta Javier Andrade constrói um drama familiar forte e com toques de humor, embora por vezes se perca ao equilibrar as duas coisas. Tem momentos em que exagera no drama gritado e outros que não parecem levar tão a sério certas situações que se desdobram ali, caindo num humor negro que pode funcionar ou não. Ou seja, é um filme que sempre anda na corda bamba, conseguindo se manter de pé melhor do que se espera. Muito porque o roteiro sempre investe em novos desdobramentos.

E há muito de crítica social embasada nessa história que tem lugar em Porviejo, cidade natal do diretor. Se ele bem conhece aquilo ali, a história dos irmãos Luis (Victor Arauz) e Paco (Francisco Savinovich) tem algo de muito convincente. São dois filhos de papai, riquinhos, que vivem entre a irresponsabilidade, o desequilíbrio familiar e a curtição. Um deles tenta a vida como vocalista de uma banda punk, enquanto o outro tem um caso com uma mulher casada, sem saber ainda o que quer da vida.

Há também a forte relação de ambos com as drogas, de que são viciados (problema grave daquela região), capazes de depenar os bens de qualquer ente próximo para alimentar o vício, muito embora o filme não espetaculariza nem glamouriza isso, mas não deixa de ser uma marca forte ali. E o filme ainda deixa para o fim uma grande alfinetada social, no revés em que determinado personagem assume um cargo político forte, a despeito da ausência total de perspectiva de futuro que ele tinha. Questiona, com bom humor: quem são esses que tomarão conta do nosso país? Algumas coisas precisam ser ditas, mas não necessariamente diretamente ao ponto.


Cine Holliúdy (Idem, Brasil, 2012)
Dir: Halder Gomes


Essa foi muito provavelmente uma das sessões mais torturantes durante a Mostra porque Cine Holliúdy é um filme que alcança o mau gosto com uma facilidade tal que sua proposta do pastiche ganha aqui proporções irritantes. Demarcado como produto 100% cearense, carrega as marcas da nordestinidade, de um povo interiorano, principalmente na sua linguagem, mas sempre abusando do tom.

Os dez primeiros minutos de projeção são mesmo engraçados, demarcando os tipos nordestinos, todo falado em “cearencês”. Mas quando você se dá conta de que essa é a tônica do filme, reprocessando estereótipos, exagerando no sotaque e nos termos da região, apostando na comédia mais básica, de sitcom televisivo, a coisa toda vai perdendo a piada, o interesse, ganhando no escracho. É um Ó Paí Ó do Ceará.

Cine Holliúdy não funciona nem como cinema nem como homenagem ao próprio cinema, como o enredo espera que seja. Na década de 70, quando da chegada da TV ameaçando o espetáculo cinematográfico, um homem leva seu cinema para uma nova cidade, tentando angariar apoio e apreço do público. É uma celebração da força dessa atividade, mas a roupagem funciona bem pouco.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Mostra SP – Parte 7




Lawrence da Arábia (Lawrence of Arabia, Reino Unido, 1962)
Dir: David Lean


Lawrence da Arábia passou lindo na tela cheia em projeção digital 4k na Mostra. Nada mais apropriado para esse monumento, apesar de confessar que não me tocou como um filme para a vida, a despeito da marca de obra-prima que carrega. É um grande filme, em mais de um sentido, de fato, filmado com um primor absurdo por um cineasta em pleno alcance de sua arte, ainda que na sutileza da escola clássica.

David Lean, dentro da grande indústria cinematográfica, sabia trabalhar muito bem com essa dualidade. Precisava fazer filmes que de alguma forma tivessem um diálogo direto com o público, ao mesmo tempo em que era um mestre na composição estética de suas obras. A história do cínico e aventureiro tenente do exército inglês enviado à região da Arábia Saudita passa por várias fases e, no seio da História, marcaria as lutas de independência dos povos árabes contra o domínio do Império Turco no decorrer da 1ª Guerra Mundial.

Ajuda muito conhecer essas marcas históricas porque Lawrence da Arábia procura ser bastante fiel ao contexto em que a interferência do tenente inglês teve nas lutas da Revolta Arábe. Mas Lean, junto aos roteiristas Robert Bolt e Michael Wilson, estão preocupados também (e talvez principalmente) em estudar a personalidade marcante desse homem, um quase anti-herói pela postura agressiva e impositiva, a despeito de sua bravura e inteligência.

