segunda-feira, 8 de julho de 2013

Claire Denis: Ternura e inquietação

35 Doses de Rum (35 Rhums, França/Alemanha, 2008)
Dir: Claire Denis


Talvez seja esse o filme mais doce da cineasta francesa Claire Denis, apesar de nunca ser condescendente com seus personagens. Um trabalho curioso dentro de uma filmografia que aperta feridas ou encontra seus personagens em situações de inquietação e turbulência. Mas aqui ela tece uma narrativa super afável, carinhosíssima com seus personagens, algo que a trilha sonora já informa quando abre o filme, numa cena que acompanha os trilhos de um trem em movimento.

Esses trilhos bifurcam-se e podem ser uma metáfora simples para as possibilidades de caminhos tortuosos que se apresentam aos personagens que conheceremos a seguir, mas não deixa de ser uma correlação possível. Quem pilota a máquina é Lionel (Alex Descas), que vive com a filha Joséphine (Mati Diop) e possui forte amizade com Gabrielle (Nicole Dogué), amiga de longa data e vizinha.

Vivem ao sabor da vida de imigrantes numa França por vezes hostil nas possibilidades que lhes oferecem. Denis é muito cuidadosa na forma como apresenta os dilemas e conflitos internos desse grupo e em como deixa lacunas que nem sempre são tão evidentes (por que Lionel recusa o amor de Gabrielle? Qual é a verdadeira relação entre Joséphine e o jovem Noé que mora no mesmo prédio?). O filme está menos preocupado com os desdobramentos dos acontecimentos e mais em como eles agem no sentimento dos personagens, essa é uma de suas forças.

Em meio a tudo isso, a diretora consegue ainda injetar discussões políticas, partindo da relação Norte-colonizador, Sul-colonizado, e também filmar a sensualidade dos corpos (toda a sequência no bar depois do defeito no carro é exemplar nesse sentido, onde os olhares dançam e não escondem os desejos). Mas sobra muita melancolia nesse filme de vidas que seguem por entre trilhos sinuosos.


Bom Trabalho (Beau Travail, França, 1999)
Dir: Claire Denis


Nem tudo é claro no cinema da Claire Denis. Existe uma dose de sugestividade que sempre impregna seus filmes, que fica evidente nos rumos e desejos não muito claros que seus personagens apresentam no decorrer da narrativa. Mas talvez o maior problema desse filme seja abusar demais desse tom sugestivo,  mais afastando o espectador do que buscando interessá-lo.

O filme transita entre o passado e o presente do sargento Galoup (Denis Lavant) que liderava uma tropa da Legião Estrangeira Francesa no leste africano e agora vive recluso, contando, em flashbacks, os fatos que o levaram ao afastamento do grupo. Os ciúmes e desejos pelo oficial Sentain (Grégoire Colin), embora esses sentimentos nunca se revelem tão evidentes, são o ponto de inquietação do sargento, fonte da insegurança e vacilação que por vezes toma o rosto de Lavant tão marcadamente.

Existe um trabalho de corpos que Denis adora registrar (aliás, o corpo é um de seus temas preferidos) e filma muito bem. Corpos em movimento, seja fazendo as atividades diárias (como lavar e passar roupa), seja no treinamento militar, quando esses corpos chegam a se colidir, chocar-se. Galoup vive na ânsia iminente de uma aproximação maior, possivelmente amorosa/sexual, por Sentain. 

Ainda assim, muito do filme fica anuviado, sobram personagens sem destino ou função aparente (como a jovem prostituta que, em determinado momento, se diz namorada de Galoup – embora ela seja sempre muito bem fotografada pela câmera do filme), num jogo que esconde mais do que mostra ou pelo menos gera a curiosidade de descobrir, conhecer. De qualquer forma, a cena final é uma incrível simbologia de um corpo que se move, a esmo e sem rumo, sem par, na ânsia de se chocar com outro.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Horror-conceito

Mártires (Martyrs, França/Canadá, 2008)
Dir: Pascal Laugier


O filme de terror/horror/suspense está entre aqueles gêneros que mais carecem de bons exemplares recentes (pode-se incluir nesse grupo também a comédia romântica e o filme de ação), para além da adoração dos próprios fãs. Isso porque o mercado de entretenimento entope os cinemas com muita coisa mal escrita, mal dirigida, repleta de lugares-comuns; são filmes fáceis, o que acaba por se distanciar de um certo público. Daí que esse Mártires salta aos olhos pelo apelo de um filme de horror com conceito, peça rara nesse mercado de coisas rápidas e que se querem rentáveis.

