segunda-feira, 24 de maio de 2010

Comodidade espirituosa

Chico Xavier (Idem, Brasil, 2010)
Dir: Daniel Filho



Daniel Filho é bem esperto. Começa seu mais novo filme se resguardando. Os letreiros iniciais informam ao espectador que numa cinebiografia não é possível incluir todas as situações importantes de vida de uma personalidade (óbvio!) e que, por isso, é melhor ser fiel aos momentos mais conhecidos. Ou seja, ser óbvio. É a busca por uma segurança. A palavra certa é quase “comodidade”.

O filme poderia encalhar em dois problemas. Primeiro porque muito já se conhece da história do mais famoso médium brasileiro; e também porque o filme trata (e acredita, pois temos uma visão totalmente a favor) nas crenças da doutrina espírita. Mas crer em espíritos e em comunicação com o mundo dos mortos ainda é algo pouco aceito por muitas pessoas.

Ainda assim, o resultado final é melhor do que o esperado, tendo o filme um equilíbrio bastante interessante entre a comodidade e a pertinência, muito por conta de uma certa leveza narrativa que nunca exalta seu biografado além do que já é comum para as pessoas que o cercam e que aprenderam a segui-lo em sua trajetória espiritual. Chico vai ser considerado por muitos como um homem santo e é muito fácil identificá-lo como alguém de bom coração, sempre. A questão é que não duvidamos disso, pois nossa própria memória já registrou, anteriormente, essa mesma impressão. Somos familiares a ela.

Se Daniel Filho e equipe não criam nada de novo, também não fazem desandar a narrativa. O máximo que temos é o conhecimento de determinadas situações da vida de Chico e sua relação com familiares, amigos e conhecidos. Nesse sentido, o filme transcorre como algo pontual demais, salvo muitas vezes por uma boa edição que faz o filme fluir.

Pena que a fotografia, por exemplo, esteja fraquíssima. Tony Ramos, um dos melhores do elenco, em uma cena chave num tribunal, é altamente prejudicado por uma má iluminação. Nelson Xavier, por sua vez, se mostrou ótima escolha para o protagonista, embora Ângelo Antônio confira dignidade e destreza no tom exato para o papel.

Há também no filme uma tendência à redundância, uma espécie de ranço da linguagem televisiva, quando não se valoriza a capacidade interpretativa do espectador (os vídeos transmitidos durante os créditos, por exemplo, ao invés de serem aproveitados para inserir momentos outros da vida de Chico, são usados para corroborar determinadas cenas do filme, como se elas não se bastassem por si sós).

Chico Xavier não assume riscos e se aproveita tanto de um tratamento de linguagem mais popular, como de uma temática de interesse de grande parte do público brasileiro (não só pelo expressivo número de espíritas, como da simpatia que os católicos possuem por Chico e sua doutrina. Lula, O Filho do Brasil acaba de ganhar um companheiro.

sábado, 15 de maio de 2010

Curtinhas

Entre Irmãos (Brothers, EUA, 2009)
Dir: Jim Sheridan


Talvez meu erro foi ter visto esse filme depois de conferir o longa original do qual foi adaptado. O filme dinamarquês de Susanne Bier (que realizou o excelente Depois do Casamento) é um bom trabalho somente, mas possui um ótimo material que a versão norte-americana copia descaradamente, numa adaptação vazia e sem emoção. O tipo de trabalho mecânico que é filmar uma mesma história de um mesmo jeito. O irlandês Jim Sheridan podia muito bem não ter manchado sua filmografia com esse trabalho.

A história gira em torno de uma mulher (Natalie Portman) cujo marido (Tobey Maguire) é mandado para uma missão no Afeganistão como líder de uma equipe militar, mas acaba sofrendo um atentado e é dado como morto. Assim, sua esposa acaba se aproximando do cunhado (Jake Gyllenhaal), recém-saído da cadeia. Mesmo que a adaptação seja bastante fiel, fica explícita a falta de intimidade com o material original porque os personagens são todos complexos, mas o filme parece não saber o que fazer com eles e com as situações nas quais esbarram. Tudo soa frio e distante demais.

