domingo, 18 de novembro de 2007

Ode à memória

O pontapé inicial já foi dado. A Mostra Cinema Conquista começou ontem com a promessa de fazer dessa semana em Vitória da Conquista, terra do cultuado cineasta e agitador social Glauber Rocha, a capital do cinema baiano. Além da exibição de filmes nacionais em vários pontos da cidade, haverá debates, palestras, cursos, oficinas e lançamento de livros. Com a presença do próprio diretor, Eu Me Lembro abriu a maratona de filmes que vai até o outro sábado.

Eu Me Lembro (BA/BR, 2006)
Dir: Edgard Navarro


O primeiro longa-metragem do cineasta baiano Edgard Navarro, Eu Me Lembro é uma obra que parte das recordações de infância e juventude de Guiga, passando pelas décadas de 50, 60 e 70. O próprio diretor revela que suas lembranças pessoais serviram como matéria-prima para a concepção do roteiro (assinado por ele mesmo), mas que a partir disso o filme apela para uma memória coletiva ao usar como pano de fundo a reconstrução de uma época e, porque não, as descobertas da infância.
Existe no filme uma atmosfera de perda da inocência revelada principalmente pela carga de sexualidade que se aflora à medida que o personagem é apresentado ao universo do proibido desde cedo no próprio ambiente familiar. O grande problema é quando essa carga sexual extrapola o limite e se torna forçada, rompendo com uma naturalidade que seria esperada de um filme praticamente autobiográfico. As cenas de sexo aparecem mais com o propósito de chocar, além de ser motivo para algumas passagens hilárias. Alguns minutinhos a menos também não fariam falta ao filme. O personagem ainda vai entrar em conflito com a religiosidade e a própria família, algo que moldará sua personalidade.

Mesmo assim, é de se reconhecer o trabalho de reconstituição de época que passa por um período de três décadas e consegue transmitir a atmosfera do momento, com suas transformações sociais e políticas, auxiliado por uma bela fotografia e trilha sonora. Tendo como locação a cidade de Salvador, Eu Me Lembro é um belo retrato, sem pudor ou moralismos, das dúvidas e curiosidades da juventude. Uma pena que a tentativa de parecer anárquico enfraqueça o longa.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Mais curtas

Algo como a Felicidade (Stestí, República Tcheca/Alemanha, 2005)
Dir: Bohdan Sláma


Não me lembro de ter assistido a nenhum filme tcheco antes. Descobri esse filme num blog e me interessei, principalmente pelo ator Pavel Linska que só recebe elogios da crítica. E que ótima surpresa. Acompanhamos a história de várias pessoas, amigos e familiares, cada qual com seus problemas e dilemas. Toník é apaixonado por Monika cujo namorado se mudou para os EUA e que está a sua espera. Mas ela toma para si a responsabilidade de cuidar filhos de Dasha, uma amiga que passa por problemas psíquicos e um relacionamento com um homem casado. A trama se desenvolve com muita simplicidade num tipo de atmosfera que é mais sugestiva do que diretamente exposta pelo roteiro. O filme tem um ar de melancolia (principalmente a cena final) com uma narrativa que revela a busca pela felicidade, mesmo que essa pareça nunca chegar. A música que toca durantes os créditos finais, I'm on the Corner of Your Mind, de Leonid Soilbelman (quem é esse cara?), não sai mais de minha cabeça.

Felicidade (Happiness, EUA, 1998)
Dir: Todd Solondz


Mais uma vez a história de personagens interligados entre si por laços de amizade ou parentescos, cada um em busca da mais simples realização pessoal. Mas o mérito de Felicidade reside no precioso texto do próprio Solondz. Ao mesmo tempo em que os personagens e suas ações ganham profundidade, o roteiro consegue extrair sem parecer tão perverso (mas existe uma atmosfera de humor negro afiadíssimo). Já na cena inicial percebemos isso, ao testemunharmos a rejeição de uma relacionamento amoroso. Mas o filme também sabe ser pesado, quando, por exemplo, um pai confessa seus crimes ao jovem filho (aqui eu fui às lágrimas). Com um punhado de boas atuações, descobrimos que para muitas pessoas a felicidade não se conquista assim tão fácil.

