segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Últimas curtinhas do ano


Jovens Adultos (Young Adults, EUA, 2011)
Dir: Jason Reitman


Quando o diretor Jason Reitman e a roteirista Diablo Cody fizeram Juno, o sucesso do filme se devia a um roteiro rico de sutilezas, driblando todo tipo de simplismos e facilidades dramáticas. Retornando a parceria em Jovens Adultos, é justamente o roteiro que parece não se desenvolver a contento aqui. A ideia de uma mulher adulta que age como uma adolescente imatura acaba sendo reiterada a todo instante, a começar pela escolha óbvia da profissão dela como escritora de romances para adolescentes. É como se o filme precisasse que ela aja repetidamente como uma teen até chegar em seu clímax explosivo no final. Engraçado que uma história sobre mentalidade pessoal peca justamente por um roteiro um tanto engessado, especialmente depois de um filme tão "crescido" como Juno.

Uma pena porque o filme conseguiu uma intérprete à altura para entender o comportamento e a psicologia atrasada de sua protagonista. Charlize Theron defende sua personagem megera com propriedade, fazendo dos pequenos gestos e expressões a medida ideal da imaturidade escondida por traz da altivez que ela estampa na cara – e nesse sentido, direção de arte e figurinos são acertadíssimos em compor esse universo duplo da protagonista. Mas também como comédia o filme não parece funcionar como promete, o que torna Jovens Adultos arrastado e decepcionante.


L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância (L’Apollonide – Souvenirs de la Maison Close, França, 2011)
Dir: Bertrand Bonello 


O submundo do sexo, da exploração/venda do corpo e dos prazeres, parece ser o maior interesse do cineasta francês Bertrand Bonello. Se em seus filmes anteriores, Tirésia e O Pornógrafo, a temática aparecia de forma um tanto suja ou mais explícita, em L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância, que recebeu no Brasil um subtítulo eufemístico, esse submundo está lá, mas cercado por um ambiente mais aristocrático – mesmo que sujeito às intempéries que cercam o trabalho das prostitutas – que nos transportam a um outro tempo. O bordel de luxo vive seus últimos dias na passagem do século XIX para o seguinte, dentro de uma atmosfera carregada de melancolia.

Não há um centro narrativo de guia, mas um emaranhado de situações que se desenrolam com essas meninas. Obviamente, algumas delas ganham destaque no percurso (como a Mulher que Ri, marcada por uma fatalidade na profissão), isso porque Bonello tem um carinho imenso pelas putas e acompanha o dia-a-dia de trabalho, sonhos e frustrações que se acumulam, enquanto a casa tenta se manter de pé. Todo o filme é cercado por uma atmosfera latente de tepidez e decadência, mas é evidente o cuidado que aquelas meninas mantém entre si, uma espécie de família construída em torno de ofício tão socialmente rejeitado. Desse ambiente deprê, L’Apollonide expõe um retrato luxuoso do declínio de uma época, mas não de uma maneira de ganhar a vida, como fica evidente na também triste cena final.


Marcados para Morrer (End of Watch, EUA, 2012)
Dir: David Ayer 


Da onda de mocumentários que tem surgido recentemente, Marcados para Morrer parece conseguir o que a maioria deles pretende enquanto artefato estético: uma relação mais próxima com o real, apesar desse ser um termo difícil de definir. Toma como registro a rotina de dois parceiros policiais, vividos por Jake Gyllenhaal e Michael Peña, no dia-a-dia de trabalho nas ruas de Los Angeles, na sua relação de amizade e na vida familiar que constroem. Trata-se de um filme policial sem o glamour das cenas de perseguição e heroísmo dos filmes de ação. Seu grande mérito é se aproximar de um retrato cru da vida de policial, enfrentando o destemor dos bandidos e a corrupção dentro da própria instituição que trabalham. São, portanto, agentes e reféns de um sistema maior e mais complexo do que eles imaginam.

Mas seguem fazendo seu trabalho, com um mínimo de honestidade, também sabendo se aproveitar de seu lugar como detentores de autoridade. Mesmo assim, há uma certa ingenuidade no ar, especialmente pelo personagem de Gyllenhaal, justo quem decide registrar com sua câmera caseira tudo que lhe acontece, ideal para representar essa profissão perigo através de uma ótima mais realista. A fronteira entre a brincadeira e a seriedade é bastante fina, nunca se sabe o que virá a seguir. Marcados para Morrer, como o próprio nome indica, nos coloca no universo da criminalidade e do perigo constante do qual o cinema já nos ensinou a ver e compreender nos filmes do gênero, mas que aqui ganha proporções mais palpáveis, sem firulas, e por isso mesmo mais verdadeiras.


