quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Faltou amor

Os Homens que Não Amavam as Mulheres (Män Som Hatar Kvinnor, Suécia/Dinamarca/Alemanha, 2009)
Dir: Niels Arden Oplev


Incrível como me bateu uma forte impressão de história mal adaptada depois que eu vi esse Os Homens que Não Amavam as Mulheres, muito embora eu nunca tenha lido uma linha sequer do livro original em que se baseia o filme (faz parte da Trilogia Millennium – já encaminhada para o cinema – que faz enorme sucesso na Suécia).

Comparações pouco positivas com os livros de Dan Brown que ganharam as telonas (O Código Da Vince e Anjos e Demônios) só reforçam o sentido negativo que o projeto possui. Então, uma pergunta: por que adaptar um material desse? Resposta: faz sucesso e vende ingresso. Até mesmo na Suécia!

O problema do filme é que ele parece depender demais de coincidências e acasos para resolver sua trama de mistério que nem envolve tanto mistério assim. O jornalista Mikael (Michael Nyqvist), acusado por calúnia e difamação, é contratado por um rico empresário para desvendar o misterioso desaparecimento de sua sobrinha, há 36 anos antes. Ele, então, viaja para a ilha onde a moça foi vista pela última vez e vai contar com a ajuda de uma investigadora (Noomi Rapace) bastante peculiar em seus métodos.

Existe ainda uma enxurrada de personagens que o roteiro não dá conta de desenvolver satisfatoriamente pelo simples fato de serem muitos. As histórias de alguns deles nem soam tão interessante assim, ou pelo menos não parecem ter tanta importância na trama. O jornalista, por exemplo, enfrenta um caso na justiça, que logo é totalmente esquecido pelo roteiro. A ajudante dele mantém uma relação de dependência com um homem mais velho que chega ao ponto de sadomasoquismo, mas não contribui em nada com o andar da narrativa.

E a própria investigação do desaparecimento parece um tanto desamarrada porque os personagens precisam fazer elucubrações mirabolantes para alcançar determinadas conclusões (sempre certeiras). Sem isso, o filme não conseguiria avançar, mas é uma pequena que o jogo de descobertas e intrigas seja tão frustrante.

Por isso mesmo, quando o filme aposta na atmosfera de mistério, é difícil criar identificação e curiosidade para novas reviravoltas. A narrativa segue cansativa em suas quase 2 horas e meia, embora exista bons momentos de suspense em algumas partes do filme.

Nesse sentido, o filme transcorre como uma sucessão de fatos que precisam se encadear somente, sem transparecer aquela vontade de contar bem uma história, explorando os recursos do audiovisual. Enfim, falta amor.


PS: O pior de tudo é saber que o filme já tem uma refilmagem garantida em Hollywood, não se sabe com que propósito se esse filme já possui um apelo tão comercial. E o diretor é David Fincher. Será que ele tá precisando tanto assim?

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Elegante assassinato

Quem Matou Leda? (À Double Tour, França, 1959)
Dir: Claude Chabrol



Se as atenções em torno do marco inicial da Nouvelle Vague reincidem bastante sobre Truffaut e Godard, há de se fazer jus a outros cineastas que deram impulso ao movimento, em especial se pensarmos no ano de 1959, considerado o ponto de partida da escola francesa. Chabrol seria uma dessas peças fundamentais, o primeiro dos novos cineastas a lançar um longa de ficção (Nas Garras do Vício, em 1958). Quem Matou Leda? foi feito em seguida e acompanha a nova safra de grandes filmes franceses que seriam realizados a partir de então.

O filme, pouco conhecido dentro da vasta obra do cineasta, é uma maravilha de mise-en-scène, numa composição interessantíssima de personagens que ultrapassa o próprio mistério do filme. Na verdade, o título original em português subtende um assassinato que só vai ocorrer depois da metade da narrativa e se soluciona pouco tempo após.

Antes disso, somos apresentados a uma família burguesa que logo transparece seus relacionamentos frágeis. O patriarca Henri mantém um caso extra-conjugal que é do conhecimento de todos na família. A esposa fica cada vez mais transtornada com isso, enquanto o casal de filhos parece indiferente com a situação. É o noivo tresloucado da filha que, quando chega, expõe claramente toda a hipocrisia velada que toma conta daquele ambiente.


