sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Contra a parede

Desde a manhã de ontem o tempinho frio tão característico de Vitória da Conquista já se prenunciava, mas foi o dia de hoje que amanheceu sob aquela chuvinha fina (e irritante). Mesmo assim, a sessão dessa tarde teve um público maior do que os outros dias nesse horário, por incrível que pareça. Um dos curtas exibidos, Meio Poeta, originário da cidade de Salvador, contou com a apresentação do próprio diretor, Caco Monteiro. O outro curta, Vida Fuleira (pode ser visto aqui), possui uma proposta mais experimental e irreverente. Nenhum dos dois preparava para a porrada que foi Nossa Vida Não Cabe Num Opala.


Vida Fuleira – Um Artista de Rua e a Bailarina (RJ/BR, 2007)
Dir: André Sampaio


Encontrar uma sinopse para esse curta é uma árdua tarefa já que desde o início (e até o fim) nos é jogado na tela sucessões de seqüências que inicialmente sugerem o surreal, mas logo vão se encaixando numa profusão de imagens que se pautam pela agilidade. O curta evoca o cinema mudo tanto na música enquanto guia narrativo quanto na fotografia envelhecida, mas bem caprichada. Mas há também algo de documental nas cenas em que artistas de rua fazem as mais variadas e loucas performances, como o senhor que coloca três batatas inteiras na boca. Sobra ainda lugar para o melodrama no romance entre um artista e uma bailarina, com direito a reviravolta digna de novela. O fato de saber que o diretor desse curta também conduziu Tira os Óculos e Recolhe o Homem, exibido ontem à tarde e resenhado mais abaixo, torna claro o uso de um ritmo frenético e irreverente. Chega a ser ingênuo, mas por isso mesmo agradável.


Meio Poeta (BA/BR, 2008)
Dir: Caco Monteiro


Em Salvador, logo após se casar, a mulher revela para a família que seu marido é “meio poeta”, já que recitou poemas para ela na noite de núpcias. Isso causa um desconforto enorme no pai da moça que procura intimidar o rapaz a esquecer sua habilidade de fazer poemas ao acaso. O filme é uma adaptação de um conto de Luís Fernando Veríssimo que, com bom-humor, mostra o quanto a denominação de “poeta” é tão rejeitada em nossa sociedade. Ao mesmo tempo, um mendigo de rua, em clara referência a SuperOutro, média-metragem clássico da filmografia baiana dirigido por Edgard Navarro, surge com sua poesia de escracho e denúncia, talvez uma forma de relevar o quanto a poesia pode estar presente em qualquer ambiente, seja da forma que for. Mas é o final que revela o quanto a poesia está dentro de cada um de nós.


Nossa Vida Não Cabe Num Opala (SP/BR, 2008)
Dir: Reinaldo Pinheiro


Mais um longa de um diretor estreante aporta na Mostra que vai revelando longas cada vez melhores nesse que é o penúltimo dia do evento. Vencedor do Cine PE deste ano, Nossa Vida Não Cabe Num Opala (título incomum) trouxe uma narrativa mais ágil e mais agressiva em sua proposta de voltar o olhar para uma família disfuncional e os dramas de seus componentes.

Os quatro irmãos da família Castilho vão se virando numa vida de marginalidade após a morte do patriarca (Paulo César Peréio). Monk (Leonardo Medeiros) é o mais velho, mais tranqüilo, e assume o comando da família; Lupa (Milhem Cortaz) faz o tipo ladrão-brutamontes-fuleiro enquanto o mais novo, Slide (Gabriel Pinheiro), se inclina para seguir os mesmos passos dos dois últimos, mesmo em conflito interior pela falta da mãe; Magali (Maria Manoella) é a única mulher, que se vê perdida naquele ambiente grotesco e do qual não parece encontrar saída. O surreal invade o filme à medida que o pai começa a aparecer, tentando dialogar com seus filhos e reparar os erros do passado.

O desarranjo de vida dos quatro irmãos parece ser resultado da própria experiência familiar. O pai lidava com roubo e desmanche de carros, numa vida de marginalidade embrutecida, algo que deixa de “herança” para os filhos. Monk e Lupa continuam os negócios do pai, relegando a todos o mesmo destino cruel e perverso. O filme é mais um estudo da disfuncionalidade familiar que retira o humano das pessoas e coloca pedras no lugar do coração. E é triste notar que nem sempre há volta.

