sexta-feira, 5 de junho de 2015

IX Cinefuturo – Parte II


 
Já que escrevo tão pouco sobre curtas (apesar de adorar o formato e acompanhar boa parte do que tem sido feito no Brasil), aproveito a competitiva baiana de curtas-metragens do Cine Futuro para arriscar algumas palavras sobre o que nos foi apresentado nessa edição. A primeira parte vai aqui:
 
 
Carranca (Idem, Brasil, 2014)
Dir: Wallace Nogueira e Marcelo Matos de Oliveira


Há uma construção curiosamente dúbia em Carranca: se o filme coloca o espectador no lugar mítico que existe em torno das antigas peças produzidas artesanalmente num ambiente ribeirinho interiorano, faz isso a partir de um registro muito naturalista, sem deixar de invocar certo psicologismo dae sua protagonista.
 
Aqui, uma garota (Rafaela Souza) leva uma carranca pelo rio; deixa a peça cair na água e esta vai parar nas mãos de um estranho menino (Guilherme Silva) que lhe recusa devolver. A conversa que abre o filme dos dois velhos artesãos sobre a existência ou não do Nego d’Água acende aqui o mistério, sem que o filme queira responder bem essa questão.
 
Mas uma pergunta vital é preciso ser feita aqui: por que Carranca tem uma estrutura narrativa tão parecida com Menino do Cinco, filme anterior da dupla de diretores? Mais uma vez temos duas crianças em polos distintos, sendo que uma tomou posse de algo da outra e não quer devolver.
 
O problema nem é o “autoplágio”, mas o fato de, numa nova ambiência, Carranca não conseguir se sustentar por si só (e faz com que Menino do Cinco se torne ainda melhor como narrativa). Dá a impressão de que falta mais filme porque é difícil se importar com aquela menina, de saber por que ela se apega tanto àquela carranca, do que de fato ela tem medo. Antes de dar uma luz sobre essas questões a história termina (de forma similar a Menino do Cinco!), abortado e sem construir com mesmo afinco um núcleo próprio.
 
 
Ifá (Idem, Brasil, 2015)
Dir: Leonardo França


A pesquisa de Leonardo França com o filme ensaístico e com a dança é uma marca muito própria de seus trabalhos como diretor. Ifá é um belo desdobramento desses caminhos narrativos, mas também um filme que se confecciona através mesmo de seu processo, um dispositivo curioso e instigante.
 
Num terreiro de candomblé, um jogo de búzios é pedido pelo diretor a um babalorixá. França quer saber os caminhos do próprio filme que está fazendo. As falas do velho e suas histórias guiam a narrativa pelos caminhos performáticos que se apresentam nesse processo de ouvir e reverenciar.
 
As fábulas míticas da religião afro ganham belas representações pelos corpos e pulsões de Paula Carneiro, Michelle Mattiuzzi e Gabriel Pedreira, cada qual incorporando alguns orixás e seus comportamentos/personalidades nesse jogo de flertar com a câmera e com as possibilidades do destino que se desenham à frente.
 
França possui um olhar estético bem apurado para esse tipo de visão poética, além de muito reverencioso para com os preceitos religiosos. E o filme tem mesmo a qualidade de nunca se revelar previsível, assim como não são os caminhos dos homens e seu destino.
 
 
Ritual Pam Pam Pam (Idem, Brasil, 2014)
Dir: Ramon Coutinho

 
Ramon Coutinho e cia. (membros do Cual – Coletivo Urgente de Audiovisual) mantiveram o mistério até o fim: chegaram com esse filme que prometia um olhar para ritos ancestrais e a relação dos povos com a dança, certa contemplação do movimento do corpo que possa levar a uma comunhão com algo maior.
 
