Um Filme de
Cinema
(Idem, Brasil, 2015)
Dir:
Walter Carvalho
O
Festival de Brasília abriu sua programação lançando para o espectador uma série
de reflexões sobre o próprio fazer cinematográfico. Um Filme de Cinema é mais uma incursão do grande diretor de
fotografia Walter Carvalho pelas veredas da direção, embora o filme se sustente
muito pelos depoimentos de muita gente boa do meio cinematográfico, brasileiro
e internacional.
De
Jia Zhang-ke a Lucrécia Martel, de Júlio Bressane a Béla Tarr, de José Padilha
a Andrzej Wajda. Todos eles falam de sua
relação com a sétima arte e buscam desmontar certos artifícios que utilizam na
sua profissão, naquilo que acabam transformando em linguagem e meio de
expressão artística e também como pensamento autoral.
Muito
se discutiu aqui se o filme possui um caráter didático ou não, por se mostrar
um registro que, de antemão, parece interessar mais aqueles que são próximos do
universo cinematográfico. Claramente que o filme é muito rico para quem estuda
e quer saber mais de cinema, mas está longe de normatizações, longe de se
parecer uma cartilha com instruções particulares de como fazer um filme.
Ao
contrário, são tantas as ideias, percepções e opiniões expostas ali que o filme
torna-se um campo fértil para reflexão e debate, principalmente quando há
contradições entre as falas dos entrevistados. José Padilha, por exemplo, fala
do ponto de vista de um cineasta que está mais próximo da narrativa clássica,
do mainstream, enquanto Béla Tarr está
em outro polo de construção autoral, e Júlio Bressane evoca toda sua veia
erudita.
Daí
que se o didático tem a ver com aprendizado, Um Filme de Cinema é uma das mais belas e instigantes exposições
sobre o tema. Por outro lado, como ritmo, a narrativa repete-se em muitos momentos,
o que revela certo preciosismo por alguns depoimentos que acabam sobrando
diante do todo.
Walter Carvalho, como
diretor, também compõe algumas cenas que evocam certa louvação da sala
de cinema enquanto templo. O filme começa com imagens de um cinema em ruínas no
sertão da Paraíba, mas que recebe a projeção de um antigo experimento de imagens
em movimento – são as fotos sequenciadas de Eadweard Muybridge para provar que os cavalos tiravam as patas do
chão quando corriam, considerado esse um dos precursores do registro
cinematográfico. O público é composto de velhinhos da região – sendo a grande maioria dos cineastas também mais experientes. É como se o
cinema brotasse dos escombros, ainda vivo, como técnica, mas permeado pela
linguagem. É dessa crença que também se faz esse filme.
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