domingo, 3 de novembro de 2013

Panorama Internacional Coisa de Cinema 2013


De Reichenbach a Hitchcock. De Roberto Pires a Bruno Dumont. De Portugal ao México. Da Alemanha à Itália. Cinema brasileiro em perspectiva. Isso e mais um punhado de outras coisas apetitosas estão espalhadas pela programação da 9ª edição do tradicional Panorama Internacional Coisa de Cinema, que começou na quinta-feira em Salvador e Cachoeira.

É uma festa para a cinefilia baiana (e para todos aqueles que porventura venham de longe prestigiar o evento). Isso porque a Bahia carece de mais festivais assim, não só com uma programação de saltar aos olhos, mas também com uma preocupação em exibir filmes em boas condições. Pois o Panorama cumpre essa função, nesse que já é um dos festivais mais prestigiados do Brasil. 

Para mim, foi também mais uma experiência de compor a equipe de curadoria das mostras competitivas nacionais, baianas e de curtas internacionais para essa edição. Posso ser suspeito para falar, mas os escolhidos engrandecem bastante a seleção. 

Já começou então mais uma maratona de filmes. Quem for da região, não pode perder. Que venham mais filmes!

Mostra SP – ranking geral


Chega ao fim mais uma Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Minha segunda experiência consecutiva imerso num mundo de filmes do mundo todo. Foi mais uma oportunidade de ver o que há de novo por aí, de conferir clássicos absolutos do cinema e de reencontrar e conhecer essas pessoas malucas que compartilham a mesma loucura pelo cinema que eu. Abaixo meu ranking geral da Mostra:




Cortinas Fechadas (Jafar Panahi, Irã) ****½
Child’s Pose (Calin Peter Netzer, Romênia) ****
Cães Errantes (Tsai Ming-liang, Taiwan/França) ****
Lições de Harmonia (Emir Baigazin e María Florencia Álvarez, Cazaquistão/Alemanha/França) ****
Morro dos Prazeres (Maria Augusta Ramos, Brasil/Holanda) ****
Pais e Filhos (Hirokazu Kore-eda, Japão) ****
Centro Histórico (Aki Kaurismäki, Pedro Costa, Victor Erice e Manoel de Oliveira, Portugal) ****
Manakamana (Pacho Velez e Stephanie Spray, Nepal/EUA) ***½
Inside Llewyn Davis (Joel e Ethan Coen, EUA/França) ***½
Escudo de Palha (Takashi Miike, Japão) ***½
Um Toque de Pecado (Jia Zhang-ke, China) ***½
Depois da Chuva (Cláudio Marques e Marília Hughes, Brasil) ***½
Norte, O Fim da História (Lav Diaz, Filipinas) ***½
Meteora (Spiros Stathoupolus, Grécia/Alemanha) ***
Educação Sentimental (Julio Bressane, Brasil) ***
Peixe e Gato (Shahram Mokri, Irã) ***
Las Horas Muertas (Aarón Fernández, México/França/Espanha) ***
Ilo Ilo (Anthony Chen, Cingapura) ***
Confissões de Assassinato (Jung Byung-gil, Coreia do Sul) ***
Sexo, Drogas e Impostos (Christopher Boe, Dinamarca) ***
Bends (Flora Lau, Hong Kong/China) **½
Grigris (Mahamat-Saleh Haroun, Chade/França) **½
Grand Central (Rebecca Zlotowski, França/Áustria) **½
Até Ver a Luz (Basil da Cunha, Portugal) **½
3x3D (Peter Greenaway, Edgard Pêra e Jean-Luc Godard, Portugal) **½
Miss Violence (Alexandros Avranas, Grécia) **½
Wakolda (Lucía Puenzo, Argentina/França/Espanha/Noruega) **½
A Gaiola Dourada (Ruben Alves, Portugal/França) **½
Amanhã Nunca Termina (Isabel Coixet, Espanha) **½
O Grande Mestre (Wong Kar-wai, Hong Kong) **
Riocorrente (Paulo Sacramento, Brasil) **
O Garoto que Come Alpiste (Ektoras Lygizos, Grécia) *½  
Segurança Nacional (Chung Ji-Young, Coreia do Norte) *


Hors Concurs:


2001: Uma Odisseia no Espaço
(Stanley Kubrick, EUA/Reino Unido, 1968) *****
Laranja Mecânica (Stanley Kubrick, EUA/Reino Unido, 1971) *****
Nascido para Matar (Stanley Kubrick, EUA, 1987) *****
A Rotina Tem Seu Encanto (Yasujiro Ozu, Japão, 1962) *****
O Deserto dos Tártaros (Valerio Zurlini, Itália/França/Alemanha, 1976) ****½
Flor de Equinócio (Yasujiro Ozu, Japão) ****
Providence (Alain Resnais, França/Suíça/Reino Unido, 1977) ****