PS: num ano em que vimos Werner Herzog se apropriar de um filme para fazer uma versão totalmente pessoal e pertinente a seu projeto de cinema, Entre Irmãos é mais uma vergonha da onda de remakes atual.


Mary e Max – Uma Amizade Diferente (Mary and Max, EUA/Austrália, 2009)
Dir: Adam Elliot


No longa Nunca Te Vi, Sempre Te Amei, Anne Bancroft e Anthony Hopkins, ela nos Estados Unidos, ele na Inglaterra, travam uma longa amizade através de cartas. É justamente essa a premissa de Mary e Max, animação australiana, esnobada no Oscar, sem motivo aparente. O tom do longa é um tanto diferente, mas traz um roteiro tão gostoso e, ao mesmo tempo, complexo na construção de seus personagens, que é, desde então, uma das grandes produções do ano.Mary é uma garotinha australiana solitária que por acaso resolve escrever para alguém nos EUA.

Esse alguém é o problemático e sociofóbico Max. A troca de correspondências entre os dois serve não só para que eles “desabafem” suas preocupações um com o outro, mas também para que o espectador passe a conhecê-los melhor. A riqueza de características, bem como seus medos, anseios e angústias diante do mundo, são revelados através de boas doses de humor. Mas o filme nunca pesa a mão no drama nem na comédia. O trabalho de direção de arte é primoroso em detalhes, caracterizando bem o estilo de vida dos dois. No fundo, são duas pessoas que mostram o quanto precisamos uns dos outros. Mas não de qualquer um.


Tulpan (Idem, Casaquistão/Alemanha/Suíça/Polônia/Rússia, 2008)
Dir: Sergei Dvortsevoy


Filme que fez enorme sucesso na Mostra de São Paulo em 2008 (depois de ter vencido o prêmio no Um Certain Regard, no Festival de Cannes), chegou aos cinemas brasileiros sem muito alarde. A própria narrativa do longa é mais contemplativa e sem clímaxes ou arroubos dramáticos. Mas é uma grata surpresa vinda, inesperadamente, do Cazaquistão, país de pouca tradição cinematográfica. A aridez dos desertos e as famílias pobres que vivem no meio do nada dão conteúdo para acompanharmos a história de Asa (Ashkat Kuchencherekov), jovem recém-chegado da guerra e que busca uma esposa. Mas a única pretendente do local, a Tulpan do título, lhe esnoba por causa das enormes orelhas que ele tem.

O filme possui aquele ritmo lento e atmosfera de contemplação, uma vez que praticamente nada acontece naquelas bandas. O filme segue como observação de um certo tipo de vida parada no tempo, mesmo que o protagonista esteja à procura de um rumo para sua vida (ele mora com a família da irmã, sob o olhar mal-humorado do cunhado). Mesmo assim, o filme nunca assume um viés panfletário de crítica social pedante, muito embora deixe espaço para esse tipo de indagação, a cargo do espectador (o mesmo tipo de sensação causada pelo documentário Camelos Também Choram). Mais vale ao filme acompanhar os descaminhos de Asa em busca dessa promessa de felicidade.


Import/Export (Idem, Áustria, 2007)
Dir: Ulrich Seidl


Merece um prêmio a pessoa que conseguir assistir a esse filme todinho de uma só vez. Import/Export passa como obra autoimportante para denunciar como os imigrantes europeus passam por maus bocados longe de seus países natais, na tentativa de conseguir vida melhor, mas só encontram humilhação e desprezo. O problema é que a gente já sabe disso há muito tempo e o filme acaba por se tornar um apanhado de lugares-comuns, filmado com uma câmera estática que valoriza longos planos como se isso fosse uma comprovação de uma certa estética para esse tipo de produto.

