terça-feira, 24 de setembro de 2013

Medos clássicos

Invocação do Mal (The Conjuring, EUA, 2013)
Dir: James Wan


É muito curioso e gratificante ver que Invocação do Mal não traz nada de novo no front dos filmes de terror (nem parece querer essa posição), mas consegue feitos muito bons de tensão e horror. Dentro de um gênero tão mal tratado e que carece de bons exemplares recentes, isso é muita coisa, ainda mais por uma obra tão clássica, sem firulas. Sua história parece um requentar de tantas outras que vemos há tempos, com os mesmos elementos de sempre, mas funciona muitíssimo bem ao que se propõe.

Estão lá a casa mal assombrada, as aparições nos armários e cantos escuros, os relógios que param sempre no mesmo horário de madrugada, crianças que têm seus pés puxados à noite na cama, portas que rangem, aparições nos espelhos. Todos os elementos que o cinema de terror já cansou de repetir, sem que aqui eles apareçam com um novo ar; tudo é facilmente reconhecível.

Mas o grande trunfo desse filme é investir suas energias em bons personagens, conflitos críveis e explicações palpáveis (mesmo que reprocessadas do filme anterior de Wan, Sobrenatural) para os eventos macabros. Porque não estão em jogo somente os tormentos da família Perron, que se muda para uma nova casa infestada de espíritos maléficos, mas também os desafios do casal de paranormais Ed e Lorrain Warren (Patrick Wilson e Vera Farmiga), famosos por assumirem uma série de casos que se mostraram furados. Mas agora o que eles enfrentam é diferente, é demoníaco, e ainda envolve os instintos maternos de Lorraine.

Se a primeira parte do filme serve para desenvolver os personagens, apresentar todos esses elementos que compõem a atmosfera assustadora do filme e causar uma série de sustos no espectador, a terça parte final ganha muito em tensão e eleva o que já estava interessante em termos de sensação de medo e apreensão. Quando as brincadeiras de fantasma tornam-se um caso de possessão demoníaca, a coisa fica realmente mais apreensiva.

É quando o filme consegue acelerar o ritmo sem atropelar a narrativa e ainda fazer convergir os conflitos que estão espalhados pela história. É também quando ele mostra que não precisa reinventar a roda. Mesmo no estilo mais clássico, consegue inspirar medinho dos mais genuínos, com truques muito simples de montagem e som.

O final talvez seja um tanto piegas e meio apressado, quando a força do mal precisa ser suplantada por algo tão do nível do emocional, mas talvez esteja aí a coragem e diferença desse filme para os demais. Perde um pouco em realismo, mas não desmerece todo o senso de suspense e horror que veio antes.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Agruras íntimas

Amor Pleno (To the Wonder, EUA, 2012)
Dir: Terrence Malick


O tom e a estética parecem a mesma de antes. Terrence Malick filma com essa câmera inquieta paisagens e pessoas em movimento como se passeasse por essas vidas, como se estudasse esses deslocamentos num espaço grandiloquente que está a serviço dos personagens. Em Amor Pleno tudo é muito fugidio, sem muitas palavras, como se tentasse captar estados de espírito enquanto a beleza do exterior se torna também uma fascinação.

Mas há aqui um interesse muito maior na introspecção. É aí que o novo filme de Malick distancia-se tanto de A Árvore da Vida, apesar de ambos compartilharem propostas estéticas bem próximas. No trabalho anterior havia um interesse no humano como parte de algo maior, da vida em confluência com o universo, com um viés existencialista, enquanto os personagens destilavam seus porquês contra o mundo.

Aqui esses porquês ainda são marca da trajetória dos personagens, mas há uma perturbação que é muito mais íntima, muito mais introspectiva, o que tem afastado muita gente. E de fato não é um filme dos mais palatáveis porque não é de coisas dadas, assim como o anterior também não era. Apesar das inquietações serem também expressas no texto em off, as angústias dos personagens estão ali, em suas expressões, nos caminhos tortuosos que insistem em traçar.