A inclusão da personagem Sílvia (vivida por uma Maria Luísa Mendonça bastante expressiva) que seduz e leva os três irmãos homens para sua casa (um de cada vez), possui algo de grande afetuosidade já que em seu apartamento ela busca não só o sexo mas o carinho deles. Seria o grande contraponto em relação à rotina dura e bruta em que estão inseridos. Seu discurso sobre a solidão (não necessariamente explícito) é um dos grandes momentos do filme.

E se Milhem Cortaz arrasa em todas as cenas em que aparece, com seu jeito, cara e forma de pensar e agir de um marginal, é preciso dar destaque para todo o elenco que em conjunto funciona tão bem quanto em solo. Jonas Bloch precisa de muito pouco para imprimir a onipotência de seu personagem, o grotesco dono do negócio de desmanche, grande responsável pela vida desregulada e conseqüente morte do pai do quarteto. Marília Pêra fecha o time numa participação mínima, mas marcada por uma sensibilidade sem igual.

Com uma narrativa ágil e despojada, o filme talvez perca algum tempo em seqüências que soam mais como exercício de estilo (câmera em plongé giratório observa dois dos irmãos enquanto eles fumam e falam de drogas e mulheres; ou então uma edição entrecortada prevendo cenas que vão acontecer poucos minutos depois). Mesmo assim, é uma narrativa inventiva e cheia de originalidade. Talvez falte isso ao nosso cinema, coragem para ousar. Nesse caso, deu muito certo.

Ótima digestão

E foi no terceiro dia de Mostra que o nível de qualidade cresceu. Por outro lado, nem a censura de 18 anos impediu que a platéia reagisse às cenas de teor sexual numa mistura de surpresa (???) e riso (???). Incrível como esse tipo de coisa ainda causa estranheza na maioria das pessoas, muito pela falta de maturidade. O último curta, Trópico das Cabras, o melhor até então, demorou inclusive um pouco para ser aplaudido. Mas o tom cômico de Estômago agradou bastante o público. O Centro de Cultura mais uma vez se encheu e na saída a satisfação pela programação da noite pareceu bem ampla.


A Cauda do Dinossauro (SP/BR, 2007)
Dir: Francisco Garcia


Mais uma vez, o universo do cartunista Angeli aparece num curta da Mostra este ano. Antes de mais nada, A Cauda do Dinossauro é uma bela adaptação que nos situa em uma cidade futurista e decadente onde o desejo e o sexo são proibidos e desconhecidos. Uma mulher, no entanto, procurar conhecer essa tal realização sexual. Num quarto imundo, ela encontra um homem que irá satisfazê-la. Tudo parece um tanto exagerado, do texto excessivamente apelativo e forte à exploração dos corpos (ela masturba ele, ele acaricia as genitálias dela), até o ápice do ato em si. Mas é reservado ao final um desdobramento fantástico que dá todo o sentido à história. O “ser” que ele representa e que guarda a possibilidade do sexo e de transmitir a outro essa mesma possibilidade, transforma o sexo em algo próximo do sagrado. Vale destacar uma direção de arte que compõe a sujeira daquele ambiente como reflexo da própria condição que o ato sexual ganha no filme, e que se concretiza naquele local.


Trópico das Cabras (SP/BR, 2007)
Dir: Fernando Coimbra


Quando um casal entra em crise, eles resolvem fazer uma viagem para tentar salvar o relacionamento. Depois que o homem apresenta, em off, essa premissa, o filme todo se constrói através de silêncios que acompanham os atos dos personagens, apostando mais na força da imagem. É aí que a história ganha atmosfera intimista (e íntimo) na procura pelo desejo, acompanhado de cenas bem despudoradas. O atrevimento da mulher em buscar prazer com outros homens, bem à vista do marido, é aceito porque esse é o jogo, mas ele também não ficará para trás. Fernando Coimbra dirige com exatidão e confere o tempo certo de cada seqüência, filmada com todo o cuidado de movimentar a câmera e enquadrar sempre da melhor forma. A fotografia granulada confere um tom de reminiscência muito pertinente à narrativa que termina de forma enigmática, mas cheia de significados. É ainda uma forma de mostrar o quanto um homem e uma mulher, há tanto tempo juntos, podem ser tão estranhos uns com os outros. E de que nem tudo pode estar perdido num relacionamento a dois.


