Medo do Escuro (Idem, Brasil, 2015)
Dir:
Ivo Lopes Araújo
Segunda experiência estético-sensorial essa de ver Medo do Escuro, pouco menos de seis meses após a primeira, ambas com acompanhamento musical ao vivo, capricho que garante uma força no mínimo descomunal ao filme. A primeira vez certamente é mais forte enquanto impacto por aquilo tudo que vem como novidade e inquietação, bela construção de atmosfera para o que se apresenta em tela, apesar de poder ser muito bem digerida se prestarmos atenção aos signos todos que o filme oferta.
Agora,
encerrando o Cine Ceará, num cine-teatro majestoso como o São Luís, nível de
projeção, som e acústica de dar gosto de ver e ouvir, na cidade natal do coletivo
Alumbramento, o filme tem o seu gosto por aquilo que representa para o grupo.
Mas talvez uma segunda experiência faz embaralhar uma narrativa que não é de
toda conclusa, agora misturada com novas percepções pessoais.
Com
tom pós-apocalíptico, o filme é dirigido por Ivo Lopes Araújo e recebe o selo conceitual-inventivo-anárquico
do coletivo Alumbramento. Ivo é mais conhecido como diretor de fotografia de diversos
filmes dessa nova cena independente brasileira (como os longas Tatuagem e
o baiano Depois da Chuva), e demonstra um vigor interessante em
compor uma obra tão descolada das outras produções do grupo que já são, por si sós,
tão pessoais e arriscadas.
Medo
do Escuro narra
as desventuras de um rapaz perdido numa cidade devastada, caótica e abandonada.
Há algo entre o sujo e o deslumbre que compõe a atmosfera do lugar e o visual
dos personagens, via maquiagem e figurinos bastante carregados, indo do lúdico ao bizarro, beirando o kitsch, abraçando o nonsense. A trilha sonora conta com muitas batidas e samplers eletrônicos,
ruídos, sons guturais e bateria enlouquecida. Tudo para elevar a força de um
filme totalmente sem diálogos, sem linhas narrativas autoexplicativas.
A
história se apropria vagamente de elementos do filme de heróis em resistência
num mundo distópico (referências podem ir de Mad Max a Fuga
de Nova York, passando pelo submundo underground de filmes
de vampiros rebeldes como Os Garotos Perdidos e Quando Chega a Escuridão, ou a psicodelia mal
ajambrada de Duna), com direito
a gangue de vilões mal encarados e uma guerreira misteriosa na trama. O filme
brinca com as marcas de um gênero outrora popular, criando uma atmosfera de
estranheza e aventura que vai convidando o espectador a embarcar naquela
proposta e entender suas amarras narrativas, ainda que muito fique em
suspenso.
O
filme tem a característica de chamar a atenção para si mesmo pela energia que
vigora dali, sem que isso seja mera propaganda; faz parte de sua própria
natureza. Tem sua parcela de excesso que em alguns momentos soa repetitivo,
como no final que se alonga mais do que necessário – talvez para que a catarse
musical aconteça. Mas esse tom notas acima, over por excelência, é
o que torna o filme tão vibrante em sua essência.
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