sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Pelo meio do caminho

Linha de Passe (Idem, Brasil, 2008)
Dir: Walter Salles e Daniela Thomas



Uma mulher e quatro filhos, um outro na barriga. É esse o núcleo familiar que os diretores Walter Salles e Daniela Thomas resolvem observar para compor seu mais novo filme. Digo observar porque seus personagens possuem vida própria e cada qual segue seu tortuoso caminho, acompanhados pelo carinho que os realizadores conferem a cada um deles, em igual tamanho. Depois do ótimo O Primeiro Dia e o excelente Terra Estrangeira, a dupla Salles-Thomas retorna com um filmaço.

Cleuza (Sandra Corveloni) é uma empregada doméstica, fanática por futebol e torcedora fiel do Corinthians, que batalha para sustentar os filhos na periferia de São Paulo. O mais velho é Dênis (João Baldasserini), um motoboy que se arrisca nas ruas da capital; Dinho (José Geraldo Rodrigues) procura na religião uma força para enfrentar a vida; Dario (Vinícius de Oliveira) sonha em ser jogador de futebol e se esforça para entrar em algum time enquanto Reginaldo (Kaique Jesus dos Santos), o mais novo deles e de cor negra, procura por seu pai, diferente do de seus irmãos. Mais uma vez, em Walter Salles, a figura paterna se mostra ausente.

Quando vi o filme pela primeira vez, me incomodou muito a forma como a história de cada um se entrecruzava, me parecia muito retalhado e não conseguiu me envolver. Talvez a expectativa que eu tinha para ver o filme tenha me atrapalhado um pouco e saí do cinema com a impressão de que o filme podia ser melhor. Mas numa revisão, o filme me ganhou de cara e toda essa impressão se esvaiu, à medida que cada uma daquelas pessoas se fortalecia na tela enquanto personagens principais (e são cinco).

Nesse estudo de personagens, notamos como todos eles são pessoas falhas e, por isso mesmo, interessantes. A mãe, grávida, está sempre com um cigarro na mão e solta palavrões o tempo todo, inclusive com os próprios filhos, que apanham dela, mas também recebem o carinho materno na hora certa. Para ser admitido em algum clube, Dario falsifica a carteira de identidade a fim de parecer mais novo. Dênis, na malandragem, passa a roubar dos carros que ficam estacionados no sinal.


O filme ainda foge da idéia comum de lidar com uma família disfuncional. Os problemas dos personagens não são entre si, mas consigo mesmo. Eles brigam muito, é evidente, mas a grande sacada do filme é a trajetória de cada um, os acertos e erros no percurso que eles precisam percorrer. O final em aberto desagradou a muita gente, porque pega os personagens em momentos decisivos, mas isso me parece a tônica de todo o filme: existe um longo caminho ainda a percorrer, apesar dos pesares.

A narrativa do filme é toda marcada pela naturalidade com que os atores compõem seus personagens, evidenciando a entrega de cada um, num elenco em que todos, sem exceção, merecem ser destacados. Uma fotografia escura e pesada muitas vezes põe os personagens na penumbra total, deixando transparecer somente suas silhuetas, fortalecendo a idéia de pessoas rodeadas por dificuldades, mas mesmo assim persistentes. Uma direção segura, ajudada por uma montagem certeira (como quando as mãos dos torcedores no estádio se confundem com as mãos dos fiéis na igreja), enriquece bastante o trabalho.

O filme ainda é cheio de significados, a começar pelo título que, no primeiro momento, evoca no futebol a troca de passes entre os jogadores sem que o adversário tome a bola, nos fazendo refletir sobre a persistência daqueles personagens em continuar no “jogo”. Além disso, “linha” dá idéia de caminho, e no caso dessa família, a linha parece tortuosa, mas nunca finita.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Simplório demais

Simplesmente Amor (Love Actually, Inglaterra, 2003)
Dir: Richard Curtis


A cena de abertura de Simplesmente Amor, em um aeroporto onde vários familiares e conhecidos se reencontram, promete uma visão bem otimista e palpável de como o amor está presente em nossas vidas, onde quer que estejamos. Mas é muito triste perceber que essa idéia fica presa nessa pequena cena, em prol de um emaranhado de histórias que não faz jus ao quanto o filme tenta celebrar o amor mais verdadeiro. Vários personagens, interligados entre si, vivem as mais desventuras contra e sobre o estar amando. A maioria delas, mal resolvidas.