E esse personagem vai se tornar ponto central da história. Interpretado por um Jean-Paul Belmondo inspiradíssimo, ícone da Nouvelle Vague (mais conhecido por ter protagonizado Acossado), surge como um oportunista, mal educado e bon vivant. É um corpo estranho dentro daquele ambiente burguês em que tudo precisa transparecer limpeza e sofisticação (o que aproxima muito o trabalho de Chabrol com o de Luís Buñuel). Mas é o mais coerente de todos, além de sua sinceridade torta e muitas vezes descabida.

O cineasta, fascinado pelo trabalho de Hitchcock, vai se utilizar largamente da atmosfera do mistério (espelhada em toda sua filmografia), mas ao mesmo tempo fazer jus a seu próprio estilo que começa a ser construído ali. O cinema do Chabrol se revela muito elegante na forma como conduz os planos, com movimentos de câmera e ângulos sempre bem trabalhados, mas que nunca se tornam exibidos; eles nunca querem roubar a atenção do filme.

Chabrol constrói, portanto, um percurso cujas peças vão se montando calmamente (com a ajuda de dois importantes flashbacks dentro do filme), sempre apegado em pequenos detalhes, enquanto os personagens vão demonstrando sua verdadeira importância dentro da narrativa. A maestria do cineasta está em revelar, aos poucos, as verdadeiras faces da personalidade humana, sempre da forma mais sofisticada possível.


PS: Agradeço o convite do Janela Indiscreta para comentar o filme na sessão dessa terça-feira. A discussão foi bem produtiva.

sábado, 7 de agosto de 2010

Curtinhas

A Bela da Tarde (La Belle de Jour, França, 1967)
Dir: Luis Buñuel


Luis Buñuel adorava espinafrar a classe burguesa, esse era um deus principais temas e preocupações. Em A Bela da Tarde ele utiliza o tema da perversão sexual, de uma mulher casada, para esse intento, tentativa bem-sucedida de bater de frente com o conservadorismo de uma classe alta tão cheia de “princípios” em plenos anos 60. Embora esteja longe de ser um dos meus favoritos do diretor, A Bela da Tarde vale muito por mexer, de forma sóbria e ao mesmo tempo complexa (porque aborda a psicologia e a sexualidade humanas), com aquele estilo direto do diretor.

Catherine Deneuve, poucos anos depois de interpretar a frígida protagonista de Repulsa ao Sexo, do Polanski, personifica essa mulher que, um tanto infeliz no casamento, procura satisfazer seus desejos indo trabalhar num bordel de luxo; mas ela só pode à tarde, ninguém deve suspeitar disso. Buñuel, nunca escandaloso, não possui intenção nenhuma de chocar para chamar atenção para o filme. Sua veia surrealista surge nas divagações sexuais da protagonista, e ainda prega peças no espectador pois muitas vezes não conseguimos distinguir se aquilo acontece no plano psicológico ou não. Mais um belo jogo proporcionado pela mente humana e pelo mestre espanhol.


Sempre Bela (Belle Toujours, França/Portugal, 2006)
Dir: Manoel de Oliveira


Quanta elegância, Sr. de Oliveira. A idade avançada do realizador perece ser o principal fator para tamanho talento e segurança na condução de um filme. Ao mesmo tempo, é tarefa arriscadíssima assumir a continuação de um clássico absoluto do cultuado cineasta Luis Buñuel em sua fase francesa surreal. Oliveira, espertíssimo, soube resgatar a história da mulher casada que passava as tardes num bordel para satisfazer seus desejos. Mas agora o foco do filme não é mais a mulher, ou pelo menos não é a protagonista, lugar esse ocupado por Henri Husson (Michel Piccoli, reprisando seu papel no filme anterior), que reencontra Séverine (agora vivida por Bulle Ogier) depois de muito tempo.

Longe de copiar a escrita direta e pontuada de surrealidade de Buñuel, Oliveira faz jus a seu próprio estilo de filmar: nada transcorre apressadamente, os planos são longos e fixos, o texto é conciso, tudo é econômico. É também um filme sobre uma busca pois Henri, ao ver Séverine num teatro, perde-a de vista e passa a rondar Paris à busca da mulher de seu amigo que, outrora, sob indicação sua, foi trabalhar no bordel. Portanto, conhece o segredo daquela mulher. Nesse caminho, o personagem mantém diálogos interessantes com outras pessoas num bar, como o barman e duas velhas prostitutas; falam sobre amor, tempo, juventude, assuntos que poderiam soar ocasionais se não dissessem tanto sobre os personagens. A direção de arte também faz um belo trabalho, em especial na sequência final do jantar, em que, aí sim, Oliveira evoca Buñuel na dúvida que permanece.


Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, EUA, 2010)
Dir: Tim Burton


Esse filme de Tim Burton soa estranhamente como uma continuação de algum filme anterior que pouca gente parece ter visto. Esse “filme” anterior parece ser o próprio livro homônimo de Lewis Carol que é a base de toda a história. Mas aqui, Alice já está crescida e retorna ao mundo da fantasia depois de já ter estado por lá. Agora, surge como a “escolhida” para derrotar as forças do mal e devolver o poder ao lado do bem (o que me lembrou estranhamente As Crônicas de Nárnia, numa referência pouco positiva).

Parece que Tim Burton não quis fazer mais um filme sobre a menininha curiosa e de mente completamente fértil que adentra um lugar misterioso, muito embora talvez isso fosse bem mais fiel ao universo cinematográfico do diretor. Desde o início eu estava achando estranho o tom de aventuresco do longa e é assim que ele se apresenta. Dessa forma, a obra perde todo o subtexto do poder da imaginação, deixando para trás o misto de encantamento e estranheza de sua protagonista, apostando numa história que se quer épica. Alem disso, a roupagem visual é carregada demais. A fantasia perdeu o encanto.


O Escritor Fantasma (The Ghost Writer, Reino Unido/França/ Alemanha, 2010)
Dir: Roman Polanski


Polanski continua afiadíssimo. Seu mais novo projeto, finalizado pouco antes da reviravolta que o levou à prisão recentemente, é um thriller de competentíssimo apresentado da forma mais clássica possível, adotando aquele ar de puro mistério, recheado de intrigas e suspeitas que podem vir de qualquer parte. No fim das contas, a narrativa é muito simples, nada de grandes surpresas ou reviravoltas megalomaníacas, mas é a partir daí que ele leva seu protagonista, o escritor por encomenda vivido por Ewan McGregor a adentrar o mundo sombrio de Adam Lang (Pierce Brosnam, em ótima performance), um político de rabo preso recentemente sob a mira da mídia por seus negócios escusos.

Polanski tem um ótimo roteiro em mãos e faz com que a narrativa evolua mantendo sempre o interesse na história, à medida em que cresce a tensão, ajudada muito por uma fotografia carregada num tom de azul sombrio. O filme parece reviver os bons tempos de Chinatown ou mesmo do mais recente Busca Frenética, para apostar em momentos de pura tensão. A cena do bilhete passando de pessoa a pessoa (numa última revelação importante) só não é melhor que a cena final, um lembrete de que as consequências pela descoberta da verdade podem ser gravíssimas.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Filmes de julho


1. O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus (Terry Gilliam, Reino Unido/Canadá/França, 2009) **

2. Busca Frenética (Roman Polanski, EUA, 1988) ****

3. A Tortura do Silêncio (Alfred Hitchcock, EUA, 1953) ***½

4. A História Oficial (Luis Puenzo, Argentina, 1985) ****½

5. O Rei da Comédia (Martin Scorsese, EUA, 1982) ****

6. Pacto de Sangue (Billy Wilder, EUA, 1944) ****½

7. Noites de Circo (Ingmar Bergman, Suécia, 1953) ****

8. O Túmulo dos Vaga-Lumes (Isao Takahata, Japão, 1988) ***½

9. Toy Story 3 (Lee Unkrich, EUA, 2010) ****

10. Nazarin (Luis Buñuel, México, 1959) ****½

11. Alice no País das Maravilhas (Tim Burton, EUA, 2010*) **

12. Quase Famosos (Cameron Crowe, EUA, 2000) ****

13. Zona Verde (Paul Greengrass, EUA/Reino Unido/França/ Espanha, 2010) ***½

14. Soul Kitchen (Fatih Akin, Alemanha, 2009) ***½

15. Vidas que se Cruzam (Guillermo Arriaga, EUA/Argetina, 2008) **

16. O Preço da Traição (Atom Egoyan, EUA/Canadá/França, 2009) **½

17. O Búfalo da Noite (Jorge Hernadez Aldana, México, 2007) *

18. Os Homens que Não Amavam as Mulheres (Niels Arden Oplev, Suécia/Dinamarca/Alemanha, 2009) **

19. Os Palhaços (Frederico Fellini, Itália/França/Alemanha Ocidental, 1970) **½

20. Atravessando a Ponte – O Som de Istambul (Fatih Akin, Alemanha/Turquia, 2005) ****

21. Direito de Amar (Tom Ford, EUA, 2009) ***


Revisões:

22. À Prova de Morte (Quentin Tarantino, EUA, 2007)

23. Filhos da Esperança (Alfonso Cuarón, EUA/Reino Unido, 2006)

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Almas espirituosas

Soul Kitchen (Idem, Alemanha, 2009)
Dir: Fatih Akin


A melhor coisa em Soul Kitchen é seu humor escancarado que não precisa cair no riso forçado que acomete grande parte das comédias contemporâneas (e nesse sentido é impossível negar a culpa de Hollywood nesse processo). O filme do turco-alemão Fatih Akin é também uma grata surpresa vindo de um cineasta tão afeito a dramas multiculturais, como a superestimado Contra a Parede (Leão de Ouro em Berlim) e o ótimo e pouco visto Do Outro Lado.

Na verdade, essa vertente social está presente aqui também, mas sem nunca se tornar uma bandeira no filme, correndo o risco de engessá-lo. Muito pelo contrário, mais importa ao cineasta narrar a via crucis de seu protagonista, o atrapalhado Zinos (Adam Bousdoukos), de descendência grega, que, morando na Alemanha, é dono de um restaurante mixuruca. O bom-humor, aqui, é o que prevalece.

Zinos vê sua vida desmoronando depois que sua namora abastada e mimada resolve ir morar na China, ao mesmo tempo em que precisa fazer lucrar seu negócio, pois disso depende sua sobrevivência. Problemas com a vigilância sanitária, uma hérnia que ataca em momento inoportuno e um amigo que acabou de sair da cadeia são só mais alguns pepinos que ele acumula ao longo da narrativa.

Um dos grandes trunfos do filme está no fato de Akin nunca julgar seus personagens, abraçando de coração a estupidez de Zinos, por exemplo, diante da namorada por quem continua apaixonado, fazendo planos de ir ao país asiático apesar de estar financeiramente quebrado. Ao mesmo tempo, é através da ingenuidade do personagem que o filme retira sua graça, tendo o ator Adam Bousdoukos um ótimo timing para a comédia.

Como se não bastasse há ainda uma gama de outras figuras hilárias, como o velhinho ranzinza que aluga um quartinho no restaurante (que nunca paga), ou o chefe de cozinha arrogante que tenta (e consegue) transformar aquele ambiente soturno em um lugar de alta culinária (mesmo que voltada para jovens), ou o amigo conterrâneo com inclinações para a bandidagem, mas que possui um bom coração.

Mesmo assim, o filme não está isento de alguns momentos forçados, principalmente na sua parte final, apostando demais em coincidências e reviravoltas para não entravar sua narrativa. Mas Akin trata tudo isso com um frescor incrível e um senso do melhor humor, aquele que nos faz rir não só porque é engraçado, mas porque é resultado de um filme totalmente espirituoso.

domingo, 25 de julho de 2010

Círculo vicioso

Vidas que se Cruzam (The Burning Plain, EUA/Argentina, 2008)
Dir: Guillermo Arriaga



Vidas que se Cruzam é o nome mais genérico para definir os trabalhos de Guillermo Arriaga, desde os filmes que ele roteirizou, contando com a parceria (hoje abalada) de Alejandro González Iñárritu, até essa sua estreia por trás das câmeras. Seu estilo de escrita é o maior obstáculo pois emperra não só no problema da repetição, mas também na crença de que isso basta para criar um bom filme.

Se em Amores Brutos, uma obra-prima, o que menos importava era como as histórias se entrelaçavam e em 21 Gramas a dupla tenha proposto uma interessantíssima narrativa esfacelada, as coisas começam a ficar cansativas a partir de Babel, em que a riqueza dos personagens não parecia encontrar espaço no filme, e piora com o péssimo O Búfalo da Noite (dirigido por Jorge Hernandez Aldana), um filme totalmente desimportante.