Estômago (PR/BR, 2007)
Dir: Marcos Jorge


Estômago se assume como uma comédia das mais engraçadas, mesmo que muitas vezes se utilize das piadas de teor sexual e do escracho em cenas desavergonhadas. Poderia muito bem cair na tentativa de fazer denúncia social a favor dos imigrantes nordestinos ou contra o sistema penitenciário brasileiro. Mas está mais preocupado com o desenvolvimento da narrativa e da trajetória de seu rico personagem.

O matuto Raimundo Nonato (João Miguel) chega na cidade grande sem destino e passa a trabalhar como um exemplar cozinheiro num bar de esquina. Lá ele conhece a comilona e fogosa prostituta Iria (Fabiula Nascimento) por quem logo se apaixona. Mas é também descoberto por Giovanni (Carlo Briani), dono de um restaurante italiano, para quem passa a trabalhar. Paralelamente, um outro foco narrativo cronologicamente posterior mostra Raimundo na cadeia, onde ganhará a confiança dos companheiros de cela quando passar a apresentar seus dotes culinários. As duas ações se intercalam durante o filme inteiro, a partir de uma dinâmica de edição bastante competente.

Mesmo assim, o filme ainda sofre de alguns excessos. Cenas de sexo desnecessárias, corpos nus, palavrões demais, tudo isso torna a narrativa por vezes cansativa. Mas uma seqüência assim exagerada é seguida por outras bem divertidas, balanceando a equação. Um texto em nada apelativo, que retira humor do mais inusitado, sem forçar a piada, possui um frescor de originalidade que por si só é um grande atrativo. Os presidiários, as prostitutas, os donos do bar e do restaurante poderiam muito bem cair na caricatura, mas são todos personagens multifacetados e nunca unidimensionais.

E pelo visto, onde quer que João Miguel apareça, ele consegue roubar a cena. Aquele olhar de nordestino desconfiado e ingênuo parece ser algo peculiar ao ator baiano. Mas mesmo o tom de voz e os trejeitos corporais encontram riqueza em sua caracterização. Fabiula Nascimento também se destaca como a glutona prostituta Iria, numa entrega total à sua personagem. Mas é com Carlo Briani, vivendo o dono do restaurante italiano, que os dois atores encontram o timing cômico perfeito.

O filme nos deixa em dúvida sobre a razão pela qual Raimundo Nonato foi parar na cadeia, que só termina nos momentos finais do filme. Final esse que ainda revela um processo de mudança do próprio personagem. Um desfecho nada convencional é uma surpresa ao mesmo tempo assustadora e agradabilíssima.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Brega chic

O público do Centro de Cultura, marcado mais pela presença de crianças de escolas públicas, pareceu pouco animado para a tarde de hoje, embora o longa que traz a figura do cantor de música brega Waldick Soriano pareceu ter animado a platéia. Ao fim da projeção, o radialista conquistense Jota Menezes, amigo de Waldick, se emocionou ao falar do cantor, sob aplausos carinhosos da platéia.


Damião Experiença (DF/BR, 2007)
Dir: Jimi Figueiredo


Personagens estranhos, exóticos e que possuem algo a falar, mesmo que da forma mais confusa e efusiva possível, são alvos muito comuns no cinema brasileiro. Muitos querem ser Estamira. O problema é que nem sempre conseguimos enxergar uma importância nisso, ou naquilo que eles têm a dizer (muito já foi dito). O mendigo Damião é fisgado nas ruas do Rio de Janeiro e passa a contar um pouco de sua história pessoal e o que acha da vida, da política, da miséria e coisas assim. Com muita facilidade, ele fala de tudo isso muito embora não sabemos até que ponto é mesmo verdade ou até onde isso é realmente relevante.


Tira os Óculos e Recolhe o Homem (RJ/BR, 2008)
Dir: André Sampaio


A história real do cantor e compositor Jards Macalé quando é preso após um show em parceria com Moreira da Silva se transforma em ficção nesse curta com ares de pastelão e irreverência, em que o próprio Macalé interpreta a si mesmo e outros papéis. Um exagero na caracterização dos personagens é proposital para alcançar um nível de filme bonachão, muito embora algumas cenas pareçam um tanto confusas. Talvez a rapidez com que tudo é executado e a falta de maiores informações sobre o contexto do acontecimento prejudiquem a narrativa. O curta ainda inclui uma seqüência descabida de um sonho em que Macalé aparece caracterizado de Caubói para salvar uma mulata de escola de samba. Uma outra seqüência documental traz o próprio cantor falando do acontecimento. Tudo isso dá uma forte sensação de um curta egocêntrico. Mas tem lá seus bons momentos.