Há o cara que é apaixonado pela esposa de seu melhor amigo, a mulher que está a fim de um colega de trabalho, outra que desconfia da fidelidade do marido, até as mais bobas e absurdas, como o garotinho que sofre de amores por uma coleguinha, o Primeiro-Ministro da Inglaterra que baba pela secretária e o rapaz bobalhão que viaja para os EUA para “pegar” mulher.

Não estou querendo dizer que essas situações não possam ocorrer. Elas são bem comuns. Mas é justamente na obviedade que o filme tenta tirar algo de belo e interessante, mas não passa do “bonitinho”. Além disso, os diálogos são sofríveis, sem inspiração alguma. Para aumentar o clima de “o amor está no ar”, várias musiquinhas romantiquinhas surgem à medida em que a situação se torna mais amorosa.

Com isso, um elenco estelar só poderia ser o grande atrativo de bilheteria do filme. Há algumas atuações inspiradas como a de Laura Linney, numa personagem insegura mas determinada a conquistar seu colega (Rodrigo Santoro, até que bem expressivo) e Emma Thompson, que sofre sozinha pela possível infidelidade do marido (Alan Rickman). Por outro lado, o Primeiro-Ministro de Hugh Grant soa ridículo enquanto Liam Neeson faz pouca coisa como o pai que aconselha seu filhinho nos ditames do coração.

Interessante notar que o melhor dos personagens não está apaixonado por ninguém: Bill Nighy interpreta o cantor de rock cinquentão e desagradável, tentando voltar à fama, numa performance cheia de ironia e trejeitos (a dancinha dele é hilária).

Digo que não sou, de forma nenhuma, contra finais felizes. Muito antes do filme terminar, nada me soava natural enquanto o narrativa se arrastava através das tramas de cada um. O pior de tudo é quando o filme tenta, sem sucesso, reproduzir as cenas reais das pessoas no aeroporto que aparecem na abertura. Ali, sim, o amor parece pulsar da tela verdadeiramente, amor de mãe, de irmão, de namorada, de gente.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

O herói em nós

Corpo Fechado (Unbreakable, EUA, 2000)
Dir: M. Night Shyamalan



Já disse aqui no blog o quanto o cinema do Shyamalan é sempre baseado numa alegoria, geralmente de cunho fantástico ou sobrenatural, para com isso falar de algo maior e humano. Corpo Fechado é mais um exemplo desse projeto de cinema que carrega o talento de seu autor para criar a atmosfera desejada e ainda se beneficia da onda de criatividade de seus primeiros projetos, já que o cineasta indiano parece ter perdido a mão em seus trabalhos mais recentes.

David Dunn (Bruce Willis) trabalha como segurança e num acidente catastrófico que mata centenas de pessoas, ele é o único sobrevivente; sai totalmente ileso. Depois desse incidente, ele conhece Elijah Price (Samuel L. Jackson), um aficionado por revistas em quadrinhos e possuidor de uma doença genética rara que torna todos os ossos de seu corpo tão frágeis a ponto de se partirem ao menor impacto. Elijah tenta convencer David de que há algo especial nele, um homem que em toda sua vida nunca se feriu gravemente e sempre sobrevive a outros acidentes graves.

A abertura do filme traz várias informações sobre revistas em quadrinhos e sendo a figura do super-herói a mais comum numa HQ, vamos descobrir aonde Elijah quer chegar. Se David possui um “dom”, ele não pode ser uma pessoa qualquer. Mas essa idéia não é aceita facilmente por ele, um homem cujo relacionamento com a esposa passa por um momento delicado. A partir disso, ele ainda entra em conflito com o próprio filho, que não consegue se ver espelhado na figura paterna. O caminho da aceitação de David é o próprio percurso do filme.

Com Shyamalan, é sempre preciso comprar uma idéia, vê-la de forma plausível e aceitá-la como metáfora de algo. Feito isso, basta aproveitar o talento do cara para se impressionar com cenas carregadas de tensão. Nesse filme, a narrativa se desenvolve lentamente, sempre num tom carregado e com um texto bastante verdadeiro e elegante. Descobrimos e nos impressionamos junto com David com o desenrolar dos acontecimentos. Essa talvez seja a melhor direção do Shyamalan, com um domínio total sobre cada plano e seqüência de seu filme.

São vários os bons exemplos disso, como a cena de abertura na qual um médico se mostra estupefato com a criança recém-nascida (Elijah) de braços e pernas quebrados. Ou então o momento impressionante quando o filho de David aponta uma arma para ele e ameaça atirar para provar que o pai é imortal. Evocando Hitchcock, há toda uma seqüência em que David impede um assassino de cometer mais crimes, culminando numa bela e imponente cena na piscina.

