terça-feira, 15 de novembro de 2011

Mostra Cinema Conquista – Diário #8


Náufragos (SP/BR, 2010)
Dir: Gabriela Amaral Almeida e Matheus Rocha


Mais um curta instigante, dessa vez trabalhando com noções de fantasia. A diretora Gabriela Amaral (a mesma de Uma Primavera), agora com a parceria de Matheus Rocha, conta a curiosa história de dona Odete, senhora que vive sozinha com o marido e a empregada, e passa a presenciar coisas estranhas em casa. Em especial, existe algo estranho com a cama da mulher que parece atrair pessoas e objetos; o próprio marido é tragado para debaixo da cama logo no início do filme. É aí que a dimensão fantástica da história aponta para as fragilidades e mazelas da velhice, e passamos a questionar o que realmente é real e o que é invenção/fantasia em tudo aquilo.

A dupla de diretores sabe como ninguém criar atmosfera de tensão (porque nada se explica no filme), assim como de inquietação, já que alguns detalhes surgem como pontos de interrogação. O que representaria mesmo aquele programa de ginástica na televisão? Quais as verdadeiras intenções da empregada? Náufragos encontra-se no campo das estranhezas, e por isso mesmo estimula o espectador a se situar entre aquelas circunstâncias, embora exista uma coesão bem pertinente na narrativa. Pode ser lido como uma triste metáfora da vida em estado de estagnação.


Doce de Coco (CE/BR, 2010)
Dir: Allan Deberton


No interior do Ceará, família vive da produção e venda de cocada de coco. Diana é a única garota da família, trabalha com a mãe na feitura dos doces. Um dia no rio, é assediada por um garoto da região e vai ter sua vida mudada por disso. O filme é mais um conto em que personagem atravessa a fronteira entre infância e vida adulta, neste caso de forma abrupta, assim como o corte seco que revela a situação da menina tempos depois daquela experiência no rio.

O diretor Allan Daberton filma com muito cuidado essa passagem, mas o filme vai cometer seu maior pecado no final, na tentativa de redimir sua personagem a partir de uma saída frágil e rasteira de roteiro. Existe ainda um tom melancólico, assinalado por uma trilha sonora triste e chorosa no pianinho, que pretende criar um clima de “peninha” pela garota. E isso estraga grande parte da sutileza que vimos anteriormente.


Um Lugar ao Sol (Idem, Brasil, 2009)
Dir: Gabriel Mascaro



Um Lugar ao Sol é o típico documentário que vale muito pelos depoimentos que coleta, muitas vezes deixando o espectador embasbacado pelo que acabou de ouvir. A proposta é conversar com pessoas que moram em coberturas de grandes edifícios das cidades do Recife, São Paulo e Rio de Janeiro, característica inconfundível daqueles com alto poder aquisitivo, esses que concentram grande parte da renda econômica do Brasil.

Poucos deles se dispuseram a falar. Das 125 coberturas catalogadas num livro a que o diretor Gabriel Mascaro teve acesso, somente nove famílias e moradores concederam entrevistas para o diretor.

O resultado, por vezes, é assustador. Como quando uma senhora se diz privilegiada porque ali ela estaria “mais pertinho de Deus”, ou o casal que diz “ver tudo de cima”. A prepotência que essas colocações poderiam ter, na verdade, não existe no tom da fala deles. É como uma colocação natural, estão falando do seu dia-a-dia, até porque aquela é a realidade em que estão imersos. A relação que eles possuem com a cidade é outra da que estamos acostumados.

Mas por trás disso, existe todo um discurso de distanciamento social de uma classe que parece ver isso sem nenhuma problematização. Um dos entrevistados chega a dizer que morar num edifício é “socializante”, porque um mesmo espaço vertical suporta várias moradias. Mas ao mesmo tempo, todos eles dizem prezar pelo tamanho espaçoso e pela privacidade que essas moradias lhes oferecem, fator justamente de distanciamento social. É aí que percebemos a fragilidade do discurso.

Interessante destacar certo traço do cinema documental contemporâneo no filme ao investigar determinado objeto a partir de um ponto de vista específico. Nesse caso, Um Lugar ao Sol se propõe a um contato com a mentalidade de uma classe alta-alta, demonstrando toda sua fragilidade de pensamento burguês, sem cair na “obrigação” de ter de ouvir o outro lado. O filme tem um propósito bem claro, e tenta focar nesse aspecto.

Mas mesmo assim, o documentário não consegue aprofundar demais no tema proposto, uma vez que a questão da moradia, no Brasil, é assunto capcioso. O próprio documentário se acomoda em sua proposta apostando somente nas falas de seus entrevistados, sem ousar demais narrativamente. O fato de serem poucos os depoimentos conseguidos também nos faz pensar que alguns têm coisas mais interessantes (e reveladoras) a falar que outros.

Mas, de qualquer forma, Um Lugar ao Sol marca o valor de discutir um tema a partir de um ponto de vista inicialmente duvidoso, mas que revela uma perspectiva não só interessante, mas também necessária de se ouvir.