No fundo, é isso mesmo que eles apresentam aqui, só que numa perspectiva que pega o espectador desprevenido. Surpreende porque desloca o olhar de certa “religiosidade”. Com uma música de fundo retirada dos rituais indígenas e de aborígenes ameríndios, filma jovens urbanos dançando nas ruas, diante de paredões de som e das caixas acopladas em carros. Descem e rebolam até o chão em movimentos ritmados que conhecemos do funk ou do pagode.
 
É um cenário claramente urbano e, mais que isso, também periférico, reconhecível como de culturas vistas como marginalizadas. Mas não seria essa também uma forma de religião, de comunhão espiritual, de alegria do corpo (e da alma)? 

Ritual Pam Pam Pam nos faz pensar na política do corpo em movimento como forma de resistência a certo padrão cultural. Objetivo e pontual, o curta não se pretende ser nenhum tratado social, mas é louvável pelo deslocamento que sua premissa provoca.


domingo, 31 de maio de 2015

IX Cinefuturo – Parte I


Meu Amigo Hugo (Mi Amigo Hugo, Venezuela, 2014)
Dir: Oliver Stone 



Está posto desde o título: Meu Amigo Hugo é um filme de companheirismos, uma espécie de louvação e homenagem que nunca esconde sua natureza afetiva. O fato do retratado ser uma figura controversa da política latino-americana como o ex-presidente venezuelano Hugo Chávez não intimida o filme a ser um estudo mais “jornalístico”.

Daí que, apesar da validade dos registros pessoais, de certa forma de uma intimidade que Chávez expõe à câmera de Oliver Stone, o espectador pode sempre colocar em questão o aspecto de chapa-branca do filme. Não só Stone se coloca nessa posição de amigável admirador, como ele busca nas pessoas próximas a Chávez e outras lideranças da América Latina posições sempre muito positivas e favoráveis, como nas palavras de Lula, Evo Morales e Cristina Kirchner.

No fundo é bem fácil atacar o filme por seu lado enviesado, especialmente por aqueles que não possuem simpatia pelo ex-líder venezuelano. Também pela omissão em revelar aquilo que de oposição e contrariedade se pensa sobre Chávez, e isso pode ser o mais arriscado aqui.  

O filme é, na realidade, um produto feito de encomenda para a multiestatal TeleSUR, televisão latina com sede na Venezuela. Trata-se, portanto, de um telefilme com a pretensão camuflada de conferir um olhar mais aprazível à pessoa de Chávez. Se uma qualidade aqui é essa transparência, o filme perde muito quando, ao final, investe nas ideias conspiratórias que acreditam num possível assassinato de Chávez e não morto naturalmente de câncer. Nesses momentos, fica mais difícil defender as boas vontades do filme.


Onírica (Onirica – Field of Dogs, Polônia/Itália/Suécia, 2014)
Dir: Lech Majewski


Lech Majewski, como artista plástico, possui um lugar muito curioso na produção cinematográfica. Não é de se estranhar que seu cinema seja muito influenciado pela pintura e pelas artes visuais, ganhando na dimensão do audiovisual outra maneira de realizar uma espécie de poesia visual, ao mesmo tempo em que se preocupa em contar histórias.  

Ainda que essas narrativas passeiem pelo surreal, existe aqui um pé na realidade da Polônia, país natal do cineasta. Ao apresentar o filme no Cine Futuro, Majewski falou da influência direta de
A Divina Comédia, ressaltando o quanto o livro, obra-prima do italiano Dante Alighieri, lhe parecia pictórico. E mais ainda, como o texto parecia lhe questionar sobre aquilo que é possível dizer sobre seu país.

Para isso, o diretor utiliza a história de Adam (Michał Tatarek), um poeta e professor de literatura que perde a esposa num acidente de carro. Ele, então, troca seu trabalho intelectual para se tornar caixa de supermercado. É uma forma de escape, mais ainda quando o filme se abre para os momentos de ilusão e sonho/pesadelo que Adam vivencia nesse seu percurso de luto.