Mais incrível ainda é seu talento para dirigir atores, indo de um Samuel L. Jackson que, cheio de talento, nem precisa de tanto esforço para criar um vilão ao mesmo tempo imperativo e frágil (tanto física como emocionalmente), até um Bruce Willis numa composição totalmente minimalista, dono de um personagem que cresce muito ao decorrer do filme e vai tomando consciência de suas “habilidades”. Além disso, mesmo em pequenos momentos, a mulher de David e a mãe de Elijah surgem com uma força dramática impressionante na tela.

O filme ainda possui ótimas surpresas ao fim. O conflito pessoal de David consigo próprio como alguém que possui dons especiais se resolve de forma plena, digna dos melhores momentos de uma super-herói e a mais emocionante possível, aliado a sua aproximação com a mulher e o filho. O filme podia acabar aí, mas ainda existe uma outra virada que torna Elijah o triste (anti-)vilão da história. Nesse momento, o filme abre possibilidade para pensarmos no tipo de herói que cada um de nós pode ser, qual “poder” especial nós temos e o que isso significa para quem está a nossa volta.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Colecionador de emoções

Uma Vida Iluminada (Everything is Illuminated, EUA, 2005)
Dir: Liev Schreiber

É uma pena que a estréia na direção do então ator Liev Shreiber tenha sido tão pouco divulgada. A história real do colecionador judeu Jonathan Safran Foer (Elijah Wood) que viaja à Ucrânia para tentar encontrar a mulher que salvou a vida de seu avô é rica em emoções e cheia de significados. É também uma jornada e tanto para seus personagens, não só o protagonista.

Para ajudá-lo na procura, Jonathan conta com os serviços dos guias Alex (Eugene Hutz) e de seu avô Baruch (Boris Leskin), especializados em ajudar judeus ricos a encontrarem familiares perdidos durante a guerra. Se Jonathan surge como uma figura comportada, usa óculos de lentes grandes e possui atitude séria e polida, Alex é uma figura descolada, se veste como um playboy e mantém uma postura ingênua diante de tudo. Já seu avô se mostra o carrancudo da história, vive com óculos escuros pois finge ser cego (todos sabem que é uma farsa) e está sempre de cara fechada. Por isso, ele só anda acompanhado de um cachorro-guia meio demente que atende pelo nome de Sammy Davis Jr. Jr. Está formado o grupo de figuras estranhas.

O tom inicial do filme é bem leve e irreverente, como quando Alex apresenta a si mesmo e os esquisitos membros de sua família (o filme é narrado por ele). Mas a história vai ficando mais densa quando os personagens conhecem a velha senhora Lista (Laryssa Lauret, de uma expressividade incrível) que conviveu com o avô de Jonathan na juventude, antes da guerra acabar com o sonho de todos.

Embora a vontade de Jonathan em conhecer as origens de seu avô mova o filme, é o avô de Alex quem vai passar pela experiência mais intensa. Seu ar sério dá lugar aos remorsos do passado quando descobrimos que essa mesma senhora o conhecia e conviveu com ele. As lembranças desse tempo retomam de forma triste e avassaladora. O encontro irá mexer com os sentimentos de todos eles.

Schreiber mantém uma linha narrativa marcada por um grande cuidado estético, principalmente na forma como enquadra as cenas. A fotografia ainda confere peso aos momentos mais dramáticos, com destaque para os flashbacks, da mesma forma que ilumina e tonifica muito bem a paisagem ucraniana.

Outro destaque é a direção de arte que capricha nos cenários, como a bela imagem da casa de Lista tendo à frente um varal cheio de lençóis brancos e toda cercada por uma enorme plantação de girassóis. Os espaços internos também merecem destaque como a coleção de objetos familiares de Jonathan expostos na parede, ou as pilhas de caixas guardadas na casa de Lista. Tudo isso marcado por um colorido forte que intensifica ainda mais a trajetória dos personagens.