A Maldição da Flor Dourada (Man Cheng Jin Dai Huang Jin Jia, China/Hong Kong, 2006)
Dir: Zhang Yimou


Meu Deus, o que aconteceu como o Zhang Yimou? Como o cara que eu aprendi a admirar pela sensibilidade com que conduz os seus dramas humanos foi capaz de construir esse dramalhão digno de novela das seis? Uma decepção. Tendo lugar na China Medieval, acompanhamos as tramas e armações que a família imperial chinesa trama contra seus próprios membros, revelando intrigas pessoais, paixões proibidas, inveja pelo sucesso alheio, luta por poder, da forma mais melodramática possível. O texto é fraquíssimo e cartunesco, com os personagens caindo no maniqueísmo barato e fácil. E se a beleza visual poderia ser um atrativo, acaba soando como forma de despiste para a gama de intrigas novelescas. Fotografia e direção de arte ultra coloridas não possuem conexão alguma com as tramas amargas e vingativas de seus personagens. O filme vale mais pela bela atuação da Gong Li como a imperatriz envenenada aos poucos pelo próprio marido. E embora eu não tenha entendido bulhufas, a música dos créditos finais é belíssima.

Entre o Céu e o Inferno (Black Snake Moan, EUA, 2006)
Dir: Craig Brewer


O que mais acho interessante nos filmes do Craig Brewer é o fato dele extrair emotividade de um contexto tão brutalizado. No ótimo Ritmo de um Sonho, acompanhamos a trajetória de um cafetão que desejava ser músico. Aqui, o diretor promove o encontro entre uma ninfomaníaca (Cristina Ricci, extremamente sensual) com um bruto ex-cantor de blues (Samuel L. Jackson), que acabou de passar por um divórcio indesejável. Há ainda o namorado da garota que foi recrutado pelo exército e que possui sérios problemas de auto-confiança. Enquanto ela tenta controlar os seus impulsos sexuais, acaba sendo encontrada inconsciente pelo personagem de Jackson, tomando para si a tarefa de cuidar e curar a garota. As situações dos personagens são de extrema carga dramática e com vidas tão amargas, o Blues não poderia ter sido a escolha melhor para compor a trilha do filme. Destaque para a bela e arrepiante cena em que o próprio Jackson canta para a garota Black Snake Moan. A partir desses conflitos pessoais, os personagens descobrirão que a ajuda vem do estar próximo a alguém, demonstrado numa excelente cena final.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

À espera

Estava prevista para o início do ano, mas dessa vez sai. A 3º edição da Mostra Cinema Conquista acontece aqui em Vitória da Conquista, cidade natal do cineasta Glauber Rocha, a partir do dia 17, próximo sábado, e vai até o dia 24. Contando com uma seleção só de filmes brasileiros, o evento é ainda um espaço para divulgação e discussão acerca da arte cinematográfica, principalmente a local.

Alguns filmes selecionados já passaram no circuito nacional, outros já se encontram até nas locadoras, mas tem muita coisa interessante que dificilmente chegaria aqui no circuito comercial. Minhas maiores expectativas são para assistir a Batismo de Sangue, Baixio das Bestas, Deserto Feliz, Fabricando Tom Zé e Cão Sem Dono, que eu não quero perder por nada nesse mundo.

Pretendo ainda escrever resenhas da maioria dos filmes vistos, mesmo aqueles que forem revisões. A semana vai ser um pouco cansativa, já que ainda faço parte da equipe do jornal impresso do evento, mas farei o possível para escrever o máximo que eu puder. A programação completa está no site do evento. Então, que venham os filmes!
PS: O site Núcleo Universitário criou um blog para cobrir a Mostra também. Clique aqui para visitar.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Vida e obra distintas

Piaf – Um Hino ao Amor (La Môme, França/República Tcheca/Inglaterra, 2007)
Dir: Olivier Dahan


Antes de descobrir a existência de Piaf – Um Hino ao Amor eu não conhecia a Edith Piaf e sua música. Mal sabia eu a grande cantora que ela era da qual já tinha escutado algumas canções. Mal sabia também a excelência dessa cinebiografia.

Acompanhamos os momentos mais importantes de sua vida, desde quando sua mãe a abandonou ainda garotinha para tentar a carreira musical (sem sucesso) até as agonias de seus últimos dias. A diferença é que essa trajetória é totalmente não-linear compondo um belo quebra-cabeça facilmente montado.