A ideia de importar/exportar pessoas, como se fossem mercadorias, é interessante, mas passa batido devido à falta de um mínimo de complexidade para os personagens. Cenas pornôs tentam conferir potência (e polêmica) ao filme, agregadas a uma sensação de humilhação, mas tudo soa raso demais. O filme de pouco mais de duas horas de duração parece ter cinco, tão maçante que é.

domingo, 9 de maio de 2010

Confiança no humano, ainda

Rashomon (Idem, Japão, 1950)
Dir: Akira Kurosawa



Acima de tudo, Kurosawa é um grande humanista. Rashomon, filme do início de sua carreira, que lhe valeu o Leão de Ouro no Festival de Veneza e o tornou conhecido no mundo todo, é um dos maiores exemplos disso. E é, até então, meu Kurosawa preferido.

No Japão medieval, um homem viaja com sua mulher pela floresta. São abordados por um bandido. A mulher é estuprada e o marido é morto. Mas a grande sacada do filme é que essa história será reconstituída através das versões de cada envolvido durante um julgamento.

Bandido, mulher, marido (este por meio de um médium) e uma testemunha, irão dar, cada qual, sua versão dos fatos, fazendo do filme um pequeno tratado sobre as verdades e mentiras que são evocadas quando precisamos nos autoproteger.

Toshiro Mifune, grande ator que manteve uma duradoura parceria com o mestre japonês, surge aqui insano e perigoso. Mas é Machiko Kyô, ao interpretar a esposa violentada, que nos brinda com uma atuação visceral e desesperadora de uma mulher que vê sua vida e honra serem destruídas.

Kurosawa conduz a história com uma segurança ímpar, amparado pelo ótimo texto, sempre intrigante, baseado em dois contos japoneses. A primorosa fotografia em preto-e-branco, por sua vez, faz um paralelo interessante entre os flashbacks, sempre mais luminosos, e o tempo narrativo presente, com um tom mais embaçado e difuso. A lembrança, talvez por representar a convicção de cada personagem e sua versão vantajosa, precisa ser mais “clara” do que a representação do real, em que as coisas podem ser distorcidas.

Além disso, a fluidez do filme se aproveita bastante de uma montagem cuidadosa. Na verdade, o filme inicia com três homens que se protegem da chuva num velho estaleiro. Dois deles contam ao outro o caso do assassinato que possui suas várias versões. É essa edição cautelosa que organiza cada tempo narrativo para nada soar perdido ou confuso.

Kurosawa se vale dessa estrutura narrativa não somente para trabalhar a forma de seu filme e nos falar sobre as diversas facetas da verdade, mas principalmente para revelar a sua confiança no ser humano, apesar de sua possível inclinação para as coisas vis.

No fim das contas, menos importa qual das versões pode ser a verdadeira (embora exista no fim do filme um vestígio de solução), mas sim discutir como o ser humano é capaz de mentir e enganar o outro para proveito próprio e, mais complexo ainda, identificar esse mesmo ser humano como alguém capaz de atos de bondade, por mais que isso signifique seu próprio sacrifício. Yin e yang, o bem e o mal, em um só ser.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Filmes de Abril