O maior erro de Vidas que se Cruzam é insistir num mesmo recurso narrativo, adotando o mesmo ar de drama carregado, quando seus personagens pouco fazem para criar identificação com o espectador. A história vai e volta no tempo enquanto tentamos montar um quebra-cabeça narrativo que parece ser mais importante do que o próprio desenvolvimento dos personagens e seus conflitos.

Aquele tom humanista para a vida das pessoas e seus dramas particulares parece ser um detalhe, quando deveria ser o grande foco do filme, pois trata de relações complexas, seja entre pais e filhos, seja em relacionamentos amorosos.

Nem mesmo as belas interpretações de Kim Basinger e José María Yazpik, que travam um caso extraconjugal, tentando escondê-lo da família, quanto o desequilíbrio emocional representado por uma inspirada Charlize Theron, conseguem dar muita substância ao filme. A história começa com a morte desse casal de amantes num trailer depois de uma explosão aparentemente acidental, e avança em meio as causas e consequências dessa relação.

A frieza com que a história vai avançando parece se fortalecer com essa própria estrutura, impressão forte de dejà vu que torna tudo mais cansativo e pouco original. O que nos faz crer que uma mudança de ares faria muito bem a Guillermo Arriaga e seu cinema auto-importante.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Pura adrenalina

À Prova de Morte (Death Proof, EUA, 2007)
Dir: Quentin Tarantino




A história é bem conhecida. Os amigos Quentin Tarantino e Robert Rodriguez resolveram fazer um filme em homenagem às grindhouses, cinemas norte-americanos que exibiam sessões duplas de películas trash. Os filmes deviam ter o mesmo espírito e tom exploitations dos que eram exibidos nesses lugares. Cada qual ia fazer um média-metragem para compor o projeto.

Mas aí eles filmaram demais e o filme ficou enorme. Foi lançado nos EUA com fracasso (o segmento do Tarantino fazia sempre muito mais sucesso, inclusive sendo selecionado para a mostra principal em Cannes). Daí o estúdio resolveu lançar os dois filmes em separado. Acontece que Planeta Terror, o ótimo filme do Rodriguez, foi lançado logo no Brasil enquanto que À Prova de Morte chega a nossos cinemas agora, passados três anos de lançamento do projeto.

E é bem difícil entender isso porque Tarantino é um nome de respeito, o filme tem um bom apelo comercial e, melhor de tudo, trata-se de um grande filme, adrenalina pura. É tmbém um dos trabalhos menos pretensiosos do cineasta, quase que feito pelo simples prazer de fazê-lo, repleto daqueles diálogos nonsense, personagens interessantíssimos e cenas maravilhosas, embora ele pareça aqui menos formalista na construção das cenas.

A narrativa se divide em duas partes, ambas recheadas de mulheres falando animadamente sobre relacionamentos, sexo, drogas, curtição, no melhor estilo feel good. É onde a moral é não ter moral nenhuma. Ao mesmo tempo não consigo entender porque tanta gente acusa o filme de misógino, pois as personagens femininas do filme, em sua liberdade jovial, cheias de saúde, são quase como que reverenciadas pelo diretor, na forma como elas dominam exuberantemente o filme. É só lembrar da dancinha erótica que uma delas realiza em determinado momento. É de ficar enebriado com aquilo.
Mas eis que entra na balança o senso de adrenalina do diretor, talvez mais aguçado do que nunca, personificado na figura do Dublê Mike, personagem de Kurt Russel, o vilão que vem para assustar a todas. O pesonagem está presente nas duas metades do filme, seu elo de ligação, evoluindo muito bem em sua torpeza. Seu carro, à prova de morte, é o mais assutador no filme. O final das duas metades são estonteantes.