Se a história começa como um filme de horror com tons de alucinação, é interessante notar os caminhos pelos quais as protagonistas vão passando, cheios de reviravoltas, todas muito bem inseridas no enredo. Da menina que foge assustada de um cativeiro, múltiplas feridas pelo corpo, queremos saber, assim como ela, quem e por que faziam aquilo. Num orfanato, passa a ter alucinações, mas faz amizade com outra garota, a única que parece se afeiçoar a ela. São ambas que, já adultas, procuram os responsáveis pelas torturas, com sede de vingança.

É junto com elas que vamos montando as peças, tudo parte de um quebra-cabeças mais amplo e complexo. É surpreendente como o filme nos apresentará algo muito maior e mais impactante em termos de história, momento em que a ideia de “mártir”, aqui quase um conceito filosófico-religioso, ganha força enquanto justificativa para um fim arrebatador. Tudo isso permeado pelo horror da degradação do corpo e da mente humana.


O filme não deixa de ter sua cota de ultraviolência e sina sanguinária, dialogando com o gore e a história de vingança levada às últimas consequências, num filme de imagens muito fortes e brutais. E essa parece uma constante interessante no cinema de horror francês, em exemplares como o ótimo e simples A Invasora ou em Alta Tensão, esse com tons mais psicológicos (curiosamente, todos eles centrados em figuras femininas fortes). 

A ideia de um filme de horror com tons conceituais parece ser algo muito próprio do diretor Pascal Laugier, coisa que ele também fez no seu filme seguinte, O Homem das Sombras. Há neles a imprevisibilidade dos rumos da história e o suspense ou terror como um caminho para se chegar num patamar distinto de causas e efeitos. Ganha o espectador com um filme que satisfaz o gênero e ainda se preocupa em dar um passo além.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Jogo de cena

Anna Karenina (Idem, Reino Unido, 2012)
Dir: Joe Wright


Num filme em que cinema e teatro se cruzam como uma narrativa assumida enquanto linguagem pretendida, é bastante pertinente que se comece com uma cortina se abrindo para o púbico. É o que acontece nesse Anna Karenina, mas com uma diferença: essa cortina é um desenho numa placa que sobe e revela ao público o palco do espetáculo. Eis aí um belo artifício de introdução a esse peculiar jogo de cena a ser utilizado durante todo o filme.

E que belos riscos esse filme apresenta. Joe Wright, do ótimo Orgulho e Preconceito (para ficar num bom exemplo de romance de costumes antigos), assume muito bem um misto de encenação teatral e cinematográfica, para além da beleza que uma história de época carrega no todo. Enquanto aquele era muito mais clássico na sua roupagem melodramática, a Anna Karenina de Leon Tolstói ganha aqui a mão e visão inquieta de Wright, que se arvora em abusar dos recursos cenográficos em evidência, alcançando um tom teatral quase farsesco, para levar adiante sua história.

Mas mais do que um capricho de querer fazer diferente, ainda mais por se tratar da adaptação de um clássico da literatura universal que já foi levado tantas vezes para o cinema, o diretor consegue fazer comentários muito interessantes sobre os personagens, seus dramas e as situações que eles enfrentam através dessas suas brincadeiras de cenografia.

Porque a história da mulher casada e aristocrática (Keira Knightley) que se apaixona perdidamente por um jovem (Aaron Taylor-Johnson) já comprometido com outra moça não é das mais originais. É aí que entra a desfaçatez da narrativa, tendo o palco como espaço de transmutação de ambientes, mais do que o plano que corta e nos coloca em outro espaço. A protagonista se movimenta e vê um cômodo transformar-se em outro, encurtando as distâncias. Com um simples rolar de trilhos, o ambiente das ruas de Moscou dá lugar a uma região campestre gélida no interior do país.

