sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Mostra SP – Parte 10



Tubarão (Jaws, EUA, 1975)
Dir: Steven Spielberg


Era uma das sessões mais aguardadas dessa edição da Mostra SP. Tubarão, um sucesso de público na sua época, restaurado, de volta à telona de cinema, era por demais tentador. A expectativa foi tanta que a primeira sessão não ocorreu por erro na projeção digital. Mas como celebração do cinema, é interessante notar como projeto tão comercial, dirigido com competência ímpar para esse tipo de produto família numa década que descobriu o filme espetáculo, resistiu tão bem ao tempo.

Tubarão continua um filme tenso, construído com o mais apurado senso do classicismo, quando Spielberg ainda era uma promessa para o cinema (depois de uma longa carreira na TV), tateando seu lugar ao sol, mas já demonstrando ser o diretor com mão precisa para compor aventuras eletrizantes. Spielberg sabia como ninguém criar o clima de suspense (à luz do dia!) ideal para a história da fera do mar que atacava os mais desavisados por sob a água da praia de uma cidade interiorana dos EUA, ao mesmo tempo em que valorizava o lugar na família em meio à tragédia.

Revendo o filme agora, mais do que as imagens do tubarão atacando as pessoas, ficam marcadas as cenas em que uma mãe estapeia o novo chefe de polícia Martin Brody (Roy Scheider) depois de ter seu filho morto por negligência dele que não interditou a praia após um primeiro ataque; ou a cena em que o mesmo homem pede a seu filho um beijo simplesmente porque naquele momento difícil ele está precisando de carinho.

É a marca inconfundível de um Spielberg emotivo que não deixa de se fazer presente. E de fato, é muito interessante acompanhar os esforços de Brody para livrar sua comunidade das ameaças do animal faminto, uma luta por seu povo, o empenho de um herói daquela comunidade em prol do fim das tragédias. Essas, ligadas ao senso de aventura, são um outro prato cheio de boas cenas que recheiam o filme de temor, muito embora não deixa de ficar evidente hoje a precariedade técnica do filme, apesar do impacto que isso teve nos espectadores de meados dos anos 70. Mas é aí que entra o talento dos envolvidos ao construir cenas em que não é preciso mostrar muita coisa para revelar uma situação de choque e abalo mortal, um dos grandes trunfos desse filme.

Se a música do grande John Williams é um dos traços que vêm logo à mente daqueles que viram o filme há tanto tempo, é interessante notar como a obra se constrói também por períodos de silêncio que reforçam a tensão, antecipam o pavor, muito embora a música tema seja uma das grandes marcas da obra. Tubarão é assim um marco daquele cinema que se encontra com o grande público e passou a transformar a maquinaria hollywoodiana em fonte de entretenimento, com investimento pesado. Como se vê, teve seus bons momentos (e continua tendo, apesar da garimpagem que é preciso realizar para se encontrar algo digno de nota). Se a indústria do cinema comercial valorizasse somente filmes como esse, com esse apuro, as coisas estariam bem melhores.


Keyhole (Idem, Canadá, 2011)
Dir: Guy Maddin


Para quem já viu (e gosta, como eu) de filmes anteriores do Guy Maddin como A Música Mais Triste do Mundo e do maravilhoso My Winnipeg, essa nova investida surreal do diretor canadense parecia mais um prato cheio de esquisitices deliciosas. Mas não, apesar das estripulias narrativas e das viagens alucinógenas que fazem parte tão intrinsecamente do universo cinematográfico do cineasta, Keyhole aparece como um quase genérico das obras anteriores, cansando mais do que satisfazendo o olhar para suas bizarrices.

Dialogando com as marcas do filme policial noir, Keyhole se insere num universo muito particular em que um grupo de gângsteres se esconde em uma casa cercada pela polícia. É nesse espaço que se escondem mistérios e perversidades, como um labirinto onírico em que cada nova porta aberta, cada fechadura, parece encerrar surpresas que se amontoam no filme sem a menor carência de fazer sentido.

Não que seja esse o propósito, mas o problema é que, mesmo nesses casos, falta um fio narrativo que possa guiar de certa forma os descaminhos dos personagens, fazendo valer a pena todas as estranhezas da história. Essa é a maior falta de Keyhole, embora haja uma tentativa. O protagonista, Ullysses Pick (Jason Patrick), o chefe do bando, ao chegar à casa, passa a percorrer todos os cômodos, até se encontrar com a esposa Hyacinth (Isabella Rossellini) no quarto do casal. Mas não demora muito para que esse mote se perca pelos desencontros da história.

