Seca (Idem, Brasil, 2015)
Dir:
Maria Augusta Ramos
Não sei até que ponto a cineasta brasiliense Maria Augusta Ramos tem consciência do risco que é fazer um filme como Seca, mais um documentário de observação do qual ela tem se especializado em sua carreira. Há dois motivos para esse lance de risco: não parece muito novo o tipo de realidade que ela documenta – pelo menos não aqui no contexto nordestino –, e depois, mais grave agora, é a falta de uma discussão maior a partir do tipo de realidade que a cineasta resolve observar, mesmo que esse tipo de problematização seja realizada através da própria fixação do olhar da câmera.
Certamente,
há mais operações de encenação aqui – não nos esqueçamos deles só por estarmos
diante de obra que se filia à tradição do cinema direto. As próprias escolhas
de montagem e a aproximação com os indivíduos e o ambiente retratados são
fatores que formatam a narrativa e dizem muito sobre certas intenções da
cineasta. De qualquer forma, Seca
parece avançar pouco na construção que desenvolve sobre a condição de muitas
famílias do interior nordestino que vivem a falta d’água. O filme acompanha um
personagem inusitado: o caminhão-pipa enviado por forças governamentais que
circula quilômetros nesse trabalho de abastecimento das residências.
Maria
Augusta não faz um cinema de didatismos. Seus documentários não tentam dar conta
de contextualizar, explicar e modular reflexões sociais, embora, por
muitas vezes, naquilo em que se fixa a atenção de sua câmera, geralmente em
casos muitos particulares e microscópicos diante de uma situação maior (seja o sistema judiciário em Justiça
e Juízo, seja a política de pacificação
das favelas em Morro dos Prazeres,
todos ótimos filmes), é possível se chegar a dimensão muito fortes e balizadas
de complexidades que nos levam a repensar muita coisa. Isso tudo sem nunca querer
dar conta de esgotar esses temas.
Em
Seca, essa mesma vontade existe,
formatada através do mesmo tipo de formalismo rígido e rigor de construção
narrativa de seus trabalhos, mas parece pulverizada diante de tantas questões que se fazem
presentes ali. O filme acaba consolidando uma estrutura dura demais que por
vezes salta do caminhão para algumas pessoas, mesmo o motorista do caminho na
sua rotina familiar, para depois encontrar outros sujeitos que lidam com aquela
situação e volta depois para o caminhão. Se essa escolha (ou construção possível) é capaz de nos oferecer um panorama
amplo de vidas e rotinas atingidas por essa realidade que se percebe atualmente,
ela também deixa de lado certas profundidades que poderiam ampliar muitas
outras questões que ganhariam melhor tratamento.
Muitos foram os
filmes que já se concentraram nessa região do Brasil, tendo a seca, a pobreza e a precariedade da vida dessas pessoas como pontos centrais e comuns. Mas muita
coisa tem mudado de uns tempos para cá, social e politicamente. Daí que o
desafio de se fazer esse tipo de filme hoje confere seus riscos de antemão, ou
antes exige uma atenção maior, para além da pura observação de uma realidade –
ainda que através dela seja possível alcançar níveis ampliados de reflexão.
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