quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Noite irreverente

Público cativo compareceu ao Centro de Cultura para as exibições do segundo dia de evento. A diretora do curta-metragem A Cidade Cargueiro, Aline Frey, estava presente para apresentar seu filme que disse ter sido feito para crianças, mas que tem conquistado alguns adultos por aí. Mas foi o segundo curta da noite, Dossiê Rê Bordosa, que animou mais a platéia. Pan-Cinema Permanente, longa documental sobre o artista baiano Waly Salomão, foi bem recebido e bem digerido, talvez mais pelo caráter bonachão dado ao biografado do que pelo seu viés contestador.


A Cidade Cargueiro (BA/BR, 2008)
Dir: Aline Frey


Existe nesse curta uma vontade muito grande de ser maior, mas ele se contenta com pouco. Numa ilha bem próxima a Salvador, dois garotos divisam as luzes da cidade além do mar e se valem da imaginação para construir maneiras de chegar à capital. A irritante tentativa de forçar um baianês falado pela gente humilde da região torna o filme confuso, mesmo para os baianos; me parece mais uma tentativa desnecessária de imprimir regionalidade ao texto. O elenco não ajuda muito pela falta de espontaneidade das atuações (principalmente as crianças). A partir daí, dá para pensar que aqueles personagens não parecem existir por si sós, eles são meras construções ao alcance da vontade da diretora Aline Frey. O que fica é o poder de imaginação em contraponto à realidade divergente.


Dossiê Rê Bordosa (SP/BR, 2008)
Dir: César Cabral


Meu primeiro e mínimo contato com Rê Bordosa, personagem do cartunista Angeli, foi através do longa de animação brasileiro Wood & Stock - Sexo, Orégano e Rock’n’Roll. Mas não conhecer a fundo essa personagem de nada atrapalha as boas gargalhadas causadas pelo curta animado Dossiê Rê Bordosa. Feito em stop motion (aquela animação com bonecos de massinha), o curta procura documentar as investigações a cerca do assassinato da personagem cometido pelo próprio cartunista. Personagem essa um tanto... escrota. Rê Bordosa é uma mulher safada, desbocada, vulgar e transa com qualquer homem. Com uma narrativa ágil e repleta de tiradas hilariantes (a maioria relacionadas a sexo, claro), personagens reais ganham versões animadas para (re)construir a relação entre criador e criatura, para daí chegar ao crime. O resultado é o mais divertido possível.


Pan-Cinema Permanente (SP/BR, 2007)
Dir: Carlos Nader


“Alguém que não sabe onde começa a lucidez e termina a loucura”. Assim se auto define Waly Salomão, poeta, compositor e produtor musical baiano que faleceu em 2003, posto em evidência nesse documentário de Carlos Nader. Além do talento com as palavras, Waly se mostra um personagem tão irreverente que por si só já justifica a feitura do filme. Diante de uma câmera, ele solta todo seu verbo e sua eloqüência ora confusa, ora profunda, ora poética.

Logo se percebe o quanto há de teatral na fala e na maneira dele se portar diante da câmera, mas tudo isso no bom sentido. Sua figura revela um homem zombador, mas que sabia falar alto e fazer sua crítica social. Ao mesmo tempo em que era muito espontâneo, essa espontaneidade era vista por seus amigos como construída, forjada (mais uma vez, no melhor sentido). Daí vem a admiração por sua pessoa. Em algum momento, alguém reflete sobre um personagem que parecia fazer parte da personalidade do Waly, com o qual ele “encenava a própria vida”.

Interessante como todos o depoimentos são registrados apenas com voz em off, conferindo mais espaço em tela para a figura de Waly, resgatada a partir de fotos e filmagens antigas. Dessa forma, o diretor mostra o fascínio pela imagem do personagem central, que se justifica pela forte presença física desse artista na tela.