Mostra Cinema Conquista – Diário #7


Sala de Milagres
(BA/BR, 2011)
Dir: Cláudio Marques e Marília Hughes


A romaria de Bom Jesus da Lapa, tradicional no interior da Bahia e um das maiores festas católicos do Brasil, é o tema de Sala de Milagres, que documenta um dia na cidade durante o evento religioso. E seu maior trunfo é revelar as várias facetas que ali se encontram, sejam elas sagradas ou profanas. Talvez por isso, faça tanto sentido que Edgard Navarro (diretor de O Homem que Não Dormia) abra o filme, olhando diretamente para a câmera, e seja o narrador das cartas em que os fiéis pedem e agradecem a Deus as dádivas.

O filme é todo marcado pela leitura de algumas dessas cartas com a voz doce de um Navarro apaziguador, já que existe muita sinceridade nas palavras dos fiéis. O filme mostra desde a aglomeração das pessoas nas grutas e nas ruas, vindo em busca de graça divina, até as atrações que acontecem ao entorno, como os banhos de rio, o encontro nos bares ao som do arrocha e do pagode característicos do interior baiano e as casas noturnas. O filme observa calmamente aquela realidade, sem grandes interferências (não entrevista ninguém), pois crê, felizmente, na força de suas imagens. Elas dizem muita coisa sobre a fé e a realização pessoal e a busca por isso.


Cavalo (SP/BR, 2010)
Dir: Joana Mariani


A animalização do ser humano a partir da perspectiva da exploração. Cavalo é um retrato amargo de um morador de rua e aparentemente um doente mental (vivido por Milhem Cortaz) que é usado por um homem como burro de carga para levar seu carrinho enquanto ele cata papel. O homem é tratado como um cavalo, brutalizado e pouco cuidado, sua condição é de miséria humana.

E se o explorador pode ser facilmente acusado e vilanizado, o filme vai conseguir criar uma complexidade para seus atos, mas sem nunca redimi-lo. Esse tipo de cuidado com os personagens e sua dimensão dramática só reforça o grau de humanidade da história, para além de ser bem fotografado e filmado. No entanto, existe uma tentativa de criar uma sensação de liberdade no momento final que parece apontar para uma solução muito simples de uma situação bem mais complicada. É aí que o filme perde pontos.


Elvis e Madona (RJ/BR, 2010)
Dir: Marcelo Laffitte



A maior ousadia e originalidade de Elvis e Madona se encontra em sua sinopse: travesti se apaixona por lésbica. Acaba por aí. O longa-metragem de estreia de Marcelo Laffitte chega a ser vergonhoso na forma caricatural com que trata seus personagens. Mas o maior pecado do filme é um roteiro completamente mal cuidado, com péssimos diálogos e escolhas narrativas equivocadas, claramente falseadas para compor determinados climas que a história precisava.

Mesmo assim, a reação do público presente no Centro de Cultura era de empolgação e divertimento (chegando a aplaudir três vezes em cena aberta), muito embora outras tantas pessoas saíram indagando como um filme, que mais parece saído de um sitcom televisivo (ouvi isso de umas quatro pessoas), foi parar na seleção da Mostra, fora os que abandonaram a sessão antes de terminar, constrangidos.

Se existe uma luta, não só no Brasil, no sentido de combate ao preconceito sexual, Elvis e Madona tenta dar um passo a frente ao assumir como protagonistas um casal tão insólito quanto este. A travesti Madona (Igor Cotrim) conhece por acaso a motoboy e fotógrafa nas horas vagas Elvis (Simone Spolidoro). A química entre eles é imediata, um relacionamento próximo é inevitável. Pena que a narrativa siga caminhos tão ridículos, colocando muito dessa “coragem” a perder.

Madona, por exemplo, começa o filme sendo assaltada em casa pelo explorador e seu antigo affair João Tripé (Sérgio Bezerra). No outro dia, chega ao salão de beleza onde trabalha e quando conta a todos o ocorrido, eles resolvem fechar o salão para dar um banho de produção em Madona. Pronto, ela parece já ter esquecido que Tripé roubou todas as economias que ela estava guardando para um esperado espetáculo musical que sonha em produzir e estrelar.

É esse tipo de detalhe que tanto enfraquece a narrativa, o que só revela as fragilidades de um roteiro que insiste em criar situações que soam falsas. Exemplo claro é quando Elvis apresenta Madona a sua família. A mãe dela (Maitê Proença), em especial, se revela uma megera retrógrada, para na cena final do encontro, como que por passe de mágica, se revelar orgulhosa da filha (!?!). O então a atmosfera policialesca decorrente das ameaças de Tripé que, além de encerrar o filme da forma mais lugar-comum possível, pouco convence.

A narrativa tenta ainda se engajar num discurso social uma vez que Elvis vende suas fotografias tiradas nas ruas para um jornal (e Tripé não vai demorar em aparecer em uma delas, envolvido com tráfico de drogas). Mas o pior mesmo é quando Elvis chega a dizer que ela quer ser fotojornalista para “mostrar a realidade do país pra ver se muda alguma coisa”. Basta só saber se esse tipo de simplismo é fruto da ingenuidade do roteirista (o próprio Laffitte) ou não passa mesmo de ignorância. O problema é que o próprio discurso fílmico parece endossar essa perspectiva idealizada do jornalismo (e o filme vai mostrar isso da forma mais sensacionalista quando Elvis conseguir um “furo de reportagem” fotográfico).