Dizem que nenhuma cantora cantou o amor tão bem e com tanta emoção. Mas engana quem pensa que sua vida foi um mar de rosas. E o filme é bastante exato ao mostrar as dificuldades e sofrimentos que desde pequena ela teve de enfrentar: depois de abandonada por sua mãe, é criada pela avó num prostíbulo sendo retirada de lá por seu pai que explorava seu talento nas ruas. Só depois que foi descoberta pelo dono de uma casa de espetáculos pôde realmente aperfeiçoar seu talento, mas será acusada do assassinato dele e ainda sofrerá por não poder concretizar o romance com o homem a quem amava. Todo esse sofrimento pode ser observado e refletido pela própria mudança física a qual a atriz-personagem sofre durante a película.

E aqui entra o maior mérito do filme: sua atriz principal. Marion Cotillard está soberba como a protagonista, numa atuação que até assusta pela sua enorme expressividade. Sua construção e caracterização são impressionantes, sendo impossível não se maravilhar com um trabalho tão detalhista. Primeiro porque ao acompanharmos praticamente toda a história de sua vida, podemos testemunhar sua transfiguração física, da menina agitada à rabugenta e adoentada mulher, e depois pela intransigência e forte personalidade que gera excesso, principalmente na forma arrogante de tratar a maioria daqueles que estão a seu redor (algo compreensível para quem passou por tanta dificuldade).

Tecnicamente o filme também é um primor. A fotografia é de beleza plástica, e a trilha sonora de um encanto tal que nos dá a oportunidade de conhecer parte do repertório da cantora além de seu grave vozeirão. A direção de Oliver Dahan também se mostra segura, abusando da câmera na mão e da construção de alguns planos-sequências (e é de um deles a melhor cena do filme, quando ela é informada sobre a perda de alguém muito querido).


Mas gostaria de destacar aqui o trabalho de edição que consegue a proeza de misturar a ordem cronológica dos fatos, sem nunca soar confuso. Em alguns momentos, serve como forma de causar certas sensações como o espanto de vermos uma cena com a jovem Piaf para logo depois nos depararmos com uma mulher bastante castigada pela ação do tempo (ela morreu aos 47 anos, embora parecesse ter muito mais).

Amargurada, viciada em morfina e remédios para as dores constantes que sentia, sofrendo com problemas motores, somos testemunhas do quanto a sua vida foi intensa, da qual ela parece não ter se arrependido (como mostra os momentos finais ao som da bela Non Je Ne Regrette Rien). Sua obra pode ser uma ode ao amor, mas sua vida, infelizmente, foi desprovida do maior dos sentimentos.

PS: Marion Cotillard também aparece no elenco de Maria, que resenhei há alguns dias, e ver a atriz sem a caracterização da cantora francesa só faz com sua metamorfose seja ainda mais surpreendente.

domingo, 4 de novembro de 2007

Elite da morte

Tropa de Elite (Idem, Brasil, 2007)
Dir: José Padilha


São pouquíssimos os filmes brasileiros que conseguem criar um retrato da violência das grandes cidades, principalmente aqueles gerado pelo tráfico de drogas, quanto o primeiro trabalho de longa metragem de ficção de José Padilha. Além de Cidade de Deus, um outro exemplo que vem à mente é o excelente documentário Ônibus 174 do mesmo diretor. Agora, de posse de um elenco afiado, um aparato técnico invejável e um ótimo roteiro (adaptado do livro Elite da Tropa escrito a seis mãos pelos integrantes do batalhão André Batista e o ex-capitão Rodrigo Pimentel juntamente com o antropólogo Luiz Eduardo Soares), Tropa de Elite é uma análise triste, realista e pesada a partir da visão de dentro do próprio BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais), facção da Polícia Militar responsável por ações mais pesadas e de alto risco, principalmente no quesito "subir o morro".

Já no documentário Notícias de uma Guerra Particular, de João Moreira Salles e Kátia Lund lançado em 1999, o então capitão do BOPE Rodrigo Pimentel (um dos roteiristas do filme junto com Padilha e Bráulio Mantovani) faz um depoimento alarmante dizendo estar cansado de tanta violência e de nunca a situação se resolver ou minimizar: "Eu estou participando de uma guerra, acontece que eu tô voltando pra casa todo dia" (Veja aqui). Afirma ainda não ver uma solução para aquilo (Aqui).