Carlos Nader ainda não tem receio em se expor no filme enquanto profissional que conduz o documentário, mas também como amigo do próprio Waly, mantendo com esse uma relação de pura afetividade. Ele próprio faz um depoimento sobre o artista baiano. E mais uma vez (depois de Booker Pittman) um documentário da Mostra não se preocupa em apresentar linearmente seu biografado, e sim apresentá-lo ao público, o que é muito mais interessante.

O jeito bonachão e irrequieto era a marca maior de um artista tão rico em humanidade e força criativa. Para quem o vê na tela, fica a forte impressão de um menino brincando de viver.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Olhar de Criança


Infelizmente não pude assistir ao filme dessa tarde, que por sorte, já tinha visto anteriormente nos cinemas. Mutum é uma pérola de nossa filmografia atual pela forma simples e sutil com que se desenvolve. Deixo aqui um texto um pouco adaptado daquele que já tinha postado no blog anteriormente.


Mutum (RJ/BR, 2007)
Dir: Sandra Kogut



A estréia da diretora Sandra Kogut na ficção é uma grande surpresa. Adaptado da obra do escritor mineiro Guimarães Rosa, Mutum é um exemplo claro do quanto de beleza se pode extrair uma narrativa tão naturalista, mas emocionalmente intensa.

Não existe uma trama exata no filme, mas passamos a acompanhar o cotidiano do pequeno Thiago, garoto de 10 anos, e sua humilde família que vive numa região isolada no sertão de Minas Gerais, chamada Mutum. É através de seu olhar inocente que desvendamos o complexo mundo dos adultos, seus conflitos e percalços. Tais dramas atingem o garoto inevitavelmente, obrigando-o a um amadurecimento um tanto precoce.

O roteiro expira uma atmosfera de inocência tamanha que só poderia mesmo fazer parte do universo infantil; as brincadeiras, o teor frágil das conversas e aquelas risadas gostosas que são próprias da alma das crianças. No caso de Thiago, muito dessa inocência é interrompida pela necessidade de lidar com as conseqüências provocadas pelas ações dos adultos ao redor. Muitíssimo bem interpretado pelo jovem Thiago da Silva Mariz, o protagonista não tem culpa dos atos de seus familiares, mas mesmo assim sofre os danos de tais atos, tendo que ser “expulso” de seu mundo particular.

Além disso, o texto é de uma sutileza incrível e aposta na sensibilidade do público para conduzir a história, sem nunca cair no exagero (a morte de determinado personagem, por exemplo, é extremamente tocante, mas nunca soa forçada). O filme aposta também na ótima química entre os atores, quase todos desconhecidos do grande público (salvo o sempre ótimo João Miguel interpretando o pai de Thiago) e que possuem uma familiaridade muito grande com o ambiente da fazenda. O elenco foi majoritariamente escolhido entre os moradores das regiões das filmagens.

Com câmera na mão, fotografia natural e privilegiando o som ambiente, com o devido respeito aos silêncios, Kogut transmite leveza ao filme, que não deixa de possuir densidade dramática nos momentos certos. Simples e denso. Complexo e leve; mas acima de tudo, inocente.

Música enlatada


E pela quarta vez, a cidade de Vitória da Conquista abriga mais uma Mostra de Cinema. Até o próximo sábado, filmes nacionais serão exibidos em vários pontos da cidade, além de haver seminários, oficinas, mesas-redondas, lançamento de livros e uma exposição sobre a vida e obra de Glauber Rocha, artista da terra. O curta-metragem Booker Pittman (Veja aqui), de Rodrigo Grota, e o longa Os Desafinados, de Walter Lima Jr., abriram o evento.