1. Coração de Cristal (Werner Herzog, Alemanha Ocidental, 1976) ****

2. Brothers (Susanne Bier, Dinamarca, 2004) ***½

3. Ligações Perigosas (Stephen Frears, Reino Unido/EUA, 1988) ****½

4. Otávio e as Letras (Marcelo Masagão, Brasil, 2007) *½

5. Paixões que Alucinam (Samuel Fuller, EUA, 1963) ****

6. Ilha do Medo (Martin Scorsese, EUA, 2010) ****

7. Sede de Sangue (Park Chan-wook, Coreia do Sul, 2009) **

8. O Grande Lebowski (Joel e Ethan Coen, EUA/Reino Unido, 1998) ***½

9. Moborosi – A Luz da Ilusão (Hirokazu Kore-eda, Japão, 1995) ***

10. Alta Fidelidade (Stephen Frears, EUA/Reino Unido, 2000) ****

11. Entre Irmãos (Jim Sheridan, EUA, 2009) **

12. Como Treinar Seu Dragão (Dean DeBlois e Chris Sanders, EUA, 2010) ***½

13. O Livro de Eli (Albert e Allen Hughes, EUA, 2010) **

14. I’m a Cyborg, But That’s Ok (Park Chan-wook, Coreia do Sul, 2006) *

15. As Sete Vampiras (Ivan Cardoso, Brasil, 1986) ***

16. Tulpan (Sergei Dvortsevoy, Cazaquistão/Alemanha/Polônia/Rússia/Suíça, 2008) ****

17. Mary e Max – Uma Amizade Diferente (Adam Elliot, Austrália, 2009) ****

18. Halloween – A Noite do Terror (John Carpenter, EUA, 1978) ****½

19. O Jogador (Robert Altman, EUA, 1992) ***½

20. Alexandre Nevsky (Sergei Eisenstein e Dmitri Vasilyev, União Soviética, 1938) ****

21. Cheri (Stephen Frears, Reino Unido/França/Alemanha, 2009) ****

22. Ivan, O Terrível – Parte I (Sergei Eisenstein, União Soviética, 1944) *****

23. Rocha que Voa (Eryk Rocha , Brasil/Cuba, 2002) ****

24. Depois da Vida (Hirokazu Kore-eda, Japão, 1998) **½

25. Monty Python e o Sentido da Vida (Terry Jones e Terry Gilliam, Reino Unido, 1983) ***

26. Ivan, O Terrível – Parte II (Sergei Eisenstein, União Soviética, 1958) *****


Revisões:

27. Sr. Vingança (Park Chan-wook, Coreia do Sul, 2002) ****½


sábado, 24 de abril de 2010

Insanos e corruptíveis

A história é praticamente a mesma: policia corrupto e viciado trabalha “contra” o crime numa cidade grande dos EUA. Somente quando o alemão Werner Herzog lançou Vício Frenético ano passado (feito em solo norte-americano), descobri que se tratava de uma “adaptação” de um filme de Abel Ferrara da década de 90. No entanto, muitos rechaçaram a ideia de que se trata de uma adaptação porque os filmes, apesar de compartilharem o mesmo argumento, possuem desdobramentos distintos, relacionados cada qual com o universo temático e formal de seus realizadores. No final das contas, são dois grandes exemplares do bom cinema.


Vício Frenético (Bad Lieutenant, EUA, 1992)
Dir: Abel Ferrara



Abel Ferrara faz parte do grupo de grandes cineastas undergroud dos EUA (diga se não é, Jim Jarmusch?). Seus filmes, à primeira vista, podem parecer grandes observações de personagens ou situações, quase como crônicas da vida urbana. Mas esse Vício Frenético evolui de uma situação paradoxal (policial corrupto, viciado em drogas e apostas) para um dilema moral que põe em cheque as convicções do próprio protagonista. O impasse começa quando o tenente vivido por Harvey Keitel precisa encontrar os jovens que estupraram violentamente uma freira.

A questão religiosa parece ser uma constante nos filmes do diretor (vide o belo Maria), e surge aqui através do perdão (tema tão caro à Igreja Católica). O personagem irá se enxergar nos próprios criminosos que a freira irá perdoar pelo crime que lhe infringiram. Perturbado, ele busca uma explicação para tal ato e também uma forma de redenção, a seu próprio modo, sem deixar de ser o personagem torpe que é. Harvey Keitel, por sua vez, é o grande dono do filme, numa atuação absurda e potente de um homem consumido pelo próprio vício. A cena na igreja, com a aparição de Cristo, é de uma intensidade única. Nunca pensei que iria chorar por um personagem assim.


Vício Frenético (Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans, EUA, 2009)
Dir: Werner Herzog


Se os conflitos religiosos não pertencem ao universo de Herzog, a decisão mais acertada foi aproximar o filme de seu tema mais caro: o conflito do homem versus a natureza. Aqui, ganha contornos de compulsão na figura do tenente que se envolve cada vez mais em problemas profissionais, familiares e ainda nas enrascadas que sua namorada, prostituta de luxo, arruma junto a criminosos. Apesar disso, as drogas são o conforto de Terence McDonagh (Nicolas Cage), um vício que ele cultiva como hobby.

