sexta-feira, 18 de outubro de 2013

37ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo


Aporto em São Paulo, mais uma vez, para a Mostra Internacional de Cinema depois do encantamento que foi poder cobrir o evento ano passado. A cidade não para, e a Mostra exige uma correria danada da gente, para pegar os ingressos, montar programação, conversar rapidamente com os amigos que a gente só encontra aqui, conhecer pessoas novas e, claro, estar mais perto do cinema.
 
A Mostra é um exemplo pulsante de uma marca de cinefilia que ainda é compartilhada por muita gente. Essa coisa de assistir filmes na sala de cinema, arriscar trabalhos novos de cinematografias distantes, rever aqueles clássicos inesquecíveis na tela grande, como se os víssemos pela primeira vez, e correr atrás dos filmes mais badalados da produção mundial recente. Estamos aqui para abraçar essa loucura que é o amor pelo cinema.
 
A ideia é escrever rapidamente sobre os filmes aqui no blog e também no site Coisa deCinema. Alguns vão ficar pelo meio do caminho, mas não dá para se ter tudo. Ou nos jogamos na maratona louca ou a cidade te engole. Fico com a primeira opção.

Festival do Rio – Ranking geral



Acabo aqui a cobertura do meu primeiro Festival de Cinema do Rio. Para além do efeito novidade e dos problemas com o sistema de retirada de ingressos, valeu pelos bons filmes vistos aqui e pelos amigos virtuais que se materializam nos encontros entre sessões, além de outros que conheci. Foram 34 filmes em 9 dias. Abaixo, todos eles, em ordem de preferência:



Pegando Fogo (Claire Simon, França – 2006*) ****½
Vosso Ventre (Brillante Mendoza, Filipinas) ****
A Imagem que Falta (Rithy Panh, Camboja/França) ****
Um Estranho no Lago (Alain Guiraudie, França) ****
Nebraska (Alexander Payne, EUA) ****
Vic+Flo Viram um Urso (Denis Côté, Canadá) ****
A Grande Beleza (Paolo Sorrentino, Itália/França) ****
A Dança da Realidade (Alejandro Jodorowsky, Chile/França) ***½
O Imigrante (James Gray, EUA) ***½
Heli (Amat Escalante, México/ França/Alemanha/Holanda) ***½
Our Sunhi (Hong Sang-soo, Coreia do Sul) ***½


A Gatinha Esquisita (Ramon Zürcher, Alemanha) ***½
Fruitvale Station (Ryan Coogler, EUA) ***½
Joe (David Gordon Green, EUA) ***½
Um Episódio na Vida de um Catador de Ferro-Velho (Danis Tanovic, Bósnia-Herzegovina/França/Eslovênia/Itália) ***
Bastardos (Claire Denis, França) ***
Night Moves (Kelly Reichardt, EUA) ***
O Ato de Matar (Joshua Oppenheimer, Dinamarca/Noruega/Reino Unido, 2012) ***
Chevrolet Azul (Alexandre Moors, EUA) ***
The Canyons (Paul Schrader, EUA) ***
Alabama Monroe (Felix Van Groeningen, Bélgica/Holanda) ***
O Verão da Minha Vida (Nat Faxon e Jim Rash, EUA) ***


O Espírito de 45 (Ken Loach, Reino Unido) ***
Blind Detective (Johnnie To, Hong Kong/China) **½
Halley (Sebastian Hofmann, México) **½
Layla Fourie (Pia Marais, Alemanha/África do Sul/França/Holanda) **½
O Lado Sombrio (Marina de Van, França/Irlanda) **½
A Garota de Lugar Nenhum (Jean-Claude Brisseau, França) **
Gare du Nord (Claire Simon, França) **
Quando a Noite Cai em Bucareste ou Metabolismo (Corneliu Porumboiu, Romênia) **
O Futuro (Alicia Scherson, Itália/Chile/Alemanha/Espanha) **
Sapi (Brillante Mendoza, Filipinas) *½
O Mordomo da Casa Branca (Lee Daniels, EUA) *½Algumas Garotas (Santiago Palavecino, Argentina) *

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Festival do Rio – Parte 7



Joe (Idem, EUA, 2013)
Dir: David Gordon Green  


Interessante quando os filmes de um festival de cinema desse porte, com tantas possibilidades de programação, começam a se correlacionar uns com os outros, seja temática ou esteticamente. Pois Joe se liga a Nebraska, A Dança da Realidade, O Verão da Minha Vida e Chevrolet Azul pelas questões de paternidade que engendra, embora seja com esse último que o filme de Green mais dialoga ao construir uma estranha relação pai e filho entre seus protagonistas.