Porque nem tudo são maravilhas nesse filme de belas imagens. Enquanto o mundo ao redor resplandece em luz e grandiosidade, e a natureza continue nos oferecendo belas vistas, internamente há muito embate. Daí que a grande personagem do filme seja Mariana (Olga Kurylenko), essa mulher russa que vive na França com sua filha pequena e se vê encantada pelo charmoso Neil (Ben Affleck) que as levam para viver nos Estados Unidos. Renasce nela uma paixão que já tinha dada como perdida. Mas logo esse amor se estremece, sem muita explicação aparente.

Há ainda as agruras de um padre (Javier Bardem) numa espécie de crise de fé, e as próprias incertezas emocionais de Neil quando ele se envolve com a bela, e também machucada, Jane (Rachel McAdams). De longe, a inclusão desses personagens parece um tanto dispersa no filme, não ganham o mesmo destaque e, apesar de personagens interessantes, o filme perde quando muda o foco para eles e depois os descarta.

O filme também abusa um tanto do texto em off, sempre muito enigmático. Às vezes funciona como algo poético e sincero, mas em outros momentos surge obscuro demais (e por isso mesmo distante, um tanto frio). Mas os corpos e corações inquietos dos personagens continuam belissimamente fotografados. Malick os observa como que perdidos no mundo, na busca por subir os degraus para a maravilha.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Moviola Digital, 6 anos










Mais um ano, mais bons ventos, embora isso aqui tenha dado uma parada nos últimos meses e também precise de uma reforma no layout. Mas não estou reclamando, passa o tempo e continuo adorando isso aqui, as conversas, as trocas, as descobertas, as reflexões, a autocrítica.

O último ano foi bom porque continuei no meu caminho de escrever e, nesse processo, conhecer mais de cinema. Sinto que as redes sociais acabaram tomando o lugar de interação que antes estava mais presente nos comentários do blog, mas esse é um sinal dos tempos e de como as pessoas, hoje, se relacionam mais com o espaço virtual. De qualquer forma, o blog continua ativo, e assim pretendo mantê-lo por muito tempo.

Porque as coisas não param. Acabei de ser aceito na Associação Brasileira de Críticos de Cinema – Abraccine (o que me deixa muito honrado por estar ao lado de um punhado de gente grande que faz crítica de cinema no Brasil), além de continuar os trabalhos na Liga dos Blogues Cinematográficos e na Sociedade Brasileira deBlogueiros Cinéfilos. O site Coisa de Cinema, onde colaboro, tem sido também um espaço interessante de discussão. 

E tem todos aquelas pessoas que (ainda) acessam o Moviola Digital, motivo pelo qual ele se mantém de pé até então. Agradeço enormemente quem acompanham essas palavras aqui, mesmo os mais tímidos. E como sempre na comemoração de aniversário, uso 10 imagens de grandes filmes que comentei aqui nesse último ano pra ilustrar o post. Que venham mais 10 ou quanto mais quiserem.



 

sábado, 14 de setembro de 2013

Mil e uma noites

Holy Motors (Idem, França/Alemanha, 2012)
Direção: Leos Carax

Depois de 13 anos sem um longa-metragem, Leos Carax retorna com esse corpo estranho, belissimamente estranho, que é Holy Motors, provando ainda seu vigor criativo e suas inquietações cinematográficas. O grande trunfo de Holy Motors reside na sua faceta múltipla de direções, um filme de várias identidades, que discute a própria identidade (obstinação?) do cinema em contar histórias, possíveis e inimagináveis.

Como metalinguagem do próprio ato cinematográfico, o filme realiza um passeio pelas possibilidades narrativas que o cinema é capaz de realizar e ainda assim nos surpreender, mesmo depois de tanto tempo de imagens acumuladas pela História, revivendo gêneros e situações as mais incomuns da vida (e não é disso que o cinema mais se alimenta?).

Percorrendo a cidade numa limusine, o misterioso Oscar (Denis Lavant) vai assumindo a identidade de uma série de personagens os mais estranhos e bizarros, em situações incomuns. Essa é sua sina, seu trabalho, ele está preso a esse ofício, embora nunca saberemos por quê. E ele já se encontra fatigado dessa rotina, mesmo que a próxima parada seja algo sempre diferente, talvez desafiador.