Interessante notar que Herzog adota um tom diferenciado nesse prjeto. O que no anterior estava mais próximo de um dilema moral que perturba seu protagonista, aqui o personagem parece não ter noção da gravidade das enrascadas em que se afunda. Ele, ao contrário, busca se divertir e lucrar ao máximo em todas as situações. Mais uma vez, um grande ator assume o personagem principal de forma hipnótica e eletrizante, através de um Nicolas Cage que há muito tempo nos devia uma atuação digna de nota. Há também momentos sensacionais, como a cena da colher perdida ou a da alma do bandido dançando. Insano e irresponsável, o filme é um retrato diferente e dilacerante da compulsão humana.

domingo, 18 de abril de 2010

Sede demais ao pote

Sede de Sangue (Bakjwi, Coreia do Sul, 2009)
Dir: Park Chan-wook


A ótima fase pela qual passa o cinema sulcoreano é bastante coerente com a qualidade geral de seus filmes. Park Chan-wook foi o primeiro cineasta desse país que eu descobri e que me maravilhou com a obra-prima Oldboy. Uma pena que seu mais novo filme se atrapalhe tanto ao abraçar questionamentos religiosos, sexuais, éticos e estéticos.

Talvez a tentativa de integrar estilização e bizarrice fez com que o cineasta buscasse um tom mais ágil, que se confundiu com atropelo (algo perceptível também no longa anterior do cineasta, o ainda inédito no país I’m a Cyborg, But That’s Ok). O argumento, no entanto, é ótimo: padre recebe transfusão de sangue contaminado e se torna um vampiro; sangue humano é seu alimento e sem isso, ele morre.

O universo vampiresco é abraçado pelo filme em grande parte respeitando sua mitologia, mas interessa muito mais ao diretor falar de questões relacionadas ao comportamento de seu protagonista. As motivações iniciais do padre apontam para a caridade e a ajuda ao próximo. Quando o experimento como cobaia num projeto médico dá errado, o personagem precisa lidar com sua nova forma de vida e sobrevivência.

O que começou com a intenção de ajudar o outro, agora significa roubar do outro para sua própria sobrevivência. Mas agregado a isso, surge um interessante subtexto sexual. A satisfação dele por sangue acaba se tornando algo como um desejo reprimido pelo prazer carnal. O fato dele ser padre torna tudo mais controverso. Talvez essa seja uma das melhores sacadas do longa.

No entanto, falta em alguns momentos do filme certo tino para organizar todos os detalhes de uma história que avança numa profusão de situações bizarras e que nem sempre acrescentam algo à narrativa. Quando nos damos conta, detalhes já passaram e não voltam mais. Às vezes nem nos damos conta. Por mais que existam aqui e ali ótimos momentos, uma edição mais concisa faria muito bem ao filme.

Song Kang-ho equilibra bem o dilema do protagonista, mas a atriz Kim Ok-bin é o grande destaque, cuja personagem evolui da vítima em busca de prazer para a algoz vingativa, cheia de ódio contra o mundo, a partir de uma reviravolta que reforça bastante o grande cerne do filme: o que fazer quando sua sobrevivência depende da “destruição” do outro e como controlar um desejo interior?

sábado, 17 de abril de 2010

Cannes 2010


A seleção oficial do Festival de Cannes, divulgada recentemente, não deixa de conter aqueles velhos queridinhos do maior festival de cinema do mundo. Mesmo assim, este ano promete algumas novidades. Veja a lista dos filmes da competição:

Another Year, Mike Leigh (Reino Unido)
Biutiful, Alejandro González Iñárritu (Espanha/ México)
Burnt by the Sun 2, Nikita Mikhalkov (Alemanha/ França/ Rússia)
Certified Copy, Abbas Kiarostami (França/ Itália/ Irã)
Fair Game, Doug Liman (EUA)
Hors-la-loi, Rachid Bouchareb (França/ Bélgica/ Algéria)
The Housemaid, Im Sang-soo (Coréia do Sul)
La Nostra Vita, Daniele Luchetti (Itália/ França)
La Princesse de Montpensier, Bertrand Tavernier (França)
Of Gods and Men, Xavier Beauvois (França)
Outrage, Takeshi Kitano (Japão)
Poetry, Lee Chang-dong (Coréia do Sul)
A Screaming Man, Mahamat-Saleh Haroun (França/ Bélgica/ Chade)
Tourneé, Mathieu Amalric (França)
Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives, Apichatpong Weerasethakul (Espanha/ Tailândia/ Alemanha/ Reino Unido/ França)
You, My Joy, Sergey Loznitsa (Ucrânia/ Alemanha)
Tender Son – The Frankenstein Project, Kornél Mundruczó (Hungria)
Chongqing Blues, Wang Xiaoshuai (China)
Route Irish, Ken Loach (Reino Unido)