Ao fim, o filme ainda traz uma reflexão interessante. Na volta para casa, Jonathan reconhece nas pessoas que estão no aeroporto o rosto de várias outras pessoas que ele (nós) encontrou na Ucrânia. Dessa forma, o filme celebra o viajante como alguém que carrega para sua vida as experiências coletadas durante a viagem. O que ele presenciou permanecerá sempre consigo. Aquele que vai nunca é o mesmo que retorna.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Imaginação rasa

Vermelho Como o Céu (Rosso Come il Cello, Itália, 2006)
Dir: Cristiano Bertone


Mirco (Luca Capriotti) é uma criança que, depois de um acidente com arma de fogo, começa a perder a visão. É mandando para um colégio interno específico para portadores da mesma deficiência. Lá ele conhece uma garota, moradora da casa ao lado (sem deficiência visual) e cria amizade com outros internos. Se antes Mirco gostava muito de ir ao cinema, agora, cego, ele vai encontrar uma outra maneira de imaginar e contar histórias. Existe um mundo inexplorado de sensações ao seu redor.

Mirco chega à escola contrariado com seu estado (só mais tarde ele vai perder completamente a visão). Mas quando ele descobre que pode, usando um gravador, reproduzir sons e, manipulando-os, construir uma narrativa fantasiosa, ele encontra uma atividade que lhe dá prazer e abrange essa descoberta aos colegas. Nesses momentos, o filme celebra o mais puro poder da imaginação como forma de escape. Além disso, a aproximação com a garotinha resulta nas melhores cenas, como o andar de bicicleta (ele é quem guia) e principalmente o início do “namoro” entre os dois.

Mas à parte isso, incomoda muito nessa produção italiana o simplismo com que carrega um tema tão difícil e cuidadoso. Existe sim uma sensibilidade que permeia grande parte das cenas, mas é carregado de um tratamento tão óbvio e raso que não passa da alcunha de filme “bonitinho”. A história não chega a ser piegas, mas é como se clamasse ao espectador para serem condescendentes com crianças cegas, algo bastante desnecessário. O tom do filme acaba soando panfletário. Os acordes musicais tristes soam nos momentos mais dramáticos.

O filme ainda sofrer pela fraca construção de seus personagens. O diretor da escola, também cego, incorpora o personagem inflexível, que não quer permitir brincadeiras fantasiosas entre os alunos. Nunca sabemos quais suas motivações e as razões de seu posicionamento repressor. Por outro lado, há o professor que vê naquela brincadeira uma forma dos garotos desenvolverem a criatividade e a imaginação e acaba sendo o apoiador dessa “causa”; em determinado momento, ele chega a dizer pelo corredor: “estão roubando dessas crianças o direito de sonhar”. Parecem personagens forjados para cumprir papéis antagônicos.

Mais emblemático ainda é saber que o filme se baseia numa história verídica, o que prende mais ainda o roteiro aos percursos do jovem (Mirco Mencacci) que inspirou o filme. Não que sua história não seja interessante, mas o grau de relevância não passa do possível estereótipo de quem tinha uma grande dificuldade na vida, mas conseguiu vencê-la. O cinema já está cheio disso. Interessante seria encontrar uma forma diferente de mostrar essas histórias (O Escafandro e a Borboleta é um ótimo exemplo). É a falta desse elemento que tanto minimiza Vermelho Como o Céu.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Alguns curtinhas

Era Uma Vez... (Idem, Brasil, 2008)
Dir: Breno Silveira


É uma surpresa enorme constatar o quanto esse novo filme de Breno Silveira é eficiente o bastante para cativar o espectador, da forma mais genuína e simples possível. Depois do bom Dois Filhos de Francisco, lá vem ele com uma historinha de amor, que tinha tudo para cair no sentimentalismo anti-preconceituoso, entre um favelado e uma garota de classe alta, ainda mais com um título tão sem criatividade como esse. Ao mesmo tempo em que Silveira não possui grande apelo estético, ele sabe conduzir cada cena no tom certo, e já me encantou pela maneira como filmou a aproximação entre Dé (Thiago Martins) e Nina (Vitória Frate). A história avança com reviravoltas que fazem total sentido e nunca soam gratuitas, e ainda consegue fazer crítica social. Pra completar, Thiago Martins é um achado e sua composição de um personagem ingênuo, tímido, mas apaixonado, parece falar muito mais através do olhar. Além disso, é filme de urgência e tem os dois pés no chão.