Peter O’Toole, como não é novidade nenhuma, domina como um lorde esse papel, fazendo de seu Lawrence esse homem hipnótico, decidido, tenaz, os olhos azuis evidenciando o estrangeiro em terreno inóspito. Mas o forasteiro vai se transmutando em um nativo convertido, defendendo as posições de um povo acuado e ele mesmo se vendo como parte daquele grupo social, tomando partido a desgosto do governo inglês.

Mas é esse destemor que Lawrence da Arábia tão bem representa, marcado pela imponência do próprio filme como obra (de) gigante (a versão aqui exibida foi a do diretor com quase 4h de duração). David Lean, nessa transformação calma que apresenta ao personagem título, cria um filme que sustenta suas belas imagens a todo instante, sem dúvida um dos grandes legados à sétima arte. 


A Parte dos Anjos (The Angel´s Share, Reino Unido/França/Bélgica/Itália, 2012)
Dir: Ken Loach
   

Entre um filme de veia mais politizada e outro mais despretensioso, Ken Loach vai construindo sua extensa filmografia. A Parte dos Anjos pode ser reunido nesse segundo grupo, muito embora a comédia e o comentário social caminhem juntos, sem que um se sobreponha ao outro, num equilíbrio que nem sempre se consegue facilmente. O mérito de Loach aqui é mantê-lo, apesar da história bambear em alguns momentos.

Mas com certa segurança o diretor nos conta mais uma história de outsiders, dessa vez mirando em jovens que cometem pequenos crimes e infrações, condenados a prestarem serviços comunitários. Começa apresentando um grupo de pequenos infratores, mas é a um deles que o filme vai se apegar. Robbie (Paul Brannigan) escapa por pouco da prisão depois de uma agressão pesada e, pelas mãos do instrutor Harry (John Henshaw), tem contato com a produção e trato do uísque, revelando um talento nato como provador da bebida.

Os personagens estão entre o limite da vida delinquente e a possibilidade de reintegração social com dignidade. Por isso o filme, entre a comédia que beira o politicamente correto, encontra momentos mais densos, é a mão “realista” de Loach se fazendo presente. Alguns dessas cenas carecem de uma maior sutileza (como quando Robbie é confrontado com o rapaz que agrediu), como se o filme fizesse questão de lembrar a cota de trágica que a história carrega. Mas no fundo, existe muito carinho por seus personagens.  

E se é na comédia de erros que o filme mais aposta, acerta bem em suas tiradas, sempre com muita leveza e despretensioso. A Parte dos Anjos é como uma história de redenção, um olhar tenro para um submundo cheio de mazelas e facilidades para o crime, mas, com um coração grande, aponta para caminhos mais satisfatórios.


A Riqueza do Lobo (La Richesse du Loup, França, 2012)
Dir: Damien Odoul


É bastante interessante quando os filmes da Mostra começam a dialogar entre si, dependo das escolhas que cada um faz como programação. Assim que esse A Riqueza do Lobo começa, é impossível não lembrar o nacional Elena pela simples relação com a imagem de arquivo como forma de investigação de uma pessoa próxima, querida. Mas diferente do emocional documentário brasileiro, a ficção francesa cai num arrastado e cansativo estudo de personagem.

Nesse caso, o namorado que desaparece deixa pra mulher uma caixa com fitas de vídeo gravadas por ele mesmo. Na esperança de tentar entender o que aconteceu com o homem, Marie (Marie-Eve Nadeau) assiste seguidamente às imagens, buscando também conhecer esse homem por quem era apaixonada. Daí que o filme tem esse tom melancólico de alma ferida, sutilmente retratada por essa mulher e sua perda.

O que deixa o filme mais cansativo são as imagens deixadas por Olaf, esse cara à beira da depressão e mesmo da loucura que acabam se repetindo como construção de um comportamento. Para além do fato das imagens serem estranhas (um gato brincando com uma lata, ele jogando comida na privada ou cortando uma árvore!!) e da representação de um homem em processo de insanidade, há uma redundância na formação desse caráter que o filme sustenta por mais tempo do que devia. A Riqueza do Lobo é um filme curioso, mas também cansativo.


O Lago Balaton (Német Egység@Balatonnál – Mézföld, Hungria, 2012)
Dir: Péter Forgács


O Lago Balaton, na Hungria, além de muito bonito e agradável para um passeio em família num domingo ensolarado, era também ponto de encontro para comunistas resistentes aos regimes políticos opressores. Isso numa época em que o mundo estava polarizado entre socialistas e capitalistas, Oriente e Ocidente como marcas de divisão, especialmente na Alemanha cortada pelo Muro de Berlim.