Sendo uma das grandes atrizes hoje no cinema nacional, é difícil entender o que Simone Spoladore faz num filme desses (na verdade, do ano passado pra cá ela já entrou em outras furadas, como nos péssimos Insolação e Não Se Pode Viver sem Amor). Poucas vezes ela consegue driblar o texto ruim, mas se esforça. Igor Cotrim nem isso consegue, criando sua Madona com os trejeitos mais clichês possíveis, todo caras e bocas. Elvis e Madona parece dar tiros no próprio pé a todo instante. Sabota um projeto que tinha muito de coragem, mas não passa de uma boa ideia inicial.

domingo, 13 de novembro de 2011

Mostra Cinema Conquista – Diário #6


A Peruca de Aquiles (RJ/BR, 2010)
Dir: Paulo Tiefenthaler


Artistas vão ao morro em busca de drogas. Chegando lá são confundidos com policiais à paisana e se vêem em maus bocados. Boa ideia a desse curta, embora realização não seja das melhores. A despeito da caricatura dos traficantes e dos artifícios de roteiro para que seu argumento funcione (como a forma encontrada para que se dê a confusão de identidades), A Peruca de Aquiles só ganha pontos no conceito visual, muito bem tratado, em especial a boa fotografia.

Mas no fim das contas, o curta tenta trazer valor para o trabalho do ator, conferindo potência e importância à encenação (a cena em que o protagonista usa a peruca do título e recita seu texto coroa corretamente essa proposta). Existe ainda uma tentativa de dar um certa cutucada a essa mesma classe artística e seu contato com o mundo das drogas (como usuários, diga-se), conferindo um ar policial ao curta. Mas assim ele pouco funciona porque o pouco cuidado na construção dos personagens impede a formação dessa atmosfera. Esse é seu verdadeiro calcanhar.


Olho de Boi (BA/BR, 2011)
Dir: Diego Lisboa


Um garoto pobre e sua relação com a fé. Olho de Boi usa um conto moral para reforçar a ideia de crença religiosa a partir do imaginário infanto-juvenil, inserida numa comunidade periférica de Salvador. O menino acuado e ameaçado pelos garotos mais velhos depois de ganhar de presente um sapato usado (mas de grande utilidade) é o cerne da história. Muito bem produzido, o curta só peca pelo moralismo da conclusão de sua história.

Algumas outras coisas incomodam na narrativa, como a caricatura com que a figura dos pais do garoto é construída, sempre expansivos e grosseiros, ou mesmo a composição exagerada do Preto Velho de Carlinhos Brown. Mas o pior mesmo é o tom final que correlaciona a falta de fé (ou de crença suficiente) às consequências da violência e da dor. O curta até se esforça para não ser somente uma lição de moral religiosa, através da potencialidade da imaginação, mas ainda assim não consegue fugir de seu destino moralista. A menos que se pense na necessidade de abandonar a crença religiosa como entidade salvadora que deve guiar nossas ações. Mas o próprio filme não parece comprar essa ideia.


Terra Deu, Terra Come (MG/BR, 2009)
Dir: Rodrigo Siqueira



A Morte é figura presente em Terra Deu, Terra Come. O documentário aporta numa comunidade remanescente quilombola, o Quartel do Indaiá, distrito de Diamantina, no interior de Minas Gerais e tenta resgatar as tradições antigas daquele povo. O documentário parece resgatar um espaço mítico que demonstra uma relação peculiar daquela gente com a ideia de finitude da vida.

O filme começa com imagens incríveis do velório de um homem de 120 nos de idade. Seu Pedro é quem conduzirá a cerimônia de cortejo fúnebre e enterro, se tornando figura central da narrativa. Os diretores aproveitam para extrair desse senhor a forma com que eles entendem e lidam com a morte, assim como com a ideia das forças não-humanas que fazem mal ao homem, ou que com ele faz pactos (e fica a dúvida se João Batista, o morto, para viver 120 anos, não seria um deles). Tudo isso dota a história de um tom místico dos mais interessantes (e também respeitosos).

Mas entre os momentos que marcam os passos do funeral (que se concentram no início e fim do filme), o diretor Rodrigo Siqueira aproveita para explorar as histórias e crenças antigas daquele povo, que vieram trabalhar nas minas de garimpo, e que guardam ancestralidade com africanos conhecidos como vissungos, resgatando inclusive o dialeto banguela, sendo seu Pedro um dos poucos que ainda dominam esses conhecimentos.

Já ouvi dizer que o filme promove uma mistura de Jean Rouch com Guimarães Rosa. Nada mais pertinente. O tom etnográfico se mistura ao universo interiorano e humilde de um povo que carrega riqueza na tradição que guarda, inclusive pela linguagem um tanto embolada que eles falam (não à toa o filme é todo legendado, embora não seja necessariamente difícil de entender a fala dos personagens).

Mas o final do filme guarda ainda uma surpresa quando a narrativa revelar sua verdadeira faceta de intersecção entre documentário e ficção (e aí faz mais sentido que o filme comece com uma fábula contada por seu Pedro sobre a figura da Morte e de sua função de levar as pessoas embora dessa vida). Aí, a encenação, que já aparecia no decorrer da narrativa a partir das histórias de seu Pedro (por vezes incorporando-as, inclusive, usando uma máscara de papelão), reforça ainda mais a atmosfera metafísica e fabular do filme, ajudada por uma fotografia forte e contrastante entre claro e escura. E ainda realça a linha entre verdade e recriação.