Barry Lyndon (Stanley Kubrick, EUA/Reino Unido, 1975) ****

Mostra SP – parte 6



  

Norte, O Fim da História (Norte, Hangganan ng Kasaysayan, Flipinas, 2013)
Dir: Lav Diaz 


Pode-se reclamar muito de um cineasta que costuma fazer filmes gigantescos (estou falando de longas de 5, 8, 11 horas de duração!). Pois essa é um das marcas que perseguem os trabalhos do diretor filipino Lav Diaz, que recebe uma corajosa retrospectiva nessa edição da Mostra. Mais corajoso ainda é quem se aventura nessas jornadas fílmicas, desse que muita gente considera uma dos grandes cineastas contemporâneos.

Nesse primeiro contato com seu trabalho, justo o mais recente dele, fica muito evidente uma marca clara de um estilo próprio, baseado no óbvio interesse em desenvolver e acompanhar muito de perto os conflitos de seus personagens. Nessas Filipinas rodeadas de violência, um intelectual assassina uma mulher, mas segue livre depois que um homem mais humilde é acusado pelo crime e vai para a prisão.

Diaz consegue dimensionar muito bem a história desses dois homens e da família do preso, abusando muito dos planos longos e das intermináveis conversas que os diversos personagens mantêm. É como se o interesse pelo cotidiano ganhasse um espaço que de fato lhe proporciona a percepção dessa vida que passa. No caso desses personagens aqui, é uma existência árdua, que vai se intensificando cada vez mais em dor e autocompreensão, para o bem e para o mal de cada um.

Não é um filme fácil (são 4 horas de duração), mas não demora muito para passar porque o cineasta consegue manter uma fluidez muito interessante no ritmo da narrativa. Funciona também como um conto moral e sócio-político num país marcado de injustiças.


Child’s Pose (Pozitia Copilului, Romênia, 2013)
Dir: Calin Peter Netzer 


Depois dos créditos iniciais sobrepostos em tela preta, corte seco para Cornelia, filmada em câmera na mão, conversando com uma amiga sobre a ingratidão de seu filho que mal a vê e a trata mal. Child’s Pose é todo assim, direto, sem firulas, tenso, com uma protagonista fortíssima, metida numa situação desagradável. É a força do cinema romeno mais uma vez mostrando que eles fazem um dos cinemas mais interessantes da atualidade.

Barbu (Bogdan Dumitrache) atropelou e matou acidentalmente um garoto pobre quando corria na estrada à noite. É aí que entra a mãe dele a seu socorro, fazendo de tudo para livrar seu filho das garras da justiça. Eles são de família rica e influente, não parece haver dificuldades nesse jogo de poder, o que já revela as mazelas político-sociais de um país que se livrou há poucas décadas de um regime opressor.

Mas Child’s Pose é menos um filme sobre os meandros do sistema jurídico e sim uma história ancorada numa conturbada relação mãe e filho. Apesar da amargura que existe ali, Cornelia, interpretada maravilhosamente por Luminita Gheorghiu, ama incondicionalmente esse filho ingrato. Isso porque Barbu é como um adulto mimado que ainda não aprendeu a se portar como adulto e nem a se livrar da saia da mãe. É a postura de criança do título.

O filme opera o tempo todo nesse clima de tensão entre os dois, misturado à destruição de uma família pobre que perdeu o filho pequeno. Child’s Pose é desde o início um filme duro, sem piedades. Mas quando menos se espera, ele consegue também complexificar seus personagens, até então muito marcados em suas personalidades cruas, numa dos momentos finais mais emocionantes de um filme dessa Mostra. O encontro de mãe e filho com a família do garoto morto é dilacerante e diz muito sobre esse amor materno, o mais forte deles.


Centro Histórico (Idem, Portugal, 2012)
Dir: Aki Kaurismäki, Manoel de Oliveira, Pedro Costa e Victor Erice 


É sempre muito difícil e até mesmo lugar comum apontar a irregularidade de filmes coletivos. Seria o caso desse aqui, mas somente poucas coisas podem realmente ser criticadas. Olhando para os nomes que compõe essa seleção de diretores, nota-se o motivo da segurança dessa afirmação. O longa faz parte de um projeto em que cineastas utilizam como ponto de observação a cidade histórica de Guimarães, berço do reino português.