Como luz e som o filme é uma beleza, o tipo de plasticidade que segura muito bem um certo interesse pela narrativa enquanto produto estético com ótima composição de cenas. Mas não é o suficiente para sustentar a experiência, nem para se criar uma atmosfera sensorial, como tão bem faz David Lynch (mesmo quando não fazemos a menor ideia de para onde seus filmes estão indo). Maddin faz aqui o que bem sabe fazer, cria personagens curiosos e os coloca em situações adversas, por vezes grotescas, mas como resultado final forma um corpo estranho demais para se levar a sério.


Après Mai (Après Mai, França, 2012)
Dir: Olivier Assayas


Dos discursos talvez já saturados sobre o Maio de 68 e sobre a efervescência das lutas revolucionárias da época, Olivier Assayas decidiu fazer um filme posterior, como um complemento de toda aquela atmosfera, embora se alimentando dela mesma, pensando o decurso da própria História como força motriz de seu novo trabalho. Isso porque Après Mai nos situa no pós-68 para tentar entender como as noções de revolução e engajamento político, sobretudo nos jovens, encontrou continuidade nos anos seguintes.

Ou mesmo podemos falar em década seguinte, já que toda a composição visual do filme nos remete ao colorido e à atmosfera libertária da década de 70, através de uma geração que recebeu o legado do sexo, drogas e rock ’n’ roll, mas também o destemor para protestar. É logo em 1971 que a história do filme começa e acompanha os caminhos de um grupo de jovens envolvidos com movimentos de manifestação política e protestos de cunho socialista numa cidade do interior de Paris. Ou seja, Assayas nos tira do epicentro, deslocando a história no tempo e espaço, para lançar um olhar sobre a continuidade dessas ações que tiveram seus gérmens anos antes.

Com uma recomposição de época belíssima, principalmente no cuidado com o figurino e na valorização de uma fotografia ensolarada, o filme consegue ser muito fiel a essa contexto histórico. E sem nenhum tipo de panfletarismo, nem apego aos discursos políticos inflamados, Assayas se preocupa em observar os descaminhos daqueles jovens que fazem da luta política um modo de vida bem particular. Seu olhar sensível recai sobre como a vida cotidiana deles se remodela para dar lugar ao engajamento, à medida em que suas crenças e valores também são colocadas em xeque. Não há pesar nem confronto, mas um carinho muito grande pelo traçado de destinos tão combativos, cheios de vigor, mas fadado às crises da própria juventude.


A Cara que Mereces (Idem, Portugal, 2004)
Dir: Miguel Gomes


O primeiro longa-metragem do português Miguel Gomes, que nos deu o ótimo Aquele Querido Mês de Agosto e o sensacional Tabu, revela já um cineasta inteligente, inclinada à comédia, mas já muito inventivo. Porque seus filmes têm muito de perspicazes, e é muito interessante ver que esta sempre lhe foi uma marca. Pois veja, A Cara que Mereces começa com um letreiro no mínimo curioso: “Até os 30 anos, tens a cara que Deus te deu; depois disso, tens a cara que mereces”.

Conhecemos o ranzinza Francisco (José Airosa), um animador de festas infantis super amargurado com a vida, que, no dia do seu aniversário de trinta anos, briga com tudo e todos, fazendo ver a crise existencial que lhe bate à porta em idade tão decisiva. Refugia-se então numa casa de campo sob os “cuidados” de sete amigos atrapalhados. Pronto, está montada a fábula. Sim, porque todo o filme se inscreve sob a marca da ludicidade, da fantasia. Primeiro, porque está imerso no universo infantil, seja na profissão do homem (ele passa a primeira parte vestido de caubói), como nas próprias referências às brincadeiras e histórias para crianças (no início há até alguns números musicais, deliciosos), inclusive pela própria forma em capítulos de livro infantil que a narrativa é contada.