De qualquer forma, seja documentário ou ficção, Terra Deu, Terra Come é uma forma, antes de tudo. Mostra um caminho possível para revelar diante da câmera as relações entre vida e morte, bem e mal, homem e aquilo que está acima dele. O desconhecido, portanto.

sábado, 12 de novembro de 2011

Mostra Cinema Conquista – Diário #5


Um Outro Ensaio (RJ/BR, 2010)
Dir: Natara Ney


Um Outro Ensaio começa lançando um olhar bastante redentor para sua protagonista, uma deficiente visual. Ela é casada com um homem sem a deficiência e revela uma independência incrível nos afazeres domésticos da mesma forma que transita nas ruas com muita desenvoltura. O texto do curta, ao focar na convivência dos dois, acaba expondo também a intimidade do casal, num clima isento de moralismos, tipo de tom sempre bem-vindo.

Se essa primeira metade sugere uma certa concessão a essa mulher, pois devemos acreditar em toda sua independência, a segunda parte do filme vem para mudar essa perspectiva e complexificar a discussão sobre as possibilidades e limitações dos deficientes visuais. Mas faz isso através de um golpe de roteiro que parece sabotar o início do filme, apostando numa solução que pretende ser defendinda como uma possibilidade necessária e viável, se esforçando bastante para deixar o espectador feliz ao fim da sessão. Pergunto-me somente se as coisas parecem tão fáceis como o filme tenta demonstrar.


Céu, Inferno e Outras Partes do Corpo (RS/BR, 2010)
Dir: Rodrigo John


Assim como faltam mais curtas de animação nessa edição da Mostra (esse é o único, na realidade), falta também muito do vigor e da criatividade desse curta nos outros representantes. Céu, Inferno e Outras Partes do Corpo vem marcado pela estranheza, pela inquietação, justamente suas maiores qualidades. Nele, cães com feições e comportamentos humanos (ou seriam humanos agindo como cães?) povoam um mundo caótico, como se a narrativa do filme pertencesse a outra realidade, inteiramente subjetiva. O traço tradicional da animação reforça ainda mais esse caráter de devaneio.

Uma chave possível de interpretação pode recair sobre a relação entre paixão e loucura, pois o cão protagonista parece estar vivendo uma ressaca de amor depois de ser dispensado pela companheira da qual não consegue parar de pensar. Por isso seu mundo (um universo particular) soa totalmente descabido, desregulado, fora de órbita. Mas o peso desse estado de “fossa” é quebrado por um humor negro gritante (personagem coloca o coração pra secar no varal e guarda o cérebro na geladeira antes de sair de casa, entre outras bizarrices), quando por fim, cai no escatológico e no grotesco. É a confirmação de que, por (muitas) vezes, vivemos num mundo cão.


Transeunte (RJ/BR, 2010)
Dir: Eryk Rocha



A trajetória de seu Expedito (Fernando Bezerra), um senhor de idade, sem esposa ou filhos, morando agora sozinho depois da morte recente da mãe de 81 anos, parece ser a história ideal da decadência e desolação que marcam o fim da vida de alguém. Pois o grande mérito de Transeunte é justamente expor o contrário, transformando a rotina desse personagem num caminho de autoaceitação e felicidade prováveis, na medida do possível e a passos lentos.

Não se trata aqui de superação, é muito mais que isso. Expedito vai aprender a conviver com suas limitações de idade, seu ritmo próprio e sua condição solitária. E o grande mérito do filme é respeitar enormemente esse personagem, sem nenhum traço de piedade por sua condição. Na verdade, existe muito carinho por esse senhor errante que passa grande parte do tempo caminhando pelas ruas do Rio de Janeiro.

Expedito anda, ouve as pessoas, observa, sempre como um anônimo na multidão. Começa o filme num estado de melancolia por conta da morte da mãe e vai passando por uma lenta transição de estado de espírito, revelando um olhar mais terno para a vida, apesar das suas limitações. E são muitos os momentos que representam isso. Numa cena, por exemplo, ele vê uma garota enviando uma mensagem de amor por celular; poderia ver aquilo com amargura, mas ri com isso. Ou então os jogos de futebol que deixam de ser conferidos pelo radinho e passam a ser presenciais, com toda a emoção que uma torcida no estádio proporciona. Mas nada é tão bonito e surpreendente como os minutos finais, uma grande redenção para o personagem.

Nesse sentido, é interessante perceber a força de uma fotografia em preto-e-branco sem nenhum traço de tristeza ou mesmo carregada. Pelo contrário, revela uma luminosidade forte, de algo vivo, nunca entristecedora. Em alguns momentos a proximidade da câmera com o ator granula a imagem, mas na maior parte das vezes existe muita luz no filme.

Eryk Rocha, filho de Glauber, estreia aqui no longa ficcional depois de três documentários (Rocha que Voa, Intervalo Clandestino e Pachamama) e filma com planos fechadíssimos, o que só reforça a relação de intimidade e observação que o filme mantém com o protagonista e sua rotina, acompanhando-o aonde ele for, sem interferências.

