quinta-feira, 5 de julho de 2012

Festival In-Edit



É, eu poderia ter visto mais coisas no Festival de Documentários Musicais In-Edit, mas o tempo tem sido carrasco. Também devia ter escrito antes, mas o tempo continua vilão. Do pouco que vi, algumas palavrinhas sobre eles:


Vou Rifar Meu Coração (Idem, Brasil, 2011)
Dir: Ana Rieper


Waldik Soriano, Odair José, Nelson Ned, Amado Batista, Wando, Agnaldo Timóteo, dentre tantos outros cantores brasileiros, cantaram o amor desiludido, o amor proibido, o amor amoral, o amor sincero. Atingiram com isso um público cativo que se identificava com as letras das músicas e fizeram delas seus hinos de vida. Distante de possuir reconhecimento no meio artístico, mas, na contramão, angariando popularidade em grandes proporções no Brasil (em especial nos rincões do interior, sobretudo no Norte e Nordeste), a música brega é celebrada em Vou Rifar Meu Coração, filme vencedor da competição brasileira do Festival In-Edit 2012.

O documentário destaca não somente as canções e cantores que fizeram sucesso com esse tipo de música muitas vezes visto com “marginalizado”, mas principalmente com pessoas anônimas que nutrem identificação com o gênero, caminho mais sincero para se fazer conhecer as razões pelas quais a música brega tanto toca essas pessoas. Dentre momentos engraçados e as mais variadas figuras e suas histórias de amor, fica na tristeza das músicas e suas letras que se nutrem das próprias situações vividas pelas pessoas, o diálogo sem rodeios com um público que se enxerga naqueles personagens e vivências, uma espécie de comunhão de corações partidos que se reconhecem na dor do amor. Vou Rifar Meu Coração busca fazer um retrato sincero de um tipo de identificação e mostra o quanto isso pode ser forte.


George Harrison: Living in the Material World (Idem, EUA, 2011)
Dir: Martin Scorsese


Dos integrantes dos Beatles, George Harrison talvez seja um dos menos midiatizados e vangloriados pelo grande público (salvo pelo punhado de beatlemaníacos que o têm como um de seus preferidos da banda inglesa). Vem daí o interesse por essa figura introspectiva, e talvez por isso Scorsese vá se acercando de conhecê-lo através do depoimento das pessoas que o tiveram próximo, além dele mesmo falando em outros materiais à disposição. Uma das qualidades do filme é passar longe de um posicionamento de adoração, ao mesmo tempo em que consegue vangloriar o talento de Harrison na sua postura mais tranquila e menos em polvorosa (à sombra da efusão que John Lennon e Paul McCartney provocam), mas ainda assim de vital importância para o sucesso que os Beatles conquistaram e consagraram ao longo do tempo.

Com uma edição equilibradíssima que organiza mais de 3 horas de filme, acompanhamos cronologicamente a trajetória de Harrison, mas menos por um viés biográfico e mais como uma junção à trajetória na banda inglesa, depois ganhando outros projetos de vida, como discos solo e produção de cinema (em especial, junto ao Monty Python). A partir disso é que vão surgindo os aspectos da vida pessoal  de Harrison, infância, personalidade, preferências e intimidade. Scorsese dá tempo para que o espectador conheça as várias fases da carreira do artista, e suas facetas pessoais e profissionais, com propriedade, sem atropelos, mas com admiração devida. Sai-se do cinema cansado, mas satisfeito.


Clementina de Jesus, Rainha Quelé (Idem, Brasil, 2011)
Dir: Werinton Kermes e Heron Coelho

Outro caso de pouco reconhecimento musical que se quer resgatar encontra-se nesse Clementina de Jesus, Rainha Quelé. A sambista descoberta tardiamente em meados dos anos 60 pelo produtor Hermínio Bello de Carvalho, começou a cantar por acaso, encantando com sua voz rouca e potente. Trouxe do samba diversas expressões musicais regionais, como jongos, corimas e partidos, além da valorização e resgate de ritmos africanos. Uma das forças dessa história é mostrar como essa mulher, mais velha, negra, pobre e de pouca escolaridade conseguiu marcar seu nome na história da musica popular brasileira, ainda assim pouco conhecida e reverenciada nos dias de hoje.

Talvez por isso, o documentário esteja cercado por um tom de exaltação da figura de Clementina (não só como intérprete, mas como pessoa de imenso coração e carinho), o que não deixa de torná-lo um partido a favor, filme de uma nota só, defendendo e enaltecendo a documentada, o que nem sempre tem resultados satisfatórios, pois entendemos desde já a importância que Clementina teve, embora essa glorificação esteja sempre martelando na tela. Temos, portanto, uma grande artista, vindo à tona numa proposta justa, mas num documentário um tanto quadrado.


2 comentários:

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Desculpe-me pelo sumiço. Estava enrolado com o lançamento de dois livros.Mas já estou de volta! Fiquei interessado no documentário sobre a Clementina.

O Falcão Maltês

Rafael Carvalho disse...

Antonio, o filme da Clementina de Jesus vale mais para conhecer o trabalho dela do que como produto cinematográfico mesmo. Mas tá valendo.