segunda-feira, 8 de abril de 2013

Curtinhas


Os Croods – Uma Aventura das Cavernas (The Croods, EUA, 2013)
Dir: Kirk De Micco e Chris Sanders 


Não temer e abraçar o desconhecido. Eis aí o mote do novo filme da DreamWorks, mais uma aventura com lição de moral, sem que isso necessariamente seja um peso num filme marcadamente mais infantil. Os Croods são uma família da pré-história que vive numa caverna e só saem dali para se alimentarem; nada muito longe disso lhes é sabido pelo temor do desconhecido. O patriarca da família segue esse preceito com afinco, assumindo o papel de surperprotetor, a despeito da teimosa curiosidade da filha adolescente. Quando ela conhece o jovem Guy, e por ele se apaixona, a família é inevitavelmente confrontada com um novo mundo.

Há nesse movimento de saída um encantamento pela novidade, aquilo que Platão em sua “alegoria da caverna” via como uma forma de se alcançar a consciência e o conhecimento, como forma de fugir da ignorância. Essa primeira parte é a mais instigante do filme, na medida em que nos encantamos também com aquilo que a família descobre. Mas depois de passada essa fase, o filme aposta num humor bem bobinho, infantil mesmo, e cai num conto comum de aventura. Sobressai, no entanto, um desenho de personagens bem acabado e caprichado. Mas o mais interessante é que não existe um grande vilão que aterroriza os heróis. O “mal” aqui é representado pela própria Natureza em transmutação, obrigando os personagens a se deslocarem e procurarem outro lar. Outro conhecimento de mundo.


O Último Elvis (El Último Elvis, Argentina, 2012)
Dir: Armando Bo 


Um homem obcecado pelo ídolo e um pai de família. Na intersecção entre esses dois papeis é que vive Carlos Gutiérrez (John McInerny), trabalhando como cover do rei do rock’n’roll Elvis Presley. Mas a persona do sósia tem proporção muito maior em sua vida, uma vez que ele acredita mesmo ser uma espécie de continuidade do que Elvis foi, tentando seguir os mesmos passos do cantor americano. Quando ele precisa ficar com a filha pequena, já que a mãe, de quem é separado, sofreu um acidente, a figura do pai tem de ganhar mais peso na balança de sua vida, mesmo que por um pequeno período.

É nessa corda bamba que passa a viver o personagem, tendo de lidar com uma função com a qual não está muito acostumado. Mas nada que se assemelhe aqui a uma comédia de erros de um pai destreinado. O filme constrói a relação entre pai e filha de forma muito funcional, um (re)encontro familiar, mas sem exageros. Ainda assim, o sonho de Carlos em manter os caminhos pelos quais Elvis passou ainda é uma chama forte dentro dele, um objetivo de vida do qual ele não quer se desgarrar, mesmo que a noção de família ainda se faça presente. O filme assume assim um tom melancólico, ainda que respeite muito a posição que Carlos assume para si, nunca o julgando ou tomando-o por um louco desajustado. O Último Elvis é um retrato naturalista de um comportamento inusitado diante do mundo.


Hitchcock (Idem, EUA, 2012)
Dir: Sacha Gersi


Assim como acontece em Lincoln, Hitchcock não se trata de uma cinebiografia, apesar do título assim sugerir. O filme do novato Sacha Gersi no longa de ficção é um retrato de um momento específico na carreira do mestre do suspense, redefinidor do gênero em que ele era soberano. Se o filme de suspense ganha outro patamar com a criação de Psicose, os meandros que envolvem a sua realização é o gancho central aqui, como um filme de curiosidades sobre outro filme e sobre um realizador peculiar. Hitchcock encontrava dificuldades financeiras para levar adiante a adaptação de um livro barato, coisa que a Paramount via com muito maus olhos. Apesar do prestígio de público e crítica que começa a ter, existia sempre a pressão para que seu próximo filme deslanchasse.