É nesse espaço demarcado que o documentário reconstrói as movimentações de pessoas que encontravam naquele lugar um pouco mais de liberdade, seja para desfrutar as belezas do mundo ocidental (como Coca-Cola, cerveja, cigarros e roupas que ali chegavam), seja para escapar da vigia cerrada dos regimes autoritários. Principalmente aqueles que saiam da Alemanha Oriental tinham naquele recanto da Hungria um espaço de convívio distinto, como uma rota de fuga ou férias.

Com um acervo de imagens riquíssimo e muito bem montado pela narrativa, o filme faz um balanço das atividades que podiam acontecer ao redor do referido lago. Ao mesmo tempo em que apresenta o inusitado dessa localidade que permitia tal integração, mesmo que com uma certa vigilância naquele mundo dividido, tem sua força maior nas questões políticas que marcaram a época.


Salsipuedes (Idem, Argentina, 2012)
Dir: Mariano Luque


Salsipuedes é dos filmes mais sutis na forma como apresenta um tema espinhoso, nunca revelando explicitamente seu grande foco. Ambientado numa casa de campo, cercada de mata onde marido e mulher (Marcelo Arbach e Mara Santucho) descansam e recebem a visita da família, o filme possui um aparente clima de tranquilidade que aquele ambiente preserva por si só, abalado pela sensação de algo fora do lugar que sentimos desde o início.

Na primeira cena, a mulher, entediada dentro do carro, é abordada por um carinhoso marido que entra no veículo e tenta conversar com ela; mas é mau recebido, ao que fica nervoso e sai dali. Depois, em outro momento, quando vemos a personagem sendo maquiada num dos olhos, podemos prever o que teria acontecido a ela em outro instante. É nessa esfera do não dito/mostrado que o filme a todo instante joga com o espectador, criando um ambiente de falsa harmonia.

Há todo um desconforto na presença e fala do marido, não porque ele se revele agressivo; justo pelo contrário, ele é sereno, trata bem a todos e revela sua faceta mais hostil somente quando a sós com a esposa. Salsipuedes seria um filme de fácil denúncia, mas não cai no panfletarismo porque nunca revela sua questão de frente, como é comum não vermos/sabermos que alguém foi agredido. Também o filme não parece encontrar saídas para essa mulher, tipo de situação que muitas enfrentam nesses casos.

Os planos fechados e longos são os principais recursos que o filme utiliza, e muito bem, para criar essa atmosfera de aprisionamento. Essa ideia está contida tanto na cena inicial, com ela fechada dentro do carro, e nos momentos finais quando uma ação desesperada da mulher tenta, desajeitadamente, modificar as coisas. É quando o filme quase escorrega, mas acerta em mostrar a dificuldade de sair daquela triste situação.
 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Mostra SP – Parte 6




 Imperdoável (Impardonnables, França, 2012)
Dir: André Téchiné

  
Do pouco que conheço da filmografia do francês André Téchiné, é possível notar uma noção de ritmo muito interessante em seus filmes. Acontece muita coisa em suas histórias, com os diversos personagens que ele dispõe no enredo, tornando tudo muito ágil. Com Imperdoável é o mesmo. Olha o caso de Francis (André Techiné), um escritor sexagenário que numa agência de viagem conhece a bela e mais jovem que ele Judith (Carole Bouquet) por quem se encanta; na sequência seguinte, já vemos os dois como casal se mudando para uma nova casa numa ilha italiana.

Imperdoável é então um Téchiné autêntico em forma, mas dessa vez as coisas não funcionam tão bem. Talvez seja essa rapidez que torna tudo tão fugaz, tão difícil de se apegar aos personagens e seus dramas. O ciúme de Francis, que paga para que sigam e vigiem a mulher no dia-a-dia, é uma das boas ideias que se perdem entre os tantos personagens e seus dramas (como a filha “desaparecida” dele, o filho de uma amiga dela, recém saído da prisão). Não deixam de ser personagens interessantes, mas o filme não parece se decidir em quem apostar mais.

O tempo passa rápido vendo o filme e isso, por incrível que pareça, não é uma vantagem já que há pouco de significante aqui. Téchiné filma com cuidado, valoriza a bela geografia do lugar (e o espaço conta muito no filme), mas pouco fica. Dussolier e Bouquet estão ótimos em cena, ele especialmente. Mas tem muita gordura no roteiro.