Onírica está menos preocupado em contar essa história de forma cronológica, surpreendendo o espectador com sequências inesperadas, nunca caindo no previsível. Outras são também muito bonitas visualmente, como a do anjo adentrando a catedral ou o corpo dos amantes enlaçados flutuando no ar. O filme peca talvez por insistir nessas imagens que se querem o tempo inteiro impactantes, muito bem fotografadas, aliás, mas que por vezes emperra um tanto a história.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Festival CineFuturo - IX Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual


Ele está de volta: o antigo SemCine, agora CineFuturo, retoma depois de quase dois anos ausente do calendário de festivais de cinema da Bahia. Com uma carga política muito forte, o evento conta com exibições de filmes contemporâneos, curtas e longas, mas também abre amplo espaço para uma série de discussões e palestras acerca do cinema. E mais outras atividades culturais que terão espaço durante o festival.

O homenageado desta edição é o mestre italiano Federico Fellini. Uma mostra significativa de seus filmes será exibida na Sala Walter da Silveira, além de se discutir a obra do diretor. Inclusive durante a abertura, que acontece hoje às 15h no auditório do Teatro Castro Alves.

É momento de ver e falar de cinema na Bahia. Confiram no site a programação completa do evento. Pretendo fazer a cobertura crítica dos filmes que for vendo nesses próximos dias, até o domingo do encerramento. Nos vemos por lá.

domingo, 17 de maio de 2015

O absurdo do banal

Um Pombo Pousou num Galho Refletindo Sobre a Existência (En Duva Satt På En Gren Och Funderade På Tillvaron, Suécia/Alemanha/Noruega/França, 2014)
Dir: Roy Andersson
 


Um pombo num galho, empalhado, numa redoma de vidro; um homem, bastante pálido, observa o animal. O tempo parece suspenso, a câmera está fixa, pouco movimento dentro do quadro, fotografia monocromática. Assim começa esse curiosíssimo filme que parece se mover em uma outra dimensão de realidade. 

Esse tipo de tableau vivant se repetirá formalmente por todo o longa. Na verdade, trata-se de um dispositivo narrativo já usado por Roy Andersson em seus trabalhos anteriores, Vocês, os Vivos e Canções do Segundo Andar. Perfazem uma espécie de trilogia dos absurdos cotidianos, via humor negro na maneira de olhar para pequenas desgraças humanas.

Ou não tão pequenas assim: esse novo filme começa com observações sobre a morte e algumas de suas idiossincrasias – sem deixar de serem hilárias, diga-se. Mas logo torna-se um amontoado de situações em que os personagens misturam-se e retornam momentos depois, enfrentando conflitos por vezes banais, porém com consequência tragicômicas.

O absurdo filosófico e um tanto quanto calculadamente “pedante” do título ganha um contorno perceptível: as mini-situações aqui apresentadas são pinçadas de uma realidade que se querem nonsense e, por isso mesmo, interessantes de serem postas em cena. O aspecto morto-vivo que os personagens sustentam, o rosto de uma palidez assombrosa, só contribui para esse estado de suspensão em que parecem circular aquelas almas. 

Há algo de Jacques Tati nessa construção de quadros em que a atenção do espectador pode ser levada a se fixar em certo ponto, diversos são os elementos que estão distribuídos no plano. É o tipo de filme que brinca com as percepções daquilo que temos diante de nós e daquilo que somos levados a perceber mais detidamente. Pode soar formalista demais, mas no fundo é muito gracioso, perseguindo situações bizarras. Tão estranhas como pode ser o próprio dia a dia.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Elogio da adrenalina

Mad Max: Estrada da Fúria (Mad Max: Fury Road, Austrália/ EUA, 2015)
Dir: George Miller 


O primeiro Mad Max é um filme independente, feito com poucos recursos para um projeto desse tipo e, talvez por isso, cheio de uma inventividade que o tornou cult em fins da década de 1970. E arrecadou também muito dinheiro, o que tornou o segundo Mad Max um filme padrão hollywoodiano (apesar de ter corpo e alma australianos), mas ainda assim prezando pela adrenalina da aventura que se basta por si só.