Resta ainda todo o aspecto visual retrô deliciosíssimo, que encontra no trabalho de fotografia a estilização perfeita do “filme b”, com a tela cheia de arranhões, deliciosamente cheirando a antigo (na primeira parte). Soma-se a isso a já esperada trilha sonora super cool e a série de referências que ele adora enchertar aqui e ali. Talvez seja esse o Tarantino mais puro, o mais saudosista, o mais despreocupado, o mais de coração.

domingo, 11 de julho de 2010

O outro lado do espelho

O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus (The Imaginarium of Dr. Parnassus, Reino Unido/França/Canadá, 2009)
Dir: Terry Gilliam



O cinema de Terry Gilliam possui uma incursão muito oportuna ao fantástico pelo simples fato de que o cineasta parece acreditar no poder da fantasia. Uma pena que seus trabalhos pequem pelo cansaço e exagero, com histórias sempre engessadas a uma necessidade de ser over, excessivo. Um de seus filmes mais festejados, Brasil – O Filme, é justamente o que apresenta essas características em grau mais elevado e que, a despeito de compor um estilo bastante peculiar, nunca conseguiu me convencer de fato, assim como os outros projetos do cineasta.

Terry Gilliam sempre me dá essa impressão de estar se divertindo à beça com seus filmes, construindo mundos paralelos, personagens tresloucados, utilizando um monte de parafernália em seus cenários, mas se importando de menos com seus personagens, daí um desenvolvimento narrativo comprometido. Esse é bem o caso desse O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus, que ainda ganhou nos efeitos especiais computadorizados mais chances para que Gilliam solte sua imaginação.

Paralelo a isso, a morte precoce de Heath Ledger parece ter prejudicado o filme não só na necessidade de se encontrar uma forma de substituí-lo (que teve na utilização de três outros (bons) atores um recurso vazio e sem propósito), mas também na atenção que passou a ter, embora seja um coadjuvante na história.

Nosso verdadeiro protagonista é o Parnassus do título, vivido por um disposto Christopher Plummer, que mantém uma trupe circense de rua apresentando um espetáculo que ninguém dá atenção. Detalhe para o fato de o protagonista ter mais de mil anos por conta de um acordo feito com o diabo, que vez por outra aparece para mais uma aposta. Mas eis que surge no caminho um homem misterioso (Ledger), desmemoriado, que vai dar um charme a mais à apresentação.

É quando entra no filme outra característica que emperra o cinema de Gilliam: a vontade de fazer crítica social, de expor e denunciar mazelas, no caso desse filme, o tráfico de crianças órfãs. Forçado seria quase o termo adequado para identificar a aparição desse subtexto “sério” em meio ao tom lúdico, mas quase não chega a isso porque em determinado momento se apresenta como um mero detalhe de roteiro.

Contando com uma série de personagens interessantíssimos, o filme parece não saber o que fazer com cada um, apesar do bom time de atores. Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell, os substitutos de Ledger, não acrescentam muita coisa à narrativa, que tem seus pontos positivos na direção de arte e nos figurinos. Pelo visto, apuro visual é mais valorizado do que a própria história nesse mundo caótico de Terry Gilliam.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Curtinhas

De Profundis (Idem, Espanha/Portugal, 2007)
Dir: Miguelanxo Prado


Miguelanxo Prado, famoso criador de HQ’s galego, resolveu se enveredar nos rumos da animação cinematográfica nesse seu primeiro longa De Profundis. A despeito de seu belo traço, é uma pena que a experiência do filme seja bastante vazia, se escorando em muito na beleza visual da narrativa, sem diálogos, acompanhada de uma bela trilha sonora instrumental. A história conta a fábula do pintor que parte em viagem num navio que acaba naufragando. Assim, oniricamente, o personagem adentra o fundo do mar e é levado a conhecer as mais belas e bizarras criaturas das profundezas. Apesar do tom poético, a narrativa do filme é por demais arrastada e, em vários momentos, não quer dizer muita coisa. Um tiro n’água.


Como Treinar Seu Dragão (How to Train Your Dragon, EUA, 2009)
Dir: Dean DeBlois e Chris Sanders


Simpaticíssimo o nome filme da Dreamworks. Na verdade, faz um tempo que o estúdio nos devia uma produção tão boa, a despeito do que a Pixar vem nos oferecendo em termos de técnica e roteiro. Como Treinar Seu Dragão é praticamente uma resposta a esse cinema que há muito tempo tem conquistado grande parte do público, das mais variadas idades. A história de Soluço, um aprendiz de viking que precisa se preparar para ser um exímio matador de dragões, mas acaba fazendo amizade com um desses seres, pode parecer até bobinha demais e nada surpreendente, mas é a técnica cada vez mais competente na recriação da “realidade”, aliada a um texto bem desenvolvido e arranjado, seus maiores trunfos. E apesar de se configurar como um longa sobre ser diferente e também sobre a amizade, com aquela pegada cativante e família, o filme é, acima de tudo, uma deliciosa aventura.