Indignados (Idem, França, 2012)
Dir: Tony Gatlif


Indignados começa como um filme que promete mais uma história panfletária sobre imigrantes ilegais na Europa, massacrados e perseguidos pelo sistema, tem cara de que vai ser chato. Depois melhora bastante por conta das interferências poéticas que Gatlif injeta na narrativa com uma naturalidade incrível, que faz o filme passear entre a ficção, o documentário e o experimental. Pena que no terço final se acomode na ideia de filmar a revolução e o filme cai um pouco.

Mas Gatlif encontra uma bela maneira de tratar tema tão em moda no cinema atual. É claro que ele está do lado dos militantes, mas o filme nunca adota esse tom de combate. Ajuda muito o fato dele se apegar a essa imigrante ilegal africana, Betty (Mamebetty Honoré Diallo), que observa a tudo com um misto de atenção e alegria pelo clima de efervescência revolucionária.

Nessa viagem transcultural de Gatlif (ele adora isso), pode-se dizer que o filme se passa na Europa (é o que ouvimos a protagonista dizer ao telefone para seus parentes, “cheguei à Europa”). De início, vemos que se encontra na Grécia, mas a variedade de línguas e regiões distintas ganha corpo nesse caldeirão cultural que se tornou o continente europeu contemporâneo.


Elena (Idem, Brasil, 2012)
Dir: Petra Costa
 

Não sei se passarei por uma sessão tão emocional como essa do brasileiro Elena aqui na Mostra. É um filme personalíssimo, uma história de família, mas que machuca fundo a quem assiste. É incrível como o filme funciona fácil, desde início sente-se o tom melancólico de saudade, misto de lembrança e pesar pela perda de um ente querido. A cineasta Petra Costa conta sua relação com a irmã Elena, que se suicidou quando jovem. Para isso, se mune de uma infinidade de imagens de arquivo para regatar essa personagem e a história de sua família, o primeiro grande acerto do filme.

Mas a própria Petra é também figura importante na história, a irmã mais nova que observa os descaminhos de talento e insanidade pelos quais a mais velha passa, como criança sem entender muita coisa. Agora, mais madura, retoma o material e constrói uma narrativa poética e lúcida sobre o drama de sua família. O segundo grande acerto de Elena é o texto em off que tem tanto de leveza, doçura e poesia, que torna tudo muito mais bonito, dolorosamente belo.

E nesse se por no filme, Petra faz ainda uma bela relação com seu encontro pessoal com a arte, outra constante interessante no filme. Elena era atriz de teatro que ensina à pequena Petra como atuar. Se Elena vai se perder por outros motivos, Petra se lança no caminho da arte e, passeando por alguns outros caminhos, se encontra agora como artista segura (?) de seus passos. 

A presença de Elena é sentida a todo instante no filme e mesmo com a sensação geral de dor, não se trata de uma obra pesarosa, como uma forma de expurgo. Pode até ter servido a esse propósito por parte da diretora e também da família (a dor e remorso da mãe são marcas fortes no filme), mas a impressão final é de um trabalho sólido de montagem e recriação, autoavaliação, além de exalar emoção intensa. Elena é memória, mas também libertação.


(Idem, Grécia, 2012)
Dir: Babis Makridis


Parece que a crise na Grécia não é só econômica, ela chegou no campo criativo do cinema também. Dente Canino, milagrosamente indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro há alguns anos, já dava esse sinal de que havia algo de estranho nessa filmografia. Agora L corrobora essa sensação, filme dotado de estranhezas que parece adorar seus personagens esquisitos fazendo coisas bizarras. 

Se há uma muito boa ideia aqui – o homem (Aris Servetalis) que não tem casa e vive no seu carro, onde também trabalha como motorista –, o filme não consegue dar conta dessa situação, ou antes não se interessa por ela, preferindo dar vazão a situações mais idiotas. A estética chapada do plano estático e demorado, os atores carregando expressões vazias, a frieza em lidar com certas situações tensas, é o que nutre o filme.

Tem também uma outra sacada interessante aqui: o abandono da “vida no carro” por uma outra forma de “moradia”. É o tipo de virada no roteiro que lança questões à narrativa, mas o filme continua insistindo na bizarrice e as boas ideias se perdem. Assim, L é subaproveitado, tedioso e desperdiça oportunidades para dar conta da atmosfera de filme-demente. Poderia render bem mais.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Mostra SP – Parte 5




A Memória que Me Contam, (Idem, Brasil/Itália/França, 2012)
Dir: Lúcia Murat


Parece uma constante problemática no cinema brasileiro falar de temas políticos. Geralmente se cai em frases prontas, discursos forçados sobre questões que não são mais novidades. Esses são alguns defeitos que incomodam bastante no novo filme de Lúcia Murat. Ex-guerrilheiros militantes que combateram na Ditadura se reúnem agora, mais velhos, porque uma das companheiras já se encontra em estado terminal por conta de um câncer avançado.