No entanto, as duas horas de projeção fazem o filme parecer maior do é, até mesmo pela sua atmosfera contemplativa. O ritmo lento, na verdade, faz muito sentido para a história desse homem de rotina arrastada, mas Transeunte seria mais palatável se fosse um pouco mais enxuto, principalmente na sua primeira metade.

Só por não tratar seu protagonista com “peninha” e comiseração, Transeunte já valeria o esforço de um filme que exige um tanto de atenção do espectador. Como exercício fílmico, reforça a técnica a serviço da história que quer contar, essa de demonstração de dignidade que Expedito nos oferece, sem amargor, sem reprovação.

Mostra Cinema Conquista – Diário #4


Acabou-se (CE/BR, 2011)
Dir: Patrícia Baía


Marcado por um tom lúdico, Acabou-se fala da ideia de finitude (já marcada desde o título da obra) a partir da imaginação fértil de uma garotinha no interior do Ceará em meio a uma paisagem árida. O filme brinca com poder da imaginação no sentido de recriar e também de reviver (ou trazer à vida) figuras ou momentos que já não pertencem mais ao presente.

Patrícia Baía tem um cuidado extremo ao filmar tudo com propriedade, dotando seu curta de uma beleza plástica que revela não só sensibilidade como compreensão estética do que está fazendo, além da beleza de fotografia. Somente às vezes soa um pouco forçado, mas nada que tire a singeleza de seu trabalho. Por mais que as situações não sejam exatamente claras, fica a impressão de um filme sobre um rito de passagem de uma garotinha (mais um nessa Mostra depois de Uma Primavera), só que dessa vez um pouco mais duro.


De Lá Pra Cá (RS/BR, 2011)
Dir: Frederico Pinto


Primeiro De Lá Pra Cá nos apresenta a um homem e uma mulher em suas rotinas diárias de trabalho e dentro de casa, embora eles nunca se encontrem juntos nesse mesmo espaço. Mas aos poucos vamos sendo informados, através de detalhes, nunca dito de fato, que eles são casados, mas pouco se veem porque ele é segurança e ela, doméstica, um trabalha toda a noite, ela todo o dia. Quando se encontram? Somente num curto período em que se esbarram na estação de trem.

É muito singela a atmosfera que o filme cria sobre esses personagens, conferindo-lhes dignidade e um enorme carinho; a própria ideia de um casal que só se une por poucos instantes já é por si só bela na sua melancolia. No entanto, o filme não consegue ultrapassar esse argumento, apostando na sinceridade dos sentimentos que aquele casal ainda possui, apesar da dificuldade que é mantê-lo.


Na Quadrada das Águas Perdidas (PE/BR, 2010)
Dir: Wagner Miranda e Marcos Carvalho



Na Quadrada das Águas Perdidas é o nome de um disco que o cantor e compositor conquistense Elomar Figueira de Melo gravou e lançou no final dos anos 70, um de seus primeiros trabalhos. Os diretores Wagner Miranda e Marcos Carvalho usam as músicas que compõem esse disco e outras canções para dar vida a um filme sobre a busca no universo do sertão nordestino.

E é muito importante a presença da música (composições assinadas por Matingueiros, Geraldo Azevedo e o próprio Elomar) num filme em que praticamente inexistem diálogos. Ora, o personagem que vai sair em viagem num dia qualquer num tempo perdido interage basicamente com a paisagem ao redor. E por isso é muito gratificante ter um Matheus Nachtergaele compondo esse sujeito do qual nada sabemos a respeito de sua vida e sua história, mas do qual nos familiarizamos desde o princípio.

Dirigindo uma carrocinha caindo aos pedaços, levada por um jegue e de posse de duas cabritinhas e de alguns poucos mantimentos e pertences, esse homem sai de sua casa (onde parece viver sozinho) e ganha a estrada de chão. Seu destino parece incerto, não pra ele, que segue com determinação pelo caminho, se virando como pode.

Ao mesmo tempo, o filme revisita os elementos do imaginário folclórico desse ambiente já um tanto saturado pelo cinema. Há um esforço de mostrar diversas facetas, indo dos perigos aos prazeres daquele universo. No entanto, de uma forma geral, predomina um tom mais lúdico e apaziguador, além de umas doses de humor, num ambiente tão marcado pela dor e sofrimento.

Nesse sentido, a comida ganha um destaque muito pertinente no longa. É sabido da seca e pobreza que tanto assolam a vida de muitas famílias daquela região e que a falta de alimento (dificuldade de colher e de comprar) é uma constante. Por isso, o filme valoriza bastante os momentos em que o personagem procura e encontra alimento em meio à paisagem árida. Por isso, o melhor momento do filme se dá durante um sonho em que o protagonista se encontra diante de um banquete de farinha. Pura e seca. Mais nordestino, não há.

Interessante perceber também como a fotografia do filme tem um ar dos mais naturais, longe daquele tipo de iluminação forte e quase artificial comumente usada para compor a paisagem nordestina. Assim, a atmosfera do filme se mostra mais palpável e sincera, longe de idealizações.