De início, Carax evidencia a própria encenação como questão fundamental de seu dispositivo fílmico. Explicitamente, os personagens falam em “encomendas” ao se referir ao próximo “papel”, a próxima identidade a ser assumida, trabalhada, interpretada. Mas o filme também põe em xeque a própria validade das situações. Quantas histórias o cinema ainda é capaz de contar? E mais do que isso, quem está interessado em vê-las?, parece interrogar o filme.

É aí que o longa alfineta o expectador de hoje. O filme abre com uma plateia num cinema, todos dormindo (ou cegos?), em estado de apatia, quase mortos. Se a cinefilia tal como floresceu na década de 1950 está morta, como já aventou Antonie de Baecque e Susan Sontag, quem é esse sujeito que hoje reage às imagens em movimento do cinema? Que cinefilia é essa que temos hoje, certamente tão mudada e alterada quanto nosso tempo?


Quando questionado sobre os motivos que o prendem a esse seu trabalho de ser outros, Oscar afirma que tudo ainda vale pela beleza do gesto; e essa estaria no olhar do espectador, conclui seu misterioso interlocutor. “E se não houver mais expectador?”, rebate Oscar. A preocupação está posta, mas o filme está feito, foi lançado ao mundo para ser visto. Ou seja, ainda há quem se interesse em ver, caso contrário não estaríamos aqui. Holy Motors seria, então, uma carta de intenções a favor das necessidades do narrar, do por em cena, mas também do estar dentro e frente à tela. Celebra, assim, mil e uma noites de cinema. Resta saber quantas mais virão.

Mas para além da discussão metalinguística, há graça também na força das imagens que Carax constrói, de onde vem a insistência em continuar vendo/fazendo. Poucos filmes conseguem nos entregar um punhado de cenas memoráveis: presenciamos um espetáculo de captura de movimento num estúdio que transforma luta em sexo; o grotesco Merde sai de um bueiro de esgoto para raptar uma linda modelo numa sessão fotográfica; o personagem – o filme? – se dá um intervalo num dos momentos mais animados do filme; Oscar reencontra uma antiga paixão, também ela exercendo a mesma função que ele, e se dão conta, através de um momento musical, dos rumos duvidosos que suas vidas tomaram, longe um do outro. E é de toda essa energia que se alimenta o excepcional desempenho de Denis Lavant, vivendo mais de uma dezena de personagens, todos eles em ruptura total com o anterior.

Como herdeiro legítimo dos tempos da Nouvelle Vague, Carax consegue se renovar com um filme que, aparentemente complexo, não tenciona explicar como e por que se dão esses encontros, sua logística narrativa, flertando assim com o fantástico e o surreal, à medida que os caminhos de Oscar e de suas personas acumulam-se como imagens possíveis e depois como missões cumpridas. Trata-se de uma existência que só parece ter corpo no cinema, via arte, ficção, fantasia. Uma existência cinematográfica, portanto.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Curtinhas

Wolverine Imortal (The Wolverine, EUA/Austrália, 2013)
Dir: James Mangold 


Nada podia ser pior que o filme anterior do Wolverine, certo? Isso mesmo. Essa nova aventura solo de um dos personagens mais queridos dos X-Men tem momentos bem interessantes, de pancadaria e desenvolvimento dos dramas do protagonista, ainda (e sempre) perseguido por seus demônios pessoais. Mas o frescor do filme está na formatação de uma história totalmente nova no cinema, bem conduzida, ao envolver um velho soldado japonês que, quando jovem, foi salvo por Logan (Hugh Jackman) durante a Segunda Guerra. Agora dono de um império industrial riquíssimo e já à beira da morte, ele tenta convencer o mutante de que é possível transmitir para ele sua mutação, o que livraria Logan da prisão da vida eterna.