Daí que o filme nos presenteia com um punhado de ótimas cenas, as melhores delas quando abandona de vez a naturalidade da encenação e se abraça o artifício mais visível. Numa delas, depois de brigar com o marido dentro de uma carruagem, Karenina sai para a rua, encontra um labirinto de sebes, vai sacando as roupas que a sufocam e, surpreendentemente, encontra o jovem amado e o abraça. É desse atrevimento que o filme se alimenta e ultrapassa a simples história do amor verdadeiro que luta contra as convenções sociais para se concretizar. 

Mas ainda assim, enquanto tece suas brincadeiras narrativas, o filme dá a dimensão exata dos enfrentamentos contra os quais essa mulher luta para ficar junto de seu amado. Flertando com o melodrama mais rasgado e bem conduzido, Anna Karenina é um esforço de realização e encenação bonito de se ver, transformando a história batida de amor em algo bonito de se sentir.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Efeitos de dissimulação

Terapia de Risco (Side Effects, EUA, 2013)
Dir: Steven Soderbergh


Há tempos Steven Soderbergh vem dizendo que vai se aposentar do cinema e nunca cumpre sua promessa. Poderia muito bem fazer isso depois desse seu novo filme lançado nos cinemas. Não que seja uma grande obra digna de uma bela despedida, mas ultimamente o cineasta americano não consegue passar do mediando, isso quando não chega a níveis bem baixos, nos devendo um bom filme desde Che (2008).

Terapia de Risco tem uma direção estilosa, sem exageros, mas mania de reviravoltas na parte final é o que mais incomodam no filme. Porque o drama de Emily (Rooney Mara), tentando se tratar psiquiatricamente agora que seu marido (Channing Tatum) acabou de sair da cadeia e precisa de apoio para recompor sua vida, já guarda muito de curioso, um misto de perigo e mistério que ronda sua mente em desequilíbrio.

Seu contato com o psiquiatra interpretado por Jude Law leva-o a receitar um novo medicamento em fase de testes e que acaba tendo efeitos colaterais estranhos na moça. O personagem de Law torna-se, então, figura central na história porque passa a investigar os caminhos psicológicos da garota e descobre uma antiga médica (Catherine Zeta-Jones) que a tratava, fazendo-o descobrir coisas mais profundas do que imaginava.

Os passos para a depressão e os instintos suicidas (e até mesmo assassinos) são bem desenhados por Soderbergh, conduzindo tudo com muita precisão; se não se revela um grande trabalho de encenação, também não faz feio. Está no mesmo tom de filmes recentes como À Toda Prova e Contágio. Um belo artesão, portanto, mas que começa a mostrar sinais de inquietação quando precisa chacoalhar sua trama com descobertas de conspirações, quase pondo a história a perder. 

Mas é daí que a dissimulação torna-se uma questão central, passando a guiar a história, num estudo que o diretor e o roteirista Scott Burns fazem dos mascaramentos que a mente humana produz. A rapidez narrativa com que a investigação é tratada talvez soe como algo de forçado até se chegar à verdadeira resolução do caso. Mas o diretor, aqui, parece saber bem o que quer e traduz isso de maneira eficiente. Se quer afastar-se do cinema, esse seria um bom momento. Ou então Soderbergh se faz, ele mesmo, de um grande dissimulado.

domingo, 26 de maio de 2013

Festival In-Edit – Parte II

 


Searching for Sugar Man
(Idem, Reino Unido/Suécia, 2012)
Dir: Malik Bendjelloul 


Um personagem incrível revelado aos poucos por uma construção de trajetória realmente exemplar, via roupagem documental muitíssimo bem arranjada. Searching for Sugar Man é esse trabalho vigoroso, recente vencedor do Oscar de Documentário, um verdadeiro achado de manipulação da linguagem em prol do contar uma boa história. Se é muito comum que a ficção ancore-se nos artifícios documentais para dar maior sustentação de realismo aos filmes, é interessante como, no processo inverso, o documentário também empresta da ficção certas ferramentas narrativas, o que encontramos aqui.