Depois porque a segunda parte, do repouso do doente no campo, ganha ares de fabulação com o jogo de gracejos e pegadinhas que se observa entre os sete amigos que cuidam do convalescente. É aí que o filme abandona as situações anteriores e seus personagens (Francisco passa a ser somente uma presença no quarto onde ninguém pode entrar) para avançar em outro terreno da narrativa, mais subjetivo e lúdico ainda (e aqueles sete amigos podem muito bem ser vistos como vertentes de uma mesma personalidade, recortada em sete partes, como possíveis “caras” a serem assumidas pelo antes protagonista).

Decerto que a proposta do longa nesse momento pode se tornar um tanto cansativa (essa segunda parte ocupa bem mais que a metade do filme), enquanto acompanhamos as trapalhadas daquele grupo esquisito de homens feito crianças (chega-se até a sentir saudade de todo aquele mau humor de Francisco e suas peripécias). Mas A Cara que Mereces já é por sua audácia e desfaçatez, num filme sobre uma crise identitária, um trabalho exemplar e singular. Miguel Gomes merece todo o louvor da jovem promessa que era.


Postcards from The Zoo (Kebun Binatang, Indonésia/Alemanha/Hong Kong, 2012)
Dir: Edwin


Dessas coisas estranhas que atravessam o caminho da gente numa Mostra tão grande, Postacrds from the Zoo é desses filmes que primeiro nos deixam curiosos, depois encantam pela simplicidade de suas ideias e acabam crescendo cada vez mais conosco. É um dos melhores filmes vistos nessa edição do evento, vindo lá da Indonésia, feito pelas mãos de um cineasta sobre o qual eu nunca ouvi falar, em somente seu segundo longa-metragem.

Se a história pode parecer “difícil” demais pela imprecisão da narrativa, essa sensação pode logo ser descartada porque o fio narrativo que guia a história acaba sendo mais simples do que esperamos. Basta aceitar a ingenuidade daquele conto. Uma garotinha é abandonada num zoológico onde passa a morar e, já crescida, começa a trabalhar no local cuidado dos animais. Mas ela vai se apaixonar por um misterioso mágico vestido de caubói que não demora a levá-la embora dali. Todo o ritmo do filme é bastante contemplativo e é de uma delicadeza absurda como ele filma essa jovem, sua relação com os animais do zoo (em especial com uma girafa) e aquele espaço de acolhida.

No fundo, trata-se de um filme sobre o habitat. As telas com informações sobre as pessoas que moram ao redor do zoológico, além dos animais, os movimentos de levar de volta os bichos para a mata de origem, as noções de (in)adequação no espaço “recriado” do zoo, tudo isso diz respeito, na verdade, a essa jovem, seu novo lugar no mundo e os deslocamentos que ela acaba realizando em seu percurso de vida.

Interessante também como o filme flerta com o cinema fantástico (com a aparição desse mágico que encanta a garota com seus truques, sempre muito reais), pontua uma crítica social (o destino das garotas sem perspectivas que, na cidade, acabam se caindo no ramo da prostituição), mas volta para o mundo de encantamentos que a protagonista conhece tão bem. Porque, no fim das contas, não importa de onde nós viemos, por onde nós passamos, o nosso verdadeiro lugar, aquele a que pertencemos, é justo onde escolhemos para fincarmos raízes. Postcards from the Zoo faz todo esse percurso para chegar no mesmo ponto, mas nunca seremos os mesmos quando voltamos. Esse é sem dúvidas um filme especial sobre o estar e ficar no mundo.

3 comentários:

Leandro Afonso disse...

Desses, só vi em DVD TUBARÃO. Em última visita ele permaneceu fantástico, imagino que vê-lo no cinema potencialize mais as qualidades que a precariedade de efeitos. Inveja.

Sobre o Miguel Gomes, vi o AQUELE QUERIDO MÊS DE AGOSTO, mas não parei de pensar que ele deveria ser bem melhor com legenda. Você viu com ou sem legenda?

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Depois de muitos anos, revi TUBARÃO, temente me decepcionar, mas que nada, Spielberg é mestre.

O Falcão Maltês

Rafael Carvalho disse...

Leandro, potencializa mesmo, além do clima geral de empolgação de todos pelo filme a ser visto no cinema. Sobre Aquele Querido..., vi na Mostra em Conquista, passou com legenda completa. Mas uma solução pra gente é ver com legenda em inglês ou espanhol. Não tem legenda em português completa na net.

Antonio, também tive essa preocupação, mas acaba assim que a gente começa a ver o filme. É preciso vê-lo como fruto de uma época também, mas continua uma beleza.