O maior pecado do longa está somente nas diversas reviravoltas que a história vai tirando da manga, nunca satisfeita com suas intrigas estabelecidas, sempre pronta para sacar mais algumas. Não chega a quebrar o ritmo, mas já vai casando lá pelo fim do filme. A cultura japonesa surge como marca interessante aqui, contrapondo tradição e o aparato hype-tecnológico contemporâneo. Mas a cereja do bolo é mesmo a cena pós-créditos, retomando a relação com os outros filmes do universo mutante e apontando para direções bem interessantes a serem conferidas em X-Men: Dias de um Futuro Esquecido. Não chega a ser um grande filme pipoca, mas a contar com a leva deste ano, está bem acima de muitos.


Uma História de Amor e Fúria (Idem, Brasil, 2012)
Dir: Luiz Bolognesi 


Há algumas belas ambições nesse Uma História de Amor e Fúria, para o bem ou para o mal: além do fato de ser uma animação num país com pouca tradição nessa técnica, existe no filme todo um discurso politizado, rodeado por entrelaços amorosos, que ainda tenta dar conta de uma trajetória histórica do Brasil, chegando até a um contexto futurístico, permeado ainda por toques de fantasia. São muitas questões que o filme suscita, portanto, e que nem sempre consegue sustentar ou defender tão bem, apesar dos esforços inegáveis. É também o primeiro longa-metragem de ficção dirigido por Luiz Bolognesi, mais conhecido como roteirista, especialmente dos longas de sua esposa, Laiz Bodanzky, como Bicho de Sete Cabeças, Chega de Saudade e As Melhores Coisas do Mundo, todos muito bons.

O intuito com essa nova história é de estar do lado dos oprimidos e renegados de nossa sociedade, aqueles que encontram pouco espaço nos livros de História. Incomoda certo ar de peninha para com esses personagens, eles que parecem reencarnar a cada novo segmento como casal (ganhando vida a partir das vozes de Camila Pitanga e Rodrigo Santoro) que precisa lutar contra forças sócio-políticas repressoras. O filme tem ritmo, o problema é quando cada segmento parece reprisar o anterior em sua estrutura narrativa, mudando somente o pano de fundo. De qualquer forma, é um projeto corajoso e louvável pelos riscos que corre. E correr riscos é sempre bom no cinema nacional.


2 Mais 2 (Dos Más Dos, Argentina, 2011)
Dir: Diego Kaplan 


Não queria começar esse texto evocando possíveis comparações do cinema argentino com o brasileiro, mas quando se vê um filme tão funcional como esse 2 Mais 2 e se pensa na produção nacional de comédias recentes, fica evidente um fosso aí. Vale lembrar que estamos diante de um produto comercial argentino que raramente chega a nosso mercado e não duvido que tantos outros de gosto duvidoso sejam feitos por lá. Mas a maior qualidade desse filme aqui é tratar de sexo, numa comédia, sem ser desrespeitoso, escrachado, fútil, caricato.

A história funciona como uma iniciação ao swing, a prática da troca de casais que Diego e Emília (Adrián Suar e Julieta Díaz) descobrem ser uma atividade comum entre seus melhores amigos, Richard e Betina (Juan Minujín e Carla Peterson). Eles então ficam tentados a experimentar a coisa, com toda a sorte de confusões que a situação pode gerar. Talvez o mais interessante nesse conflito seja a reticência de Diego e a tentativa de convencê-lo a aceitar o swing como algo interessante, vantajoso para a relação do casal e longe de moralismos. Não existe chacota, mas sim uma busca pela aceitação de uma certa liberação dos desejos e atos sexuais. O filme diverte na mesma medida em que não ofende, e isso é uma grande qualidade.


Mekong Hotel (Idem, Tailândia/França, 2012)
Dir: Apichatpong Weerasethakul 


Talvez pela curta duração de uma hora ou pela simplicidade do projeto enquanto produção mesmo, Mekong Hotel aproxima-se mais de um filme-ensaio, um work in progress, em que personagens e situações poderiam carecer de melhores desdobramentos. Mas Weerasethakul continua fazendo seu cinema peculiar, zen, etéreo, dialogando com o mundo dos espíritos e com a natureza ao redor. Por isso o filme parece mais palatável para quem já se afeiçoou e se acostumou ao universo cinematográfico desse peculiar cineasta tailandês. 