É um prato cheio para que o filme (a diretora?), através das falas de seus personagens, possa disparar lições de moral e ensinamentos sobre a guerrilha, o sofrimento dos que foram torturados, a ideologia comunista, sobre como os militares eram cruéis. Tudo isso é muito nobre e importante, claro, mas há um maneirismo chato como se a obra quisesse educar o público, principalmente o mais jovem, sobre essas questões. Só não é um desastre maior porque equilibra seu discurso também apertando o calo dos próprios militantes, apontando erros e questões polêmicas entre eles (como a delação e atendados mal sucedidos).

Há ainda em A Memória que Me Contam um malabarismo narrativo que tenta tornar o filme mais dinâmico e interessante. A mulher à beira da morte surge em sua versão mais jovem (vivida por Simone Spoladore), interagindo principalmente com a personagem de Irene Ravache, uma cineasta que seria um alter-ego da própria Murat, reprisando seu papel em Que Bom Te Ver Viva, um dos primeiros trabalho da diretora. Seria um sopro de vitalidade, caso o filme não insistisse em usar esses momentos para proferir as mesmas frases de/(sem) efeito de antes, voltando ao mesmo problema.

É incrível como todos os atores parecem orientados a soarem forçados, falando de forma impostada. Esse tipo de encenação quebra uma certa naturalidade, torna o tema desinteressante e parece mais afastar o espectador de um filme com tanto potencial. Se as marcas deixadas pela Ditadura ainda são feridas com as quais o Brasil tem uma imensa dificuldade de lidar, esse tipo de cinema pouco ajuda também.


O Cordeiro (Behold the Lamb, Reino Unido, 2011)
Dir: John McIlduf


O Cordeiro tem aquele gosto de comédia indie de erros que no fundo tem muito de trágico pela história de seus personagens. Veja: Liz (Aoife Duffin) é uma garota aparentemente chata e irascível, mas revela posteriormente sua faceta de jovem mãe ferida; já Eddie (Nigel O'Neill), por trás de suas trapalhadas abobalhadas, se mostra o pai preocupado em livrar a cara do filho junkie, namorado de Liz. É por conta dele que pai e namorada viajam até o interior da Irlanda para resgatar um cordeiro-mula que leva no estômago sacos de drogas.

Se o filme tenta se equilibrar entre as duas marcas, o cômico aqui é bem mais eficiente, apesar de alguns cenas sempre mais exageradas de graça sem muita graça, com preferência por idiotizar demais seus personagens. Mas há momentos de boas risadas, e a química entre os dois atores principais é fundamental para o êxito do filme.

Como road movie barato (em termos de orçamento, diga-se), busca-se uma estética mais crua, embora a cópia exibida na Mostra estivesse péssima. Mas O Cordeiro tem seu equilíbrio enquanto dramédia, embora a parte final se entregue a dar conta dos dramas pessoais dos personagens, sem tentar solucioná-los. Acaba não conseguindo dar tanta substância a isso, ou então não quer sujar as mãos. Os bons momentos de risadas já valeram.


O Gebo e a Sombra (Idem, Portugal, 2012)
Dir: Manoel de Oliveira


Seria uma delícia o novo filme do velho cineasta mais jovem que conheço, isso se O Gebo e a Sombra não fosse tão duro e melancólico com seus personagens. Mas em termos estéticos é mesmo um pequeno deleite. Com muita simplicidade e sem arroubos de pirotecnia (ele não é dado a isso), Manoel de Oliveira monta um conto moral com uma encenação que deve muito ao texto e a seus atores, e que atores!
Michael Lonsdale é o Gebo do título, um velho contador que vive com a esposa (o mito Claudia Cardinale) e a nora (Leonor Silveira) à espera que o filho (Ricardo Trêpa) retorne à casa. Sabemos que ele é um ladrãozinho vagabundo, vida que a mãe preocupada nem pode sonhar em ter conhecimento. Nessa espera, o filme cria toda uma atmosfera de tristeza e pesar por esse jovem perdido, deixando a todos aprisionados, enquanto os rancores e desgostos vão surgindo.

Do que à primeira vista parece muito teatral na encenação do filme (no melhor dos sentidos já que é baseado numa peça de teatro do português Raúl Brandão), O Gebo e a Sombra ganha muito em cinematografia por conta da mão certeira de Oliveira em compor o quadro, alongar o plano, dispor os atores, ajudado por um trabalho de luz belíssimo. É como se narrativa fosse a mais simples e discreta possível para fazer prevalecer o texto.