Assim, acompanhamos a história do Capitão Nascimento (Wagner Moura) que, ao mesmo tempo em que é obrigado a participar de uma operação da qual não acredita no sucesso, procura um substituto para deixar o batalhão, pressionado por sua mulher grávida e pelos problemas de saúde pelos quais está passando. Dois dos possíveis substitutos, Neto (Caio Junqueira) e Matias (André Ramiro) tentam passar pelo rigoroso e duro treinamento, mas a sua honestidade e senso de justiça passam por uma incompatibilidade dentro do sistema policial.

Cada um ali precisa preservar e aceitar as normas de conduta ilícitas como algo normal, até porque possuem um superior que conta com a cooperação de todos para que nada saia do "controle". O meio condiciona as ações das pessoas que se vêem cercados por um sistema corrompido e nem se dão conta do momento em que começam a comungar integralmente com aquilo (assim como acontece muitas vezes na política). Ou entra na roda ou sai da brincadeira.

Se a corrupção dentro da própria polícia é um dos motivos apontados como geradores dessa situação alarmante (já no início presenciamos PMs passando armas pesadas aos traficantes), o filme não poupa críticas à própria classe média, sendo uma das grandes financiadoras do tráfico de drogas e por conseqüência da violência da qual ela mesma é vítima, criando assim um círculo vicioso que parece nunca ter fim. Essa situação gera uma das melhores cenas do filme: quando um traficante é morto pelos policiais do BOPE, pergunta-se para um dos consumidores pegos em flagrante quem era o responsável pela morte, e este responde "vocês" (o BOPE). Ao que o Cap. Nascimento, apontando uma arma para sua cabeça, o desmente e o responsabiliza pelo ocorrido.

Intensamente atuado, o filme conta com um time de atores que se entregam totalmente aos seus personagens, inclusive fisicamente. Wagner Moura se destaca pela força e onipotência que confere a seu personagem, em contraponto aos momentos de reservada fragilidade. Tecnicamente, o filme também possui grandes méritos. A câmera na mão transmite intranqüilidade e tensão o tempo todo, auxiliando no mal estar de presenciarmos situações tão desagradáveis. A fotografia ganha cores quentes e fortes sempre que as ações acontecem dentro da favela e a trilha ao mesmo tempo em que ambienta o espectador, confere força e agressividade às situações.

Só não me perguntem cadê a solução, essa está cada vez mais difícil de se encontrar. As instituições que deveriam nos proteger também são aquelas das quais precisamos nos defender. Osso duro de roer mesmo.

PS: Hoje, dia 5 de novembro, é comemorado o Dia do Cinema Brasileiro. Nada melhor do que festejar essa data felicitando um dos melhores filmes nacionais do ano. Inclusive, que ano bom para o nosso cinema. Tivemos ainda O Cheiro do Ralo, Saneamento Básico, Antônia, Batismo de Sangue, Cão Sem Dono e tantos outros. Que continuemos assim.

sábado, 3 de novembro de 2007

Marca maior

Cidadão Kane (Citizen Kane, EUA, 1941)
Dir: Orson Welles


É, eu não resisti e depois de ver A Marca da Maldade, resolvi postar aqui umas poucas linhas escritas há algum tempo sobre esse trabalho do Welles que é um dos filmes que eu mais admiro na vida e não veio parar aqui no blog antes não sei por qual motivo:

Cidadão Kane é linguagem cinematográfica em estado bruto. Influenciado diretamente pelo mestre John Ford, esse outro gênio que é Orson Welles revolucionou a história do Cinema com uma das obras mais bem trabalhadas até então e com um conceito visual a frente de seu tempo. Além de esteticamente maravilhoso (e isso não é um exagero), há ainda a incrível história do homem que ergueu um vasto império na área da comunicação e se tornou grande, à custa de uma infância roubada que ainda lhe legou a amargura e o senso de firmeza cega. Tudo no filme é primoroso, da concepção dos cenários, a utilização dos espaços, a construção dos planos-seqüência, até as ótimas atuações (de todo o elenco) e o roteiro impecável. Essencial até o último fotograma.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Marca de mestre