De cara, meu interesse recai sobre o novo filme de Mike Leigh, um dos grandes cineastas do cinema britânico e que nunca me decepcionou. Takeshe Kitano, depois do péssimo Glória ao Cineasta, precisa mostrar porque é um ótimo cineasta. O pouco que conheço do cinema politizado de Rachid Bouchareb e Daniele Luchetti me agradou bastante, espero que continuem assim. E uma ida ao IMDB me revelou que o ótimo ator francês Mathieu Amalric já dirigia filmes há um bom tempo. Bom saber!

Alejandro Gonzalez Inarritu, depois do irregular Babel, parece voltar às origens latinas; espero que com melhores resultados. Uma das grandes surpresas é que o único filme norte-americano (que eles adoram) na seleção pertence a Doug Liman, cineasta que não costuma integrar eventos assim, responsáveis por fitas de ação que variam de bons (A Identidade Bourne) a verdadeiras negações (Sr. e Sra. Smith e Jumper). Destaque para a representação, mais uma vez, do cinema sulcoreano. E espero que os novos filmes de Abbas Kiarostami e do impronunciável Apichatpong Weerasethakul (Joe, para os ocidentais) me animem a conhecer a filmografia desses diretores. Qual deles encantará mais o júri presidido pelo tresloucado Tim Burton? Veremos. O festival acontece entre os dias 12 a 23 de maio.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Universo particular

Onde Vivem os Monstros (Where the Wild Things Are, EUA, 2009)
Dir: Spike Jonze


Por trás da aparência infanto-juvenil que o novo filme de Spike Jonze possa ter, existe todo um universo psicológico e complexo, mesmo que seja o de uma criança. Max (Max Records) é um garoto hiperativo, mas não tem com quem compartilhar sua fértil imaginação nem sua disposição para a aventura.

Sua irmã mais velha está descobrindo a adolescência ao lado dos amigos maiores enquanto sua mãe divorciada está mais preocupada com o trabalho; seu pai é figura ausente, não se sabe por que motivo. A solidão de Max dá vazão a sua mente fantasiosa.

Assim, durante um briga com a mãe, o garoto foge pela rua e, em seguida, já se encontra num mundo imaginário habitado por estranhas criaturas que se assemelham a bonecos gigantes. Lá, Max será proclamado rei e dono de todo aquele território, como gostaria de ser toda criança.

O filme abraça essa proposta lúdica da forma mais deliciosa possível. Ao mesmo tempo que todo aquele universo representa os anseios e questionamentos do protagonista, sendo possível identificar personalidades do próprio Max dentro de cada um daqueles seres, o inconsciente do garoto parece trabalhar no sentido de levar para aquele ambiente situações e experiências que ele vivencia e conhece no mundo real, sem que isso passe necessariamente pelo racional do garoto.

Por isso, o mundo imaginário e fantasioso de Max, cheio de aventuras, brincadeiras, diversões e sonhos de grandeza, se mistura com suas inseguranças e problemas de menino, ganhando dimensões psicológicas que na tela transparecem com uma leveza absurda, residindo nas entrelinhas. Assim, o infantil se torna complexo, mas tudo vem numa roupagem deliciosa de brincadeira de criança.