Aki Kaurismäki é quem abre os trabalhos e parece o mais distante geograficamente porque filma uma história que se aproveita muito pouco daquele espaço histórico e prefere criar mais um conto melancólico desses que abundam em seu cinema. As agruras são do dono de um restaurante tentado conquistar mais clientes. O curta é visivelmente um filme de Kaurismaki, com suas cores e tons bressonianos habituais.

Pedro Costa também deixa evidente sua marca autoral e retoma um antigo personagem seu, Ventura, um velho cabo-verdiano que mora em Portugal. Visivelmente abalado psicologicamente, o filme promove um estranho diálogo entre essa figura soturna e a estátua de um soldado dentro de um elevador. É de um rigor impressionante o que curta traz em termos de encenação e fotografia, um filme hipnotizante.

Já o espanhol Victor Erice, no capo do documentário de memórias pessoais, cria uma das mais deliciosas reuniões de depoimentos íntimos. A partir de uma antiga fotografia de funcionários de uma fábrica têxtil, ele reúne algumas dessas pessoas que contam suas experiências de vida. Mas eles estão tão à vontade diante da câmera que as falas nunca são previsíveis, nem os direcionamentos do filme seguem padrões rígidos, muito menos piegas, embora o curta vai encontrar o tom certo de emoção, congelada no tempo.

E, por fim, a cereja do bolo. Manoel de Oliveira, sóbrio, preciso, sem perder tempo, vai direto ao ponto. Subverte a ideia do conquistador, antes senhor de suas terras, mas agora, na modernidade, passa a ser conquistado pelos turistas que visitam seus monumentos e estátuas para aprisioná-los em suas máquinas fotográficas. Com humor habitual e certa desfaçatez, Oliveira fecha o projeto com um primor que só esse jovem senhor é capaz de estampar na tela.


Um Toque de Pecado (Tian Zhu Ding, China, 2013)
Dir: Jia Zhang-ke 


Jia Zhang-ke continua seu percurso de observação do povo e da vida cotidiana da China atual, com todas as suas transformações político-sociais, mas dessa vez sob o foco da violência. Conta quatro histórias de personagens em diferentes lugares da imensidão do país asiático, todos marcados pela tragédia e os sinais de dor e ira que as pessoas deixam pelo caminho.

Ao invés de embaralhar essas histórias, Zhang-ke prefere deter-se em cada uma delas para finalizar seus contos (embora haja um pequeno retorno no momento final). São histórias de gente que querem seguir seu rumo de vida, mas esbarram nas impertinências da própria vida. Na maioria são trabalhadores infelizes em seus postos. Do minerador que se rebela contra seus patrões, até a atendente de uma sauna de massagem que é assediada por clientes ricos, todos eles serão capazes de momentos de explosão e crueldade. São essas pessoas comuns que sucumbem à opção da violência que o próprio mundo condiciona.

Se essa é uma reflexão que permeia todo o filme, Zhang-ke é hábil também em filmar violência, com brutalidade explícita, quase pornográfica, mas nunca gratuita. É certo que nem todos os segmentos são tão bons em desenvolvimento de enredo, demorando muitas vezes a dizer ao que veio. Mas é um filme brutal sobre um estado de coisas que bagunça e destrói a vida de seus personagens, e também daqueles desafortunados que cruzam seu caminho.


Pais e Filhos (Soshite Chichi ni Naru, Japão, 2013)
Dir: Hirokazu Kore-eda 


Para falar de relações familiares, Kore-eda é mestre. Seu novo filme é uma beleza na forma como lida com as questões entre pai e filho a partir da situação inusitada que toma de assalto duas famílias distintas no Japão: eles descobrem que seus filhos, agora com seis anos, foram trocados na maternidade. O contato das duas famílias faz surgir a dúvida se as crianças precisam ser destrocadas ou não.

Apesar do tom emocional que o filme carrega desde o início, não há lugar aqui para pieguices, isso porque as coisas acontecem no seu tempo, muito bem colocadas na história, sem alarde. Kore-eda assina um roteiro delicadíssimo ao tratar das suas questões, desenhando os personagens de forma sempre tridimensional, com foco em Ryota (Masaharu Fukuyama), esse pai de família mais abastada que reprova totalmente a atitude brincalhona do outro pai que cria seu filho de sangue, numa casa e ambiente muito mais humildes. O trabalho com os atores mirins é mais um trunfo que torna as situações tão críveis e profundas no abalo emocional que aquela situação provoca.