Tropicália (Idem, Brasil, 2012)
Dir: Marcelo Machado 


Dos documentários musicais brasileiros que viraram modinha nos últimos anos, pode-se dizer que Tropicália é um dos mais felizes na sua inventividade conceitual. Ao falar do movimento artístico que frutificou a partir do fim da década de 1960, quando os artistas baianos (notadamente Caetano Veloso e Gilberto Gil) despontaram com sua música de sonoridade renovada, o filme se apropria de um certo tom libertário, fugindo da narrativa tradicional, mas ainda assim sendo bastante elucidante sobre o tema. Sem se limitar somente à música, o filme faz um apanhado das confluências artísticas que frutificavam no Brasil à época e que foram os pilares do Tropicalismo enquanto movimento artístico.

O filme traz um recorte riquíssimo de imagens de arquivo, especialmente algumas pouco vistas e conhecidas, além de reveladoras (como a cena que abre o filme, retirada de um programa de TV em Portugal com a participação de Caetano e Gil assim que chegaram exilados na Europa). Com esse rico material, o diretor Marcelo Machado faz um trabalho de montagem incrível e inventivo, sem perder o percurso que traça do movimento, entremeando os descaminhos políticos que o Brasil vivia, com as interferências e desmandos do governo militar, essenciais para se entender o momento histórico quando tudo aquilo ganhava forma. Daí que não é de se espantar que imagens de Terra em Transe, de Glauber Rocha, ganhe tonalidades coloridas, ou que imagens das fotos antigas sejam recortadas e ganhem animação. Na profusão do movimento artístico, Tropicália se entrega ao pop e à modernidade e nos entrega uma narrativa deliciosa de acompanhar. Definitivamente, trata-se de um filme tropicalista.


Deus da Carnificina (Carnage, França/Alemanha/Polônia/Espanha, 2011)
Dir: Roman Polanski 


A maior surpresa em relação a esse filme é que se trata de um registro cômico, e não dramático, como o tema tenderia a ser. Apesar da origem teatral do texto, baseado na peça da francesa Yasmina Reza, Polanski conseguiu impor um narrativa cinematográfica, passeando com a câmera pelos espaços do apartamento, sempre variando ângulos e enquadramentos. Porque a força da história dos dois casais de pais que discutem a briga de seus filhos na casa de um deles está justamente nos diálogos e nos desdobramentos que aquele encontro, aparentemente amigável, poderia ter. No fundo, o texto original foi feito para ser encenado num espaço só, não é preciso esconder isso, e sim fazer dele uma foça narrativa.

Por mais que o desenvolvimento da longa conversa nem sempre se sustente – incomoda, por exemplo, as desculpas utilizadas pelos personagens para que o casal visitante permaneça na casa discutindo –, o filme ganha no desenho que faz daquelas pessoas, expondo sua visão de mundo e também seus conflitos internos. O tom cômico acentua bem a hipocrisia dos personagens, tom esse que vai crescendo até chegar numa espécie de pastiche, um retrato de adultos portando-se como crianças imaturas (enquanto as crianças parecem lidar muito melhor com suas desavenças, como demonstra a cena final). Por isso nem incomoda que Jodie Foster e John C. Reilly beirem uma atuação mais histriônica. Chega-se a um estado de calamidade para aqueles quatro, seu reino de aparências e brio arranhados, uma carnificina só.


O que Eu Mais Desejo (Kiseki, Japão, 2011)
Dir: Hirokazu Kore-eda 


Retornando ao universo dos personagens infantis, como já fez no maravilhoso Ninguém Pode Saber, Hirokazu Kore-eda cometeu mais um filme sensível que tem nas atitudes das crianças sua maior força de sinceridade. Mas diferente da tristeza do anterior, O que Eu Mais Desejo tem algo de mais animador, que se esconde pela sutileza da narrativa, uma das marcas do cineasta japonês. Como o ponto de vista aqui é o das crianças, fica mais fácil ainda aliar a ingenuidade delas com a história bonitinha. Koichi (Koki Maeda) e Ryunosuke (Ohshirô Maeda) são irmãos que vivem, cada um, com os pais separados. Quando descobrem que no momento em que dois trens bala se cruzam a energia emitida é tão forte que é possível acontecer um milagre, eles e alguns amigos partem na tentativa presenciar esse encontro e desejar que seus pais possam voltar a viver juntos. Simples assim.