É quando entra em cena o talento de seus atores, juntando-se ao time a impagável bisbilhoteira vivida com graça por Jeanne Moreau e o amigo da família de Luís Miguel Cintra. Ao redor da mesa, sob o teto aconchegante da humilde casa, desenrola praticamente toda a história que aos poucos vai desenhando seu tom trágico até o impacto da exata cena final (algo parecido com o que ele já havia feito no desfecho do ótimo Um Filme Falado). Manoel de Oliveira, aos 104 anos, continua em boa forma.


Super Nada (Idem, Brasil, 2012)
Dir: Rubens Rewald 


Como um palhaço triste que faz alegrar as pessoas, Gustavo (Marat Descartes) vive de performances teatrais e de rua, ganhando dinheiro em encenações fajutas, ensaiando apresentações, à espera de uma grande oportunidade. E ela vem, mas como convite para uma participação no programa cômico de TV Super Nada, de que Gustavo é fã, um desses bem decadentes e de comédia ridícula. Não há muitas pretensões na vida desse homem. Antes de sucesso, ele quer sobreviver de sua arte.

Daí que Super Nada é um filme tristíssimo na forma como equilibra o cômico e o dia-a-dia pouco engraçado do protagonista, afogado em dívidas e problemas no relacionamento com a namorada (Clarissa Kiste). Através da comédia, revela a vida sem grandes perspectivas de um artista querendo ser maior. É também um filme que evidencia o corpo enquanto linguagem, mas também como sustento. É como uma versão masculina do ótimo Riscado.

Mas o filme não se limita a acompanhar essa rotina de sobrevivência e ganha em complexidade à medida em que o personagem entra num turbilhão de erros e desvios de caminho, sempre tentando fazer o melhor, mas trocando os pés pelas mãos. Mesmo assim, Rubens Rewald não cai na tragédia pura; pelo contrário, faz um filme hilário, enquanto Descartes revela uma desenvoltura corporal incrível. Jair Rodrigues, como o protagonista do programa Super Nada, é uma presença luminosa, dono das melhores tiradas do filme.

Entre o real e o fingimento, Super Nada é um brinde à comédia, à performance do corpo, mas também filma com desenvoltura um personagem na corda bamba, fazendo os outros rirem enquanto ele mesmo tenta se sustentar para não cair.

VIII Panorama Internacional Coisa de Cinema



Pausa na Mostra SP para falar do Panorama Internacional Coisa de Cinema. Como as datas dos dois eventos chocaram este ano, não estarei em Salvador para acompanhar um dos mais tradicionais eventos de cinema do estado, agora em sua oitava edição. Aos cinéfilos e curiosos de plantão, o Panorama oferece uma grande oportunidade de ter o cinema mais perto. O evento começa hoje à noite e se estende até 1º de novembro, em Salvador e Cachoeira. A abertura conta com exibição de Pietà, do coreano Kim Ki-duk, Leão de Ouro no Festival de Veneza, e Jards, de Eryk Rocha.

Depois de ter composto o Júri Jovem ano passado, tive o prazer de fazer parte, este ano, da equipe de curadoria que escolheu os longas e curtas-metragens em competição (junto com os idealizadores do evento, Cláudio Marques e Marília Hughes, mais os amigos João Paulo Barreto e Rafael Saraiva). A programação, modéstia à parte, bonita e bem organizada em programas, mais as demais novidades que o Panorama trará para a capital baiana e Cachoeira, podem ser acessados no site oficial do evento.

De destaque, o Panorama ainda faz uma bela homenagem à pornochanchada brasileira, com a exibição de filmes como Império do Desejo, Fuk Fuk à Brasileira e Senta no Meu que Eu Entro na Tua, dentre outros, em cópias zero bala, além de contar com uma oficina sobre o assunto, ministrada pelo crítico e programador da Sala Walter da Silveira, Adolfo Gomes. Por sua vez, o crítico João Carlos Sampaio já iniciou sua tradicional oficina de Crítica e Fruição Cinematográfica, que seleciona alguns participantes para compor o Júri Jovem.