Há um evidente embate social aí também, mas acima de tudo esses dois pais verão o quanto podem ser falhos na criação de seus filhos, mas também o quanto podem aprender um com o outro. É a situação ideal para que o cineasta ponha em xeque a importância da família e, especialmente, dos laços sanguíneos enquanto continuidade da tradição familiar, algo muito conectado à ancestralidade da cultura oriental. O mais difícil é se readaptar nesse processo doloroso, mas bonito, de reaprender a ser pai.


Cães Errantes (Jiao You, Taiwan/França, 2013)
Dir: Tsai Ming-liang 


Um dos filmes que encantaram parte do público da Mostra é esse objeto estranho e hipnótico, extremamente simples no seu conteúdo, mas cheio de significados, dirigido por Tsai Ming-liang. Um pai e seus dois filhos pequenos vagam pelas ruas de Taipei, sem lar, sem família, sem aparo. Dormem em lugares abandonados e tentam conseguir comida de uma forma ou de outra. São como cães vira-latas sem dono, sem alento.

É incrível como um filme tão contemplativo, desse que parece testar a atenção e resistência do espectador, consegue resultados tão interessantes em termos de reflexão sobre a solidão. Pois o que mais temos aqui são os habituais planos longos e estáticos do diretor, que servem muito bem a essa história de gente jogada, deixada à própria sorte. Mas longe de caprichos estéticos e maneirismos de cena, essa opção narrativa acaba sendo uma tradução ideal para o estado de apatia em que vivem esses personagens.

Interessante como há muita fome no filme, e o comer, sempre muito raivoso (como na cena da cabeça de repolho), torna-se uma estranha forma de expurgar toda uma raiva contra o mundo. O abandono também pode ser uma chave interessante de interpretação já que na primeira cena vemos uma mulher que vai embora e deixa os meninos dormindo profundamente. Essa possível figura materna será retomada depois com a aproximação de uma estranha mulher ao grupo. 

Mas ainda assim, a marca do desamparo está toda ali distribuída no filme, dilacerante, crua. A recusa de Tsai em cortar o plano e, principalmente, de tirar a câmera do rosto de seus atores (como no sensacional plano final de Vive l’Amour, por exemplo) é uma maneira de rivalizar a plateia com essa dor, com esse desespero, essa angústia que não parece ter fim. Ninguém sai incólume disso.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Mostra SP – parte 5



Confissões de Assassinato (Nae-Ga Sal-In-Beom-I-Da, Coreia do Sul, 2012)
Dir: Jung Byung-gil 

  

Do Foco Coreia que a Mostra traz esse ano com uma leva de filmes de um dos países asiáticos mais prolífero em produção cinematográfica recente, é curioso notar uma série de filmes policiais e de ação que os conterrâneos de Park Chan-wook vem fazendo. O mais curioso é notar a qualidade técnica de filmes que carecem de um suporte industrial muito potente em termos de produção.

É o caso desse Confissões de Assassinato, história um tanto quanto absurda, contada com o habitual exagero que parece ser uma marca que une grande parte das produções coreanas. Somos confrontados com um serial killer (Park Shi-hoo), responsável pela morte de várias mulheres anos atrás, que vem a público lançar um livro com suas memórias, a partir do momento em que sua pena é revogada por causa do tempo em que o crime ficou sem solução.

Agora, ele confronta cara a cara o detetive Choi (Jeong Jae-yeong), responsável pela perseguição frustrada ao assassino anos atrás. O filme não para nunca em termos de adrenalina, e acrescenta uma série de elementos nessa história que envolve a mídia, a polícia e uma sociedade louca por espetáculo.

Há nisso um foco de drama muito forte pela perversidade dos crimes, mas o filme se esforça muito em injetar humor negro em muitos momentos. A história só perde quando resolve exagerar nas reviravoltas da parte final para criar grandes surpresas num filme já saturado de violência e tensão.


Ontem Nunca Termina (Ayer No Termina Nunca, Espanha, 2013) 
Dir: Isabel Coixet


O filme é futurista e apocalíptico, mas o que interessa a Isabel Coixet é a dor que emana do drama quando dois personagens se encontram. Na Espanha de 2017, a situação econômica é tão calamitosa que sobram poucas pessoas no país depois que a recessão deixou milhões desempregadas e quase todos abandonaram seu lar. É nesse clima de fuga e desolação que um antigo casal rememora dores passadas juntos.

A atmosfera que ronda esses personagens é uma clara relação com a crise atual que assola a Espanha, mas o filme é todo intimista. O casal está separado depois que uma tragédia abateu-se na família, e o filme é todo preenchido por esse reencontro, somente com esses dois personagens em cena, sustentados muito bem pelos ótimos Javier Cámara e Candela Peña.