Por só conhecer o divertido Segurando as Pontas, dirigido por Green, a primeira surpresa nesse seu novo trabalho surge com o tom altamente dramático de uma narrativa de personagens endurecidos (por mais que ele já tenha feito outros dramas antes). É a história de um homem calejado, o Joe do título (Nicolas Cage), tentando ajudar um garoto (Tye Sheridan) a não se tornar um homem calejado.

O rapaz vive com o pai bêbado e explorador, tentando manter um trabalho com Joe podando árvores de um parque florestal, enquanto o próprio Joe mantém uma vida solitária e amarga, de poucos amigos, à margem. Assim como em Chevrolet Azul, são personagens que se unem pela dor de suas vidas, embora diferente do filme de Moors, não há aqui uma pendência para o mal. No fundo, esse mal já existe em Joe, dado o ambiente opressivo em que ele circula. Sem exagerar no tom, o filme tem algo de melancólico também, mas nunca piegas, porque tudo é muito brutal, um filme másculo.

Além do tom denso e raçudo que Green constrói, outra boa surpresa vem da atuação de um Nicolas Cage longe de excessos, pela qual seu personagem poderia muito bem se enveredar, revelando o ótimo ator que ele sabe ser quando escolhe bons projetos (e é bem dirigido). A química que ele estabelece com o jovem Sheridan é um trunfo do qual o filme só se aproveita.


Um Estranho no Lago (L’Inconnu du Lac, França, 2013)
Dir: Alain Guiraudie 


Uma das grandes sensações dessa edição do Festival do Rio, Um Estranho no Lago é um filme curioso porque parece escapar de certas facilidades narrativas que poderiam torná-lo um filme comum. Mas é um forte estudo dos impérios do desejo, num trabalho muito bem ambientado, carregado de uma naturalidade gritante, vide o ambiente que resolve retratar. 

Somos levados a uma região no interior da França, ao redor de um lago, frequentada majoritariamente por homens gays que buscam ali encontros sexuais fortuitos com desconhecidos. Franck (Pierre Deladonchamps) é um sujeito romântico que se apaixona por Michel (Christophe Paou), sedutor e misterioso. Até aí nada demais, caso os extintos assassinos de Michel não viessem à tona, e Franck, passando a conhecê-los, se deixasse encantar por essa figura soturna mesmo assim.

Alain Guiraudie filma, assim, um curioso retrato de um perigoso desejo que vaga por entre os descaminhos do amor e da morte, sempre numa fronteira muito estreita entre os dois polos. Incrível como o filme flerta com as marcas do suspense, do filme de serial killer e do thriller policial, sem necessariamente se entregar por inteiro a esses tipos de narrativa, ao mesmo tempo em que se aproveita dos elementos que lhes são próprios. O filme tem uma segurança do que realmente quer filmar, da história que quer mostrar.

Nesse desenho de personagens é muito bem-vinda a inclusão de um terceiro elemento na trama, o reservado Henri (Patrick d'Assumçao). Ele já foi casado, já teve encontros com outros homens, mas frequenta o lugar sem querer caso com ninguém, meio que cansado da vida. Gosta dali e se sente bem na companhia de Franck, com quem estabelece uma bonita amizade. O filme se aproveita dessa relação para que cada um exponha suas fragilidades e angústias, rendendo momentos de uma bela cumplicidade.

Guiraudie cuida muito bem do desenho de seus personagens e é muito carinhoso com eles, apesar dos perigos que lhes espreitam. É também certeiro ao criar uma ambientação tão identitária naquele ambiente homo, sem querer chamar grande atenção para isso. Os personagens aparecem constantemente nus, há cenas de sexo, sem pudores nem panfletarismo, tudo filmado com uma naturalidade espantosa. É um diretor a não se perder de vista.


Sapi (Idem, Filipinas, 2013)
Dir: Brillante Mendoza 


Depois de ficar encantado com Vosso Ventre (dos filmes novos, é o topo da minha lista de melhores visto no Festival), não podia deixar de conferir outro filme do diretor filipino Brillante Mendoza. Sapi era ainda mais curioso porque se arvora no terreno do horror, ainda que a marca do social faça questão de estar presente em se tratando de uma obra desse diretor. 

Mas parece um simples capricho do cineasta enveredar por uma narrativa de gênero, sem muita consistência ou afinidade aparente porque Sapi é uma negação no que diz respeito à atmosfera de suspense e medo. Ou antes, é mal moldada no sentido de criar esse ambiente de perversidade por parte de forças maléficas. Além disso, como crítica social, acaba soando bobo e frágil.

