Tatuagem (Idem, Brasil,
2013)
Dir: Hilton Lacerda
Vem de Pernambuco mais um belo exemplar de
cinema com personalidade, no mesmo ano em que O Som ao Redor ganhou as telas comerciais do cinema brasileiro,
depois de um grande sucesso mundo a fora. Hilton Lacerda, à frente de seu primeiro
longa-metragem de ficção depois de um logo trabalho como roteirista nos filmes
do conterrâneo Cláudio Assis, chega com um filme que faz alarde, mas cercado de
afetos.
Tatuagem vem (e vence) pela
marca do escracho. Logo em um dos primeiros números apresentados pela trupe de
teatro Chão de Estrelas, um dos personagens diz que “nossa arma é o deboche”. É
a dica para que encaremos com muito bom humor e anarquismo contestador as
apresentações do grupo, cheios de um subtexto (homo)sexual e político.
O
romance que vai surgir entre o protagonista e o soldado Fininha (Jesuíta
Barbosa), cunhado do melhor amigo de Clécio, o espalhafatoso Paulete (Rodrigo
Garcia), já dá conta de contrapor lados que se chocam, mas ganhando nuances
mais picantes aqui. É, portanto, um filme que clama por liberdade, artística e
sexual, via comportamentos que desafiam a moral vigente. Lacerda conduz com
muita delicadeza o que está na esfera dos sentimentos, e as pessoas que se
reúnem em torno do grupo não deixam de formar uma bela e desordenada família,
apesar das desavenças que surgem em certos momentos.
E
conduz desprovido de todo moralismo o que se encontra no âmbito do
questionamento de valores e hipocrisias sociais. A Polka do Cu, canção-desbunde
cujo número é apresentado na parte final do filme (e deflagrador de consequências
duras), é um desses momentos não só carregado de coragens e escracho, mas que
representa muito bem uma visão de mundo que aquelas pessoas (e o filme)
compartilham harmoniosamente.

Dos trabalhos que roteirizou para Cláudio Assis,
Lacerda mantém a veia contestadora, de tons anárquicos que afrontam o mais
tacanho dos moralismos. Mas Tatuagem é também dotado de um lirismo e carinho
por seus personagens que o coloca bem longe daquilo que Assis já dirigiu (com
exceção, talvez, do mais poético A Febre
do Rato). Nesse equilíbrio de atmosferas, Larceda acrescenta mais uma peça
na filmografia pernambucana recente que faz o cinema nacional pulsar, contestadora
e afetuosamente.
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