O longa nos apresenta a busca pelo cantor e compositor americano, de ascendência mexicana, que começou uma carreira promissora no ramo artístico no início dos anos 1970, mas que não conseguiu emplacar comercialmente e acabou sendo eclipsado pela própria indústria. Mal sabia ele o quanto sua música passou a ser apreciada na África do Sul, onde chegou por acaso.

Dado como morto, num caso extremo em que contam que ele se matou durante uma de suas apresentações, Jesus “Sixto” Rodriguez passa a ser o mito obscuro por quem agora se busca conhecer, seguir os rumos e compreender como sua carreira errônea deu passos tão tortuosos. Nesse percurso, o filme ouve uma série de pessoas que poderiam revelar mais coisas sobre sua vida, com pitadas de mistério, intriga, louvação, surpresas e desencontros que tornam tudo muito interessante e curioso de se acompanhar.

De bônus, há música de Rodriguez, sempre boa demais. O filme abusa pouco da irritante mania da maior parte dos documentários sobre gente talentosa de querer empurrar guela abaixo do espectador a genialidade do seu documentado. O diretor sueco Bendjelloul não consegue fugir disso, mas consegue reforçar, através da demonstração generosa das canções, o talento de Rodriguez de forma muito mais agradável.

Maior ainda é entender a dimensão que sua música vai ganhar num país de cultura e história tão díspar como a África do Sul, dominada pelo Apartheid, encontrando nas letras do cantor uma forma de expurgar os anseios de uma sociedade acossada pelo poder imperialista. É quando nos deparamos com a capacidade do fazer artístico em chacoalhar certas estruturas, enquanto outras, personalíssimas, permanecem ali, à espera de alguém que as movimente.


Música Serve para Isso: Uma História d’Os Mulheres Negras (Idem, Brasil, 2012)
Dir: Bel Bechara e Sandro Serpa


Mais um documentário tradicional que serve ao propósito de apresentar algo interessante: a banda Os Mulheres Negras. Tinha gente achando que o nome do filme estava escrito errado, mas nada disso. Se eu disser que o tresloucado do André Abujamra faz parte da iniciativa, acredito que a coisa toda fica mais plausível. Junto com Maurício Pereira, em meados dos anos 1980, eles criaram essa que chamavam de terceira menor Big Band do mundo.

Eles se aproveitaram da sua habilidade como multi-instrumentistas e veia cômica para criar apresentações super bem-humoradas e criativas, chamando atenção para o fator de performance que apresentavam no palco, como se assumissem personagens ali. O nome da banda servia mesmo só pra chamar atenção, a mistura de gêneros musicais dificultava sua classificação. 

Além de contar com entrevistas dos dois componentes, o documentário ouve uma série de pessoas que tiveram contato com a dupla naquele momento enquanto criavam algo diferente e inusitado no cenário musical paulista. Não foge muito disso, mas vale pelo registro, via imagens de arquivo, das apresentações que deixam claro o valor artístico que os dois criaram.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Festival In-Edit – Parte I





A Batalha do Passinho – O Filme (Idem, Brasil, 2012)
Dir: Emílio Domingos


Para além de um filme exótico sobre uma certa febre de dança aparentemente esquisita, A Batalha do Passinho é um filme bastante rico no que concerne a toda uma cultura que se desenvolve nos morros cariocas tendo o funk como viés norteador. Longe de focar na violência dos bailes e no conteúdo duro de suas letras, o impressionante aqui é ver como garotos criam e executam movimentos incríveis para dançar funk. É vendo pra acreditar na desenvoltura dos meninos com seus estranhos movimentos de pés e corpo.

O diretor Emílio Domingos está interessado não só na dança em si e nos campeonatos que rondam aquela cultura (sendo o desenvolvimento desses a base estrutural do filme), mas também em questões outras que envolvem aquele grupo de garotos da periferia e sua arte. Estão lá questões como a predominância dos meninos na dança, o interesse que eles despertam nas garotas, a vaidade pessoal deles, a apropriação de trejeitos afeminados por parte de alguns, o papel da internet e das redes sociais como difusoras de informações e troca de conteúdos, especialmente de vídeos. Tudo isso surge como um estudo interessante sobre a forma como essas atividades se estabelecem no ambiente da favela e se expandem a partir dali.