Waldick, Sempre no Meu Coração (SP/BR, 2007)
Dir: Patrícia Pilar


A estréia da atriz Patrícia Pilar na direção de um longa acabou se tornando um filme-testamento. Waldick, Sempre no Meu Coração foi lançado tempos antes do cantor falecer por complicações de um câncer de próstata há pouco mais de um mês. Conhecido por sua música brega (Eu Não Sou Cachorro Não é o exemplo mais próximo), o documentário confere importância ao personagem e expõe detalhes de sua vida nem sempre tão românticos quanto suas músicas.

Daí vem o ponto positivo do filme: não há uma tentativa de vangloriar o personagem, de trazê-lo para o mainstream da música brasileira, embora o apego pela suas canções esteja impresso na obra. Sem correr muitos riscos, o documentário de apenas uma hora se apóia basicamente nos depoimentos, sem preocupações estéticas ou de busca pela construção de significados mais fortes das imagens. Talvez falte a Patrícia Pilar um contato maior com o formato.

O filme contou com o apoio do próprio Waldick que falou de sua árdua trajetória ao sair do interior da Bahia, em Caetité, para trabalhar na capital paulista. Passou por muita dificuldade até ser descoberto por um amigo e gravar uma música que logo se tornou sucesso nas rádios de São Paulo. Daí em diante, sua carreira seria consolidada.

Adentrando o íntimo desse personagem, passamos a conhecer os desenlances amorosos do grande mulherengo que era Waldick. Muitas mulheres passaram por sua vida ( sofrendo bastante) e talvez venha daí a matéria-prima de suas composições. Além disso, o filme revela o desentendimento dele com um de seus oito filhos, expresso numa das passagens mais duras do filme quando, ao se encontrarem, as cicatrizes do passado parecem continuar abertas. Nesse sentido, o filme simplesmente registra e nos entrega não um personagem construído, mas o mais verdadeiro e real possível.

O olhar terno de Patrícia Pillar, por outro lado, tenta encontrar o homem por trás da expressão dura do rosto, marcado pelas rugas do tempo. Talvez essa seja uma misteriosa contradição já que estamos falando daquele que cantou o amor mais rasgado e, principalmente, o mais puro e ingênuo sofrimento amoroso.


PS: as sessões da tarde têm contado com a presença de crianças de escolas públicas que são convidadas a assistir aos filmes. É a Mostra tentando formar público para o cinema brasileiro.

Noite irreverente

Público cativo compareceu ao Centro de Cultura para as exibições do segundo dia de evento. A diretora do curta-metragem A Cidade Cargueiro, Aline Frey, estava presente para apresentar seu filme que disse ter sido feito para crianças, mas que tem conquistado alguns adultos por aí. Mas foi o segundo curta da noite, Dossiê Rê Bordosa, que animou mais a platéia. Pan-Cinema Permanente, longa documental sobre o artista baiano Waly Salomão, foi bem recebido e bem digerido, talvez mais pelo caráter bonachão dado ao biografado do que pelo seu viés contestador.


A Cidade Cargueiro (BA/BR, 2008)
Dir: Aline Frey


Existe nesse curta uma vontade muito grande de ser maior, mas ele se contenta com pouco. Numa ilha bem próxima a Salvador, dois garotos divisam as luzes da cidade além do mar e se valem da imaginação para construir maneiras de chegar à capital. A irritante tentativa de forçar um baianês falado pela gente humilde da região torna o filme confuso, mesmo para os baianos; me parece mais uma tentativa desnecessária de imprimir regionalidade ao texto. O elenco não ajuda muito pela falta de espontaneidade das atuações (principalmente as crianças). A partir daí, dá para pensar que aqueles personagens não parecem existir por si sós, eles são meras construções ao alcance da vontade da diretora Aline Frey. O que fica é o poder de imaginação em contraponto à realidade divergente.


Dossiê Rê Bordosa (SP/BR, 2008)
Dir: César Cabral


Meu primeiro e mínimo contato com Rê Bordosa, personagem do cartunista Angeli, foi através do longa de animação brasileiro Wood & Stock - Sexo, Orégano e Rock’n’Roll. Mas não conhecer a fundo essa personagem de nada atrapalha as boas gargalhadas causadas pelo curta animado Dossiê Rê Bordosa. Feito em stop motion (aquela animação com bonecos de massinha), o curta procura documentar as investigações a cerca do assassinato da personagem cometido pelo próprio cartunista. Personagem essa um tanto... escrota. Rê Bordosa é uma mulher safada, desbocada, vulgar e transa com qualquer homem. Com uma narrativa ágil e repleta de tiradas hilariantes (a maioria relacionadas a sexo, claro), personagens reais ganham versões animadas para (re)construir a relação entre criador e criatura, para daí chegar ao crime. O resultado é o mais divertido possível.