A Marca da Maldade (Touch of Evil, EUA, 1958)
Dir: Orson Welles


Confesso que no começo do filme me desapontei um pouco pois ele não possui o preciosismo estético arrojado de Cidadão Kane. Mas não se enganem, o domínio e a reinvenção da linguagem cinematográfica estão lá, porém em menor grau. Mas depois fui me acostumando com a idéia já que repetir um feito e construir uma outra obra-prima como a da trajetória do Kane não é tarefa fácil. Estava exigindo demais. Tanto que no início estava achando tudo muito confuso e rápido. É bom lembrar que mesmo tendo conseguido prestígio em Hollywood, Orson Welles estava fazendo parte de uma indústria e precisava fazer de seus filmes sucessos comerciais para continuar trabalhando.

O longa é um policial noir com tudo que o gênero tem de direito. A trama se passa numa cidade exatamente no meio da fronteira entre os EUA e o México, quando acontece um atentado vitimando um casal. Nesse momento, está chegando à cidade o policial Miguel Vargas (Charles Heston) e sua esposa Susan (Janet Leigh, imortalizada em Psicose), recém casados, para passar a lua-de-mel no local. Com o incidente, ele acaba por se envolver no caso juntamente com um desonesto chefe da policia norte-americana Hank Quinlan (Welles, irreconhecível); ambos não se dão bem. Começa então uma investigação que vai revelar mais do que o mandante do crime.

Mesmo assim, não pensem que o Welles iria produzir uma narrativa tão simples. Estão lá seus famosos planos-seqências (como a incrível cena inicial), ângulos de câmera inesperados, enquadramentos precisos e minimamente planejados para agrupar a maior quantidade de elementos de cena na tela, profundidade de campo e tantos outros artifícios da linguagem visual que o próprio Welles ajudou a difundir. Todos esses elementos conferem dinamismo ao filme, ao mesmo tempo em que se mostram visualmente estilosos.

Daí a construção de um apanhado de cenas interessantes como a já citada seqüência inicial, a visita à casa de um dos possíveis suspeitos e a tentativa de Quinlan de incriminá-lo, o estrangulamento de determinado personagem (contando com uma ótima utilização de som e iluminação a fim de criar suspense) e a seqüência final em que Vargas persegue Quinlan sobre uma ponte para arrancar dele uma confissão captada por um aparelho de escuta.

Mais uma vez todos os seus atores dão conta do recado, mas o destaque é mesmo para o próprio Welles e seu odioso Quinlan. A caracterização de seu personagem é perfeita, trabalhada tanto pelo aspecto físico como pelas expressões minimalistas de seu ator, como olhares cínicos e cortantes. Janet Leigh me surpreendeu com sua carga dramática e a inusitada presença da atriz alemã Marlene Dietrich, mesmo que rapidamente, causa excelente impressão.

Com roteiro impecável que dá conta de desenvolver tanto a situação como seus personagens, Welles cria uma história envolvente, mas que se revela mais atraente não pelo inusitado da situação, do conteúdo, mas sim pela forma como expõe isso. Considerado por muitos como o último noir clássico, é indiscutível a marca que seu autor deixou na história do Cinema.

PS: Interessante dizer que depois das filmagens Welles foi demitido e o filme foi editado pelos produtores. Welles deixou registrada a forma como ele tinha planejado essa edição, algo que só foi concretizado em 1998 quando a Universal relançou o filme numa versão definitiva do diretor.

sábado, 27 de outubro de 2007

3X Lynch

Como forma de me preparar para – o que dizem – surreal e supra-misterioso Império dos Sonhos, decidi mergulhar fundo na bizarra cinematografia da David Lynch. O único que tinha visto até então era o excelente Cidade dos Sonhos e pouca coisa tem me maravilhado tanto quanto seus filmes, principalmente os mais antigos. Abaixo, um pouco sobre os que vi recentemente.

