TROPYKAOS (Idem, Brasil,
2015)
Dir:
Daniel Lisboa
TROPYKAOS, escrito assim
mesmo em caixa alta e com caracteres que remetem a uma proposta
cinemanovista-tropicalista, antes mesmo de indicar uma maior predileção por
certa marginalidade do cinema brasileiro, mais no espírito do que no resultado
final em tela, o filme parece guardar um grito na garganta. Quem o solta é o
diretor baiano Daniel Lisboa, nesse seu primeiro longa-metragem, com direito a
excessos, para o bem e para o mal.
É
como se o título traduzisse uma atitude de ímpeto diante de certos desconfortos
do mundo atual, muito pertinente também à força bruta que o filme quer transmitir,
embora nem sempre seja feliz nesse sentido. Mesmo assim, trata-se de um
trabalho de realização realmente pulsante, com muita vontade de se jogar em
questões muito particulares, ainda que para isso sacrifique certa cadência narrativa
em prol de uma atmosfera de inquietação constante.
Trata-se
de um conto com algo de fabular, ainda que calcado na realidade de uma Salvador
presente como urbes caótica, lugar capaz de provocar inquietações e anseios – o
centro histórico da cidade funcionando como espaço quase underground num
universo de paranoias que ali se instala. TROPYKAOS
tenta dar conta da dimensão mental e física de Guima (Gabriel Pardal), um homem
atormentado pelo sol causticante da soterópolis baiana. Fotossensibilidade e
calor intenso perseguem o personagem que, numa tentativa de fuga, quase se enclausura em casa e nas
próprias experiências com drogas.
Porém,
a vontade impetuosa de registrar e construir esse universo no qual Guima está inserido,
ou antes aprisionado, acaba limitando o filmes às próprias cercanias que cria
para si mesmo. O início contém umas das melhores cenas do longa: Guima, andando
angustiado pela rua, não suporta o calor e enfia a cabeça na caixa de isopor
com gelo e água de um vendedor ambulante. É nesse início também que,
conversando com uma médica, ele a explica sua condição de impossibilidade diante da superpotência solar. É certo que o filme
entrega de bandeja, desde já, uma constatação que esse personagem já tem sobre si mesmo.
É
então que TROPYKAOS passa a girar em
torno de um mesmo eixo que consiste em martelar a mesma incapacidade de Guima
em conviver com o calor insuportável e suas tentativas de se refrescar sempre
que pode. O apreço especial pelo sonhado ar condicionado é mais do que
compreensível. É aqui também que o filme soa muito confortável e descolado, e mesmo
orgulhoso, em poder falar de “raios ultraviolentos”, de "ar condicionado craniano" ou de não estar
“geneticamente preparado para viver nessa cidade”. A frase nem é feliz pela
conotação de perigos racistas que possa carregar, mas tudo isso funciona mais como efeito
de discurso do que como problemática trabalhada no filme.
No
entanto, é também essa entrega de cabeça que acaba revelando momentos de pulsão
que fazem a história soltar aos olhos. A cena do bar, caricata na postura mesmo
de seus personagens, termina de forma reveladora – a poesia como outra
ferramenta, ou arma, de compreensão de um estado de espírito atribulado –,
assim como também termina de modo surpreendente certa cena de sexo. Situações como
a da explosão do caixa eletrônico e mesmo as cenas surreais na igreja-seita, capitaneada
por figuras tão esdrúxulas, parecem demonstrar ali a sobreposição de uma
letargia narrativa, apesar de carecerem de uma continuidade que nem sempre tem
a mesma força de tom. Ainda assim, é aí que o filme revela suas maiores forças de imagem e atmosfera, de cinema.
Não é com uma textura de imagem mais suja e uma verve mais porralouca que Lisboa se aproxima de um teor marginal
enquanto estética. Isso por conta mesmo da presença de uma fotografia mais que solar de Pedro Urano, além do nível caprichado de produção como um todo. Mas é na aproximação com certo espírito da geração
superoitista baiana, explicitamente referenciada nas presenças de Edgard Navarro e
Bertrand Duarte, que o filme alcança essas alusões e tornam-nas como parte
integrante dessa história de inquietações e intrigas interiores – ainda que uma
dimensão social não seja relegada a segundo plano, pois ela também não ajuda a limitar
e combater essas aflições.
TROPYKAOS se sai melhor como realização quando se permite certas pirações que fazem total sentido dentro da proposta simbólica do filme. É o mal dos trópicos,
que enlouquece, ilumina e aquece, ainda que mais pela força de seus atos
enquanto modo de coação do que como tentativa de mudar alguma coisa no mundo
concreto. Mais até para que se aceite consigo mesmo a essência do caos.
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