É o tipo de história que só parece fazer sentido pela visão de crianças e sua imaginação fértil, embora Kore-eda aproveite para explorar a rotina da família que vive separada. Mas mesmo assim, não há pesar nem problemas duros que agravem o cotidiano dos garotos, mas somente o retrato de uma situação tão comum entre as famílias hoje. O ritmo do filme por vezes se torna um tanto arrastado, e o filme podia ser um pouco mais enxuto, mas Kore-eda prefere o registro intimista, também outra de suas características estilísticas. Mas O que Eu Mais Desejo tem também uma das cenas mais belas do ano, no clímax da história quando os garotos chegam a seu destino, e quando um ato do irmão mais velho indica um pequeno amadurecimento em relação à forma como vê sua própria vida em família. Do conto singelo de crianças esperançosas por um milagre, o filme ganha um tom de rito de passagem, da forma mais sutil possível.


Liv & Ingmar – Uma História de Amor (Liv & Ingmar, Noruega/Índia/Reino Unido, 2012)
Dir: Dheeraj Akolkar 


O cinema de Ingmar Bergman possui algo de tão pessimista, frio e duro que qualquer registro mais amoroso que o envolva parece um tanto estranho. Não que se queira aqui duvidar da amorosidade e ternura de seus relacionamentos pessoais, mas esse documentário tenta imprimir um tom tão forçado na relação entre ele e a atriz Liv Ullman, uma das grandes atrizes que ele descobriu, que, na maior parte das vezes, soa como algo deslocado, difícil de comprar, até mesmo oportunista. Ajuda muito que Liv Ullman seja a voz única aqui, seu relacionamento com o cineasta sueco sendo dissecado por suas lembranças e sentimentos, que em nenhum momento parecem falsas. Portanto, um retrato bastante íntimo e personalizado.


Mas outro grave problema do documentário é a forma como se constrói como narrativa através das imagens que servem de apoio para as falas de Liv. Usa-se uma série de cenas dos filmes que Bergman dirigiu da forma mais óbvia possível: quando se fala da separação, imagens de Cenas de um Casamento; quando o assunto é morte, cenas de O Sétimo Selo, e assim por diante. Dá a impressão errônea de que todos os filmes de Bergman estão, de alguma forma, ligados ao relacionamento dos dois. Não se nega aqui que a filmografia dele tem muito de autobiográfica, mas o recurso demonstra a falta mesmo de uma forma mais interessante de ilustrar os depoimentos de Liv. Tudo é muito pessoal e a história deles é realmente bonita, apesar do temperamento forte e peculiar do diretor, mas merecia um tom menos melodioso e mais sincero com seus personagens.

10 comentários:

Wallace Andrioli Guedes disse...

Puxa, adorei JOVENS ADULTOS, me pareceu um Jason Reitman mais maduro que de costume (apesar de ainda achar AMOR SEM ESCALAS seu melhor filme).
Não acho TROPICÁLIA isso tudo, me parece mais um documentário musical brasileiro pouco inventivo e, como conheço razoavelmente o assunto que discute (estudei tropicalismo e cinema no mestrado), tudo me soou superficial e didático demais.
Acho DEUS DA CARNIFICINA um bom filme, mas aquém do Polanski que aprendi a admirar.
Os outros não assisti, mas de amanhã L'APOLLONIDE não passa!

Amanda Aouad disse...

Bom, comentarei apenas do que vi. Eu adorei Tropicália, porque realmente é um filme que sabe utilizar bem o rico arquivo que tinha nas mãos, com montagens criativas e um clima do movimento. Gosto da forma como ele usa os depoimentos também.

O que eu mais desejo, é poético. O sonho do menino de reunir a família, a forma como ele vai vendo as coisas, o resultado. Tudo isso, encanta mesmo. E com certeza, só tem força porque o filme é construído pela visão da criança.

Já Deus da Carnificina, não achei que o texto não se sustenta, por mais que pareçam meio tolas as tentativas de manter todos na sala. Na verdade, eles estavam querendo discutir a situação, mas começam de maneira polida, aquilo está engasgado na garganta e por isso, qualquer desculpa os faz retornar e continuar a "conversa". Gosto muito do filme e a forma como Polanski usa a linguagem cinematográfica em um cenário tão restrito.

Estou curiosa quanto a Liv & Ingmar – Uma História de Amor, mas seu texto acabou confirmando a sensação de que é um doc problemático.

Stella Daudt disse...

Feliz Ano Novo, Rafael! As postagens de Moviola Digital me mostram que vou ficar bastante ocupada em 2013, conferindo tantos lançamentos que perdi no cinema.

Rafael Carvalho disse...