Mas mesmo com todas essas qualidades, a narrativa nem sempre consegue manter o mesmo nível de interesse já que as situações de busca de comida, principalmente, acabam ficando repetitivas, mudando somente de objeto de desejo. Nosso herói parece ter um destino definido, embora só descobriremos qual é na conclusão do longa. E não existe nada de grandioso nele, o que importa mesmo é o processo de chegada até lá.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Mostra Cinema Conquista – Diário #3


Uma Primavera (SP/BR, 2011)
Dir: Gabriela Amaral Almeida


O que era para ser somente a comemoração de mais um aniversário, ganha ares de rito de passagem aqui. Acompanhamos mãe e filha num piquenique comemorativo dos 13 anos da garota. Apesar da proximidade de ambas, nota-se logo um certo desconforto da filha por toda aquela cerimônia. Quando a menina desaparece no parque, a mãe entra em desespero à sua procura. E fica evidente como a mulher ainda trata a menina como uma criança (ao perguntar a um estranho se viu ele a garota, ela mostra uma foto dela dizendo: “é de quando ela tinha 9 anos, mas continua igualzinha”).

O mistério do que teria realmente acontecido à garota cria uma tensão constante, amparado no desespero da mãe. Mas apesar do pânico que toma conta dela, o curta possui toda uma calma, se aproveitando da atmosfera tranquila e silenciosa do parque (o som ambiente é bastante aproveitado nesses momentos). Uma Primavera parece seguir o rumo do drama intenso, mas vai encontrar seu caminho no deflorar da juventude. Mas mais do que isso, aponta para a necessidade de aceitação do crescimento dos filhos, pois sua garotinha não continuará sendo a mesma, nem será sua para sempre.


Qual Queijo Você Quer? (SC/BR, 2011)
Dir: Cíntia Domit Bittar


Esse é mais um (belo) filme de pretexto. Quando o senhor Afonso pede a sua mulher Margarete para trazer queijo do mercado, a esposa tem um surto verborrágico em que despeja toda a angústia que parecia estar presa na garganta. Começa aí a exposição de uma rotina desgastada, uma vida doada à criação dos filhos, em que o tempo reservado a si mesmo é sempre deixado para depois. Qual Queijo Você Quer? usa esse estopim para falar de relações desgastadas na terceira idade, tema muitas vezes ignorado no cinema.

O filme se beneficia ainda de uma composição visual acertadíssima, a começar por uma direção de arte que capricha ao preencher a sala de estar da casa do casal, onde se passa todo o filme, com uma série de objetos que remetem, paradoxalmente, a um lar preenchido e cheio de histórias pra contar. A fotografia amarelada reforça bastante não só a noção de coisa envelhecida, passada do tempo, como cria atmosfera de calor que a discussão suscita (por isso é bem sacada a presença de um ventilador ligado a toda velocidade). Mas o curta ainda vai trazer uma surpresa quando um relógio parado se tornar uma bela metáfora da vida que ainda segue, para o bem ou para o mal.


Estamos Juntos (RJ/BR, 2011)
Dir: Toni Venturi



Estamos Juntos ensaia, no seu início, um certo triângulo amoroso dos mais inusitados, mas vai ser por outros caminhos dramáticos que põem em cheque a situação dos personagens da mesma forma que a do projeto do filme em si. Isso porque alguns arcos dramáticos parecem mais bem resolvidos que outros, da mesma forma que o filme muitas vezes parece não saber o que fazer com seus personagens, criando novas válvulas de escape ou repetindo as mesmas situações, o que enfraquece bastante a força total do filme.

Carmem (Leandra Leal, uma de nossas melhores atrizes) é uma médica residente que conhece o músico argentino Juan (Nazarena Casero), com quem começa um tórrido envolvimento, passando para trás seu amigo gay Murilo (Cauã Reymond) que ainda reserva esperanças de ficar com Juan.

O filme começa com esse envolvimento amoroso, na mesma medida em que se esforça para expor a solidão de Carmem. Ela vai começar também a sentir tonturas que apontam para problemas sérios de saúde. O filme encontra ainda lugar para injetar um comentário social pelo envolvimento de Carmem com uma comunidade de sem-tetos em que faz trabalho voluntário de medicina preventiva.

Assim, Estamos Juntos tenta dar conta de mais coisa do que consegue segurar e dar profundidade, em especial dos personagens secundários que Juan e Murilo se tornam; em determinado momento eles somem da narrativa já que essa passa a focar na saúde de Carmem. Quando parte para o campo social, perde muito na falta de contextualização daquela realidade, soando como uma tentativa frágil de parecer engajado. A sensação é de que seria preciso de mais de um filme para dar vazão a tantos arcos dramáticos, ou de que o roteiro de Hilton Lacerda (Amarelo Manga, Baixio das Bestas) carece de mais liga entre suas partes.

A solidão na cidade de São Paulo ganha corpo na pessoa de Carmem, e uma das ideias do filmes (mais uma, só que essa, bem boa) é a relação dela com um homem misterioso que aparece quando a personagem está sozinha. São os melhores momentos do longa pelas conversas entre os dois, pela entrega e pelo tom singelo e sensível que consegue alcançar, dotando o filme ainda de um interessante ar fantasioso.