Como documentário tradicional, funciona como forma de contato com toda a cultura do passinho, num ambiente por si só já muito estereotipado e distante do apelo da grande mídia. Embora não seja intenção levantar uma bandeira social, ela está lá na própria configuração e fascinação da câmera por esses movimentos estranhos, mas atraentes, que o passinho proporciona e tudo aquilo que carrega em seu entorno. O filme dá voz àqueles que se articulam em torno da dança. É ela que os fazem melhores dentro de uma realidade já bastante dura.


Um Filme para Dirceu (Idem, Brasil, 2012)
Dir: Ana Johann


Dirceu pensa em ser um grande cantor, fazer sucesso e ser conhecido. Quer também que sua história vire um filme, como em 2 Filhos de Francisco. No interior do Paraná, o gaiteiro Dirceu (gaita é como se chama a “sanfona” no Sul) sonha alto, depois que uma paralisia nas pernas durante a adolescência quase o deixou paraplégico. A diretora Ana Johann resolve então realizar pelo menos o sonho do filme, mas de forma documental, acompanhando os passos desse homem singelo, mas persistente e cheio de vontades.

Dirceu se esforça para continuar na trilha musical, tocando em pequenos shows, participando de concursos e levando de baixo do braço o projeto de captação de recursos para realizar seu filme. Não era um documentário que ele queria (no início, inclusive, vemos uma encenação da abertura do filme sobre si mesmo que Dirceu tem na cabeça), por isso não é um filme sobre, mas para (lição aprendida com Wim Wenders, presume-se) Dirceu. É como um filme-presente que acaricia seu documentado, indo aonde ele quer ir, em busca de realizar seus sonhos, que se revelam cada vez mais distantes e difíceis.

É por isso mesmo um projeto corajoso porque não há nada de enganador nele. Dirceu conhece as barreiras e nem está ali com a promessa de uma realização de seus planos. De qualquer forma, a narrativa é carinhosa com seu personagem errôneo, tentando captar sua inquietação e suas investidas, mesmo que nem sempre consistentes, mas sem nunca julgá-lo nem julgar suas chances de sucesso. Era o filme possível.


Neil Young Journeys (Idem, EUA, 2011) 
Dir: Jonathan Demme


Neil Young Journeys soa como um filme de fã para fãs. Jonathan Demme é um ótimo cineasta, mas como documentarista parece bastante preguiçoso. Aqui ele se contenta em filmar Young em seus shows, cantando e tocando músicas inteiras, e conversa ocasionalmente com ele enquanto passeiam de carro na cidade natal do cantor, no Canadá. Não nos oferece muita coisa em termos de cinema.

O fato desse ser o fecho de uma trilogia que o diretor fez sobre o músico (os outros filmes são Neil Young: Heart of Gold e Neil Young Trunk Show, lançados em 2006 e 2009, respectivamente) talvez deponha a favor de um filme que se fascina pela imagem dessa lenda do rock fazendo aquilo que o tornou famoso. E não há nada contra o estabelecimento da imagem pura de alguém contando e tocando suas músicas, entretendo o público. A Música Segundo Tom Jobim é todo construído em cima disso e é um estudo fascinante sobre o poder da música de um certo artista. Aqui é diferente porque não parece brotar muita coisa desse registro puro e simples, para além da imagem de um homem solitário no palco defendendo sua arte.

Pior ainda é quando Demme posiciona sua câmera abaixo do microfone de Young, captando um take de gosto duvidoso, ou quando vez ou outra divide a tela com imagens em ângulos quase idênticos de Young tocando guitarra. Os melhores momentos do filme estão nas apresentações finais em que Young revela uma epifania em determinados momentos, seja com a voz ou com instrumentos musicais, o vislumbre que temos aí de um virtuose da música. Mas esse é um mérito do músico e não do cineasta.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Dor e libertação


Elena (Idem, Brasil, 2012)
Dir: Petra Costa



Difícil lembrar uma sessão tão emocional como essa do brasileiro Elena, um filme que te agarra no emocional desde o início e só te solta no fim. É um trabalho personalíssimo, uma história de família, mas que machuca fundo a quem assiste. É incrível como o filme funciona fácil, sente-se onipresente o tom melancólico de saudade, misto de lembrança e pesar pela perda de um ente querido.