Assim, Hitchcock tenta dar conta de todas essas problemáticas que estavam no caminho desse projeto, mas não revela nada do que já não sabemos. Nesse percurso, além de exaltar a veia de genialidade do cineasta inglês, o filme acaba também jogando luz sobre a participação essencial de Alma Reville, esposa e braço direito de Hitch, na composição do filme, apesar de duvidar do projeto e das brigas com o marido. Hitchcock é, portanto, um filme anódino, querendo dar a impressão de uma história relevante sobre personagem caro à história do Cinema. Funciona enquanto dura, mas depois se torna esquecível.


Moonrise Kingdom (Idem, EUA, 2012)
Dir: Wes Anderson


Na mesma medida em que não parece haver nada de novo nesse filme, no sentido de extrapolar as marcas estilísticas de Wes Anderson, Moonrise Kingdom marca uma certa maturidade do cineasta em seu próprio terreno, a comédia de tons farsescos, sempre permeada por uma precisão visual marcada pela simetria das mais bonitas de se acompanhar. Interessante que é uma maturidade tratada através do impulso juvenil de um casal de adolescentes (Jared Gilman e Kara Hayward) que resolvem fugir para viverem juntos por se acharem apaixonados. Mas engana-se quem pensa que somente os jovens passam por problemas do coração. A mãe da garota (Frances McDormand) tem um caso com o policial (Bruce Willis) que tenta encontrar o paradeiro dos fujões.

É mais um conto de amor que Anderson traveste com sua habitual “frieza”, quase apatia, com que os personagens conversam e se portam (com aquele tom de atuação bem bressoniano e sem afetações), embora pareça inegável que exista conexão e interesse entre eles. Mas o filme também flerta com o nonsense na medida em que constrói um universo peculiar em que os personagens coexistem (o acampamento de escoteiros e a casa da garota são os exemplos mais bem explorados nesse sentido) e mesmo no senso de aventura que toma a parte final do filme. Enfim, tem todos os ingredientes que fazem a alegria dos fãs de Anderson, aqui reutilizados em prol da história que quer contar.

6 comentários:

Amanda Aouad disse...

É isso, queria ver mais Psicose e menos dramas amorosos com ciúmes adolescentes, hehe. Mas, gosto do filme ainda assim, tem seu charme.

Moonrise Kingdom é um Wes Anderson, mas não morro de amores também. Ainda quero ver O Último Elvis...

Agora, quanto aos Croods "Tam,tam, tam", hehe. Eu achei que eles consegue dosar o filme infantil com as questões do novo, do mito da caverna e com os aprendizados da vida. Uma animação que vai além das piadinhas e colorido para encantar crianças.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Olá, parceiro, estou de volta, pronto para trocar comentários e seguir suas postagens. Fico feliz em ver que seu blog continua a todo vapor.
Cumprimentos cinéfilos!

O Falcão Maltês

bruno knott disse...

Interessante esse "vilão" de Os Croods. Quero assistir o quanto antes.

Quanto a O Último Elvis... melancolia é o tom do filme mesmo e deve-se louvar o roteiro por algumas escolhas. Me empolguei bastante com o resultado final, devo admitir.

Rafael Carvalho disse...

Amanda, também acho Hitchcock charmoso (o filme, digo, hehe), uma boa palavra, mas depois se torna esquecível. Sobre Os Croods, entendo essa coisa do aprendizado, mas acho que continua caindo no campo das lições de moral, e nem acho que seja uma grande coisa aqui. O humor que me parece infantil demais, boboca.

Tô sabendo de seu retorno, Antonio. Tá uma beleza o site novo.

Bruno, é uma perspectiva diferente do que a gente tá acostumado essa coisa da Natureza ser o vilão em Os Croods. Mas o filme não me empolga muito mais que isso.

Gustavo disse...

Também achei Hitchcock esquecível. Acho que o fizeram como uma quase-comédia peso-pena justamente para não serem acusados de pretensão. Mas, de qualquer forma, pintam Hitch como o bisonho obsessivo por trás de uma grande mulher.

Rafael Carvalho disse...

"comédia peso-pena" é uma ótima expressão, Gustavo. Hehe. O pior de tudo é que o filme só acaba transformando o Hitchcock numa caricatura. Isso vai ficando perigoso.