Mas Coixet, que também assina o roteiro, nem sempre é tão boa com os diálogos, num filme extremamente verborrágico que se perde nas elucubrações e memórias dos protagonistas. O filme também não resiste a incluir cenas que se passam notadamente na cabeça dos personagens só para acrescentar ideias que lhes passam pelo pensamento. É um bom recurso, permite uma quebra na estrutura a que a narrativa se propõe, mas logo cansa.

É interessante como o filme, nessa conversa/embate que os dois personagens têm, consegue injetar informações aos poucos, à medida que vamos montando a história que eles tiveram juntos e o motivo doloroso da separação. Se mais curto, talvez rendesse uma história mais coesa e menos repetitiva.


2001: Uma Odisseia no Espaço (2001: A Space Odissey, EUA/Reino Unido, 1968) 
Dir: Stanley Kubrick


É como um sonho difícil de acreditar concretizado poder ver um filme dessa magnitude numa tela de cinema, ainda mais se o local é aquela sala incrível do Cinesesc. Por um bom tempo você pode ficar como o rapaz aí da foto, meio que entontecido pelo que vê e experencia na tela larga como se ela fosse te engolir a partir de todo o mistério que esse filme em especial carrega, te jogando nas profundezas do espaço sideral e do mistério da evolução humana. 

E a marca da incompreensão que persegue esse filme desde que foi lançado nos anos 1960, com imagens reais do espaço e do planeta Terra visto lá de cima, só reforça como a obra encanta pelas possibilidades interpretativas que ela carrega. Como experiência de ver o filme no cinema, 2001 cresce como se encontrasse o lugar ideal de exibição de onde nunca devia ter saído.

Não basta aqui dizer como Kubrick era hábil encenador, em como a atmosfera do filme revolucionou a ficção científica no cinema, e em como o filme faz um paralelo impressionante entre a vida primitiva e a evolução criativa a partir da descoberta da ferramenta manipulável e de como essa mesma evolução criou formas não-humanas capazes de pensar como humanos, criando e destruindo. Porque de uma forma ou de outra, isso já foi dito e repetido, mesmo que essas marcas tornem-se cada vez mais potentes quando se revê a obra.

No fundo, e dessa vez vendo 2001 nessas condições, o filme me parece como o tratado mais objetivo e onipresente sobre a luta pela sobrevivência, do homem e da máquina, essa que foi criada pelo próprio homem. Nesse círculo vicioso, ronda o mistério absoluto e infindável da própria vida e de onde vem tudo isso que conhecemos e somos, fazendo renascer um novo ser, brilhante, insondável.


Las Horas Muertas (Idem, México/França/Espanha, 2013)
Dir: Aarón Fernández 


O título desse filme traduz muito bem um clima de apatia que toma conta do ambiente em que se passa a história. Sebastián (Kristyan Ferrer) é chamado por seu tio para que cuide do motel de beira de estrada que ele possui porque precisa viajar para cuidar da saúde. O jovem adolescente fica praticamente sozinho e precisa se virar para atender os casais, arrumar os quartos (ou procurar alguém que faça a limpeza e lavanderia) e cuidar da estrutura do local.

Nesse ritmo em que pouca coisa acontece, o filme vai paulatinamente revelando o foco central de sua história. No fundo, é um conto de amizades improváveis, em que esse garoto cada vez mais se aproxima de uma mulher (Adriana Paz), cliente habitual do lugar que passa horas no lugar à espera do amante. Às vezes ele vem, noutras não, é quando ela tem a chance de se aproximar de Sebastián.

Daí que o filme revela um estudo muito interessante de personagens, acompanhando os ritos de passagem que esse garoto vive, sexual e amorosamente, ao mesmo tempo em que é muito carinhoso com eles. Há toques de uma singeleza interessante que nunca coloca o filme no campo do piegas ou do simples filme de descobertas. É nessas horas mortas que a vida mais no surpreende e ensina.


Cortinas Fechadas (Pardé, Irã, 2013) 
Dir: Jafar Panahi e Kambuzia Partovi


Um homem chega numa casa e de lá não parece poder mais sair. Vive escondido de todos e tudo, ainda mais por ter em sua companhia um cachorro, animal que a lei islâmica no Irã não permite que viva em residências. De repente, no meio da noite, recebe a visita de um jovem casal que invade a casa por estar sendo perseguido, em especial uma jovem que não pode ser encontrada pelas forças oficiais do país.