O Homem Elefante (The Elephant Man, EUA, 1980)


Foi com o sucesso de O Homem Elefante que o Lynch conseguiu respeito e carta branca em Hollywood para filmar as suas loucuras visuais. A estrutura narrativa do filme é bastante comum, e a bizarrice vem do interesse em filmar a história real de John Merrick (John Hurt), que nascendo com deformações por todo o corpo é explorado como grande atrativo de um show de horrores. Fotografado num belíssimo preto-e-branco, acompanhamos a tentativa do médico Frederick Treves (Anthony Hopkins) de estudar o caso e uma vida digna ao Homem Elefante, como passa a ser chamado. Assim, descobrimos que a nobreza vem do interior, mas nem todos conseguem enxergá-la de pronto. A bela cena em que o médico vê pela primeira vez o Merrick é uma grata exceção. E já com esse filme percebemos o domínio de narrativa que o Lynch possui, mesmo que não traga nada de tão inovador. Algo que irá aprimorar em seus trabalhos posteriores.

Veludo Azul (Blue Velvet, EUA, 1986)


Quando o jovem Jeffrey Beaumont (Kyle MacLachlan, que trabalhou com o Lynch na série Twin Peaks, a qual estou louco para encontrar) descobre uma orelha humana nos arredores de sua pequena cidade natal, começa a investigação do misterioso caso. Juntamente com Sandy Williams (uma adorável Laura Dern), filha do detetive local, eles decidem investigar a principal suspeita, a cantora de cabaré Dorothy Vallens, interpretada por Isabella Rossellini, pela qual Jeffrey se envolve, numa atmosfera impregnada de erotismo e mistério. É daí que o Lynch extrai a sua habitual bizarrice, através do comportamento de seus estranhos personagens, como um pervertido Dennis Hopper que vive o chantagista que atormenta a vida da bela cantora. Essa é a forma do Lynch mostrar que mesmo sob um canteiro de flores residem grotescos insetos. "It's a strange world", com certeza.

Coração Selvagem (Wild at Heart, EUA, 1990)


Uma história de amor é o que mais fácil define a película, mas como o Lynch nunca é tão simplório assim, prepare-se para uma incrível jornada de um estranho casal (Nicolas Cage e Laura Dern, com ótima química) um tanto delinquente (ele, um rebelde sem causa; ela, uma ingênua; ambos apaixonados). Como a mãe da moça desaprova o romance, eles fogem, mas terão que se livrar do assassino que ela contrata para matá-lo. Aos poucos, as pontas da história vão se encaixando, revelando uma trama de assassinato em que os personagens estão mais conectados do que imaginam. Imagens persistentes e extremamente simbólicas dialogam entre si e criam uma atmosfera de suspense à medida que o quebra-cabeça vai se montando: é um fósforo que se ascende, a ponta de um cigarro se queimando, um corpo pegando fogo e uma casa em chamas. Destaque ainda para a bela trilha sonora, incluindo alguns rocks, e as bizarrices que surgem na tela, como de costume nos filmes do cara. A cena inicial mostra toda a brutalidade de seu personagem, mas a final vem para mostrar que os brutos também amam.


PS: Estava assistindo agora há pouco a Rabbits, uma série de curtas que o Lynch fez e lançou em seu próprio site no ano de 2002. Galera, aquilo é macabro. Macabro. E pra variar ninguém entende nada.

sábado, 20 de outubro de 2007

Caminhos da Fé

Maria (Mary, EUA, Itália, França, 2005)
Dir: Abel Ferrara


Filmes com temática religiosa não costumam me encantar tanto, mas que bela surpresa é esse Maria, do Abel Ferrara. O filme revela uma instigante narrativa em relação às escolhas do homem acerca da fé. O diretor não pretende unilateralmente apontar um caminho, mas discutir o tema através da história de três personagens principais que se cruzam.

Marie é uma atriz que decide abandonar a promissora carreira e viver em Jerusalém depois de interpretar e se identificar com o drama de Maria Madalena num filme polêmico. Seu diretor, Tony Childress, luta para que seu filme não seja censurado, mas se mostra arrogante e prepotente como dono da verdade. Ambos são procurados por Ted Younger, um jornalista que promove uma série de entrevistas sobre religião num programa de TV e passa por uma má fase no relacionamento com sua esposa grávida.

O filme parece tratar o tema de forma muito imparcial. Ao mesmo tempo em que discute interpretações polêmicas sobre a vida de Cristo (como o fato de Maria Madalena ter sido uma de seus principais apóstolos e até mesmo sua amante ou a descoberta de outros Evangelhos como o de São Tomé, São Judas e da própria Maria Madalena), o filme também reserva espaço para a personagem que encontrou a paz interior na comunhão com a fé. E se por um lado Marie demonstra essa segurança e por outro Childress, seu oportunismo através da polêmica (referência a Mel Gibson?), o jornalista não sabe ao certo por qual caminho seguir. E quando se deparar com graves problemas na família, ele terá que questionar suas próprias crenças e princípios.