Canções de Amor (Les Chansons D’Amour, França 2007)
Dir: Christophe Honoré


Depois de um incrível Em Paris, cuja melhor cena é uma reconciliação cantada ao telefone, eis que o francês Honoré nos presenteia como o adorável Canções de Amor, dessa vez assumindo de vez o musical como forma. Não um musical clássico, mas um filme em que os personagens se pegam cantando do nada. Ismael (Louis Garrel), Jolie (Ludivine Sagnier) e Alice (Clotilde Hesme, adorável) vivem uma relação a três, quando um terrível acidente muda os rumos de suas vidas amorosas. Completa o elenco uma triste Chiara Mastroianni e ainda o insistente Grégoire Leprince-Ringuet, cada qual com seus bons momentos em tela. O texto leve e gostoso, aliado ao charme de seus atores, se espelha nos números musicais, todos muito bons, como o belo Ás-tu Déjà Aimé, que só perde para o trio Garrel-Hesme-Sagnier cantando Je N’aime que Toi nas ruas de Paris. E mesmo nos momentos mais dramáticos, o filme consegue se equilibrar e nunca perde seu charme. O relacionamento a três e, sobretudo, o desenlance gay que acontece mais ao fim nunca se impõem como algo definitivo, são somente possibilidades apresentadas aos personagens. E se isso lhes faz bem, quem pode julgar? Melhor é aproveitar as ruas (e sons) de Paris.


Mamma Mia! (Idem, EUA, 2008)
Dir: Phyllida Lloyd


Mais uma vez um filme se utiliza das canções de uma banda conhecida e com um repertório cheio de ótimas composições para construir sua história. Em Across the Universe havia uma artificialidade na forma como as músicas eram usadas para montar uma história que soava solta. Aqui nesse Mamma Mia!, se apropriando das canções do Abba, existe um foco, mas frágil pela pouca relevância da história que está contando. Sophie (Amanda Seyfried) não sabe quem é seu pai e no dia de seu casamento convida três ex-namorados de sua mãe (Meryl Streep) para descobrir qual deles a gerou. Como a dúvida só deve aparecer no fim do filme, é preciso criar vários outros momentos para fazer correr o filme e é uma alegria quando alguém começa a cantar porque as músicas do grupo sueco dos anos 70-80 são a melhor coisa do obra (destaque para Dancing Queen e a pouco conhecida Voulez-vous). Nem a competentíssima Meryl Streep consegue trazer algo de proveitoso para o filme. Mas o pior de tudo são as tentativas de trazer humor, poucas vezes eficiente.


O Ódio (La Haine, França, 1995)
Dir: Mathieu Kassovitz


Um dia na vida de quatro marginais inconseqüentes nas ruas de Paris e suas aventuras no submundo da capital francesa rendeu um dos longas mais festejados dirigidos por Mathieu Kassovitz, ator conhecido por fazer par romântico com Amélie Poulain. O filme é duro e potente, ajudado por uma fotografia em preto-e-branco intenso que traz uma atmosfera propícia ao mundo monocromático e sem vida de seus personagens. O malandro Vinz (Vincent Cassel), o negro Hubert (Houbert Koundé) e o descendente árabe Saïd (Saïd Taghmaoui) passam o dia fumando, procurando baderna, falando baboseiras e expostos a todo tipo de violência. O texto é rápido e confere força a seus personagens, na medida em que criamos aversão por Vinz e podemos passar a nos importar com Hubert, por exemplo. São personagens palpáveis. Ao fim, Said retoma a parábola, dita no início, de um homem que cai de um edifício de 50 andares e a cada lance, diz: “até agora, tudo bem”. Pois é justamente esse pensamento que define os personagens: no submundo marginal em que vivem, mal sabem eles que estão em queda permanente e quando o impacto como o solo chega, ele vem de supetão, impiedoso e arrasador, como fica claro na surpreendente cena final.


Missão Babilônia (Babilonia A.D., EUA/França, 2008)
Dir: Mathieu Kassovitz


O mais incrível é saber que o cara responsável por esse Missão Babilônia é o mesmo diretor de O Ódio. Kassovitz já tinha se vendido ao cinema comercial norte-americano com o péssimo Na Companhia do Medo e dessa vez retorna com um filme catástrofe que além de confuso, é mais furado que uma peneira. Vin Diesel é esse cara durão, musculoso, dá porrada em todo mundo e cuja função é levar uma jovem (Mélanie Thierry) aos Estados Unidos, num mundo totalmente arrasado e violento. Ela vive reclusa num mosteiro, afastada de toda a perversidade do mundo, sob os cuidados da Irmã Rebecca (Michelle Yeoh, que faz muito com o pouco que lhe é oferecido) e parece ter dons sobrenaturais, logo chamando a atenção de um grupo religioso extremista que quer seqüestrar a garota. As reviravoltas do filme são patéticas, as cenas de ação são montadas de forma tão bagunçada e rápida que não se sabe exatamente o que está acontecendo na tela; os grandes atores franceses Gerard Depardieu e Charlotte Rampling são totalmente desperdiçados. E já aprendi a fugir de todo filme que traz Vin Diesel na capa – nem Sidney Lumet conseguiu tirar proveito.