Cortinas Fechadas começa como esse filme em que casa se confunde com cativeiro e esconderijo, lugar de repouso e de perigo. Mas é preciso ressaltar que esse é um filme para quem conhece a situação pessoal em que vive Jafar Panahi hoje, em prisão domiciliar, acusado de subversão contra o Estado iraniano por fazer filmes que criticam seu país. É preciso também ter uma certa relação com alguns filmes anteriores do cineastas, em especial O Espelho e O Círculo.

Do último, a ideia de um país que mantém um grupo em cativeiro (no caso, as mulheres; e a personagem feminina aqui é como uma síntese de todas aquelas que são perseguidas no trabalho anterior) reverbera no aprisionamento de outro grupo constantemente vigiado (o dos artistas, de forma geral). E do primeiro filme, Panahi reprisa o ruptura que os divide em dois, num dos momentos mais incríveis do filme, sem nenhum tipo de alarde que denuncie o real objetivo e foco dessa história.

É quando Cortinas Fechadas transforma-se num filme ensaio em primeira pessoa, assim como era a obra anterior de Panahi, Isto Não é um Filme, mas operando de uma forma muito mais subjetiva e silenciosa que só reforça a dor de um homem calado em sua arte (em contraposição ao filme anterior que era muito verborrágico também). 

Existe nele uma série de referências e pequenos detalhes que enriquecem muito a compreensão de uma obra por demais aberta e que essa primeira impressão nunca será capaz de dar conta. Mas é muito interessante pensar na primeira metade do filme como uma história possível que existe na cabeça do diretor, mas interrompida pela própria dificuldade do cineasta em continuar com sua arte. E também entender a figura do roteirista como um alter ego do próprio cineasta que luta para concluir suas ideias, recebendo a visita de suas próprias criações.

É um filme doloroso e tristíssimo por isso que representa, ao mesmo tempo que vislumbra uma coragem muito grande em enfrentar uma situação tão difícil. É um filme sobre a impossibilidade de fazer, já fazendo. Não do jeito que se quer, mas na forma daquilo que lhe assalta naquele momento. Vislumbramos um cineasta acuado por vários fantasmas que ele tenta espantar jogando na tela (e se jogando) como quem resiste da melhor forma que encontra.


A Gaiola Dourada (La Cage Doreé, Portugal/França, 2013) 
Dir: Ruben Alves


Se o cinema português surge hoje como um dos mais prolíferos e interessantes numa perspectiva mundial de novas e jovens cinematografias, tendo nas diferentes marcas autorais um multiplicidade de posturas de fazer cinema e ver o mundo, e interessante ver também que como o país produz e consome produtos mais populares, como esse A Gaiola Dourada.

Como comédia a mais tradicional, o figura se ancora na própria tradição desse cinema mais industrial francês, já que essa é uma coprodução entre os dois países. Passa-se quase totalmente em terras francesas onde uma família de pais portugueses se estabeleceu, fundou um núcleo familiar, mas carrega consigo as marcas da sua cultura de origem. A coisa se complica quando eles recebem uma herança milionária de um parente português que os obrigaria a voltar a morar em Portugal para receber a bolada. 

É o mote certo para render situações as mais divertidas com uma série de tipos esquisitos que o filme propõe acompanhar. O problema é quando esse tom cômico surge da forma mais banal possível, intensificando estereótipos, especialmente pátrios, e tentando fazer rir com o trivial e certa ridicularização dos personagens. Não é um filme que ofende muito, mas aposta numa comédia mais boba. Dado o enorme sucesso de bilheteria que fez na França e em Portugal, não é difícil perceber um produto popularesco.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Mostra SP – parte 4



O Grande Mestre (Yi Dai Zong Shi, Hong Kong, 2013)
Dir: Wong Kar Wai


Talvez essa seja uma das primeiras grandes decepções com um filme de Kar Wai. Engraçado que seu filme menos empolgante até então era Cinzas do Tempo, justamente aquele em que o diretor se arvorava no gênero de artes marciais, muito embora seu filme anterior tinha muito mais da habitua história de amor, marca que tornava Kar Wai um dos cineastas mais românticos (e melhores) do mundo.

Dessa vez, o diretor faz o percurso inverso: abraça o Kung Fu como interesse temático, a partir da história real de Ip Man (Tony Leung), um dos grandes mestres da arte marcial, deixando as pitadas de romance para segundo plano. Interessa aqui os conflitos entre os lutadores de Kung Fu, especialmente quando Gong Er (Zhang Ziyi) chega para vingar a derrota que Man infligiu a seu pai, o grande lutador Gong Yutian (Qingxiang Wang).