E é justamente nessa mesma chave (mas em nível mais insano e grandiloquente) que também nos chega Mad Max: Estrada Furiosa, um revival da franquia de sucesso, comandado pelo mesmo George Miller, idealizador e diretor do projeto inicial. É uma chegada bem-vinda porque o filme põe em xeque algo que se incorporou ao cinema blockbuster contemporâneo: a necessidade de se fazer filmes de ação/aventura com algo de adulto, subtextos psicológicos ou questões morais/sociais que engrandecem a história com camadas relevantes, para além da diversão.

Mad Max vem pra mostrar que é possível hoje fazer um filme de ação sem discutir grandes questões, sejam elas sociais, familiares ou pessoais de seus protagonistas. Talvez obras como Batman Beggins e X-Men 2 sejam os projetos que inauguraram e melhor solidificaram esse tipo de proposta nos filmes de ação e de super-heróis, criando uma espécie de “nível de qualidade” a ser seguido.



George Miller retorna ao coração de sua proposta inicial e nos entrega um filme que não tem vergonha de ser um elogio da adrenalina, feito à base de poeira e velocidade. Encontramos Max (Tom Hardy) depois de perder esposa e filha para um bando de arruaceiros, num mundo pós-apocalíptico. Agora é prisioneiro do temido e bizarro Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne), chefe de uma cidadela sitiada com acesso a água abundante e preciosa gasolina.

O filme apresenta esse novo universo, duro e degradante, e suas novas formações sociais. Interessante como, aos poucos, o espectador vai entendendo as regras que regem aqueles grupos, os papeis e funções de cada um, como sobrevivem e o que está em jogo no arriscado plano de fuga encabeçado por Furiosa (Charlize Theron), uma das esposas do vilão, tudo isso sem nunca soar didático.

Trata-se de uma bela orquestração narrativa que confere maior destaque ao percurso de fuga e perseguição e do qual Max é envolvido por acaso. De qualquer forma, as motivações dos personagens são extremamente simples: um quer sobreviver, outra(as) quer(em) fugir, outro(os) quer(em) servir. Mas essas motivações nunca são simplistas. É incrível como Theron, por exemplo, confere destemor a sua personagem e como o filme nos leva a entender e torcer por sua luta e por aquilo que representa, sem necessidade de investir num grande subtexto.

E nesse ponto, se há algo de questionável no longa é a insistência da trama em retomar o passado trágico de Max que não consegue se esquivar da perda da família; sua mente traumatizada faz questão de trazer isso à tona. É um confronto particular que não acrescenta muita coisa à história. Corre-se o “risco” do filme querer insistir numa proposta psicológica, porém, felizmente, a aventura desenfreada não permite. 

Sem grandes temas a desenvolver e enfrentar, Mad Max: Estrada Furiosa é ainda um belo filme de excessos. Não só pelas incríveis sequências de perseguição e confronto, mas mesmo no tom operístico que a causa daqueles indivíduos ganham em intensidade e adrenalina, brutalidade e bizarrice (um dos veículos do vilão possui um guitarrista e uma de banda de percussão que tocam em meio à perseguição!). É o retrato de um mundo pavoroso e sujo em que tudo é uma questão de viver ou morrer.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Bizarro e gracioso

O Pequeno Quinquin (P’tit Quinquin, França, 2014)
Dir: Bruno Dumont
 


Seria muito estranho testemunhar uma virada na carreira de Bruno Dumont. É certo que esse O Pequeno Quinquin envereda pelos caminhos da comédia de tons detetivescos, coisa muito distante dos filmes barra-pesada que o diretor já fez. Mas é muito fácil reconhecer aqui o universo de Dumont: interior da França, com sua gente simples e feia, envoltas em situações bizarras. É o mundo cão no mesmo tipo de geografia que o cineasta está acostumado a observar.