E Leandra Leal ajuda muito a dar consistência a essa personagem que precisa transitar entre várias situações, deixando para trás o resto do elenco (e isso inclui Dira Paes!) tão mal cuidado pelo roteiro. Mas Toni Venturi filma muito bem, compondo planos com muita calma e beleza (fotografia é linda). Pena que a serviço de uma história que pede a todo momento por mais.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Mostra Cinema Conquista – Diário #2


Braxília
(DF/BR, 2010)
Dir: Danyella Proença


O discurso poético de Braxília se justifica justamente por retratar um pouco do trabalho do poeta brasileiro Nicolas Behr. Assim, o próprio biografado aparece no curta-metragem não só falando de sua escrita, possuidora de uma relação direta com a cidade de Brasília, mas também interagindo com o próprio ambiente urbano de quem parece ser bastante íntimo. A grafia da capital federal ganhou um “x” por um erro do poeta quando escrevia num dia qualquer, quando ele percebeu ali uma forma de enxergar uma outra cidade. Em suas palavras, “Braxília é minha Pasárgada”.

E por mais que exista toda essa liberdade estética, o curta toma o cuidado de nunca soar pedante demais, até porque a própria figura do poeta em cena é livre de qualquer autoridade literária. Além disso, o teor do trabalho de Behr mostra uma influência clara da poesia concreta, bastante pertinente a uma cidade traçada com tanto rigor arquitetônico. Uma bela homenagem à cidade, ao poeta, à arte.


Julie, Agosto, Setembro (GO/BR, 2010)
Dir: Jarleo Barbosa


Com uma singeleza extrema, Julie, Agosto, Setembro conta uma historinha que poderia ser das mais bobinhas, caso não tivesse um texto e um tratamento estético tão cuidadoso. O curta se apresenta quase como uma fábula de vivência, sem o teor fantasioso, em que uma estrangeira, a belga Julie, chega a Goiânia e precisa se familiarizar com a cidade. Nada sabemos de como ela veio parar no Brasil, mas o filme está mais interessado em captar a voz off dessa jovem em suas tentativas de adaptação, principalmente nas relações que desenvolve com alguns namorados.

Assim como em Braxília, existe uma relação muito forte de seus personagens (ficcionais ou não) com a cidade ao redor. Julie, Agosto, Setembro começa mostrando uma Goiânia desfocada, e vai ganhando contornos nítidos a partir da familiaridade que a própria protagonista vai conquistando no curto período de sua estadia. O texto, ligeiro e cheio de boas sacadas, sustenta grande parte do filme, que pouco tem de interação entre os atores em cena, além de uma montagem esperta e certeira. Dessa vez, a homenagem é ao nosso poder de adaptação.


Riscado (RJ/BR, 2010)
Dir: Gustavo Pizzi



Diferente de muitos trabalhos nacionais recentes que adoram experimentar com a forma (e a mescla entre documentário e ficção tem se tornado um tanto cansativo nesse sentido), Riscado, como produção independente, acerta muitíssimo bem ao injetar naturalismo num filme cuja maior força é a história que quer contar, focado numa personagem a quem nos identificamos de cara e por quem passamos a torcer, sem que o filme precise abusar de artifícios estéticos para isso.

Bianca (Karine Teles, esposa do diretor) é uma atriz de pequenos trabalhos. Faz desde animação de festas de aniversário vestida de Marilyn Monroe, Betty Page e Carmen Miranda, até entrega de panfletos nas ruas, fantasiada, além de atuar numa peça de teatro. Mas sua grande oportunidade aparece quando ela é convidada a protagonizar um filme, coprodução entre Brasil e França.

De uma simplicidade incrível, sem os cacoetes do cinema alternativo, Riscado acompanha a luta de uma atriz em se firmar no mundo como tal. Seu maior desafio é ser reconhecida pelos outros dessa forma, e com a dignidade de uma profissional. Mas além das oportunidades que surgem ou lhe escapam das mãos, um outro obstáculo de Bianca são as pessoas que não conseguem enxergar ali seu verdadeiro ganha pão (e uma cena com a locatária de seu apartamento é bastante sintomática nesse sentido).

Interessante notar que Bianca, ao ser escolhida como a protagonista, trará muito de sua vida para a história do filme a ser rodado. E não deve ser difícil perceber o quanto da experiência da própria Karine Teles deve constar em Riscado. E esse efeito só é reforçado pela atuação super espontânea da atriz Karine Teles, que cria uma empatia direta do público com aquela mulher e sua luta diária.

O diretor sabe brincar, sabiamente, com o formato dos quadros do filme. Por vezes ele apresenta cenas em 16 mm ou em super 8 (perceptível pelo aspecto quadrado da projeção), o que confere uma atmosfera bastante intimista para essas situações. Se inicialmente elas parecem fazer parte de um acervo de imagens que a própria protagonista faz de si mesma (em determinado momento ela chega a dar esse material ao diretor do filme em que vai atuar), elas ganham outra significação quando parecem revelar a intimidade da personagem em seus anseios e desejos mais particulares, como fica evidente quando Bianca se prepara para dar uma entrevista.

