sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Cine Ceará – Parte III


Santa e Andrés (Santa y Andrés, Cuba/França/Colômbia, 2016)
Dir: Carlos Lechuga


Santa e Andrés atravessa certo momento histórico de Cuba, ali no início dos anos 1980, para contar uma história de amizade. Ou vice-versa. A relação de amizade que surge entre os dois personagens, postos em lados ideologicamente antagônicos da questão política, é o que move a trama desse filme que carrega sua dose de polêmica, muito por ter sido impedido de se lançar comercialmente no país uma vez que faz dura crítica ao regime comunista ainda vigente.

Depois de tanto tempo, Cuba ainda carrega a chaga de ser esse país dividido que causa sentimentos opostos entre aqueles que o defendem ou não, algo que atravessa irremediavelmente posições morais e políticas – e o cinema cubano não deixa de retratar isso constantemente, como pudemos ver no outro corrente cubano apresentado no Cine Ceará. No momento histórico em que corre o filme, o regime comunista comandado por Fidel Castro segue bem estabelecido no país e já havia posto em prática uma política camuflada de perseguição contra homossexuais. Também havia um controle sobre escritores, artistas ou qualquer intelectual que pensasse criticamente os caminhos políticos do país.

E o protagonista do longa carrega essas duas alcunhas – ou podemos dizer, pesos. Escritor homossexual, Andrés (Eduardo Martinez) vive recluso no interior do país vigiado e controlado pelas forças policiais do regime. Não pode sair dali e muito menos continuar a escrever seus livros de teor “subversivo”, pois foi na tentativa de escrever um assim no passado que ele foi preso e condenado a viver como numa prisão em regime aberto, sempre sob custódia. Com a realização de um Fórum para a Paz ali perto de onde ele vive, o regime contrata a assistente social Santa (Lola Amores) para vigiá-lo mais de perto e impedir qualquer tipo de comunicação dele com estrangeiros ou alguma forma de manifestação de sua parte.

O filme trabalha, de imediato, a dicotomia entre os opositores e defensores do regime, muito embora, mais adiante, vai revelar, através de Santa, uma personagem com mais nuances que poderá também questionar o tratamento que é dado a Andrés. Ela, na verdade, é uma novata na função, não está ali fazendo aquele serviço por questões ideológicas e pessoais, mas sim executando um trabalho rotineiro, cumprindo uma ordem. E é na aproximação entre os dois, não necessariamente romantizada pelo filme, que os dois revelam mais de si e de seus dilemas.

É certo que em alguns momentos o filme apela para a caricatura, especialmente quando chega mais perto do final e os superiores de Santa começam a pressioná-la para vigiar Andrés com mais dureza, inclusive tentando arrancar segredos dele por intermédio dela. Falta um tanto de ritmo a partir da segunda metade da narrativa também porque o filme fica dando voltas ao redor de disputas e pequenos conflitos entre eles ou a partir da vida e rotina de cada um – como, por exemplo, a relação amorosa/sexual e mesmo agressiva que Andrés leva com um estranho rapaz que vive no povoado mais próximo. Já a dimensão dramática que Santa ganha, a partir da descoberta de assuntos dolorosos de seu passado, é mais bem resolvida na trama. O desfecho da história, no entanto, também carrega certas fragilidades ao desenhar o destino dos personagens. 

O diretor Carlos Lechuga não se furta, portanto, de apontar tais pontos controversos do sistema político cubano e das decisões e posturas que foram defendidas ali naquele momento. O filme chegou a ser censurado nos cinemas do país porque tais questões ainda não foram de todo passadas a limpo – apesar de Fidel já ter vindo publicamente para confessar que, de fato, o regime perseguiu homossexuais no passado. Mas as questões ideológicas vão continuar cercando a ilha cubana de posições antagônicas e grande parte dos discursos que forem traçado sobre o cotidiano e a História do país. Lechuga é um jovem cineasta (esse é seu segundo longa) e carrega consigo uma visão crítica dos que olham para trás sem receio de enfrentar as cicatrizes que marca(ra)m a vida dos que ali habitam.

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