Há ainda o fato do projeto ser originalmente uma série para a TV francesa, reunida aqui num filme de mais de três horas de duração, muito palatável para se ver no cinema, engraçado até certo ponto. Se essa era a maior qualidade do projeto, ainda que numa medida muito particular em se tratando do diretor em questão, ela é o forte e o fraco do filme.

Não há dúvidas de que o longa rende boas gargalhadas em momentos inesperados – como a menina que canta no funeral, o avô arrumando a mesa do almoço, a aparição do herói “caipira-man”. Mas Dumont comumente ultrapassa o timming cômico, ora prolongando demais o efeito das gags, ora repetindo as mesmas piadas tempos depois – a garota que insiste em cantar agudo será usada mais de uma vez para efeitos de graça, por exemplo.

O pequeno Quinquin (Alane Delhaye) e sua trupe de amigos endiabrados – além da garotinha que surge como seu “par romântico” – estão ali para observar e acompanhar as investigações de um crime misterioso: uma vaca é encontrada morta num bueiro, com pedaços de corpo humano dentro dela. Essa é só a ponta de uma série de assassinatos estranhos inseridos na atmosfera da pacata região interiorana.

Mas mais do que o próprio protagonista, o comandante de polícia Van der Weyden (Bernard Pruvost), detetive ranzinza, com seus tiques incontroláveis na face, voz embolada e comportamento arrogante, pra não dizer esquisito, é quem rouba o filme. Suas tiradas de metido a esperto, sempre se achando no controle da situação, são ótimas. 

Nesse sentido, o filme está menos preocupado na resolução do caso policial em si – que se torna mais confuso e sem razão quanto mais sabemos sobre ele – e mais focado no desfile de tipos estranhos, de comportamentos incomuns e suspeitos. É mais uma maneira de Dumont lançar luz sobre a inexplicável crueldade humana, ainda que seja naquele garotinho feio e atentado que parece residir uma ponta de amor e afeto em meio a isso tudo.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

A força em união

Os Vingadores: A Era de Ultron (Avengers: Age of Ultron, EUA, 2015)
Dir: Joss Whedon



O primeiro filme dos Vingadores, para além da agradabilidade como produto de ação e diversão, cumpriu uma função muito difícil, e talvez muito cara aos fãs dos super-heróis, que é a de estabelecer uma dinâmica coerente entre seus personagens principais. Entre a seriedade e o humor, a maneira como cada uma daquelas personalidades heroicas encontra espaço na trama é estabelecida de forma bem satisfatória.

Por isso é muito bom ver como Vingadores: A Era de Ultron faz jus a esse arranjo, sustentando-se como narrativa própria, ainda que um tanto inchada. Curioso como na comparação inevitável com o filme anterior, essa continuação acaba contornando um grande problema da maioria das continuações: a pretensão de ser mais grandioso que o antecessor. Ajuda muito o fato do primeiro filme ter uma trama mais direta, simples mesmo.

Em A Era de Ultron, toca-se na questão da inteligência artificial a partir desse empreendimento criado pelas próprias indústrias Stark, mas que foge do controle. O vilão Ultron agora põe em xeque o destino da humanidade sob o pretexto da própria inutilidade ou estado de irreparabilidade da raça humana que precisa desaparecer do universo.



Os Vingadores, por sua vez, agora estabelecidos como time, ainda precisam enfrentar seus dramas pessoais (seja o peso de manter uma família, no caso do Gavião Arqueiro, ou a possibilidade de uma vida a dois, conflito tomado pelo Dr. Banner e a Viúva Negra). Há ainda a inclusão de dois novos personagens poderosos, os irmãos gêmeos Mercúrio e Feiticeira Escarlate, tentando encontrar seu lado no embate de forças.