A Casa dos Espíritos (The House of the Spirits, EUA, Alemanha/ Dinamarca/Portugal, 1993)
Dir: Bille August


Eu entendo o sentido das adaptações literárias para o cinema e não cobro verossimilhança na transposição uma vez que se trata de linguagens distintas e peculiares em seus artifícios. Mas mesmo assim há casos em que uma adaptação não deixa de parecer menor ante seu material original pelo simples fato de não haver consistência na narrativa. É o caso desse A Casa dos Espíritos, baseado em livro homônimo da chilena Isabel Allende, história de uma família que ultrapassa gerações, conflitos, fantasias e amores. Não que a história seja mal contada, mas são tantos acontecimentos relatados, tantos personagens importantes, que o roteiro nunca consegue ser consistente em nenhum momento. Dá a impressão de adaptação mecânica e sem emoção, roteirizada pelo próprio diretor. A coisa se torna ainda mais vergonhosa porque Bille August possui duas Palmas de Ouro no currículo!


Glória (Idem, EUA, 1980)
Dir: John Cassavetes


Provavelmente esse é o filme mais comercial de John Cassavetes, cineasta norte-americano considerado pai do cinema independente nos EUA, mais afeito a dramas densos, de complexidade e construção de personagens. Aqui, ele se aventura no drama policial quando os pais de um garotinho é assassinado pelo chefe de uma quadrilha de mafiosos. Glória (Gena Rowlands), ex-mulher do líder do bando, agora afastada da bandidagem, precisa tomar conta do garoto, agora perseguido por ter em mãos um livro de registros bastante incriminador. Por mais que se trate de um filme de gênero, o diretor não cai na armadilha de encher o filme de cenas de ação. Quando isso acontece, as imagens veem com força e intensidade; o forte ainda segue sendo os personagens, e a relação dúbia de Glória com a máfia é uma das melhores coisas do filme. Gena Rowlands encarna a mulher durona com uma segurança invejável.

PS: A semelhança da sinopse desse filme com o longa nacional Verônica é enorme. Mas o Cassavetes é bem melhor.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Filmes de junho


1. Fellini, A História de um Mito (Paquito Del Bosco, Itália, 2000) **

2. Quanto Mais Quente Melhor (Billy Wilder, EUA, 1959) ****½

3. O Corvo (Henri-Georges Clouzot, França, 1943) ***½

4. Mal dos Trópicos (Apichatpong Weerasethakul, Tailândia/ França/Itália/Alemanha, 2004) ****

5. A Hora do Pesadelo (Wes Craven, EUA, 1984) ***

6. Zelig (Woody Allen, EUA, 1983) ****½

7. A Bela da Tarde (Luis Buñuel, França/Itália, 1967) ***½

8. O Anjo Exterminador (Luis Buñuel, México, 1962) ****

9. Robin Hood (Ridley Scott, EUA/Reino Unido, 2010) *½

10. A Hora do Pesadelo (Samuel Bayer, EUA, 2010) *

11. Sem Destino (Dennis Hopper, EUA, 1969) ****

12. Disque M para Matar (Alfred Hitchcock, EUA, 1954) ****½

13. Akira (Katsuhiro Otomo, Japão, 1988) ****

14. A Estrada (John Hillcoat, EUA, 2009) ****

15. Os Duelistas (Ridley Scott, Reino Unido, 1977) ****½

16. Simplesmente Alice (Woody Allen, EUA, 1990) ***½

17. Sempre Bela (Manoel de Oliveira, França/Portugal, 2006) ****

18. O Homem Errado (Alfred Hitchcock, EUA, 1956) ***½

19. Thelma e Louise (Ridley Scott, EUA, 1991) ****

20. A Ilusão Viaja de Trem (Luis Buñuel, México, 1954) **½

21. A Idade do Ouro (Luis Buñuel, França, 1930) ****

22. Tudo Pode Dar Certo (Woody Allen, EUA/França, 2009) ***½

23. Brazil – O Filme (Terry Gilliam, Inglaterra, 1985) **

24. Os 12 Macacos (Terry Gilliam, EUA, 1995) ***


Revisões:

25. Todos Dizem Eu Te Amo (Woody Allen, EUA, 1996)