Cenas do filme dentro do filme se intercalam com a trajetória interligada dos personagens e com as documentais entrevistas no programa de TV, revelando um competente trabalho de edição. Não só pela ligação entre as cenas, mas como forma de acompanharmos a evolução e construção daqueles personagens. E é uma pena que a trilha sonora se perca ao longo da história, pois impõe presença no início.

Mas o destaque mesmo é o trio de atuações. Matthew Modine está hiper cínico na pele do arrogante diretor. Juliette Binoche, que sempre atua bem, dá conta de suas duas personagens, mas seus melhores momentos são quando incorpora uma apaixonada Maria Madalena. Mas é Forest Whitaker que mais me chamou a atenção, até porque seu personagem é o mais complexo e, justamente por isso, o mais interessante. O jornalista (essa figura questionadora) na busca pelo entendimento das questões religiosas acaba por redefinir os rumos de sua própria vida e Whitaker confere força ao personagem ao mesmo tempo que demonstra sua insegurança diante da fé. Ao fim é a nossa vez de olharmos para dentro e nos questionarmos. Quanto de fé que eu preciso/possuo?

sábado, 13 de outubro de 2007

Curtas

Em Busca da Vida (Sanxia Haoren, China, 2006)
Dir: Jia Zhang-Ke


Filme ganhador do prêmio máximo do Festival de Veneza de 2006, Em Busca da Vida é um retrato melancólico de dois personagens que voltam à cidade onde moravam e que agora está sendo evacuada para dar lugar à represa de Três Gargantas. Lá deixaram pessoas importantes e o reencontro é também uma visita ao passado. O mais interessante é que como o local está sendo praticamente destruído, se torna um interessante contraponto àqueles personagens que procuram justamente reconstruir suas vidas. Da destruição, surge a renovação, mesmo que dolorosamente. A atmosfera é de tristeza e o diretor não tem pressa nenhum em desenvolver a história, que fica em alguns momentos cansativa. A narrativa é lenta e arrastada, mas essencial para o clima de nostalgia que permeia a película. Esta ainda faz uma dura crítica à China enquanto nação que cresce às custas do sacrifício de seu povo, principalmente os mais rejeitados pelo sistema. Além disso, há momentos de pura fantasia, servindo para quebrar o gelo. Me digam quantas vezes vocês já viram um edifício levantar vôo?

O Grande Chefe (Direktoren for Det Hele, Dinamarca, 2006)
Dir: Lars Von Trier


Depois de se consagrar com obras de grande valor autoral e estético, o diretor dinamarquês volta com seus experimentos de filmagem fazendo agora uma comédia sem pretensões, como a sua própria voz em off anuncia ao início do filme. O problema é que a comédia não tem graça, o texto pretende ser inteligente ao mostrar verdades ocultas, mas acaba soando artificial e bobo. E se a idéia de utilizar enquadramentos estranhos e incomuns (escolhidos por um programa de computador) poderia ser o toque de modernidade, acaba se cansando pela sua ineficiência. Da última vez que li algo sobre o Vom Trier, ele estava em depressão. Tomara que se cure logo, pois espero com muita empolgação a finalização de sua trilogia sobre a terra do Tio Sam, essa sim merecedora de seu talento.

O Espelho (Ayneh, Irã, 1997)
Dir: Jafar Panahi


Os filmes iranianos são muito marcados pela sua simplicidade e a inocência de seus personagens. Jafar Panahi, já em seu segundo longa, insere esses mesmos elementos, mas em determinado ponto, a história toma um rumo totalmente inesperado que até hoje não sei se intencional ou acidental (claro que não vou contar o que é). Na saída do colégio, uma menininha espera a mãe a vir buscá-la, mas como ela não aparece, a garota decide ir sozinha para casa. Nesse percurso, ela conhece o tumultuado e perigoso mundo dos adultos. Mas quando a história se transforma vemos o outro lado do espelho e realidade se mistura à ficção de forma surpreendente.