Nua Por Dentro
do Couro
(Idem, Brasil, 2014)
Dir:
Lucas Sá
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Um
de seus filmes anteriores, O Membro Decaído,
também próximo do suspense, tinha algo de muito estudado, formalismo que por
vezes nos apresenta bonitas composições de quadro, mas também endurece o filme por
soar, contraditoriamente, limpo e “certinho” demais. Agora, com Nua por Dentro do Couro, essa tendência formal
se dilui numa história que se sustenta mais por si só.
Além
disso, há um trunfo maior aqui: a presença de Gilda Nomacce como protagonista,
dando vida a uma espécie de serva misteriosa, postura e olhar de estranheza
mórbida que carrega no semblante aéreo. Apesar de começar a ficar marcada como
atriz de papeis esquisitos (em Jiboia
ou Quando Eu Era Vivo, para ficar em
poucos exemplos), é ideal para viver mulheres excêntricas e ainda subir o tom
da interpretação sem parecer over.
Azar
da jovem meio cabeça de vento, vida destrambelhada, que mora no mesmo prédio e
vai, depois de uma péssima notícia, comprar cupcakes
na casa da estranha senhora. Cai numa bela armadilha, talvez já prenunciada
quando as duas se encontram pela primeira vez na porta do prédio. É aí que o
filme avança para o grotesco e o horror, mostra suas garras sem parecer mero capricho
de fã de narrativas grotescas – embora a referência cinéfila a Possessão, do Zulawski, seja incontornável. Mas é um filme que
caminha com suas próprias pernas e isso já é formidável.
Action Painting
nº 1/nº 2
(Idem, Brasil, 2014)
Dir:
Krefer e Turca
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Adeptos
do BDSM, Krefer e Turca, o casal na tela e diretores do filme, expõem algo que
é do íntimo, mas sem o propósito de revelar particularidades. Antes, dão vazão
ao ato criador, abstrato na maneira como se desenha, no próprio corpo, uma
textura que passa a ser gráfica através da pulsão sexual, arte do corpo por
excelência.
As
costas quase que tomam a dimensão completa da tela que aqui se apresenta em
formato retangular, o que já é uma boa pista da aproximação do filme com a
pintura e as artes plásticas, algo sugerido também pelo título. De forma muito direta, o filme faz
valer seu entrelugar enquanto criação artística, ao mesmo tempo que revela toda
a intensidade voluptuosa que brota dali. Pulsão essa que se transforma, para
nós, em composição visual, sem ter muito o que explicar ou teorizar. Existe
pelo puro prazer e isso basta.
Kyoto (Idem, Brasil,
2014)
Dir:
Deborah Viegas
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A
menina que escreve na escola redação sobre supostas férias tiradas no Japão é
pega na mentira, ainda que não consiga se desdizer. Viegas lança um olhar muito
terno e carinhoso para essa personagem e seu ambiente escolar. Quando a câmera
não observa de longe o que se passa, está muito próximo da menina, de suas
feições, quase que fazendo questão de esquecer o mundo ao redor e se
concentrando em outro, que faça muito sentido para a protagonista.
Os personagens falam,
mas nunca os vemos por completo (especialmente os adultos), uma maneira de
adentrar numa percepção infantil de seu próprio entorno forjado, ainda mais na especificidade
comportamental fugidia dessa garota diante da realidade. Mas pouco o filme põe
em conflito, já que os castigos que decorrem dali por vezes soam exagerados, ou
antes pouco aprofundados em razões maiores, além de terem efeitos aparentemente pouco práticos
para ela. No final, Kyoto contenta-se em apresentar uma cumplicidade que é tudo o que a
garota precisava, o que já revela a vocação do filme em lhe fazer um afago.
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