Existe uma interessante dualidade entre o cotidiano dos personagens e a natureza fantástica (ou fantasmagórica) que eles assumem, representantes de um espírito carnívoro que toma posse do corpo das pessoas. É diferente de seu filme mais famoso, Tio Boonme que Pode Recordar Vidas Passadas, em que o tom religioso-fantástico se revela assustadoramente diante de nossos olhos. Aqui não, o fantástico assalta a vida cotidiana, e nada no filme parece se abalar com essa presença, por mais que as cenas mostrem as pessoas se alimentando de vísceras, como animais carniceiros. A música doce e melancólica que permeia todo o filme é o indicativo do ritmo banal, apesar do surreal das situações. O Mekong Hotel do título, mais que um lugar, é um estado de ser e estar.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

De casa

Doméstica (Idem, Brasil, 2012)
Dir: Gabriel Mascaro 
  

Como documentário que observa a rotina de algumas empregadas domésticas em cidades diferentes do Brasil, Doméstica é também um estudo das relações de servidão que fazem parte da história social brasileira. Curiosamente, essas relações também se aproximam de um caráter afetivo, pois estamos no âmbito do lar, do ambiente caseiro que aproxima a família.

É por isso um filme que esconde nas suas imagens supostamente sem interferência uma construção de olhar muito mais complexa do que podemos imaginar de primeiro relance. E para não invadir abruptamente esse ambiente de intimidade, como um intruso, o diretor Gabriel Mascaro prefere deixar a câmera nos lares das empregadas documentadas, mais especificamente nas mãos dos filhos, dos patrõezinhos (que geralmente cresceram e foram criados pelas domésticas). 

É, portanto, um interessante estudo em segunda pessoa, uma vez que nem as domésticas ditam as regras, apesar de figuras centrais do filme, nem o diretor se assume como o interlocutor maior. Elas continuam subordinadas aos patrões, aos donos da casa, sendo filmados e contando sobre suas vidas talvez como mais uma tarefa que lhes é atribuída, e essa talvez seja a grande sacada e força do filme. Há todo um olhar sociológico aí.

Quando o diretor coloca a câmera na mão dos patrõezinhos, o que já destoa do documentário de depoimentos, ele revela justamente essa faceta da empregada que quer e é levada a se sentir à vontade na casa em que trabalha, como alguém parte da vida caseira, ao mesmo em que precisa lidar com aquilo justamente como um trabalho, um emprego, a que ela está vinculada e do qual depende para sobreviver.

É nessa linha escorregadia entre dever e afeto justamente onde o filme consegue captar uma série de nuances que se estabelecem nesse tipo de relação. Doméstica sabe ser carinhoso com os personagens (tanto quanto os personagens já são consigo mesmos), mas também não deixa de revelar as dores e problemas pessoais que acompanham as empregadas. Todos ali possuem uma história forte que revela a dureza de suas vidas, uma vida que não cabe no filme porque está fora da casa de trabalho – fora do quadro, portanto.

É aí que o trabalho de montagem mostra sua força, não só na reunião dos melhores perfis dentre aqueles pesquisados pela produção do filme (e sem embaralhá-los, já que cada segmento começa e se conclui sem interferências de outros), mas também na maneira como equilibra os momentos mais radiantes com as tristezas que irrompem para a câmera quando menos esperamos. 

Um filme cru naquilo que expõe, sorrateiramente, mas também num sentido estético porque a produção, bem simples, feito com câmeras digitais portáteis, representa muito bem esse registro do que é doméstico, de casa, intimista, como lembrança realista de uma família em convivência; a família brasileira que aprendeu a acolher a quem lhe serve. É fabuloso como um filme desses é capaz de dizer tanto sobre nossa sociedade, presente e passada.
 

sábado, 27 de julho de 2013

Super excesso

O Homem de Aço (Man of Steel, EUA, 2013)
Dir: Zack Snyder


Numa comparação que se estabelece mais pelo contexto de produção de um blockbuster, O Homem de Aço tem problemas parecidos com os de O Cavaleiro Solitário: ambos são filmes inchados, grandiloquentes, que se esforçam para elevar a cada nova cena o nível de desafio no embate que seus heróis enfrentam, tudo em prol de mais quebradeira, explosão e muito barulho.