Pan-Cinema Permanente (SP/BR, 2007)
Dir: Carlos Nader


“Alguém que não sabe onde começa a lucidez e termina a loucura”. Assim se auto define Waly Salomão, poeta, compositor e produtor musical baiano que faleceu em 2003, posto em evidência nesse documentário de Carlos Nader. Além do talento com as palavras, Waly se mostra um personagem tão irreverente que por si só já justifica a feitura do filme. Diante de uma câmera, ele solta todo seu verbo e sua eloqüência ora confusa, ora profunda, ora poética.

Logo se percebe o quanto há de teatral na fala e na maneira dele se portar diante da câmera, mas tudo isso no bom sentido. Sua figura revela um homem zombador, mas que sabia falar alto e fazer sua crítica social. Ao mesmo tempo em que era muito espontâneo, essa espontaneidade era vista por seus amigos como construída, forjada (mais uma vez, no melhor sentido). Daí vem a admiração por sua pessoa. Em algum momento, alguém reflete sobre um personagem que parecia fazer parte da personalidade do Waly, com o qual ele “encenava a própria vida”.

Interessante como todos o depoimentos são registrados apenas com voz em off, conferindo mais espaço em tela para a figura de Waly, resgatada a partir de fotos e filmagens antigas. Dessa forma, o diretor mostra o fascínio pela imagem do personagem central, que se justifica pela forte presença física desse artista na tela.

Carlos Nader ainda não tem receio em se expor no filme enquanto profissional que conduz o documentário, mas também como amigo do próprio Waly, mantendo com esse uma relação de pura afetividade. Ele próprio faz um depoimento sobre o artista baiano. E mais uma vez (depois de Booker Pittman) um documentário da Mostra não se preocupa em apresentar linearmente seu biografado, e sim apresentá-lo ao público, o que é muito mais interessante.

O jeito bonachão e irrequieto era a marca maior de um artista tão rico em humanidade e força criativa. Para quem o vê na tela, fica a forte impressão de um menino brincando de viver.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Olhar de Criança


Infelizmente não pude assistir ao filme dessa tarde, que por sorte, já tinha visto anteriormente nos cinemas. Mutum é uma pérola de nossa filmografia atual pela forma simples e sutil com que se desenvolve. Deixo aqui um texto um pouco adaptado daquele que já tinha postado no blog anteriormente.


Mutum (RJ/BR, 2007)
Dir: Sandra Kogut



A estréia da diretora Sandra Kogut na ficção é uma grande surpresa. Adaptado da obra do escritor mineiro Guimarães Rosa, Mutum é um exemplo claro do quanto de beleza se pode extrair uma narrativa tão naturalista, mas emocionalmente intensa.

Não existe uma trama exata no filme, mas passamos a acompanhar o cotidiano do pequeno Thiago, garoto de 10 anos, e sua humilde família que vive numa região isolada no sertão de Minas Gerais, chamada Mutum. É através de seu olhar inocente que desvendamos o complexo mundo dos adultos, seus conflitos e percalços. Tais dramas atingem o garoto inevitavelmente, obrigando-o a um amadurecimento um tanto precoce.

O roteiro expira uma atmosfera de inocência tamanha que só poderia mesmo fazer parte do universo infantil; as brincadeiras, o teor frágil das conversas e aquelas risadas gostosas que são próprias da alma das crianças. No caso de Thiago, muito dessa inocência é interrompida pela necessidade de lidar com as conseqüências provocadas pelas ações dos adultos ao redor. Muitíssimo bem interpretado pelo jovem Thiago da Silva Mariz, o protagonista não tem culpa dos atos de seus familiares, mas mesmo assim sofre os danos de tais atos, tendo que ser “expulso” de seu mundo particular.

Além disso, o texto é de uma sutileza incrível e aposta na sensibilidade do público para conduzir a história, sem nunca cair no exagero (a morte de determinado personagem, por exemplo, é extremamente tocante, mas nunca soa forçada). O filme aposta também na ótima química entre os atores, quase todos desconhecidos do grande público (salvo o sempre ótimo João Miguel interpretando o pai de Thiago) e que possuem uma familiaridade muito grande com o ambiente da fazenda. O elenco foi majoritariamente escolhido entre os moradores das regiões das filmagens.