sábado, 25 de outubro de 2008

A volta do que não foi

Encarnação do Demônio (Idem, Brasil, 2008)
Dir: José Mojica Marins


Confesso: quando eu era criança tinha medo do Zé do Caixão. Lembro ainda hoje de suas aparições na TV com aquelas unhas enormes e a cara de espanto falando sobre morte, funerais e caixões. O tipo de produção trash e grotesca de seus filmes só ganhou notoriedade no país quando, já em decadência, sua obra foi descoberta no exterior, ganhando ares de cult dentro do circuito alternativo. E aí Encarnação do Demônio se torna um tanto emblemático. Embora marque o louvável retorno dessa figura mítica, parece que o filme se justifica mais pelo retorno e não por uma obra puramente cinematográfica.
Mas para quem conhece e gosta do terror trash, escatológico e repulsivo de Mojica, saiba que ele se mantém fiel às suas origens. Após 40 anos no cárcere, Zé do Caixão ganha liberdade e volta a procurar a mulher ideal que possa geral um filho perfeito e perpetuar a linhagem macabra de seu sangue. Ao mesmo tempo, ele é perseguido por imagens macabras de seu passado, ou seja, as pessoas mortas brutalmente por ele.

Outra dissicronia é notada no filme: uma produção assumidamente B estranha por contar com um tratamento estético classe A, visível por uma fotografia intensa e direção de arte caprichada. Se esse esmero todo nos fornece belas imagens, esteticamente impecáveis, também minimiza o atrativo de seus filmes anteriores que, pelo simples fato de pertencer ao cinema trash, tinham graça justamente pelo descuidado e desarrocho de suas imagens.

O mundo de Zé do Caixão é imundo, fétido, e o personagem é impiedoso com suas vítimas. A gana com que ele persegue seu ideal só encontra razão de ser na gênese desse personagem, surgido anteriormente nos outros dois filmes que completam essa trilogia: o ótimo À Meia Noite Levarei a Sua Alma e o excepcional Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver. Visto assim, a história possui algo de ingênuo, o que nos faz ter simpatia com Zé do Caixão, na medida em que ele se configura como o anti-herói macabro dos filmes.

Ao fim desse Encarnação do Demônio, o personagem chega a dizer algo do tipo: “Imagens são para sempre, capitão”. Essa fala marca a persistência do grotesco personagem no imaginário das pessoas. Por isso, esse cara de capa preta, unhas imensas e voz grave nunca deixará de ser um ícone do Cinema brasileiro; nem deixará de povoar os pesadelos de outras crianças (ou mesmo adultos).

domingo, 19 de outubro de 2008

Significa muito

Sem muito tempo para escrever depois da maratona da Mostra Cinema Conquista, eis que meu amigo Elizio me presenteia com um belo texto sobre O Arco, filme do sul-coreano Kim Ki-duk. Abaixo para apreciação:

O Arco (Hwal, Coréia da Sul/Japão, 2005)
Dir: Kim Ki-duk


Mistura de olhares orientais, que na verdade deveriam até ser fechados. Mas, diferente desta visão fechada sobre os olhares orientais, nos deparamos na verdade com um filme que fala com os olhos, com canções, com uma "quase harpa", com um "quase arco" (na verdade, as duas coisas juntas). Sem palavras, a garotinha de 16 anos, interpretada por Yeo-reum Han (que eu não conhecia, mas que já virei fã), representa o complexo mundo da sensibilidade e o porquê de muitas vezes o colocarmos com incompreensível.

Agora vamos ao que esta mistura de ritmos e sentidos resulta, ou melhor sente, e em que cenário se apresentam: em um barco de pesca no mar (por sinal, dos mais velhos, assim como o seu dono - um homem de 60 anos. Este mesmo, cria uma menina até que ela complete 17 anos (mesmo que para isso seja possível correr com um calendário). Eles vivem uma existência tranqüila e reclusa (onde a cumplicidade inocente está presente), rezando (um pecado este sinônimo para simplicidade) e alugando o barco para pescadores, até que suas vidas são alteradas com o embarque de um estudante adolescente. (Repare aqui que os personagens não precisam de nomes, e como isso, não o tem).