Para além da ideia desnecessária de recontar a gênese do Superman (aqui vivido insossamente por Henry Cavill), uma outra mania contemporânea terrível sob a desculpar de “atualizar” a história para o público atual, O Homem de Aço acaba se perdendo justamente na construção desse personagem que é cheio de dilemas interessantes.

E no fundo, essas questões que envolvem a mitologia do personagem estão todas lá, principalmente a posição de se aceitar como humano ou como herói protetor do planeta Terra, a utilidade que faz de seus poderes (e o dilema de poder abdicar deles) e a curiosidade de saber de onde veio e quem são seus verdadeiros pais. O pior é quando as conversas com o pais adotivos (e mais adiante com seu verdadeiro genitor) ganham ares de lição de moral que surgem já desde o início do filme.


E mais que isso, parece que não existe um equilíbrio interessante na maneira como roteiro e montagem apresentam e correlacionam essas questões. Idas e voltas no tempo, por mais que tentem dar uma dinamizada na ação, quebram não só o ritmo do filme como um todo, mas não ajudam muito na constituição do drama que o herói vive. A terça parte final da narrativa, como de costume, tentaria compensar isso ao se entregar à ação mais desenfreada que esse tipo de filme pede. 

Apesar da Lois Lane de Amy Adams ganhar uma personalidade mais forte e decidida, sua relação com Clark/Superman parece mais um ensaio do que promete se fortalecer mais adiante. Isso porque o filme promete franquia, quase que uma regra de ouro do produto hollywoodiano de super-heróis, com a tendência de querer ser ainda mais grandiloquente que o filme anterior. É essa fixação que tanto diminui filmes como esse.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Cores que passam

Os Amantes Passageiros (Los Amantes Pasajeros, Espanha, 2013)
Dir: Pedro Almodóvar


Se pudermos pensar em Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos como uma espécie de passagem de Almodóvar de uma fase mais escrachada para uma mais madura e dramática, aliada a um apuro estético que foi evoluindo a cada filme (chegando ao ápice, talvez, em Fale com Ela), é muito interessante esse retorno que o diretor espanhol promove com seu novo filme, Os Amantes Passageiros.

O tom escrachado está aqui, só que muito mais despudorado, no filme certamente mais gay do diretor, ele que transita com muita naturalidade e liberdade pelo universo pansexual, acentuado pelo melodrama. Só que agora o cineasta surge com uma mise-en-scène mais elaborada. O roteiro, porém, tem seus altos e baixos (especialmente quando sai do avião, na metade do filme), mas no geral rende algumas boas risadas.

O filme formata-se como comédia rasgada, embora não seja tão hilário como gostaria de ser. As confusões que tomam lugar num voo da companhia Península, indo da Espanha em direção ao México, reúne uma gama de personagens excêntricos, na medida em que nenhum deles parece central nesse mosaico de tramas (que vão cada vez mais se entrecruzando). Tripulantes e passageiros interagem e se expõe quando problemas técnicos no avião apontam para um pouso emergencial.

Como diz o letreiro de abertura, trata-se de “um filme de ficção e fantasia”. Seria essa uma forma do diretor se precaver de críticas mais duras ou entendimentos de uma obra supérflua, caso o nonsense nunca fosse uma marca presente nos filmes do diretor, especialmente nas comédias (e mesmo nos dramas mais sérios, como o filmete O Amante Minguante dentro de Fale com Ela).