Com câmera na mão, fotografia natural e privilegiando o som ambiente, com o devido respeito aos silêncios, Kogut transmite leveza ao filme, que não deixa de possuir densidade dramática nos momentos certos. Simples e denso. Complexo e leve; mas acima de tudo, inocente.

Música enlatada


E pela quarta vez, a cidade de Vitória da Conquista abriga mais uma Mostra de Cinema. Até o próximo sábado, filmes nacionais serão exibidos em vários pontos da cidade, além de haver seminários, oficinas, mesas-redondas, lançamento de livros e uma exposição sobre a vida e obra de Glauber Rocha, artista da terra. O curta-metragem Booker Pittman (Veja aqui), de Rodrigo Grota, e o longa Os Desafinados, de Walter Lima Jr., abriram o evento.


Booker Pittman (PR/BR, 2008)
Dir: Rodrigo Grota


A Mostra do ano anterior trouxe o premiado Satori Uso, curta de Rodrigo Grota que investigava o poder da criação a partir de um cineasta fictício que estava fazendo um documentário sobre um poeta japonês que nunca existiu. Dessa vez, o paranaense se utiliza da obra do músico de jazz Booker Pittman não para fazer uma biografia usual, mas mais para averiguar e apresentar a musicalidade de seu biografado. Num preto-e-branco intenso, o curta apresenta momentos distintos da vida de Pittman, ficcionaliza alguns, sem que isso necessariamente precise ser compreendido em exatidão pelo espectador. É mais uma viagem intimista ao universo multimusical (ou pelo menos me pareceu) do artista. E um interessante exercício de linguagem.


Os Desafinados (RJ/BR, 2007)
Dir: Walter Lima Jr.


Se a idéia era homenagear os comemorativos 50 anos da Bossa Nova, Os Desafinados não passa da idéia, numa embalagem um tanto plástica, simplista, como se fosse filmado para um especial de TV. O selo “GloboFilmes de qualidade” reforça bastante essa idéia numa obra que a todo momento parece não querer se arriscar e encontra as saídas mais óbvias para os desenlances de seus personagens.

Na década de 60, os amigos Joaquim (Rodrigo Santoro), Davi (Ângelo Paes Leme), PC (André Moraes) e Geraldo (Jair Oliveira) formam uma banda e se aventuram na Nova York que se encanta pela música brasileira. Têm a ajuda do amigo Dico (Selton Melo), aspirante a cineasta e vão conhecer na cidade estadunidense a bela Glória (Cláudia Abreu), que lhes darão abrigo. O filme, na realidade, se constitui como lembranças do passado desses personagens já velhos reunidos numa mesa de bar, conferindo um tom saudosista ao longa.

Saudosismo esse que prefere um texto com diálogos batidos, reviravoltas evidentes e nada inventivas. Tudo caminha no limite da segurança, frustrando o espectador que consegue prevê em muitos momentos o que acontecerá em seguida. Por outro lado, não há na trama nada de absurdo ou que traia aos propósitos da história. O diretor só não quis correr riscos.

Falta ao filme também certa sutileza, tão abundante em trabalhos anteriores do cineasta (a exemplo de A Ostra e o Vento ou então em Ele, O Boto). Quando Joaquim e Glória se encontram pela primeira vez, em Nova York, por exemplo, ele fala em inglês e ela responde em português, daí ele tira a brilhante conclusão: “Ah, você é brasileira”.

Contando com um elenco repleto de atores globais, só mesmo Selton Mello se destaca com seu Dico cheio de tiques e afetações, quase uma persona de Galuber Rocha, e ainda é o alívio cômico da história, uma das poucas coisas que funcionam. A aproximação amorosa entre Joaquim e Glória se mostra desinteressante, mesmo depois que se transforma num triângulo amoroso (e a cena da banheira é um tanto apelativa). Alessandra Negrini, surpreendentemente, em poucos momentos na tela, faz da mulher de Joaquim uma personagem simples, mas cativante. Todos os outros parecem seguir o óbvio de uma atuação.

A trilha sonora, que podia ser um atrativo a mais, só repete aquilo que já sabemos sobre a beleza da musicalidade brasileira, tão apreciada lá fora (e em algum momento era preciso que alguém dissesse que João Gilberto é um gênio). Isso quando Cláudia Abreu não aparece dublando em cena.