Booker Pittman (PR/BR, 2008)
Dir: Rodrigo Grota


A Mostra do ano anterior trouxe o premiado Satori Uso, curta de Rodrigo Grota que investigava o poder da criação a partir de um cineasta fictício que estava fazendo um documentário sobre um poeta japonês que nunca existiu. Dessa vez, o paranaense se utiliza da obra do músico de jazz Booker Pittman não para fazer uma biografia usual, mas mais para averiguar e apresentar a musicalidade de seu biografado. Num preto-e-branco intenso, o curta apresenta momentos distintos da vida de Pittman, ficcionaliza alguns, sem que isso necessariamente precise ser compreendido em exatidão pelo espectador. É mais uma viagem intimista ao universo multimusical (ou pelo menos me pareceu) do artista. E um interessante exercício de linguagem.


Os Desafinados (RJ/BR, 2007)
Dir: Walter Lima Jr.


Se a idéia era homenagear os comemorativos 50 anos da Bossa Nova, Os Desafinados não passa da idéia, numa embalagem um tanto plástica, simplista, como se fosse filmado para um especial de TV. O selo “GloboFilmes de qualidade” reforça bastante essa idéia numa obra que a todo momento parece não querer se arriscar e encontra as saídas mais óbvias para os desenlances de seus personagens.

Na década de 60, os amigos Joaquim (Rodrigo Santoro), Davi (Ângelo Paes Leme), PC (André Moraes) e Geraldo (Jair Oliveira) formam uma banda e se aventuram na Nova York que se encanta pela música brasileira. Têm a ajuda do amigo Dico (Selton Melo), aspirante a cineasta e vão conhecer na cidade estadunidense a bela Glória (Cláudia Abreu), que lhes darão abrigo. O filme, na realidade, se constitui como lembranças do passado desses personagens já velhos reunidos numa mesa de bar, conferindo um tom saudosista ao longa.

Saudosismo esse que prefere um texto com diálogos batidos, reviravoltas evidentes e nada inventivas. Tudo caminha no limite da segurança, frustrando o espectador que consegue prevê em muitos momentos o que acontecerá em seguida. Por outro lado, não há na trama nada de absurdo ou que traia aos propósitos da história. O diretor só não quis correr riscos.

Falta ao filme também certa sutileza, tão abundante em trabalhos anteriores do cineasta (a exemplo de A Ostra e o Vento ou então em Ele, O Boto). Quando Joaquim e Glória se encontram pela primeira vez, em Nova York, por exemplo, ele fala em inglês e ela responde em português, daí ele tira a brilhante conclusão: “Ah, você é brasileira”.

Contando com um elenco repleto de atores globais, só mesmo Selton Mello se destaca com seu Dico cheio de tiques e afetações, quase uma persona de Galuber Rocha, e ainda é o alívio cômico da história, uma das poucas coisas que funcionam. A aproximação amorosa entre Joaquim e Glória se mostra desinteressante, mesmo depois que se transforma num triângulo amoroso (e a cena da banheira é um tanto apelativa). Alessandra Negrini, surpreendentemente, em poucos momentos na tela, faz da mulher de Joaquim uma personagem simples, mas cativante. Todos os outros parecem seguir o óbvio de uma atuação.

A trilha sonora, que podia ser um atrativo a mais, só repete aquilo que já sabemos sobre a beleza da musicalidade brasileira, tão apreciada lá fora (e em algum momento era preciso que alguém dissesse que João Gilberto é um gênio). Isso quando Cláudia Abreu não aparece dublando em cena.

E numa década tão conturbada como a de 60, não podia faltar um discurso político que antevê a Ditadura Militar (depois de serem parados no carro, Selton Melo diz: “isso é só o começo, vai ficar muito pior”), sendo mais tarde reforçado quando um dos personagens for vítima do sistema de repressão, sem causa aparente. A bandeira da arte em contraponto à opressão política se torna mais um ingrediente que tenta dar força ao filme. Não passa de história para inglês ver.