Esse recado seria, então, uma forma do cineasta pisar mais fundo no acelerador do escracho, sendo mais explícito, direto, sem papas na língua; uma espécie de autoliberdade imposta. O mote do possível desastre no voo é a oportunidade para que os passageiros revelem (ou são obrigados a entregar), um a um, não só seus segredos sexuais, mas também os dramas amorosos e familiares de alguns. Em meio à comédia, facetas policiais e sobrenaturais surgem para outros, assim como uma cena de número musical que os comissários de bordo ensaiam para acalmar os ânimos de todos.

Enfim, esse misto de atmosferas e possibilidades narrativas poderia desequilibrar o filme. Mas, como uma espécie de síntese de tudo aquilo que Almodóvar já testou em sua obra anterior, há uma segurança em transitar entre cada uma, sem se apegar de fato a elas. No fundo, fica na mente uma obra despretensiosa, sem grandes momentos. Um filme passageiro, mas agradável.

domingo, 14 de julho de 2013

Programa de índio

O Cavaleiro Solitário (The Lone Ranger, EUA, 2013)
Dir: Gore Verbinski


Um garoto entra num museu e, diante de um boneco que representa um índio apache, vê esse mesmo boneco ganhando vida. Ninguém mais no museu parece se dar conta daquela estranheza, só o garoto, que vai ouvir toda a história de como o índio desgarrado Tonto (Johnny Depp) uniu-se ao promotor John Reid (Armie Hammer) para caçar um fora da lei e seu bando pela região árida do velho oeste americano.

Essa desfaçatez narrativa, quase uma abordagem fantasiosa para um filme que trabalha o humor negro e a crendice como algo fabular, é uma abordagem ideal para a construção de uma espécie de mito, o cavaleiro solitário, justiceiro supostamente renascidos do reino dos mortos, posição que será assumida por John. Sendo assim, O Cavaleiro Solitário começa muito bem enquanto proposta, já injetando doses muito boas de adrenalina, na base da inverossimilhança que tão bem faz aos filmes de super-heróis.

Mas a megalomania da produção toma conta do filme quando as tramas começam a se alongar, aumentando a quantidade e proporção das situações, sempre em busca de algo mais grandiloquente, e os personagens começam a ter mais conflitos. O interesse amoroso de John pela cunhada (Ruth Wilson) soa mais como distração ou a necessidade de um interesse amoroso na história; a introdução de um segundo vilão na parte final (vivido caricaturalmente por Tom Wilkinson) parece dispensável, assim como a personagem da cafetina interpretada por Helena Bonham Carter, uma pistola no salto de sua bota soando como um super detalhe descolado, mas sem serventia na trama.

A partir daí o longa parece não acabar nunca. É um filme balofo, que parece se retroalimentar, enquanto a fruição vai se tornando cansativa, apesar da adrenalina do todo. O Cavaleiro Solitário é o típico “frankenfilm”, espécie de produto do mercado hollywoodiano altamente controlado por estúdios, com muita gente dando pitaco (roteiro feito a seis mãos), composto por uma série de lugares comuns daquilo que se imagina que faz sucesso e atrai o grande público nessa alta temporada. Um objeto formatado para ser bom, mas que acaba soando disforme, ineficiente. Consequência disso é o mau resultado nas bilheterias.


O filme esforça-se para criar uma ambientação hype no quesito western, com personagens superestilizados e paisagens imponentes. Coisas grandiosas que explodem e/ou que andam a toda velocidade também são muito bem-vindas nessa trama que não pode parar um só minuto. Tudo que envolve o personagem de Depp, incluso aí sua velha interpretação do cara esquisito-altista, parece ter um sentido cômico, para além do pretenso misticismo da cultura indígena que ronda sua persona. Mais um ingrediente para engrossar o caldo da busca por um público que quer ser entretido. 