É certo que as estratégias narrativas que se desenham em filmes como esse vem se desgastando com o tempo, tornando-se parecidas – e não parece haver pretensão em mudar isso, especialmente quando a arrecadação do filme bate recordes milionários de bilheteria. Mas em Vingadores há o gosto de ver como todos esses elementos juntos formam um todo coeso, sem desandar como seria bem possível.

Joss Whedon, felizmente retomando a direção aqui, mantém a mesma precisão com que filma as cenas de ação, com que injeta diversão em meio ao realismo apocalíptico que se aproxima e, principalmente, com que não deixa que certos personagens tornem-se mais importantes que outros (desde o filme anterior receava-se que o Homem de Ferro recebesse os holofotes, o que não acontece de fato, embora seja dono de momentos impagáveis). 

Talvez o filme seja exageradamente cheio de informações, sua trama passeia por muito mais pormenores que o anterior, por isso certo inchaço. Mas consegue também o feito de agradar os fãs dos quadrinhos, num projeto tão ambicioso como este, assim como o espectador menos aficionado. E isso já é muito positivo.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Além das grades de casa

Casa Grande (Idem, Brasil, 2014)
Dir: Fellipe Barbosa


Não é tarefa das mais fáceis fazer um filme sobre um rito de passagem adolescente e com forte teor de crítica social, isso porque não é terreno dos mais originais e é bem fácil escorregar no panfleto querendo soar politizado. Pois Casa Grande é um ótimo exemplar desse tipo de construção dramática que levanta uma série de questões de classe e socioeconômicas no contexto brasileiro atual, além de injetar humor ácido e apresentar protagonista carismático.

O resultado é um dos melhores longas-metragens dessa safra recente do cinema brasileiro, filme consciente de seu lugar de fala: o diretor Fellipe Barbosa vem de classe alta e expurga aqui, via protagonista de tons autobiográficos, as neuroses de pertencer a um grupo socioeconômico privilegiado no atual sistema brasileiro de disparidades.

Há o peso de uma história nacional marcada por desigualdades sociais e forte concentração de renda. Com olhar voltado para uma família ricaça do Rio de Janeiro, o filme acompanha Jean (Thales Cavalcanti), batendo de frente com o pai (Marcello Novaes) que esconde o segredo da bancarrota das finanças dos negócios que sustenta a bonança da família.

Garoto superprotegido, Jean luta para respirar fora das amarras e paranoias de uma cultura elitista. A identificação por parte do público para com esse garoto em meio ao fogo cerrado é imediata. É a fase de formação do homem pelos olhos de um jovem posto em crise por uma realidade histórica atual. Certamente ele não está plenamente consciente deste posto, mas tem seus caminhos cruzados pelas incertezas e questionamentos da adolescência, frutos desse momento de virada (e reviravolta) em sua vida.

Primo rico de O Som ao Redor, Casa Grande não tem medo de discutir questões sociais e raciais que são, no fundo, a base dessa história. Por meio da trajetória de Jean, sua relação de proximidade com a empregada doméstica e o motorista da família – laços muito calorosos que se firmam entre eles –, também sua paixonite por uma menina de pele morena e que estuda em escola pública, o roteiro ganha nuances várias, sem fugir de temas espinhosos, mas também longe de panfletarismos.


A discussão em torno das cotas, por exemplo, ganha embates e contrapontos interessantes entre polos díspares. O filme se empenha em discutir esse assunto porque é ordem do dia na trajetória do personagem. Se o filme pernambucano talvez seja mais sutil ao tocar e revelar certas questões sociais, Casa Grande prefere uma abordagem realista mais direta, mas não por isso mais escancarada.

Prefere o plano longo, com câmera movendo-se com parcimônia, e abre espaço para que suas muitas questões e nuances estejam em evidência na cena mais do que a encenação em si. O texto do filme é lapidado por um naturalismo perspicaz, incluso aí um bom-humor que investe em tiradinhas engraçadas, sem nunca escorregar para o riso rasgado. Barbosa também valoriza demais o trabalho dos atores, todos muito bons, desde o novato Thales Cavalcanti, com seu carisma imediato, até um veterano Marcello Novaes, num tipo de produto diferente do que costuma fazer.