E numa década tão conturbada como a de 60, não podia faltar um discurso político que antevê a Ditadura Militar (depois de serem parados no carro, Selton Melo diz: “isso é só o começo, vai ficar muito pior”), sendo mais tarde reforçado quando um dos personagens for vítima do sistema de repressão, sem causa aparente. A bandeira da arte em contraponto à opressão política se torna mais um ingrediente que tenta dar força ao filme. Não passa de história para inglês ver.

domingo, 5 de outubro de 2008

Curtas

O Primeiro Dia (Idem, Brasil/França, 1999)
Dir: Walter Salles e Daniela Thomas


Mesmo quando trata de violência, Walter Salles, aqui juntamente com Daniela Thomas, consegue alcançar o poético. O Primeiro Dia, filmado logo após Central do Brasil, e pouquíssimo visto, foi feito sob encomenda para a TV francesa, e é parte de uma série de longas que retratam o último dia do século XX. Para isso, os diretores tiveram total liberdade para criar uma história em cima da situação. No Rio de Janeiro, o presidiário João (Luís Carlos Vasconcelos) é levado a fugir da prisão com ajuda do próprio carcereiro-chefe (Tonico Pereira), mas em troca tem de matar o traficante Francisco (Mateus Nachtergaele), seu amigo de infância. Paralelamente, Maria (Fernanda Torres) entra em desespero quando seu marido desaparece de sua vida, terminando o relacionamento. A dureza da vida dos personagens ligados ao crime se mostra mais aterradora e evidente na seqüência em que Francisco faz uma prece com uma arma apontada para sua cabeça (um dos grandes momentos do filme). Mas o encontre entre Maria e João na virada do milênio transforma o desespero de duas vidas em uma possível salvação. O filme é ainda um tratado contra a violência, que a despeito de ser renegada por João na virada do ano, se mostra cada vez mais longe de desaparecer da nossa sociedade, como fica claro pelo desfecho do filme. O primeiro dia nem sempre significa recomeço.


Zona do Crime (La Zona, México/Espanha, 2007)
Dir: Rodrigo Plá


Esse filme é o tipo de produção que conta com uma boa história, mas que não é bem aproveitada. E o problema parece estar mais na direção já que o roteiro faz um estudo muito interessante sobre a diferença de classes, o apartheid social e a violência urbana tão atuais. Na Cidade do México, cercada por favelas, uma espécie de grande condomínio, a Zona, abriga pessoas de classe média. Quando três jovens de uma favela invadem o local para um assalto, tanto um dos moradores quanto dois dos invasores acabam mortos; começa então uma busca para encontrar o terceiro rapaz. O filme ainda tenta fazer um estudo sobre a inversão da “Lei”, pois vamos descobrir que os moradores da Zona possuem sua própria autoridade dentro do local e decidem, eles mesmos, caçar e eliminar o intruso, sem interferência das forças policiais. Mas o diretor Rodrigo Plá não avança na análise, pecando por uma abordagem superficial, com direito a final piegas em que um personagem se arrepende por ter sido tão cruel com o “coitadinho do garoto da favela”. Existem no filme outros pontos interessantes (a importância da figura materna tanto do garoto de classe média quanto do favelado, o filho que vê no pai a figura do vilão, a tentativa de parte da policia em investigar o caso com seriedade, a corrupção policial que impede essa tentativa), mas que permanecem soltos e mal encaixados numa história que só encontra seu foco nos últimos momentos. Tarde demais.


Caótica Ana (Caótica Ana, Espanha, 2007)
Dir: Julio Medem


Caótica Ana á equivocado, sem rumo, sem foco, atira para todos os lados e não acerta em nenhum. Uma confusão que frustra o espectador pela ausência de sentido da maioria das seqüências que parecem todas incompletas. A história da garota hippie (Manuela Vellés), pintora exemplar, que mora com o pai numa caverna e é descoberta por uma mecenas (Charlotte Rampling, surpreendendo falando espanhol) para morar na capital junto com outros jovens talentos começa até bem. Mas envereda por caminhos no mínimo estranhos. A relação de Ana com o pintor Said (Nicolas Cazalé) logo é interrompida pela descoberta de seus dons de relembrar vidas passadas através da hipnose; a partir daí a narrativa se torna confusa e sem consistência. Tudo no filme acontece muito rápido e parece nunca se fechar. Na tentativa de parecer descolado, Julio Medem só conseguiu criar um filme que se sabota o tempo todo. E o mais decepcionante disso é que dois de seus filmes anteriores, Lúcia e o Sexo e principalmente Os Amantes do Círculo Polar, são muito bons. Tá certo que a vida de Ana pode ser assim caótica, o que não signifique que o filme precise ser também. E quando a gente acha que já vai acabar, ainda resta uma seqüência final para afundar o que já estava perto do fundo do poço.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