Até agora não sei por que o cavaleiro vivido por John é solitário, como aponta o título, se o tempo todo ele tem a companhia do índio Tonto. Esse é o tipo de incongruência que faz o filme mais um produto descartável de mercado, trazendo gravada a marca Disney, essa máquina de entretenimento que nem sempre faz coisas certinhas, e nem sempre acerta.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Claire Denis: Calor do corpo, frieza da mente

Desejo e Obsessão (Trouble Every Day, França/Alemanha/Japão, 2001)
Dir: Claire Denis


Seria esse um filme atípico dentro da filmografia de Claire Denis por operar no âmbito da ficção científica, caso não existisse aqui uma insistência na ebulição do corpo, da inquietação que move os personagens a partir de seus desejos. Mas longe de se aplicar às normas e preceitos do cinema de gênero, Desejo e Obsessão começa apresentando seus mistérios e vai, aos poucos e sugestivamente, revelando-os ou nos dando pistas sóbrias para esclarecê-los, bem ao gosto singularda cineasta francesa.

A doença que acomete alguns personagens, como a esposa do médico Léo Sémenau (Alex Descas), vivida intensamente por Béatrice Dalle, dona das cenas mais intensas do filme, se estabelece na ânsia sexual que culmina no canibalismo do parceiro; ela come mesmo, devora a carne e se banha em sangue. É um filme, portanto, sobre o desejo carnal, literalmente posto, como uma praga canibal.

É também uma doença da mente, pois é aí que parece se infiltrar essa espécie de vírus causador da anomalia. Mas Denis não está preocupada nas causas biológicas e muito menos numa possível epidemia, mas sim na forma como isso move e inquieta os personagens. Paralelamente, Shane Brown (Vincent Gallo), em lua de mel com sua esposa June (Tricia Vessey) na França, procura o Dr. Léo por acreditar estar sofrendo do mesmo mal.

É aí que o filme vai convergindo e revelando uma interligação passada entre esses personagens, enquanto as marcas do desejo vão se deflagrando. Mas não só nos infectados porque essa mesma ânsia existe nas pessoas com que eles se encontram, como é o caso da camareira do hotel e dos garotos que espreitam a casa onde Coré, a esposa de Léo, vive trancafiada. É um desejo que faz parte da natureza humana e que Denis filma como uma busca por realização, mesmo que possa custar da vida do outro.

Essas colocações podem nos remeter ao cinema de David Cronenberg (muito embora as preocupações do cineasta canadense revelam-se um tanto diferentes, como a ideia de limite do corpo, tão presente em sua obra). Denis busca uma outra textura: a luta entre o desejo, o autocontrole e aquilo que o corpo precisa para saciar sua ânsia.


O Intruso (L’Intrus, França, 2004)
Dir: Claire Denis


Para quem achava que Bom Trabalho já era um filme muito sugestivo da Denis, talvez se espante com o nível de abstração que pulsa de O Intruso. Mas aqui esse fluxo narrativo talvez tenha uma dose maior de incômodo justamente por deixa o espectador por demais perdido na história desse senhor que busca um transplante para o coração que não lhe atende mais. Mas seria esse mesmo o fio de história que importa aqui?

Ele busca também contato com o filho que não vê há tempos e ainda precisa lidar com os intrusos que invadem sua casa à noite, uma residência de campo em algum lugar entre França e Suíça. Se o cinema de Denis se faz com uma série de idas e vindas no tempo, sem localização aparente, aqui esse movimento contínuo confere ao longa um tom frio e distanciado demais.

Às vezes cortes muito rápidos não nos dão tempo para digerir uma imagem que é logo substituída por outra que pode – ou não – estar em outro tempo narrativo. Isso quando elas não fazem parte do universo dos sonhos de Louis (Michel Subor), nosso herói que tenta se salvar. É assim que O Intruso se configura como um filme cerebral demais, gélido, distante. 

Evidencia-se aqui uma bela capacidade da diretora: falar através de silêncios e, principalmente, que seus atores expressem muito sem nada dizer. Era assim com Alex Descas em 35 Doses de Rum, Isabelle Huppert em Minha Terra, África e Denis Lavant em Bom Trabalho. Em O Intruso, Michel Subor tem um trabalho que lhe exige mais porque esses momentos de introspecção são ainda mais constantes, o que dificulta a apreensão daquilo que motiva e deseja esse personagem, e os outros também. No fundo, não estamos diante de uma história que queira ser compreendida como um todo, em pormenor. Mas essa recusa aqui mais afasta do gera curiosidade.