Outra coisa ausente na película (seguramente um sinônimo melhor pra representar esta obra) se chama diálogos (e precisava?). Os olhos repuxados já compõem tais palavras. Na verdade, a mistura sentimento e música tendenciam o roteiro do filme, por sinal belíssimo. Num pecado tremendo, o sentimento "vil e egoísta" – referência a um dos poucos diálogos do filme – do velho (será mesmo assim?), poupa a menina do sentimento inocente que sente pelo jovem que, apenas queria pescar no barco. Neste momento, o filme ganha momentos de tensão entre o velho e a pequena menina. Quando o terceiro elemento vem acompanhado de admiração pela menina.

Ki-duk Kim (que depois fui ler já conquistou 23 prêmios e obteve 21 nominações em festivais pelo mundo) celebra a vida com seu roteiro e direção, neste filme. Me empolguei para ver os outros quartoze dele agora. O que muitos podem ver no filme, como excesso de lirismo eu vejo como qualidade. Por quê? Porque traz a música no lugar das palavras (não como um musical), mas um culto a paz que esta música transmite. Isso tudo me induz a dizer uma única coisa, sobre esta obra: poesia cinematográfica.

O mais instigante é que num cenário bucólico (o barco) o espectador consegue romper o silêncio imposto pelo semblante dos personagens, pela fotografia maravilhosa, e pelo imposto tom filosófico.

Isso aqui não é uma crítica, muito menos uma resenha. Isso aqui na verdade é um agradecimento, um culto a este filme, que não menos obstante, não posso terminar este texto sem esse adjetivo: fantástico! No olhar de uns, talvez forçoso, no meu um simples olhar (e isso já significa muito).

Por Elizio Chiacchio

sábado, 18 de outubro de 2008

Ranking da Mostra:

Em comparação com o ano passado, a Mostra Cinema Conquista 2008 não nos revelou tantas pérolas assim (foram menos filmes também). De qualquer forma, tivemos ótimos momentos. Abaixo minha lista de preferência dos curtas e longas (que conta com a presença de A Casa de Alice, Mutum e A Via Láctea dos quais eu já tinha visto antes), com a devida cotação em estrelas ao lado:


Longas:
Santiago – 4,5
Mutum – 4
A Casa de Alice – 4
Nossa Vida Não Cabe Num Opala – 4
Pan-Cinema Permanente – 3,5
Crítico – 3,5
Estômago – 3,5
Waldick, Sempre no Meu Coração – 3
A Via Láctea – 2,5
Os Desafinados – 2
Pequenas Histórias – 2


Curtas:
Trópico das Cabras – 4,5
Esconde-Esconde – 4,5
Dossiê Rê Bordosa – 4
A Cauda do Dinossauro – 4
Os Filmes Que eu Não Fiz – 4
O Guarani – 4
Icarus – 3,5
A Peste da Janice – 3,5
Vida Fuleira – Um Artista e a Bailarina – 3,5
Booker Pittman – 3
Meio Poeta – 3
Passo – 3
Tira os Óculos e Recolhe o Homem – 3
Damião Experiença – 2
Dia de Visita – 2
A Cidade Cargueiro – 2
E vocês aí, quais os melhores e piores?

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O Cinema por ele mesmo

Por mais que o longa de encerramento da 4º Mostra Cinema Conquista tenha sido bastante significativo para os interessados em analisar e discutir o próprio Cinema, não achei Crítico tão pertinente para encerrar o evento. De qualquer forma, é uma tentativa de apurar o olhar do público. Pena que o Centro de Cultura foi se esvaziando ao longo da exibição. O próprio Cinema se discute também nos ótimos curtas da noite: o documentário O Guarani, resgatando a memória de um antigo cinema baiano (com direito a presença dos diretores da terra), e o hilário Os Filmes Que Não Fiz, sobe um diretor fracassado com seus roteiros absurdos.


O Guarani (BA/BR, 2008)
Dir: Cláudio Marques e Marília Hughes


O Guarani é um documentário feito para resgatar a memória de um dos mais importantes cinemas da cidade de Salvador, pelo menos para os cinéfilos que o freqüentavam na época (a partir da década de 50). Foi lá que o primeiro longa-metragem baiano, Redenção, foi lançado. Foi lá que a exibição de Deus e o Diabo na Terra do Sol, clássico de Glauber Rocha, causou grande comoção fazendo todos os presentes chorarem por mais de meia hora depois do silêncio que se seguiu após a exibição. Foi lá que o formato cinemascope primeiramente apareceu no Brasil. Foi lá que o grande ensaísta baiano, Walter da Silveira, criou o Clube de Cinema. E é lá que a estrutura do antigo Cine Guarani se encontra jogada e carcomida pelo tempo. O curta traz belas imagens de arquivo e faz uma denúncia ao descaso com o local. Mas reverencia uma bela época para o cinema e os cinéfilos na Bahia.


