quinta-feira, 15 de maio de 2014

Fugindo de si

Praia do Futuro (Idem, Brasil/Alemanha, 2014)
Dir: Karim Aïnouz


Com exceção do personagem explosivo de Madame Satã, todos os protagonistas seguintes dos filmes de Karim Aïnouz têm muito em comum. São pessoas melancólicas, angustiadas com sua atual situação, aprisionado por sentimentos controversos, postas à prova pela vida ingrata que lhes machuca e lhes causa certa inadequação de estar no mundo (ou no seu “mundinho” – é por isso que todos eles buscam uma forma de fuga).

É um terreno muito arenoso esse que o diretor escolhe para desenvolver os conflitos de seus personagens porque muitas vezes eles são de difícil apreensão. Praia do Futuro sofre muito com isso, na maneira como nem sempre consegue dar a dimensão exata do que está em jogo para aquelas pessoas, exceto aquele que aparece na terça parte do filme.

O salva-vidas Donato (Wagner Moura) falha ao impedir que o amigo de Konrad (Clemens Schick) seja engolido pelas águas turbulentas da praia do Futuro, em Fortaleza, onde trabalha. No entanto, ele estreita relações com Konrad e logo passam a viver um relacionamento amoroso tórrido, embora não necessariamente concreto.

É aí que o filme revela tipos que sofrem uma confusão latente de sentimentos. É difícil entender o que move os personagens, o que eles sentem de fato, muito porque nem eles mesmos parecem saber exatamente como definir isso e como lidar com essas questões. Praia do Futuro investe na introspecção e observa, vagarosamente, como aqueles homens vão seguindo, mesmo que tropeçando pelo caminho e por sobre seus próprios sentimentos. Escondem-se de si e buscam maneiras de se completarem e se entenderem na presença um do outro, mesmo que daí saiam algumas faíscas.


A opção de se mudar para a Alemanha com Konrad surge para Donato como forma de se afastar de uma rotina que não lhe satisfaz, não lhe oferece segurança e que não parece o ambiente mais propício para assumir seus desejos. A ideia de desterritorialização é uma marca muito forte no cinema de Aïnouz. Seus personagens vivem em trânsito e a casa onde sempre viveram não é mais um lugar de conforto, muitas vezes traz lembranças negativas. Estar longe dela é uma maneira de libertação, ainda que os fantasmas pessoais continuem a assombrar e perseguir.

Mas esse afastamento também deixa marcas, especialmente nos que ficam. Donato vai ter de lidar com o irmão (Jesuíta Barbosa, em fase adulta) que chega para lhe cobrar uma posição sobre a família. É o personagem mais bem desenhado do filme, carrega no rosto uma ira por ter sido preterido pelo irmão mais velho tempos atrás. Não à toa uma das melhores cenas do longa está no reencontro dos dois, um belo momento que equilibra agressão e afeto. O personagem de Barbosa, mesmo que a seu modo rude, passa então a habitar esse universo nebuloso em que o irmão e Konrad vivem. 

Praia do Futuro é um filme sensível, busca no silêncio e nos olhares de seus atores a revelação dos desejos humanos, mas parece ter uma dificuldade em comunicar para o espectador essa interioridade tão difícil de apreender, soa moroso muitas vezes. Resolve-se melhor quando revela de cara a vulnerabilidade de seus personagens, perdidos, indefinidos, tentando entender a si e o que acontece ao seu redor.

2 comentários:

Stella Daudt disse...

Hoje cedo me recomendaram o filme. Agora já estou indecisa, depois de ter lido seu comentário. Enfim, o tempo dirá. Vou esperar sair em DVD, se minha locadora ainda existir até lá.

Rafael Carvalho disse...

Tem muita gente gostando do filme, Stella. Acho que você deve arriscar ver, sim. De qualquer forma, é muito sensível, meu problema é mais com roteiro mesmo.