O monstro homem

O Nevoeiro (The Mist, EUA, 2007)
Dir: Frank Darabont



Frank Darabont adaptando Stephen King. Essa receita é certa. Quando se utilizou dos textos de King anteriormente, Darabont nos presenteou com duas pérolas: o tocante (e às vezes piegas) À Espera de um Milagre e o surpreendente Um Sonho de Liberdade. E o mais interessante é que ambos não flertam com o suspense, gênero em que King é mais reconhecido. Mas chegou a vez dos sustos. O Nevoeiro não é só um bom suspense como também se distancia dos demais exemplares do gênero por uma abordagem distinta, aliada a um estudo interessante de personagens que se tornam mais complexos quando colocados em situações-limite.

Uma névoa misteriosa invade uma cidade deixando vários habitantes presos dentro de um supermercado. Dentre eles o poster designer David Drayton (Thomas Jane), seu pequeno filho Billy, um vizinho com quem David possui problemas de relacionamento (Andre Braugher), além da fervorosa religiosa Sra. Carmody (Marcia Gay Harden). Logo vão descobrir que criaturas monstruosas saem da névoa para atacar os humanos.

Se o suspense pode ser alcançado através da sugestão (como na seqüência em determinado personagem, amarrado a uma corda, sai no nevoeiro e é atacado enquanto só vemos a reação de todos dentro do supermercado), também surge a partir do mais puro exploitation, quando criaturas saem de dentro do corpo de um homem. Muito embora os efeitos especiais estejam longe de ser exemplares, o que sempre cria distanciamento, as situações são tensas o bastante para deixar o espectador impressionado.

Se a maior parte do elenco cumpre muito bem seus papéis, o grande destaque vai exclusivamente para Marcia Gay Harden que, a despeito de estar num filme de monstro, é a personagem mais assustadora da história, conferindo à Sra. Carmody uma frieza no limite da loucura. Sua caracterização vai do medo até uma postura de liderança pautada na crença de ser a escolhida para a função de guia religiosa a caminho da salvação. Poderia ser um tanto caricatural sua encarnação da religiosa que vê naquela circunstância um castigo de Deus aos homens. Mas é a partir do excesso que Gay Harden encontra o tom certo (e odioso) de sua personagem.

Porque o problema não é se apegar à palavra de Deus para encontrar força e defesa contra o mal, mas se utilizar dela para, num processo inverso, causar danos e pavor nas pessoas, imbuído numa noção de castigo que precisa ser imposto aos “culpados”. Nesse sentido, momentos de mais puro horror surgem a partir da pregação fundamentalista de Carmody para um grupo de seguidores que ela arrebanha no local e termina com a execução de um dos personagens. Uma das seqüências mais tensas, sem que nenhum monstro apareça na tela; o ser humano pode ser tão tenebroso quanto.

Mas o melhor está reservado para os minutos finais mais assustadores e impressionantes do ano. Darabont se utiliza da tragédia mais dura e triste para alcançar a plenitude e ainda provar que essa coisa conhecida por esperança não deve ser abandonada nunca. Porque pode ser tarde demais para desfazer os erros cometidos nos momentos de desespero.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Beleza e talento juntos num só ser

Os colegas de blog Fabiana (A Culpa é da Crítica) e Alex (Cine Resenhas) me enviaram esse Meme que tem como objetivo eleger as dez atrizes mais belas e talentosas da atualidade em minha opinião. Aliar essas duas qualidades não é fácil, mas tem muitas garotinhas por aí que esbanjam nos dois quesitos. Uma lista de dez só é possível porque mulheres como Natalie Portman, Monica Belucci, Rachel Weisz, Juliette Binoche e Najwa Nimri ficaram de fora. Mas vamos à lista:

Naomi Watts


Julie Delpy


Catalina Sandino Moreno


Alice Braga


Eva Green


Clotilde Hesme


Laura Linney

Gong Li


Jennifer Connelly


Scarlett Jonhansson