A cineasta Petra Costa conta sua relação com a irmã Elena, que se suicidou quando jovem. Para isso, a diretora mune-se de uma infinidade de imagens de arquivo para resgatar essa personagem e a história de sua família, o primeiro grande acerto do filme. Mas a própria Petra é também figura importante na história, a irmã mais nova que observa os descaminhos de talento e insanidade pelos quais a mais velha passa, como criança sem entender muita coisa.

Agora, mais madura, retoma o material e constrói uma narrativa poética e lúcida sobre o drama de sua família. O segundo grande acerto de Elena é o texto em off que tem tanto de leveza, doçura e poesia, que torna tudo muito mais bonito de se ver, dolorosamente belo. É como uma carta-poema que Petra direciona a sua irmã querendo entender, se entender e entender o mundo ao redor por onde elas passam (e dançam).

E nesse se por no filme, Petra faz ainda uma bela relação com seu encontro pessoal com a arte, outra constante interessante no filme. Elena era atriz de teatro que ensina à pequena Petra como atuar. Se Elena vai se perder por outros motivos, Petra se lança no caminho da arte, depois do trauma da morte e das dúvidas comuns da juventude, a partir de uma experiência de vida que parece ter lhe aberto muitas portas, fechando outras. Mas agora o que se apreende é uma artista segura de seus passos, dona de um olhar aguçado.

A presença de Elena é sentida a todo instante no filme e mesmo com a sensação geral de dor, não se trata de uma obra pesarosa. É como uma forma de expurgo, propósito a que se serve diretora e também família (dor e remorso da mãe são marcas fortes no filme), mas a impressão final é de um trabalho sólido de montagem e recriação, autoavaliação, além da sensibilidade intensa que exala. 
Elena é memória, é dor, mas também libertação.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Festival Varilux de Cinema Francês – Famílias que matam




Prenda-Me (Arrêtez-Moi, França, 2013)
Dir: Jean Paul Lillienfeld

 
A cota de filme policial este ano no Festival Varilux é preenchida por
Prenda-Me, esse exemplar de tons quase teatrais (baseado, na verdade, no romance de Jean Teulé) pela forma como simplifica os espaços de ação da história. Mas há ainda toques bem dramáticos e pitadas de humor negro, o que o torna por vezes uma mistura estranha, difícil de definir.

No fundo, o conflito da protagonista é bem mais simples de se entender e resolver, mas a grande investida do filme está na forma como a história vai nos sendo apresentada, talvez se alongando demais, via flashbacks da narração da protagonista. Todo o filme está marcado pela relação que se estabelece entre essa mulher (Sophie Marceau) que vai à delegacia confessar o assassinato do marido, ocorrido anos atrás, e a policial (Miou-Miou) que ouve seu depoimento.

Apesar desse drama ser o centro da questão (na época, a morte do marido que caiu da janela de um prédio foi dada como suicídio, reforçada pelos problemas de comportamento e agressividade que ele já apresentava), não há muito a se reconstruir desses fatos e fatores que ajudam a esclarecer o caso.

O filme ganha muito quando a personagem da policial se revela mais na história, o que acontece na terça parte do filme. É quando a insistência dela em não prender a confessora se torna mais evidente e as duas passam a compartilhar certas percepções da vida e, principalmente, da noção de família. Há núcleos familiares que prendem mais do que nos liberta. 

terça-feira, 7 de maio de 2013

Festival Varilux de Cinema Francês – Luz de verão



Renoir (Idem, França, 2012)
Dir: Gilles Bourdos


“A dor passa, mas a beleza permanece”. Para um pintor tão celebrado e genial como Pierre-Auguste Renoir, essa frase lhe cai pertinentemente num filme que pinta um retrato muito luminoso do pintor impressionista, apesar de já encontrá-lo na fase final de sua vida, mesmo que ainda produzindo e dono de sua sanidade. A velhice lhe aflige o corpo, mas a consciência sobre a validade da própria arte permanece como força ativa, apesar do clima melancólico e doloroso em que vive o artista.