Kar Wai se esforça bastante para que as cenas de luta soem como um balé de corpos em movimento mortal, algo muito pertinente para um cineasta que sempre usou o corpo de seus atores a serviço de um tipo de atração (embate?), porém aqui surge ensaiado demais. Tudo precisa ser muito bonito, perfumado, antes de mais nada. É aí que o cineasta exagera na estilização das cenas, especialmente ao abusar da câmera lenta.

Se o confronto de Ip Man e Gong Er surge como ponto alto do filme, muito mais coisas se desenrolam no enredo, atravessando um longo período de tempo, desdobrando conflitos, tudo para que mais lutas possam ser coreografadas. Raramente também nos filmes do diretor os diálogos dos atores não soavam tão primários e explicativos. Uma grande decepção vinda de um grande mestre do cinema.


Miss Violence (Idem, Grécia, 2013)
Dir: Alexandros Avranas 


Mais um conto moral vindo da Grécia, esse país em crise financeira que parece espalhar para os outros campos (político, social, familiar, artístico) seu descontentamento com a realidade atual. A família, como instituição sagrada, surge nos filmes como em estado de falência, e esse é mais um trabalho que vem corroborar esse estado de coisas em decadência. 

Se um dos maiores problemas desse filme (como de tantos outros) é que ele vem para chocar, existe pelo menos a parcimônia em deixar seus momentos mais “impressionáveis” para o final. Por isso é importante não saber muito do enredo e se deixar curioso pela estranha família que passamos a acompanhar.

Logo de início uma das filhas suicida-se no dia do seu aniversário. O choque da família aos poucos vai dando lugar a comportamentos e diálogos que revelam algo de estranho ali, algo fora da normalidade, especialmente na atitude controladora do avô (Themis Panou), a figura paterna e chefe daquele ambiente, já que nunca encontramos o pai dos filhos de Eleni (Eleni Roussinou).

O mérito do filme está na apropriada condução em que o diretor Avranas dá a relações frias e misteriosas entre aqueles personagens, ao mesmo tempo em que instiga o espectador a desvendar os reais segredos escondidos ali. O problema é quando toda essa carga de enigma torna-se um capricho demorado para revelar um choque que vem em forma de cena duríssima, mas feita para causar impressão. Há bons momentos aqui, como a cena inicial que deixou a sala lotada em total silêncio, mas Miss Violence tem muito mais de rasteiro do que se possa imaginar.


Meteora (Idem, Grécia/Alemanha, 2012)
Dir: Spiros Stathoulopoulos 


Se o cinema grego contemporâneo parece ter uma coesão narrativa e temática que aproxima uma série de filmes que nos chegam por via de mostras e festivais (isso dos poucos filmes que aportam por aqui), Meteora surge como uma peça destoante, em tom e estética. É um filme muito bonito, dotado de certas liberdades poéticas, muito singelo e simples, embora demore um pouco para dizer a que veio.

É uma história de amor como tantas outras, a de um casal impossibilitado de concretizar sua união, especialmente se são um monge e uma freira que vivem em monastérios no topo de montanhas vizinhas. É nessa paisagem bucólica que o diretor grego explora o tema do amor que esbarra nos preceitos da religião, sem necessariamente precisar criticar o amor (e não temor!) a Deus que aqueles personagens fazem questão de revelar. 

O longa tem algo de coisa antiga, não só pelo tema clássico do amor proibido, mas pela ortodoxia daquele ambiente que parece jogar o filme num outro ambiente, outro universo de suspensão. As incursões em forma de animação também dão outro ar ao filme, elevando-o ao campo do fantástico, embora algumas passagens sejam bem descartáveis. É um filme corajoso por confrontar esses dois personagens com um desejo carnal e emocional, sem que isso soe como uma afronta à religião. Pelo contrário, a difícil comunhão daqueles dois parece algo mais de divino do que qualquer outra coisa.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Mostra SP – parte 3




Manakamana (Idem, Nepal/EUA, 2013)
Dir: Pacho Velez e Stephanie Spray



Documentário curiosíssimo, que exige certa cumplicidade do público, Manakamana é dessas obras escondidas em meio a uma programação gigante de um evento assim, mas acaba se revelando uma pequena pérola. Não é um filme fácil, mas cresce muito, principalmente depois da sessão, muito por conta dos tipos humanos a que somos confrontados.

Manakamana apresenta um dispositivo narrativo muito rígido: uma câmera parada filma frontalmente as pessoas que entram na cabine de um teleférico e nunca as abandona até completar o trajeto de uma ponta a outra de uma região montanhosa. Será assim o filme inteiro. Estamos no interior do Nepal num contexto marcadamente religioso (ou turístico), pois aquelas pessoas fazem esse trajeto para visitar o templo de Manakamana para saudar a deusa Bhagwati, ou assim parece.

