domingo, 13 de janeiro de 2013

Tempo de resistência


Cabra Marcado para Morrer (Idem, Brasil, 1984)
Dir: Eduardo Coutinho 



Rever Cabra Marcado para Morrer, hoje, um dos maiores e mais emblemáticos filmes de nosso cinema, faz pensar em algumas ressignificações que o tempo ajuda a construir. Num momento em que muitos acham novidade o estreitamento entre documentário e ficção em projetos recentes, o filme de Coutinho (como alguns outros) já passeava por essa fina fronteira há tempos. Também em meio à obra do diretor, é tido por muitos como o ponto alto de sua carreira no cinema (apesar do projeto ter começado como seu primeiro longa-metragem), caso ele não se propusesse a se reinventar, o que acontece de alguma forma com a obra-prima que é Jogo de Cena, ou mesmo antes disso com a dobradinha Santo Forte e Babilônia 2000.

Porque os rumos atuais da filmografia de Coutinho têm enveredado pelos caminhos da observação da encenação, para além do amadurecimento da sua capacidade em extrair depoimentos sinceros de personagens populares, à primeira vista pessoas muito comuns, mas que, na presença do diretor, diante de sua interlocução, revelam riqueza humana. Pois essa marca já estava lá em Cabra Marcado para Morrer, distribuído entre seus dois tempos distintos. Mas o que faz do filme uma preciosidade é a forma como costura seu próprio percurso de realização com os rumos de vida dos personagens que queria retratar.

Antes de mais nada, trata-se de um filme de resistência. Coutinho retoma seu projeto interrompido pelos desmandos do governo militar, quando filmava, como uma ficção, a história do líder das ligas camponesas, o paraibano João Pedro Teixeira, assassinado por desavenças com um latifundiário. Assim, procura fazer justiça àquela história e pessoas que tiveram suas vidas mudadas e mesmo destruídas, como se não bastasse o próprio estado de pobreza e exploração em que já viviam.

Elisabeth Teixeira, viúva de João Pedro, acaba se tornando o epicentro da trama, apesar do interesse de Coutinho por todos aqueles que se engajaram nas lutas sindicais camponesas e que também participaram das filmagens iniciais à época. Mas a busca pelos rumos que Elisabeth e os membros de sua família (ela tinha 11 filhos) vieram a tomar é o ponto mais frutífero que faz retornar toda aquela história.


17 anos após o filme ter sido interrompido pela chegada do exército brasileiro na região onde o rodavam, pouco depois de instaurada a Ditadura Militar, acusando os membros da equipe de serem cubanos que propagavam ideias comunistas através daquele filme rodado clandestinamente, Coutinho reencontra Elisabeth e retoma não só o percurso interrompido de filmagem, agora um documentário, mas também a situação das lutas sindicais, o assassinato de João Pedro e toda a história de vida dela, obrigada a fugir para se salvar, levando consigo somente um de seus filhos, abandonando demais. É, portanto, um filme que cresce e se aprofunda em seus próprios meandros, se expande e revela camadas sempre mais ricas, sejam elas políticas ou afetivas.

Assim, torna-se também um estudo da narrativa documental (lição aprendida fielmente por João Moreira Salles em seu espetacular Santiago, para se ter uma referência clara e atual do alcance do filme de Coutinho) à medida que traça os rumos tortuosos que a produção trilhou, mas sem os quais não o tornaria essa obra-prima hoje reconhecida. O filme é o seu próprio processo de feitura. O documentarista e sua equipe se põem em cena como personagens e sujeitos daquela situação, o texto em off, do próprio Coutinho, direciona os passos que vão sendo tomados na narrativa, tudo com a naturalidade e precisão com que ele insere esses elementos no documentário brasileiro.

O filme fala de si ao mesmo tempo em que reverencia a figura e as lutas de resistência, sociais e pessoais, daquele povo que retrata, através de um trabalho de reconstituição, pesquisa e montagem de precisão incrível. Agora, quase 20 anos depois de seu lançamento, visto em cópia restaurada belissimamente, com a qualidade de som e imagem merecida, Cabra Marcado para Morrer atesta o gênio de Coutinho – do qual nunca duvidamos –, mas que transparece na tela com fibra, depois que o tempo só o favoreceu.


3 comentários:

Stella Daudt disse...

Gostei bastante do "Santiago" de João Moreira Salles. Quanto ao Eduardo Coutinho, acho que dele só assisti "Jogo de Cena". Pelo que você escreve, Rafael, preciso conferir o resto...

Elton Telles disse...

Simplesmente maravilhoso!!!
Alguns dizem que é "Terra em Transe", outros já são mais atuais e apontam "Cidade de Deus", mas este, pra mim, é o imbatível filme da nossa cinematografia.

Eduardo Coutinho é um gênio!

Parabéns pelo texto, Rafa. Em território brasileiro, não poderia começar melhor, eu diria.
Feliz 2013 pra nós! o/

Abs.

Rafael Carvalho disse...

Stella, acho Jogo de Cena uma obra-prima, mas antes dela tem Cabra, que é uma preciosidade. Veja o mais rápido possível!

Elton, também estou com essa impressão de que esse É o filme do nosso cinema. Que nosso 2013 seja ótimo.