domingo, 5 de outubro de 2008

Curtas

O Primeiro Dia (Idem, Brasil/França, 1999)
Dir: Walter Salles e Daniela Thomas


Mesmo quando trata de violência, Walter Salles, aqui juntamente com Daniela Thomas, consegue alcançar o poético. O Primeiro Dia, filmado logo após Central do Brasil, e pouquíssimo visto, foi feito sob encomenda para a TV francesa, e é parte de uma série de longas que retratam o último dia do século XX. Para isso, os diretores tiveram total liberdade para criar uma história em cima da situação. No Rio de Janeiro, o presidiário João (Luís Carlos Vasconcelos) é levado a fugir da prisão com ajuda do próprio carcereiro-chefe (Tonico Pereira), mas em troca tem de matar o traficante Francisco (Mateus Nachtergaele), seu amigo de infância. Paralelamente, Maria (Fernanda Torres) entra em desespero quando seu marido desaparece de sua vida, terminando o relacionamento. A dureza da vida dos personagens ligados ao crime se mostra mais aterradora e evidente na seqüência em que Francisco faz uma prece com uma arma apontada para sua cabeça (um dos grandes momentos do filme). Mas o encontre entre Maria e João na virada do milênio transforma o desespero de duas vidas em uma possível salvação. O filme é ainda um tratado contra a violência, que a despeito de ser renegada por João na virada do ano, se mostra cada vez mais longe de desaparecer da nossa sociedade, como fica claro pelo desfecho do filme. O primeiro dia nem sempre significa recomeço.


Zona do Crime (La Zona, México/Espanha, 2007)
Dir: Rodrigo Plá


Esse filme é o tipo de produção que conta com uma boa história, mas que não é bem aproveitada. E o problema parece estar mais na direção já que o roteiro faz um estudo muito interessante sobre a diferença de classes, o apartheid social e a violência urbana tão atuais. Na Cidade do México, cercada por favelas, uma espécie de grande condomínio, a Zona, abriga pessoas de classe média. Quando três jovens de uma favela invadem o local para um assalto, tanto um dos moradores quanto dois dos invasores acabam mortos; começa então uma busca para encontrar o terceiro rapaz. O filme ainda tenta fazer um estudo sobre a inversão da “Lei”, pois vamos descobrir que os moradores da Zona possuem sua própria autoridade dentro do local e decidem, eles mesmos, caçar e eliminar o intruso, sem interferência das forças policiais. Mas o diretor Rodrigo Plá não avança na análise, pecando por uma abordagem superficial, com direito a final piegas em que um personagem se arrepende por ter sido tão cruel com o “coitadinho do garoto da favela”. Existem no filme outros pontos interessantes (a importância da figura materna tanto do garoto de classe média quanto do favelado, o filho que vê no pai a figura do vilão, a tentativa de parte da policia em investigar o caso com seriedade, a corrupção policial que impede essa tentativa), mas que permanecem soltos e mal encaixados numa história que só encontra seu foco nos últimos momentos. Tarde demais.


Caótica Ana (Caótica Ana, Espanha, 2007)
Dir: Julio Medem


Caótica Ana á equivocado, sem rumo, sem foco, atira para todos os lados e não acerta em nenhum. Uma confusão que frustra o espectador pela ausência de sentido da maioria das seqüências que parecem todas incompletas. A história da garota hippie (Manuela Vellés), pintora exemplar, que mora com o pai numa caverna e é descoberta por uma mecenas (Charlotte Rampling, surpreendendo falando espanhol) para morar na capital junto com outros jovens talentos começa até bem. Mas envereda por caminhos no mínimo estranhos. A relação de Ana com o pintor Said (Nicolas Cazalé) logo é interrompida pela descoberta de seus dons de relembrar vidas passadas através da hipnose; a partir daí a narrativa se torna confusa e sem consistência. Tudo no filme acontece muito rápido e parece nunca se fechar. Na tentativa de parecer descolado, Julio Medem só conseguiu criar um filme que se sabota o tempo todo. E o mais decepcionante disso é que dois de seus filmes anteriores, Lúcia e o Sexo e principalmente Os Amantes do Círculo Polar, são muito bons. Tá certo que a vida de Ana pode ser assim caótica, o que não signifique que o filme precise ser também. E quando a gente acha que já vai acabar, ainda resta uma seqüência final para afundar o que já estava perto do fundo do poço.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