Os Filmes Que Não Fiz (MG/BR, 2008)
Dir: Gilberto Scarpa


É com uma idéia bastante original que Gilberto Scarpa tenha feito talvez o curta mais engraçado exibido na Mostra. O filme traz um diretor de cinema (também chamado Scarpa) revelando as idéias para os seus filmes que nunca chegaram a ser feitos. Os roteiros, ditos geniais, nunca saíram do papel. Fica só a esperança do diretor em algum dia realizar aqueles filmes com histórias tão toscas. É também uma forma de falar sobre questões que permeiam a realização de um filme: a choque criativo entre diretor e roteiristas, a falta do ator ideal para um papel, o desânimo de uma equipe de filmagens em fazer aquele trabalho inútil. Um curta metalingüístico e divertido, um cineasta rindo de si mesmo e transformando a difícil luta de fazer um filme em material criativo.


Crítico (PE/BR, 2008)
Dir: Kleber Mendonça Filho

A experiência do crítico de cinema Kleber Mendonça Filho, aliada ao seu posterior trabalho como cineasta de curtas-metragens premiados, rendeu um longa investigativo sobre essas duas áreas ligadas ao Cinema. Cineastas, críticos (que parecem estar sempre em lados opostos do ringue) e alguns atores discutem o pensar da crítica cinematográfica nesse documentário que fechou a programação da 4º Mostra Cinema Conquista.

Um filme de múltiplas vozes em que se revela o respeito e a aversão por esse peculiar texto jornalístico. Vendo o filme pareceu que muitos diretores não torcem tanto o nariz para a crítica, não sei se por estarem diante de um crítico para fazer parte de um filme sobre o assunto. Me admira também a grande quantidade de diretores que dizem ler muito as críticas e o fato deles sempre se lembrarem daquelas negativas, mesmo se as positivas sejam em maior quantidade.

Daí a surpresa com cineastas que dizem como a crítica interferiu na feitura de um filme. O documentarista Eduardo Coutinho chegou a dizer que depois de uma jornalista ter achado uma cena de seu filme preconceituosa, a partir de uma pergunta feita por ele a um entrevistado, ele decidiu cortar a cena. Ou quando Walter Salles cita a grande importância de Pauline Kael, crítica norte-americana, na formação de uma geração de cineastas (Scorsese, Coppola).

Mesmo assim, existem rancores e decepções. Nem todo cineasta está tão aberto assim a uma ferroada contra seu filme. Ou quando se percebe que a crítica leva em consideração o lado pessoal, o não gostar de determinado ator/cineasta/produtor. Sem falar quando a crítica é vista também como peça publicitária. Não é difícil imaginar uma crítica favorável somente para vender determinado filme.

O documentário se constitui de depoimentos recolhidos ao longo de oito anos de contato com cineastas e críticos do mundo. Poderia ser cansativo ficar ouvindo tanta gente falando sobre o mesmo assunto, mas é interessante saber o pensamento de cada um deles, principalmente porque o assunto “crítica cinematográfica” é muito pouco discutido. Kleber Mendonça Filho ainda intercala imagens enigmáticas às falas, mas a mais interessante é aquela em que cenas de películas em rotação se intercalam com jornais impressos rolando nas gráficas.

Mas talvez, depois de tantas reflexões interessantes, é Fernanda Torres quem relembra uma das falas mais pertinentes, quando Orson Welles diz que “toda crítica é uma autobiografia”. Esse conceito faz pensar na subjetividade de quem a escreve a crítica (alguém chega a dizer: “o crítico é um ser humano”), mas também tira dos cineastas o peso para uma crítica negativa sobre seu filme. No final das contas, o que vale é pensar e discutir o cinema. E não importa se você gostou ou não do filme, mas o porquê disso. E nesse bate-bola deve prevalecer a troca de conhecimentos, tanto para o cineasta, para o crítico e, sobretudo, ao leitor/espectador.

Depois de cinco dias intensos com exibição de filmes, talvez a idéia de fechar a Mostra com essa obra revele a necessidade de as pessoas pararem para pensar o Cinema como um todo. Uma forma de apurar o olhar para o cinema e para aquilo que se vê. Digerir imagens em movimento, esse é o lance!