Casa Grande é um grande filme por tocar em questões pertinentes, sem se esquecer do fator humano que existe ali, além de zelar por uma linha narrativa a mais clássica possível – ainda que quebre com certas convenções no final. É um trabalho notável para um jovem cineasta que chega a seu primeiro longa de ficção (depois de apresentar uma personagem incrível no documentário Laura). Soa também muito verdadeiro e carinhoso com seus personagens, mesmo com aqueles que ele alfineta, e por isso o resultado final é tão proveitoso.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Nossa terra

O Sal da Terra (The Salt of the Earth, França/Brasil/Itália, 2014)
Dir: Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado


Nos últimos anos, a obra documental de Wim Wenders tem sido muito mais representativa na sua carreira do que a ficção, da qual o mestre alemão nos deve há um bom tempo um bom exemplar. Depois do belíssimo Pina, Wenders se junta a Juliano Ribeiro Salgado, filho de Sebastião Salgado, para documentar o processo criativo do renomado fotógrafo brasileiro, com a mesma sensibilidade ao olhar a arte do outro.

E é possível fazer uma relação aqui com Pina não por essas proximidades de natureza documental e temática, mas porque se repete o dispositivo de documentar a vida e obra de grandes artistas sem pretensões de endeusá-los, mas antes compreender sua arte e as maneiras pelas quais (e através de quem) ela se torna concreta, pulsante. Além disso, filmes sobre artistas geniais não são necessariamente geniais por si sós. Correm o risco de serem engolidos pela força criadora de seus objetos de observação.

E aqui está um dos trunfos de O Sal da Terra: a particularidade com que Wenders aborda, narrando ele mesmo em primeira pessoa, seu encontro com (a arte de) Salgado. Soma-se a isso a aproximação bem-vinda da figura filial nesse processo de captação e convivência. Isso faz do filme uma experiência muito intimista porque é também uma reunião de sensibilidades, longe da necessidade autoimposta de "provar" que aquilo que Salgado faz é genial.

E há ainda um trunfo talvez maior do qual o filme se beneficie bastante: a presença de Salgado que comenta seu próprio ofício. Nunca didaticamente, e com uma percepção extremamente lúcida e bem articulada sobre aquilo que produz em forma de fotografia e, consequentemente, sobre a essência devastadora, mas também resplandecente da raça humana. Suas famosas exposições retratam desde os mineiros que se amontoavam e escalavam os paredões de pedra em Serra Pelada, até a viagem aos rincões da América Latina em busca de agrupamentos de gente as mais simples e desconhecidas, passando pela exploração do mundo trabalhista em várias partes do mundo.


O documentário expõe com clareza o poder estético da fotografia de Salgado, em contraste com as dores e tristezas que fazem parte da história do ser humano na Terra (com suas mortes, guerras, trabalho exaustivo, pobreza). Espertamente, o filme consegue fazer um feliz paralelo entre os estudos em Economia do jovem Sebastião e as posteriores preocupações antropológicas, humanistas e ecológicas ao retratar todos esses paradoxos, segundo ele movido pela força e ganância do dinheiro. 

Não é de fato um filme que problematize as escolhas e caminhos escolhido pelo artista como, por exemplo, abordando a crítica que enfrenta de estetizar (e lucrar) em cima da miséria humana. Se há algo de chapa branca nesse olhar, isso nunca chega a pesar no filme como um déficit, pois o longa se abre ao prazer da observação compartilhada de um homem que soube tão bem olhar e eternizar o olhar do outro. “Afinal, as pessoas são o sal da terra”, arremata Wenders em certo momento do filme, numa percepção feliz daquilo que parece mover Salgado e sua arte.