O monstro homem

O Nevoeiro (The Mist, EUA, 2007)
Dir: Frank Darabont



Frank Darabont adaptando Stephen King. Essa receita é certa. Quando se utilizou dos textos de King anteriormente, Darabont nos presenteou com duas pérolas: o tocante (e às vezes piegas) À Espera de um Milagre e o surpreendente Um Sonho de Liberdade. E o mais interessante é que ambos não flertam com o suspense, gênero em que King é mais reconhecido. Mas chegou a vez dos sustos. O Nevoeiro não é só um bom suspense como também se distancia dos demais exemplares do gênero por uma abordagem distinta, aliada a um estudo interessante de personagens que se tornam mais complexos quando colocados em situações-limite.

Uma névoa misteriosa invade uma cidade deixando vários habitantes presos dentro de um supermercado. Dentre eles o poster designer David Drayton (Thomas Jane), seu pequeno filho Billy, um vizinho com quem David possui problemas de relacionamento (Andre Braugher), além da fervorosa religiosa Sra. Carmody (Marcia Gay Harden). Logo vão descobrir que criaturas monstruosas saem da névoa para atacar os humanos.

Se o suspense pode ser alcançado através da sugestão (como na seqüência em determinado personagem, amarrado a uma corda, sai no nevoeiro e é atacado enquanto só vemos a reação de todos dentro do supermercado), também surge a partir do mais puro exploitation, quando criaturas saem de dentro do corpo de um homem. Muito embora os efeitos especiais estejam longe de ser exemplares, o que sempre cria distanciamento, as situações são tensas o bastante para deixar o espectador impressionado.

Se a maior parte do elenco cumpre muito bem seus papéis, o grande destaque vai exclusivamente para Marcia Gay Harden que, a despeito de estar num filme de monstro, é a personagem mais assustadora da história, conferindo à Sra. Carmody uma frieza no limite da loucura. Sua caracterização vai do medo até uma postura de liderança pautada na crença de ser a escolhida para a função de guia religiosa a caminho da salvação. Poderia ser um tanto caricatural sua encarnação da religiosa que vê naquela circunstância um castigo de Deus aos homens. Mas é a partir do excesso que Gay Harden encontra o tom certo (e odioso) de sua personagem.

Porque o problema não é se apegar à palavra de Deus para encontrar força e defesa contra o mal, mas se utilizar dela para, num processo inverso, causar danos e pavor nas pessoas, imbuído numa noção de castigo que precisa ser imposto aos “culpados”. Nesse sentido, momentos de mais puro horror surgem a partir da pregação fundamentalista de Carmody para um grupo de seguidores que ela arrebanha no local e termina com a execução de um dos personagens. Uma das seqüências mais tensas, sem que nenhum monstro apareça na tela; o ser humano pode ser tão tenebroso quanto.

Mas o melhor está reservado para os minutos finais mais assustadores e impressionantes do ano. Darabont se utiliza da tragédia mais dura e triste para alcançar a plenitude e ainda provar que essa coisa conhecida por esperança não deve ser abandonada nunca. Porque pode ser tarde demais para desfazer os erros cometidos nos momentos de desespero.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Beleza e talento juntos num só ser

Os colegas de blog Fabiana (A Culpa é da Crítica) e Alex (Cine Resenhas) me enviaram esse Meme que tem como objetivo eleger as dez atrizes mais belas e talentosas da atualidade em minha opinião. Aliar essas duas qualidades não é fácil, mas tem muitas garotinhas por aí que esbanjam nos dois quesitos. Uma lista de dez só é possível porque mulheres como Natalie Portman, Monica Belucci, Rachel Weisz, Juliette Binoche e Najwa Nimri ficaram de fora. Mas vamos à lista:

Naomi Watts


Julie Delpy


Catalina Sandino Moreno


Alice Braga


Eva Green


Clotilde Hesme


Laura Linney

Gong Li


Jennifer Connelly


Scarlett Jonhansson

domingo, 28 de setembro de 2008

Adeus a Paul Newman

Morre Paul Newman aos 83 anos de idade (1925-2008). Há um bom tempo em estado terminal de câncer, a vida deu descanso a um astro que nos deu tantos momentos incríveis nas telas dos cinemas. Mais uma perda irreparável.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Curtinhas

Escola do Riso (Warai no Daigaku, Japão, 2004)
Dir: Mamoru Hosi


Além de ser um filme pouquíssimo visto no país, o japonês Escola do Riso é uma grande surpresa que em seus primeiros momentos não chega a prever o alto nível alcançado pela película em sua metade final. Se pensarmos que o filme se passa quase completamente dentro de uma sala com dois personagens dialogando, a coisa fica mais interessante ainda. No Japão dos anos 40, um sensor (Kôji Yakusho, visto posteriormente em Memórias de uma Gueixa e Babel) analisa roteiros de peças de teatro e corta tudo aquilo que em sua visão fere a moral e os bons costumes da sociedade. A paródia de Romeu e Julieta feita por um jovem roteirista (Goro Inagaki) é o mote central do filme. No embate entre os dois, o roteiro é constantemente escrito e discutido. Escola do Riso constitui uma defesa da pura comédia como forma de libertação do homem. Faz isso com graça, mas alcança momentos dramáticos quando faz um estudo do sensor enquanto um homem sério e solitário, escravo do sistema repressor, mas que após aquela experiência irá enxergar um lado mais cômico da vida. A cada nova cena, um novo enquadramento, um ângulo inusitado, uma iluminação apropriada, um movimento de câmera específico. Tudo para que a história não se torne enfadonha. Um grande acerto.


Irina Palm (Idem, França/Bélgica/Inglaterra/Luxemburgo/ Alemanha, 2007)
Dir: Sam Garbarski


Quando soube da existência desse filme há alguns meses, imaginava que se tratava de algo mais cômico e irreverente. Ora, o que esperar de um filme em que a protagonista, uma senhora de meia idade, a fim de pagar o caro tratamento médico do neto, passa a trabalhar num clube privê masturbando os clientes? Isso mesmo, a atriz e roqueira Marianne Faithfull interpreta Maggie, uma viúva londrina, recata e cheia de amigas da alta sociedade, que secretamente faz esse sacrifício pelo neto. Com mãos suaves e eficientes, acaba se tornando um grande sucesso entre homens que freqüentam o local; Irina Palm é seu nome de guerra. Mas o filme não possui nada de jocoso. Nessa trajetória, somos testemunhas da relação um tanto difícil dela com o filho, repleto de dívidas e que não parece ter a mesma garra que a mãe para conseguir o dinheiro necessário. É quase como se aquela situação fosse um fardo para ele. Ao mesmo tempo, Maggie se mostra uma pessoa solitária e que busca ajudar a todos ao seu redor. Nesse sentido, uma discussão sobre moralidade fica bem evidente: como podemos julgar uma personagem que se submete a um trabalho visto por muitos como degradante por uma causa maior? Sem moralismo, o filme leva sua personagem ao caminho do bem estar pessoal uma vez que Maggie faz o que faz por um motivo digno. No final, há recompensas.