Mas a rotina do mestre (Michel Bouquet) ganha também novas luzes com as duas chegadas que a história promove. Primeiro, ele conhece uma nova modelo, a bela Andrée (Chista Theret), uma jovem atriz em busca de trabalho. Na verdade, é sob o olhar dela que chegamos à casa de campo na Côte d’Azur e encontramos o pintor sob os cuidados da família e criados, mas sem ar de ranzinza. Renoir nunca é um filme pesaroso.

Logo em seguida, chega seu filho Jean Renoir (Vincent Rottiers), convalescente depois de ser ferido na Primeira Guerra Mundial. O futuro cineasta ainda vai traçar seus caminhos de sucesso, mas se encanta ao conhecer Andrée. Passando longe do lugar comum de criar inimizade entre pai e filho, via ciúme despertado pela presença da jovem, o filme ganha dimensões de encontro familiar em que as mágoas de cada um são postas à mesa, mas sem cair na lavagem de roupa suja. No fundo, há muito de amoroso nesses encontros.

Renoir é sobre pais e filhos. O retrato do esgotamento de um artista acaba sendo o florescer de outro, em campos diferentes das artes. Apesar da tristeza e melancolia do todo, a luz da Riviera Francesa surge resplandecente, acariciando os personagens em seus dilemas ou dificuldades. Pode soar quase pedante que o filme tente reproduzir certas imagens como se fossem pinturas no estilo impressionista de Renoir, mas a vivacidade persistente que emana dali ganha uma tradução ideal, de uma tela para outra. 

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Festival Varilux de Cinema Francês – A dor de ser



Camille Claudel 1915 (Idem, França, 2013)
Dir: Bruno Dumont



Chega a ser surpresa que Juliette Binoche seja a protagonista desse filme de Bruno Dumont. Em seus trabalhos, sempre esquisitos, sobre gente estranha, ele costuma usar atores desconhecidos. Mas há outras rupturas aqui: trata-se do retrato de uma personalidade real, coisa rara em sua filmografia, e por isso o filme abre com algumas informações didáticas sobre a então abalada Camille Claudel.

Dumont trabalha num registro bem intimista, encontrando a grande escultora francesa já detida num manicômio depois de um período atormentada pelo isolamento a que se infligiu, amargurada pelo romance tumultuado como amante de seu grande mentor, Auguste Rodin, por quem abdicou muita coisa. Sofria também pelo machismo da sociedade francesa e não tinha o apoio da própria família, responsáveis pelo encarceramento dela em hospícios, onde viria a morrer depois de 30 anos internada.

Mas Camille Claudel 1915 está menos preocupado em demarcar os traços biográficos da artista, e mais fascinado pelo estado de isolamento e descontrole mental que ela apresentava. É um filme duro, mas não nas imagens fortes ou grotescas que o diretor costuma criar. Aqui, a perturbação está na face e nas palavras dos personagens. Camille transita entre a angústia da permanência ali a pitadas de alegria, especialmente pela iminência da visita do irmão.

Dumont estende o tempo no manicômio como forma de nos impor aquela rotina estanque, por vezes agonizante, enquanto Camille convive com médicos e enfermeiras até benevolentes com seu estado e com internos em condições muito mais intensas de esquizofrenia (e é louvável que o diretor tenha trabalhado com doentes mentais de fato, o que acentua o clima natural de um lugar assim). Com isso, consegue fugir muito bem de possíveis caricaturas.

O rosto endurecido da atriz parece uma fascinação para o diretor e sua câmera, sempre tão próxima dos atores. Mas é de se louvar também a chegada do irmão Paul Claudel (Jean-Luc Vincent), fazendo o filme ganhar novo fôlego e atmosfera. Sua personalidade arrogante e moralista, sua pose elitista, só reforçam o choque de posições, impondo à protagonista uma existência que não há de ser mais condescendente. Sua sina é carregar pra sempre a dor de ser o que a tornaram.