Então, não há desculpa. Fico com uma ponta de inveja, pois estou longe e não poderei cobrir o evento, com certeza um das edições mais interessantes dos últimos anos. Por isso, vida longa ao Panorama Internacional Coisa de Cinema. É o cinema no centro.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Mostra SP – Parte 4




O Sacrifício (Offret, Suécia/França, 1986)
Dir: Andrei Tarkovski


As cópias finas dos filmes do homenageado da Mostra SP, Andrei Tarkovski, passam com uma beleza linda durante o evento. Daí que a projeção de O Sacrifício naquela sala imensa do Cinesesc, com a presença do filho do diretor, para quem o filme é dedicado, teve um gosto especial nesses dias de cinefilia pura. Culpa também do imenso talento desse cineasta ímpar, modelador do tempo, que faz aqui seu filme testamento, último trabalho de uma obra marcante e de imensa influência no cinema mundial.

Com seu ritmo peculiar e aquela mise-en-scène cuidadosa, Tarkovski, como sempre, aprofunda as questões filosóficas constantes de sua obra, desta vez se apegando às inquietações de um senhor no seu aniversário de 50 anos. A iminência de um conflito mundial de ordem nuclear, anunciado na TV, intensifica os questionamentos que o velho homem faz e o leva a uma viagem de delírios e autoavaliação.

Filmado na Suécia, com dinheiro francês, já que a União Soviética não lhe acolhia mais, pegou emprestado um dos atores fetiches de Ingmar Bergman, Erland Josephson, e o diretor de fotografia Sven Nykvist, ambos monstros sagrados em suas respectivas artes. Se o primeiro confere toda a vulnerabilidade de um protagonista em crise existencial, o segundo cria um ambiente marcado pela dualidade do real e do delírio, demarcadamente na tela com texturas distintas, criando uma atmosfera de sufoco no seu intermeio.  

Nesses momentos, a tensão não tarda a aparecer, à medida que as marcas do conflito se tornam mais presentes, no espaço e nas pessoas que circulam pela casa de campo onde o filme se passa. Outro conflito, esse interno, toma esse protagonista e cresce em sua mente uma ideia de sacrifício do material como forma de salvação do espírito, uma vez que o mundo caminha para a destruição total. O final avassalador do filme é a representação dessa ideia, numa das cenas mais incríveis da carreira desse grande cineasta (e há muitas delas em sua curta filmografia).

Mais interessante ainda de notar é como um filme tão intenso pode soar tão sereno, o tempo estendido nunca pareceu tão condescendente com o desastre. Tarkovski não é um cineasta dado a irrupções, nem gestos súbitos, embora seus personagens se encontrem muitas vezes no limiar do desespero. Seu cinema observa como quem busca entender, considerar, estender a mão. O Sacrifício é um retrato complacente de um velho homem desencantado com os rumos do mundo, da vida. Destrói para se salvar, eis sua sina.  


Bloqueio (Blokada, Rússia, 2006)
Dir: Sergei Loznitsa


Fábrica (Fabrika, Rússia, 2004)
Dir: Sergei Loznitsa


Antes de estrear na ficção com o pesado Minha Felicidade, o ucraniano que viveu na Rússia, Sergei Loznitsa, já possuía uma carreira no documentário, muito bem elogiada por sinal. Bloqueio é um desses dos mais citados, parte da retrospectiva que a Mostra SP faz dos filmes do cineasta. Loznista tem esse interesse por essas coisas da dureza, opressão e peso que esmagam o ser humano. Em Bloqueio isso é potencializado pela valorização da imagem e do som na colagem de cenas antigas de Leningrado quando cercada durante a Segunda Grande Guerra.

Trata-se de trabalho conceitual de registro sem diálogos e sem uma história formatada como enredo fabricado pela montagem. São cenas da época que documentam a vida militar em meio ao ambiente civil da cidade, as construções que se tornaram escombros, o maquinário militar e os soldados passeando em meio às pessoas, cadáveres que não tardam a aparecer.

É um registro cru e cruel de um conflito que não tem explicação, assim como não se entende a crueldade humana. Mas Loznista sobrepõe a essas imagens um trabalho de edição de som potente, uma das grandes interferências do cineasta no filme, o que o torna mais contundente. Somos transportados àquele momento único, com o peso da guerra e destruição sentido a todo momento sobre a cidade e seu povo.

Junto a esse filme, foi exibido o interessante Fábrica, registro que tem proximidades estéticas com o anterior: planos estáticos, ausência de diálogos, potencialização do som, tudo para registrar o trabalho de operários numa fábrica. O que isso tem de interessante? A relação homem e trabalho pesado, como uma luta de sobrevivência, um tour de força, enquanto homens e mulheres, forjando ferro ou aço, carregam blocos de argila e barras de metal, nesse processo industrial fordista aprisionador. Loznista prolonga o tempo da observação para fazer pesar o trabalho manual com que aquelas pessoas lidam diariamente, seu sustento de vida. É de uma simplicidade incrível e de uma eficiência certeira, mais um retrato endurecido.


