sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Sem nuance, sem cor

Histórias Cruzadas (The Help, EUA/Índia/Emirados Árabes, 2011)
Dir: Tate Taylor



Que os negros foram vítimas de preconceito racial por muito tempo nos Estados Unidos, disso eu já sabia (e continuam sendo, como em muitos outros lugares do globo). Que a segregação racial era permitida por decreto de lei até pouco tempo, eu também já tinha conhecimento. Que as relações trabalhistas para essa parcela da população eram ainda mais complicadas e exploradoras, não é difícil imaginar. Que os negros tiveram sua história manchada pela imposição de superioridade dos brancos, isso é o mais lamentável de tudo. Então, o que Histórias Cruzadas tem de relevante para contar?

Se “nada” é a resposta mais pertinente a essa questão, o filme se torna ainda mais desproposital em seu intuito inicialmente benevolente por se configurar como uma colagem de histórias de vidas marcadas pelo preconceito latente de uma tal sociedade. Conhecemos o ponto de vista de várias mulheres negras e seus casos de discriminação, mas o filme não consegue apresentar nenhuma delas como algo que fuja do óbvio. Pior, o filme alcança, quase sempre, o tom da caricatura e do maniqueísmo, simplificando ainda mais a situação que quer combater, mirando no preconceito e acertando no constrangimento.

Parece haver boas intenções em denunciar o preconceito racial, mas é tudo tão raso que fica difícil encontrar razões para falar bem do filme. E é muito fácil ficar do lado dos oprimidos e dos coitadinhos, em detrimentos dos patrões maus e desrespeitosos, quando esses últimos são pintados como grandes vilões, esquecendo-se de motivos sociais, históricos e políticos. Assim, o filme se torna até ingênuo, não dá pra levá-lo tão a sério como a situação pede, e esse é seu maior pecado.

Há ainda um certo servilismo no ar quando uma jovem jornalista, branca, decide escrever um livro que relata as histórias das empregadas domésticas, negras, no estado do Mississipi, em plena década de 60. É preciso que um branco seja o anjo redentor da classe oprimida, que com sua bondade é responsável por tentar mudar a vida realmente difícil daquelas mulheres.

Aí, o que deveria ser emocionante e verdadeiramente triste, acaba soando como algo forjado para aquilo, e não funciona. O filme ainda se ancora em boas atuações, como a de Viola Davis, interpretando uma das principais empregadas e dona de uma história de vida dura, que encontra força para denunciar sua dignidade ferida há tempos, defendendo sua personagem sem exageros dramáticos. O mesmo não se pode dizer das atuações caricaturais de Octavia Spencer (a que carrega mais nos trejeitos), Jessica Chastain e Bryce Dallas Howard. Destaque também para uma Alisson Janney que administra uma personagem com mais nuances que as outras.

E é exatamente isso que falta em grande parte dos papéis do filme. A questão do preconceito racial possui muito mais raízes, contrastes e desdobramentos do que o filme apresenta, o que adianta pouco para discutir o problema com um mínimo de relevância. Enfim, é uma obra com claro propósito de emocionar com movimentos rasteiros, vangloriando-se de seu espírito aparentemente engajado, mas que diz muito pouco sobre o assunto sobre o qual se debruça.

Disfarçada de libelo contra o preconceito que não consegue sair do lugar-comum negros-oprimidos X brancos-opressores, Histórias Cruzadas só tem algo de bom: a constituição técnica de época, com ótimos trabalhos de direção de arte e figurinos, esses últimos estilosos ao extremo, inclusive os das empregadas pobres. É como um embrulho bonito para um conteúdo que não tem nada de belo, nada de limpo. Tão asséptico como a maneira utilizada para falar de tema tão espinhoso e contundente.

2 comentários:

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Finalmente alguém conseguiu analisar HISTÓRIAS CRUZADAS sensatamente. O filme realmente não sai do lugar comum. Vou ficar decepcionado se a Viola levar o Oscar.

O Falcão Maltês

Rafael Carvalho disse...

Antonio, sei de muita gente que compartilha dessa nossa opinião. Mas acho que a atuação da Viola é a melhor coisa do filme, de longe. Ela confere dignidade a uma boa personagem. Mas o lugar-comum e o desenvolvimento raso reina nesse filme medíocre.