Nova
Dubai (Idem,
Brasil, 2014)
Dir: Gustavo Vinagre
Existem
muitos filmes em Nova Dubai, algumas
ideias muito boas e outras que se perdem totalmente pelo caminho. A maior força
do filme está na sua politização a partir do sexo explícito em lugares públicos
– essa é a tara dos personagens principais, um deles interpretado pelo próprio
diretor, Gustavo Vinagre.
Ele
e seu companheiro percorrem as ruas e limites de uma cidade interiorana de São
Paulo dominada por obras. A construção civil acelerada marca a paisagem de
forma gritante, não pelo que constrói, mas pelo aspecto transitório entre a
paisagem natural que havia e a uniformidade padrão do que está por vir. É uma
paisagem feia, prenunciando a perda dos espaços públicos.
Vemos
prédios em esqueletos de blocos e concreto, montes de areia, ferro e granito, máquinas
pesadas, além das muitas cercas que limitam os espaços. E é por entre esses
elementos que os personagens transam explicitamente. É uma maneira curiosa essa
de explorar o tema do crescimento inadvertido dos centros urbanos – tema já tão
comum em muitos filmes recentes, especialmente aqueles vindos de Pernambuco –
através do sexo, retratado aqui com crueza, poucas vezes visto de forma tão
mundana num filme.
O
sexo aqui não aparece como mero artifício banal: há closes de penetração, sexo
oral, ensaio de um estupro. Seria gratuito se não tivesse uma importância vital
no filme, talvez a de conflitar aquilo que se faz no privado, agora tomando o
lugar do espaço público, quando o acelerar da construção civil faz o movimento
inverso: transforma cada vez mais a área pública em espaço para poucos
privilegiados.
De
qualquer forma, o filme parece ater-se a essa ideia de forma redundante, sem avançar
muito num discurso que se quer militante. Existe uma dimensão de melancolia que aparece
na figura de dois outros personagens: há um garoto quase que preso em seu
quarto, espécie de poeta maldito, e um segundo rapaz viciado em filmes e
histórias de terror. Eles aparecem de forma aleatória no filme, ajudando a embaralhar
uma narrativa que já carecia de liga antes. Nova
Dubai certamente é um corpo estranho na produção nacional, goste-se ou não
dele.
Ressurgentes: Um
Filme de Ação Direta
(Idem, Brasil, 2015)
Dir:
Dácia Ibiapina
Filme-resumo das atividades dos movimentos sociais no Distrito
Federal, Ressurgentes: Um Filme de Ação Direta é a entrada de
um produto estritamente político, formalmente muito convencional, num festival
tão aberto a subjetividades. O filme acompanha os últimos dez anos das ações do
Movimento Passe Livre (MPL), composto na sua maioria por jovens estudantes da
Universidade de Brasília.
A diretora Dácia Ibiapina, professora da UNB, é uma militante
reconhecida no DF e faz de seu filme uma bandeira em prol da luta do MPL,
sempre do lado de dentro. Nada contra esse relato apaixonado de um tipo de
militância que tanta visibilidade tem alcançado nos últimos anos no Brasil. Mas
a coisa se complica quando o filme torna-se o lugar de vangloriar o movimento a
partir de um ponto de vista interior, chegando à conclusão de ser ele
“vitorioso” diante da várias ações nas quais tomaram parte ao longo desse
tempo.
Para além de ser um filme politizado que abraça um lado da questão tão
abertamente, é estranho enxergá-lo numa mostra competitiva, apesar de dialogar
muito fortemente com outros filmes de engajamento político vistos no CachoeiraDoc.
Talvez por essa força de militância o filme tenha dividido o prêmio principal
do festival com Retratos de Identificação.
Se existe algo de muito potente aqui é a força de algumas imagens que
encontram no corpo dos jovens essa energia para enfrentar, na cara e coragem,
os poderes opressores do Estado. E o filme oferece momentos interessantes de
registro (a cena de abertura com a invasão da Câmera Legislativa, a discussão
com o policial que exige desculpas, os vídeos flagrantes de políticos recebendo
propina e enxertando cuecas e meias com bolos de dinheiro).
Mas isso não garante a
legitimidade de um discurso que se revela tão partidarista e, por isso mesmo,
discutível. Não que se duvide dele, mas por impossibilitar uma visão global de
coisas tão complexas no campo político.
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