De qualquer forma, são passagens que só reforçam o olhar singelo sobre essa mulher tentando sobreviver com o seu trabalho, digno, com aquilo que sabe fazer. Riscado é um filme que faz dessa motivação sua maior arma, mesmo que a luta ainda pareça ser bem mais dura de vencer.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Mostra Cinema Conquista – Diário #1


Foi dada a largada para mais uma Mostra Cinema Conquista – Um Olhar para o Novo Cinema em meio ao frio e à chuva que não parece dar trégua. E nada mais justo do que começar celebrando o cinema feito na Bahia, o de outrora e o de hoje (a Mostra se encerra ainda com o polêmico O Homem que Não Dormia), num ano em que muitos projetos, finalmente, ganharam as telas. Vale agora discutir a força e dimensão desse cinema, assim como de uma produção nacional que precisa de público. Portanto, momento melhor não há. Então, que se abram os trabalhos.


A Morte das Velas do Recôncavo (Idem, BA/BR, 1976)
Dir: Guido Araújo


Homenageado da Mostra este ano, Guido Araújo esteve presente na noite de abertura e apresentou seu curta-metragem A Morte das Velas do Recôncavo, documentário um tanto didático sobre como a utilização das estradas rodoviárias acabaram por fazer desaparecer os saveiros que faziam o transporte de mercadorias para a cidade. Do traço paisagístico que marcava a Baía de Todos os Santos (onde as embarcações ficavam ancoradas) ao teor sócio-econômico de sua importância para a vida daqueles que dependiam desse trabalho para o sustento da família, o curta, visto hoje, ganha contornos de registro histórico de uma Bahia em transformação (inclusive pela preservação das imagens da época).

Mas parece percorrer um caminho inverso justamente por revelar a contrapartida do desenvolvimento econômico que o transporte terrestre passou a representar naquela época. Não que exista nele um tom de denúncia, mas mais de lamentação pelos que tiveram suas vidas mudadas (e/ou pioradas) por essa questão. Como revela um construtor de saveiros em tom de tristeza no final do curta, “nós vivemos agora emborcados”, assim como passou a ser o destino de seus saveiros.

O Jardim das Folhas Sagradas (BA/BR, 2010)
Dir: Póla Ribeiro



Um filme baiano por excelência, esse O Jardim das Folhas Sagradas. Traz consigo uma série de discussões de tolerância no campo social, mas tem nas tradições e preceitos do candomblé sua sustentação maior. Uma pena o filme seja inchado com um discurso pra lá de didático sobre as formas de preconceito que seu protagonista vive, fazendo da obra uma bandeira panfletária incansável. Mesmo quando o foco da história recaia sobre os ritos do candomblé, momento em que o filme se sai melhor, o peso de um texto mastigado ainda aparece, muito embora o filme venha embrulhado por um conjunto técnico muito bem cuidado.

Bonfim (Antonio Godi), negro, bissexual, pretende deixar o engessado emprego numa agência bancária para se dedicar à fundação e gestão de um terreiro de candomblé com preocupações ecológicas. Com essa curta apresentação, podem-se notar as preocupações de teor racial, sexual, religioso e ecológico que se misturam à trajetória do protagonista. E o filme não vai perder nenhum momento para colocar na boca de seus personagens frases de teor educativo que soam como ensinamentos do bem, munindo o filme com uma metralhadora do politicamente correto atirando para vários lados.

E não há problema nenhum se o cinema, como meio de comunicação, toma para si uma função conscientizadora, apontando o dedo para as mazelas que pairam sobre a sociedade. O entrave maior é quando o tom geral se mostra pedante e carregado de lições e frases de efeito (sem tanto efeito assim), como acontece aqui. E aí se esgota grande parte da força que o filme poderia ter ao tocar em assuntos ainda delicados. Da forma como se constrói, O Jardim das Folhas Sagradas passa como um discurso moralista, justamente o oposto daquilo que se espera dele.

Desse jeito fica muito fácil atacar os evangélicos fervorosos contrários ao candomblé, ou os brancos de visão preconceituosa sobre os negros, tipos de personagens caricatos, com discurso idem, que pouco aprofunda essas questões que ainda, infelizmente, são tão importantes de serem discutidas no Brasil.

E se a transição do Bonfim ainda cheio dúvidas, no início da projeção, para aquele Bonfim que toma para si a tarefa de erguer o terreiro Ilê Axé Opô Ewê se mostre um tanto brusca (aquele seu casamento com uma mulher evangélica, por exemplo, é dos mais inverossímeis), o filme parece encontrar seu caminho quando o protagonista se encontra ocupado com sua verdadeira vocação.

E mesmo que ainda exista um discurso pedante aqui (tentativa clara de vender a ideia da religião afro como algo positivo, do bem, em prol da natureza), o filme consegue apresentar alguns preceitos e ritos do candomblé de modo a serem facilmente compreendidos pelo público em geral, apesar de alguma ou outra coisa que só funciona para entendidos. Ajuda muito a caprichada fotografia do filme que confere beleza a esses momentos, aliada aos planos cuidadosos, mas nunca exibicionistas, que o diretor cria.

Como disse o próprio Póla, também presente na noite de abertura de ontem, o filme começou a ser preparado bem antes da primeira edição da Mostra. Talvez todo esse tempo seja o responsável pelo discurso didático que tanto atrapalha sua narrativa. Nota-se que existe ali uma vontade genuína de combater problemas sociais e de promover o candomblé, ambos objetivos bastante dignos. Pena que escolha o tom errado para isso.