Braking News – Uma Cidade em Alerta (Daai si Gin, Hong Kong, 2004)
Dir: Johnnie To


Descobri que o cineasta Johnnie To produz uma média de três a quatro filmes por ano, uma marca incrível se considerarmos o grande esforço e trabalho para a realização de um longa. E mesmo estando mais ligado ao gênero policial, seus filmes parecem trazer sempre algo de interessante e novo. Se em Exilados ele trava de companheirismo e lealdade, em Breaking News ele desmascara a possibilidade de manipulação da mídia jornalística. Numa Hong Kong cada vez mais violenta, um grupo de assaltantes promove um tiroteio com a polícia no meio da rua (um plano-seqüência memorável), e a mídia passa a acusar o sistema policial de ineficaz. Quando o mesmo grupo invade um edifício fazendo algumas reféns, é a vez de o governo mostrar o seu trabalho e equipa os policiais com câmera para registrar as ações em que eles mostram serviço. O material é logo veiculado nas tevês para que todos vejam o trabalho da polícia. Mas ao mesmo tempo, os bandidos, dentro dos prédios, também começam a filmar e registrar os momentos em que eles conseguem impedir o avanço das forças policiais. Essas imagens também são enviadas para a mídia. E agora, em que acreditar? Aliado a essa discussão tão atual e pertinente, To ainda cria excelentes cenas de ação, que apesar de alguns momentos confusos, não desmerecem a competência de seu realizador.


Kika (Idem, Espanha/França, 1993)
Dir: Pedro Almodóvar


Não sei por que mas sempre achei que esse filme do Almodóvar seria por demais exagerado e escrachado. Kika tem lá seus excessos (em Almodóvar podemos chamar algo de excesso, ou simplesmente de personalidade?), mas desenvolve sua narrativa com vigor e uma inventividade cheia de esquisitices. A maquiadora Kika (Veronica Forqué) tem um caso com o escritor Nicholas (Peter Coyote) e quando o enteado dele, Ramón (Alex Casanovas), é dado como morto, ela é chamada para maquiar o defunto quando descobre que o rapaz está vivo. Os dois se apaixonam e vão viver juntos. Mas essa é só a ponta de uma história cheia de reviravoltas (que na segunda metade enfraquece um pouco a narrativa) e que vai da mais pura comédia, passando pelo humor negro até alcançar ares de mistério e filme policial. Outros personagens estranhos completam o quadro: a empregada lésbica (Rossy De Palma) apaixonada pela patroa; seu irmão ex-ator pornô e perturbado mentalmente (Santiago Lajusticia), responsável pela cena de estupro mais hilária que eu já vi, elevando a carga de humor negro do filme; e principalmente Andrea Caracortada (Victória Abril), a apresentadora de um programa de TV sensacionalista que apela para a desgraça da vida das pessoas. O colorido intenso e característico do diretor espanhol perpassa e intensifica toda a narrativa. Kika parece um ensaio, um filme de transição entre a afetação e a maturidade próspera de seu realizador.


O Procurado (Wanted, EUA, 2008)
Dir: Timur Bekmambetov


O Procurado começa mal e continua no mesmo nível baixo até o seu fim. Imagine aí uma sociedade secreta que tem como função matar pessoas que farão mal à humanidade. Sabe como eles descobrem isso? Através de um código binário que se identifica pelas fibras de tecido confeccionado por um tear (??????). Wesley Gibson (James McAvoy), um medíocre contador, descobre que seu pai era membro da tal sociedade e acabou de ser assassinado; Wesley precisa assumir o lugar deixado por ele. Passa a ser treinado por Fox (Angelina Jolie, com cara de machona o tempo todo) sob a supervisão do líder da sociedade (Morgan Freeman). Habilidades especiais à lá Matrix vão surgir nele logo, logo. O absurdo da trama só perde para as cenas de ação forçadas, manipuladas e na quais se tenta incluir algumas pitadas de humor que não têm graça nenhuma. Na verdade, o filme todo possui essa tentativa de trazer humor, principalmente através do personagem do McAvoy, que surge meio abobalhado na maioria das cenas. E o pior são os estereótipos ridículos que aparecem em outros personagens como a chefe chata e gordona de Wesley ou seu amigo cara-de-pau que está transando com sua namorada rabugenta. E nos créditos finais eu ainda tomei um susto quando vi que a trilha sonora era assinada por Danny Elfman. Ou esse é um homônimo daquele Danny Elfman que eu estou pensando ou isso é o que conhecemos por decadência.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Mostra Cinema Conquista