O ator mirim Max Records trabalha com uma naturalidade impressionante, da mesma forma que Jonze conduz tudo com enorme fluidez, porque ele parece entender exatamente a cabeça de seu protagonista. A trilha sonora é uma delícia, assim como aspecto retrô do desenho dos bichos da floresta. Bichos selvagens que parecem habitar cada um de nós.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Curtinhas

O Tempo que Resta (Le Temps qui Rest, França, 2005)
Dir: François Ozon


É de uma maturidade enorme a forma como François Ozon lida com a morte nesse seu filme. Romain (Melvil Poupaud) é um jovem fotógrafo homossexual que descobre um câncer em fase terminal, com possibilidades remotas de cura, e decide não iniciar o tratamento; possui só alguns meses de vida. Ozon, também roteirista, se recusa a cair no lugar-comum e fazer seu personagem se redimir com todos ao redor, principalmente porque Romain demonstra traços de prepotência e egocentrismo. Possui relações conturbadas tanto com o parceiro quanto com a própria família, em especial com a irmã.

Nesse percurso, Romain vai buscar na solidão uma forma de lidar com a proximidade de sua própria morte. Talvez por isso ele só vai contar para a avó sobre sua doença. Vivida por uma Jeanne Moreau ainda em desempenho incrível, ela parece ser o eixo emocional do rapaz e o encontro dos dois é ao mesmo tempo triste e duro (num momento, Romain diz que só contou de sua doença para a avó porque eles eram iguais: estavam pertos de morrer!). Mesmo sem rompantes dramáticos ao tratar de assunto tão doloroso, há momentos tristíssimos como quando ele se despede da avó ou quando tira fotos da irmã às escondidas. Ozon nos entrega um filme minimalista, mas não menos comovente.


Fando e Lis (Fando y Lis, México, 1968)
Dir: Alejandro Jodorowsky


A busca de um casal pela cidade sagrada de Tar é o argumento principal desse primeiro longa-metragem de Alejandro Jodorowsky, cineasta controverso que se aproxima muito da surrealidade para oferecer sua visão de mundo. Por trás da ideia amplamente difundida de que seus filmes não possuem lógica, Fando e Lis faz muito sentido em sua proposta de acompanhar dois personagens na busca por esse lugar ideal que nada mais é do que a representação da felicidade. No percurso para encontrá-la, os dois irão se deparar com o que de mais grotesco, estranho e brutal existe no ser humano.

Além disso, o filme faz uma reflexão (ou sou eu quem vê essa reflexão, não sei) da necessidade do outro como forma de apoio, amparo. A relação conturbada de Fando (Sergio Kleiner) com sua parceira Lis (Diana Mariscal), ela uma paralítica, passa por altos e baixos, do mais puro gesto de carinho até o mais puro ato de crueldade e rejeição. Isso para que os personagens possam se dar conta de que o caminho para a realização só se faz com ajuda de um outro, principalmente quando a beleza se acabou da Terra e o trajeto parece sem fim.


Aconteceu em Woodstock (Taking Woodstock, EUA, 2009)
Dir: Ang Lee


Mais um belo trabalho de Ang Lee que chegou ao Brasil no mesmo ano que aportou por aqui, com bastante atraso, o belo Desejo e Perigo. Para os desavisados, o filme pode parecer uma reconstituição de um dos eventos musicais mais importantes do século passado. Entretanto, o que interessa ao cineasta são os bastidores. Para isso, ele se apega a Elliot Tiber (Demetri Martin), um rapaz que vive com o pai (Henry Goodman) e a mãe (Imelda Stauton, em ótima e hilária atuação) num rancho-pensão, até o momento em que os organizadores de Woodstock requisitam o local para o concerto de rock.

O roteiro evolui da formação de todo o evento, dado a grandiosidade e enorme quantidade de gente a chegar, para uma crônica de maturidade de seu personagem principal. Elliot é ingênuo e vive sob as asas dos pais, mas, no contato com toda aquela efervescência cultural (que iria mudar os rumos da sociedade) vai entender o sentido de buscar um caminho próprio, longe de amarras, numa espécie de rito de libertação. Ele se transforma junto com seu tempo.


Um Sonho Possível (The Blind Side, EUA, 2009)
Dir: John Lee Hancock


Eu podia jurar que esse filme seria muito pior do que acaba sendo. Parecia a típica história de superação de um garoto pobre e de redenção para uma família rica, explorada por um roteiro golpista. No entanto, existe um tom de verdade nas ações bondosas da família que irá acolher Michael, (Quinton Aaron) um garoto negro, pobre e sem lar. Destaque para a mãe vivida por uma Sandra Bullock caracterizada de perua burguesa que vai se tornar, desde o início, o grande suporte de Michael.