O filme não nos dá muitas informações sobre isso, tudo que saberemos virá pinçado das falas e conversas das pessoas que passam por ali. Ao poucos é possível entendendo esse contexto. E, no fundo, o que importa mesmo ao filme é revelar as facetas múltiplas das pessoas que realizam essa viagem. Desde aqueles que parecem os moradores típicos do país, com suas vestes características, até turistas estrangeiros e outros passageiros atípicos (como um grupo de fãs de heavy metal até um bando de bodes).

É como se o filme questionasse o que esconde esses rostos e interpelasse o espectador a buscar respostas, a preencher lacunas. A dupla de diretores consegue também dimensionar esses tipos quebrando certas imagens canônicas ou quase sagradas (como o aparecimento de duas senhoras chupando picolé e sujando-se toda, ou mesmo os garotos roqueiros). Na sua rigidez narrativa, Manakamana se abre para muitas possibilidades. Basta olhar de frente.


Peixe & Gato (Mahi va Gorbeh, Irã, 2013) 
Dir: Shahram Mokri


É muito atípico que do Irã, país de um cinema marcadamente de cunho social, muito próximo de uma estética neorrealista, nos chegue um filme como esse, um conto de horror que flerta com os filmes slasher. Seria quase um filme de terror B, caso não preferisse um registro mais anticlimático do que explícito. Detalhe: são 2h10 filmado em um único plano-sequência.

Peixe & Gato é curioso somente por esses detalhes que dão uma nova perspectiva ao cinema iraniano. Como execução, parece cumprir o que se propõe, apesar do fetiche pelo plano-sequência cansar um pouco pelo simples capricho de fazer um filme assim. Há uma série de personagens que a história contempla e questões muito complexas que se apresentam entre eles, e nem sempre o filme consegue dar conta de resolvê-los todos, mostrando sinais de cansaço na sua terça parte final.

Até lá o filme cria uma atmosfera muito forte de tensão, com momentos bem bons nesse sentido, reunindo um grupo de jovens no meio do mato que devem participar de um concurso de pipas. Mas os donos de um restaurante local parecem se servir de carne humana para fazer a comida que servem, informação essa que nos chega em forma de letreiro na abertura do filme.

Daí que a figura dos cozinheiros que rondam o lugar, fazendo contato, dificultando a vida dos jovens e intimidando-os, nunca de forma agressiva, é suficiente para criar um clima de suspense para deixar o espectador aflito (os gêmeos, cada um sem um braço, também arrepiam quando aparecem em cena). O efeito funciona, mas nesse malabarismo de câmera, algumas vezes o filme abandona o suspense e se dedica aos dramas dos personagens (embora com diálogos muito bem construídos), o que acaba distanciando do real propósito do filme.


Nascido para Matar (Full Metal Jacket, EUA, 1987) 
Dir: Stanley Kubrick


Essa possibilidade de poder assistir a alguns filmes de Stanley Kubrick no cinema é o tipo de experiência conflitante: se por um lado é um diretor supraconhecido de filmes cultuados e de fácil acesso, por outro, rever seus trabalhos na tela grande é uma oportunidade que não se pode deixar em branco, pois ela pode nunca mais se repetir. Apesar das ótimas cópias digitais, mas que nos faz ter saudade da película, o tamanho da tela e do talento de Kubrick engole a gente fácil, fácil. 

É interessante também ver um filme desses em sessão lotada, com gente conectada ao filme. Durante a primeira parte, quando o Sargento Hartman (R. Lee Ermey) treina dura e impiedosamente um grupo de fuzileiros navais, à base da humilhação que os prepara friamente para serem máquinas de guerra, o público não parava de rir das imposições do sargento.

Nascido para Matar é desses que cresceram para mim nessa revisão, um filme do qual eu já gostava muito, especialmente da primeira metade, mas que me fez ver uma segunda parte tão endurecida e amadurecida cinematograficamente quanto. São dois momentos bastante distintos em ritmo e em motivação narrativa, mas que só funcionam em complemento com o outro. 

Enquanto no primeiro o tom é sempre o da brutalidade, sem descanso, os recrutas esmagados num treinamento impiedoso, até que o filme alcança aquela catarse libertadora-limítrofe, a segunda metade vai evoluindo de um clima de chacota e desimportância até alcançar paulatinamente o verdadeiro horror da guerra. Essa cadência da última hora de filme me marcou mais dessa vez, e o encontro dos soldados com a atiradora vietcongue é mais uma das imagens potentes que esse cineasta incrível foi capaz de nos oferecer.