Os Selvagens (Los Salvajes, Argentina, 2012)
Dir: Alejandro Fadel


A impressão primeira é que Os Selvagens é um grande e estranho filme. Na correria de uma maratona assim algumas obras acabam perdendo o tempo de maturação, tendo de ser apreciadas sem o devido merecimento. Os Selvagens é um trabalho intenso, exige da gente, mas desde já é um achado, tipo de produto arriscado e arrojado que encontra espaço cativo no recente e frutífero cinema argentino.

Fadel, apesar de ser corroteirista dos três últimos filmes de Pablo Trapero (Elefante Branco, Abutres e Leonera), faz aqui algo muito pessoal, como se intensificasse uma estética dardenniana da câmera na mão, só que muito mais próximo de seus atores. É um filme de pele, brutal, mas em outros momentos tem o despeito de abraçar o bizarro, como reflexo mesmo da selvageria. É um filme que acredita nas suas imagens, consegue potencializá-las, tanto pelo prolongamento dos planos, mas especialmente por conta de uma edição de som explosiva, impecável.

Acompanhamos um grupo de fugitivos de uma prisão, percorrendo o meio do mato em busca da liberdade longe dali. O mais interessante é como o filme desenha os contornos dos personagens, cada um a seu tempo. Aquele que no início parecia irrelevante, deixado a escanteio, ganha destaque posteriormente, à medida que outros vão abandonando a história. E o filme pouco se apega a eles ou, antes, o desconhecido é tão inóspito que o próximo passo pode ser fatal a qualquer um. E nada aqui vem com aviso, quando menos se espera, os personagens tomam outro rumo, por vezes irreversível. Nessa jornada ao desconhecido, aquelas pessoas surgem como caça e caçadores, no caminho da sobrevivência, embora não pareça haver redenção aqui.


O Som ao Redor (Idem, Brasil, 2012)
Dir: Kleber Mendonça Filho


O Som ao Redor é o hors concours do must see nessa edição da Mostra, o filme a não se perder de vista em meio a uma programação monstra. Quem não viu o filme que já correu diversos festivais fora e dentro do Brasil não deve perder a oportunidade, pois quem já assistiu só se derrama em elogios, o que já é um problema pela grande expectativa que gera, ainda mais vindo de um dos críticos de cinema mais interessantes e perspicazes de sua geração. De minha parte, esperava somente um bom filme, mas felizmente é mais que isso.

Presente antes e depois da sessão, o diretor Kleber Mendonça Filho apresentou o filme como sendo sobre o Brasil. A afirmação me pareceu um tanto pretensiosa e mesmo genérica, mas vendo o filme isso se torna bastante claro. Porque o bairro em Recife de onde o filme pinça determinados personagens funciona como um microcosmo brasileiro, primeiro das relações interpessoais que se confrontam ali, mas também, e em maior escala, da representação de uma sociedade que esconde muito de podridão.

No fundo, em estrutura, O Som ao Redor é um filme muito simples no seu mosaico de personagens, sem arroubos estéticos, mas muito bem filmado e enquadrado, sem maneirismos. Por isso é tão bom de acompanhar e suas pouco mais de duas horas de duração nunca chegam a incomodar, isso porque todos os personagens e histórias ali são interessantes como estudo de uma sociedade marcada de hipocrisias. Somente algumas cenas aleatórias (como o pesadelo da menina, o banho na cachoeira) me soam caprichosas demais, como que buscando um impacto desnecessário, uma gordura que o filme podia evitar.

Mas impressiona a quantidade de questões que o diretor consegue expor com tanta sutileza e acidez, por vezes acrescidas de pitadas de humor inteligente e sutil, o que equilibra o filme entre o cômico e o trágico. Das friezas da vida urbana, tema tão caro ao cinema pernambucano recente, à questão da violência, falta de segurança, especulação imobiliária, até mesmo ecos do coronelismo latifundiário (que remete especialmente às raízes históricas do Nordeste), O Som ao Redor consegue fazer um estudo pontual de tudo isso sem soar pretensioso. 

O trabalho de som, a propósito do próprio título, é de uma sutileza fenomenal na forma como consegue integrar aquele ambiente e demarcar certas inquietações. Quando o som de um ambiente invade uma outra circunstância, terreno de outros personagens, percebemos como aqueles pedaços estão integrados num todo maior, partes de um mesmo sistema social. De fato, há um imenso ruído na comunicação.