sábado, 21 de março de 2015

Star sick system

Mapas para as Estrelas (Maps to the Stars, EUA/Canadá/ Alemanha/França, 2014)
Dir: David Cronenberg


Mapas para as Estrelas pode ser visto como o filme mais exemplar de uma nova “fase” de David Cronenberg (mas não certamente seu melhor). É um momento em que a doentia das pessoas no mundo encontra na narrativa uma atmosfera limpa, classe A, distante do aspecto sujo e grotesco de seus trabalhos de início da carreira (seria esse o filme mais asséptico de Cronenberg?). Essa nova postura não impede que o diretor continue mirando nas questões que lhes são caras, o corpo mais uma vez como lugar de inscrição de marcas indeléveis.

O diretor encontrou no coração de Hollywood e suas intrigas entre astros de ego inflado o ambiente ideal para refletir sobre certo estado de podridão da mente e alma humanas. O filme não poupa ninguém. De Havana (Julianne Moore), atriz de meia idade que quer o papel num remake outrora estrelado por sua mãe, ao astro mirim egocêntrico Benjie (Evan Bird), agenciado por um pai ganancioso (John Cusack) e uma mãe traumatizada (Olivia Williams). É a chegada da misteriosa Agatha (Mia Wasikowska), garota com pretensões de estrela, que tumultua a rotina desses personagens.

Baseado no livro Dead Stars, de Bruce Wagner, que o adaptou para o cinema, Mapas para as Estrelas trafega por um terreno já muito pisado por outros, apontando o dedo para o cinismo e obscurantismo do star system e daqueles que fazem a roda da fortuna e da vaidade girar, e isso não é lá mais novidade. De um Robert Altman, num filme mosaico como O Jogador, a Sofia Coppola e seu minimalismo em Um Lugar Qualquer, dentre tantos outros.

O próprio fato de todos os personagens principais serem pintados com tintas fortes de doentia pode tornar o discurso do filme um tanto tendencioso: ninguém se salva, não há carinho por esses homens e mulheres escrotos vivendo de aparências, mirando nos dólares e capas de revistas que poderão ganhar. Pode ser fácil apontar o dedo e rir de gente visivelmente tão canalha, o que garante de imediato uma adesão cúmplice do espectador.

Mas o que faz uma bela diferença aqui é que, além de hábil encenador, Cronenberg consegue explorar seus velhos temas, para além do aspecto de sujidade do humano. Só que agora numa estética mais clean, “refinada”, contrastando com a imundice interior de cada um dos personagens. Cineasta que tão bem explora os limites do corpo, inscreve na carne de seus personagens os indícios de seus dramas. Havana começa o filme numa sessão de terapia em que seu corpo é contorcido enquanto é lembrada dos traumas do passado, o mesmo preservado nas cicatrizes que Agatha esconde no corpo.

E há ainda uma curiosa investida ao tom cômico que invade o nonsense de muitas situações e transforma tudo num jogo de humor negro delicioso. Certa comemoração da personagem de Havana – bye Micah! – numa dada cena é desde já uma dos momentos mais abismais do ano, alegremente aterrador na maneira de olhar para as atitudes dessa mulher. Referências e indiretas sobre figuras reais do universo hollywoodiano são disparadas pelo filme sem concessões, tiradas engraçadas e de um sarcasmo que poucas vezes se vê tão descaradamente num filme. 

Com Mapas para as Estrelas o diretor canadense acaba seguindo os caminhos naturais de um filme taxativo, mas mantém em alta os tons de cinismo. Pode parecer pouco, mas nas mãos de Cronenberg isso vira um jogo perverso (e delicioso de acompanhar) que só expõe as mazelas de certo círculo vicioso no mundo das artes cinematográficas. Se num filme como Cosmópolis, para ficar num exemplo recente, há algo de muito mais provocador e complexo sobre o muno do dinheiro e seus atores, aqui o propósito do olhar é menos pretensioso, mas o resultado não deixa de ser recompensador.