Esse talvez seja o grande acerto do filme: não fazer da personagem de Bullock a típica ricaça e arrogante que irá se transformar depois de acolher Michael. Pelo contrário, desde o início é ela quem vai trazê-lo para casa e fazer de tudo para que ele seja bem sucedido no colégio e, principalmente, se torne um ótimo jogador de futebol americano, destacando assim seus dotes atléticos. Bullock está melhor do que o normal para uma atriz como ela (que faz uma trapalhada após outra), o que não justifica seu Oscar. A obra ainda se sabota ao exceder toda essa bondade como algo inerente àqueles personagens, gerando um tom forçado ao filme. Parece o caminho que estava destinado a seguir por falta de um direcionamento melhor e mais maduro.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Filmes de março


1. 13 Tzameti (Géla Babluani, França, 2005) ***½

2. The Cove – A Baía da Vergonha (Louie Psihoyos, EUA, 2009) ***

3. Eu Sei que Vou Te Amar (Arnaldo Jabor, Brasil, 1986) ***½

4. Coração Louco (Scott Cooper, EUA, 2009) ***

5. Italiano para Principiantes (Lone Scherfig, Dinamarca/Suécia, 2000) ***½

6. Intervalo Clandestino (Eryk Rocha, Brasil, 2005) ***

7. O Gosto dos Outros (Agnès Jaoui, França, 2000) ***½

8. O Piano (Jane Campion, Austrália/Nova Zelândia/França, 1993) ****

9. A Aura (Fabián Bielinsky, Argentina/Espanha/França, 2005) ****

10. O Lobisomem (Joe Johnston, EUA/Reino Unido, 2010) ***

11. As Consequências do Amor (Paolo Sorrentino, Itália, 2004) *****

12. Por uma Vida Melhor (Sam Mendes, EUA/Reino Unido, 2009) ****

13. Stroszek (Werner Herzog, Alemanha Ocidental, 1977) ***

14. Britsh Sounds (Jean-Luc Godard e Jean-Henri Roger, Reino Unido, 1970) ***

15. Il Divo (Paolo Sorrentino, Itália/França, 2008) ***

16. A Greve (Sergei Eisenstein, União Soviética, 1925) ****

17. Vampiros de Almas (Don Siegel, EUA, 1956) ***

18. Fitzcarraldo (Werner Herzog, Alemanha Ocidental/Peru, 1982) ****

19. Los Angeles – Cidade Proibida (Curtis Hanson, EUA, 1992) ****

20. Perseguidor Implacável (Don Siegel, EUA, 1971) ****½

21. Lunar (Duncan Jones, Reino Unido, 2009) ***

22. Invasores de Corpos (Philip Kaufman, EUA, 1978) ***

23. Coisas Belas e Sujas (Stephen Frears, Reino Unido, 2002) ***½

24. Aflição dos Sonhos (Les Blank, EUA, 1982) ***

25. Casamento à Indiana (Mira Nair, Índia/EUA/França/Itália/ Alemanha, 2001) ***

26. E Agora? Roubei um Rembrandt (Jannik Johansen, Dinamarca/Reino Unido, 2003) **½

27. Vício Frenético (Werner Herzog, EUA, 2009) ****


Revisões:

28. O Iluminado (Stanley Kubrick, EUA, 1980) ****½

29. Aguirre – A Cólera dos Deuses (Werner Herzog, Alemanha Ocidental, 1972) ****½

30. O Enigma de Kaspar Hauser (Werner Herzog, Alemanha Ocidental, 1974) ****½

31. Barravento (Glauber Rocha, Brasil, 1962) ***½

32. Mother – A Busca pela Verdade (Bong Joon-ho, Coreia do Sul, 2009) ****½

33. Rashomon (Akira Kurosawa, Japão, 1950) *****

34. Vício Frenético (Abel Ferrara, EUA, 1992) ****½