Mais uma edição da Mostra Cinema Conquista se aproxima. Expectativas em alta para a programação de filmes nacionais que irão compor a programação. Uma pena que esse ano a Mostra será menor, com apenas cinco dias de atividades (7 a 11 de outubro), entre exibição de filmes, oficinas, mesas-redondas, seminários, lançamentos de livros, mas nem por isso menos intensa. Como não estarei trabalhando, como no ano passado, me dedicarei exclusivamente a absorver tudo aquilo que vier em minha direção em forma de filme, conhecimento, opinião e discussão e tentarei ao máximo alimentar o blog durante o evento. Que venha a Mostra. O site oficial, juntamente com a programação completa, pode ser acessado aqui. E como já disse Glauber Rocha: “Acorda, humanidade!”.

domingo, 21 de setembro de 2008

Cúmplices da tortura

Violência Gratuita (Funny Games U.S., EUA, 2008)
Dir: Michael Haneke


Assistindo novamente ao Violência Gratuita feito em 1997 pelo mesmo diretor descobri um gosto muito maior pelo filme do que quando vi pela primeira vez; essa versão atualizada (copiada, na realidade), sendo exatamente igual a primeira, possui as mesmas qualidades. Só peca por ser algo já visto, sem novidade alguma. Mas Michael Haneke continua um grande provocador e nesse(s) projeto(s) leva o espectador a um estado de tensão poucas vezes alcançado.

Ao passar as férias na casa de campo, uma família se vê ameaçada por dois jovens que aparecem misteriosamente na propriedade. O que inicialmente se mostra uma aproximação amigável, vai tomando ares de intimidação até chegar ao ponto da mais pura humilhação e tortura física. Tudo gratuitamente.

Por isso mesmo gosto bastante do título em português que considera toda a violência como algo sem propósito (nunca sabemos os reais motivos por que aqueles dois fazem aquilo). Seria uma crítica à banalização da violência que vai mais adiante ao criar com o espectador uma relação de cumplicidade. Num jogo metalingüístico, os agressores olham diretamente para a câmera e conversam com o público, como se fossemos coniventes com tudo aquilo e a sede do espectador por violência fosse o alimento da continuidade dos atos dos personagens.

Ao mesmo tempo, a idéia de funny games (jogos engraçados, do título original) entrega toda aquela situação como uma brincadeira perversa. Os níveis de tensão aumentam a cada situação opressora, mas não é isso que vemos como qualidade? Além disso, o título entrega o próprio filme como um truque, uma armação, do qual também somos coniventes (estamos assistindo a uma ficção, mas não deixamos de nos envolver emocionalmente com a estória). Numa cena espetacular, um dos jovens, depois de um acontecimento que o desagrada muito, pega um controle remoto, faz voltar a ação (o filme retrocede imediatamente) para desfazer o ato. Esse é o jogo e são eles que o controlam.

Embora Haneke copie cena a cena seu filme anterior, fica evidente uma direção segura e visivelmente bem planejada em todos os momentos. E mesmo que o filme se utilize da violência para discuti-la, ela nunca é usada como forma de promoção do filme já que as cenas mais pesadas nunca são mostradas. O filme apela para a memória coletiva do público que já viu e foi exposta a várias cenas de violência e tortura (principalmente no cinema). Talvez esse seja um dos maiores acertos do diretor.

Além disso, um elenco de peso faz jus a todos os atores do filme anterior. Tim Roth e Noimi Watts interpretam o casal, ambos marcados pela sutileza de seus personagens que mais tarde dão lugar a um desgaste físico impressionante. Mesmo o ator mirim Devon Gearhart, como o filho do casal, surge com uma expressividade ímpar. Já Michael Pitt e Brady Cobert são de um cinismo absurdo, nunca soando exagerados como os “vilões” da história. Mas se a história possui mesmo um vilão, não seria ela a exposição à/da violência?