Wallace, mais discordâncias entre a gente. Não consegui me envolver com Jovens Adultos, não me parece nem adulto nem engraçado, uma lástima porque adoro Juno. Tropicália me encantou porque, apesar do didatismo, ele tenta fugir do registro comum com uma narrativa um pouco mais inventiva. Agora com o aprofundamento que você tem do tema, entendo sua exigência. Para mim, continua sendo um filme que se destaca.

Amanda, o melhor do filme japonês é que por trás dessa melancolia toda, existe um filme alegre, sem precisar forçar um tom muito condescendente, e é bonito. Sobre Deus da Carnificina, não quis dizer que o texto não se sustenta, mas que às vezes incomoda algumas saídas. Mas sua explicação para persistência do casal no apartamento é bem boa. E só de ver o trailer de Liv & Ingmar, dá pra notar esse tom meloso no doc. Não me agradou mesmo.

Valeu, Stella. Que seu 2013 seja, então, recheado de bons filmes.

Elton Telles disse...

Ótimos comentários, Rafael.
Não assisti ainda a "Liv & Ingmar" e uma pena esse projeto aparentar pelo seu texto não estar à altura desses dois ícones. Nutria esperanças quanto ao filme.

Gostei de "Jovens Adultos". Achei uma fita despretensiosa, bem Alexander Payne dos anos 90. E concordo que Charlize está explosiva, mas também fiquei sentindo falta de algo mais bem elaborado, considerando a dupla por trás disso tudo.

"L'Apollonide" é maravilhoso mesmo. Uma reflexão vertical sobre os desejos e o corpo.

Gostei também de "Marcados para Morrer", mas mais pela atuação dos protagonistas e suas interações do que a sua técnica em si. Já "Tropicália" é definitivamente um filme tropicalista mesmo, mas a curta duração o prejudica, eu achei.

Pra finalizar, "Deus da Carnificina" vai perdendo sua razão no final e eu brochei, já "O Que Eu Mais Desejo" eu achei uma chatice cíclica. Tem momentos bonitinhos, mas não passa disso. O que vc cita no texto, "Ninguém Pode Saber", é infinitamente superior.

Lindo como as suas "curtinhas" são mais profundas do que muitas críticas por aí rs. Congrats!


Feliz 2013 pra nós, meu caro!

abs.

bruno knott disse...

O Que Eu Mais Desejo é excelente. Concordo bastante com o teu comentário aqui, o filme transmite uma certa alegria sem forçar. E eu te digo, não achei o filme arrastado, apesar de em alguns momentos ele não avançar nada na trama, gostei de acompanhar aquela família em suas rotinas.

Hirokazu Koreeda é um grande diretor. Meu preferido dele acredito ser Still Walking.

Gustavo disse...

Gostei mais de Jovens Adultos, mas como drama. Se for encarar como uma comédia (e acho que foi vendido assim), realmente, expectativas não serão preenchidas.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Gostei demais de TROPICÁLIA e DEUS DA CARNIFICINA.
Feliz 2013, Rafael. E viva o cinema!

O Falcão Maltês

Matheus Pannebecker disse...

Só assisti dois: "Jovens Adultos", que não é grande coisa, mas tem um ótimo desempenho da Charlize Theron; e "Deus da Carnificina", que achei um completo desperdício de elenco (nunca pensei ver a Kate Winslet e a Jodie Foster exageradas em um filme).

Rafael Carvalho disse...

Opa Elton, que bom que as curtinhas surtem esse efeito tão positivo, valeu pelo retorno. Marcados para Morrer, apesar da técnica do mockumentary não ser mais novidade, acho que se aproveita bastante de sua proposta realista para falar de uma realidade na rotina policial, sem glamour. Nesse sentido, o uso da técnica, para mim, é um ponto forte e importante pro filme. Sobre Deus da Carnificina não entendi porque o filme perde a razão, eu acho que ele passa a ser mais pastelão no final, um retrato de imaturidade daqueles adultos. Confesso que às vezes O que Eu Mais Desejo se arrasta mesmo, mas ainda assim acho o filme uma doçura. Que 2013 seja feliz para nós.

Bruno, essa coisa do arrastado depende também da pessoa e do momento que você assiste. Mas mesmo achando um pouco lento, me envolvi completamente com a história. Já Still Walking eu não vi ainda, vou correr atrás.

Pois é Gustavo, eu esperava uma comédia com Jovens Adultos (o trailer me dava essa impressão), mas não encontrei esse tom, e como drama acho o filme bem falho.

Massa, Antonio. Tropicália é, para mim, um dos grandes filmes do ano. Feliz 2013 para nós!

Matheus, não acho o elenco problemático em Deus da Carnificina. Esse exagero me parece bastante plausível para aquela situação, não vejo incongruência.