O grande entrave do filme é que há muitos focos de atenção. Ao mesmo tempo em que gira ao redor de uma onda de casos de possessão demoníaca em Manila, o filme também está interessado em discutir os meandros do poder do jornalismo, através da “briga” de duas grandes emissoras de televisão no país que buscam explorar de forma sensacionalista os casos de possessão. Desfilam no filme uma série de personagens interessantes (sejam os cidadão que passam por esse mal sobrenatural, sejam uma gama de funcionários das duas empresas televisivas que começam a vivenciar uma série de situações amedrontadoras), mas que não conseguem espaço suficiente para desenvolver suas histórias e conflitos.

O pior é que o filme chega sempre ao limite dos momentos de terror, mas faz questão de abortar todos eles depois que cria certa atmosfera de suspense. É um filme que se baseia no sustinho, no pipocar de um momento de maior medo, mas não sabe muito bem o que fazer depois disso e o abandona. A cena final é a ponta da verve crítica e contestadora do cineasta, abraçando de vez um clima real de suspense (onde há suspensão), mas criando um comentário social muito pertinente sobre o estado de coisas nas Filipinas. Pena que pra chegar até lá o espectador precise passar por momentos de puro sacrifício.


O Ato de Matar (The Act of Killing, Dinamarca/Noruega/Reino Unido, 2012)
Dir: Joshua Oppenheimer 


O Ato de Matar é um filme amoral, no melhor dos sentidos. Isso é possível. Seu maior trunfo é arriscar uma abordagem pouco convencional para tema de extrema seriedade, ao mesmo tempo em que consegue tecer, mesmo que nas entrelinhas, comentários fortíssimos sobre a morte em si e sobre a natureza do mal. 

Como não estranhar de pronto um filme sobre um genocídio, contado sob a perspectiva de militares do exercito ditador da Indonésia que matou e mandou chacinar tanta gente em seu país, vangloriando-se dos seus atos genocidas? É sob esse risco que o filme transcorre, dando voz e espaço para alguns desses ex-mafiosos, agora tidos como heróis nacionais. Eles estão a todo instante diante da câmera, como que encenando um filme sobre aquele período negro relembrado sem muito remorso.

Como discurso, o filme facilmente se abstém de julgamento porque se assemelha a uma coleta de depoimentos, sem grandes interferências, deixando que os dois personagens falem, exponham seus pontos de vista, suas riquezas adquiridas em tantos anos de poder e, principalmente, mostrem como mataram, torturaram, estupraram, empalaram e cometeram tantas outras atrocidades, especialmente contra aqueles de inclinação comunista.

É um horror travestido de uma naturalidade que só parece possível no corpo e na fala daqueles senhores, figuras quase frágeis cujo semblante não parece esconder tanta vileza. Se diante da câmera eles se entregam com uma facilidade abismal, o filme também constrói alguns momentos de fantasia que parecem associar o surreal com seus depoimentos.

Mas se existe um porém no longa é que ele parece tão vislumbrado por aqueles personagens e pelos discursos que defendem, que acaba se alongando demais nas mesmas questões, nas mesmas “denúncias”, ainda sem nenhum tipo de tom denuncista. Uma narrativa mais enxuta seria muito mais potente porque basta pouco tempo para que o que vemos em cena transpareça horror. É o mal do mundo que se faz pelas mãos dos homens.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Festival do Rio – Parte 6



Fruitvale Station (Idem, EUA, 2013)
Dir: Ryan Coogler


Fruitvale Station já começa com imagens reais da fatídica noite de Ano Novo em que Oscar Grant, um negro da Bay Area de San Francisco, foi morto por policiais durante uma confusão numa estação de metrô. Esse recurso narrativo geralmente soa frágil porque há um esforço em mostrar que aquilo de fato foi real, como se o filme não confiasse nas suas próprias imagens. Mas aqui é possível relativizar essa escolha porque a cena funciona como antecipação do clímax da história, sem mostrar muita coisa, mas já antevendo tragédia.

Depois de criar esse gancho, o filme se ocupa em reconstruir as 24 horas anteriores à morte do protagonista, acrescentando nuances e personagens à trajetória torta de Oscar. Ex-presidiário, pai de uma filha pequena, vive com sua noiva e tem uma relação ótima com sua mãe depois de conflitos no passado. É ótimo como o roteiro desenha esse ambiente que cerca o protagonista, sem muita pressa, apesar de se concentrar em tão pouco tempo.

Mas há também um esforço em criar esse personagem tridimensional, ainda que incomode levemente uma clara tentativa de engrandecê-lo, sempre o mostrando como uma pessoa disposta a ajudar, pai presente e brincalhão, tentando arrumar emprego e se distanciando do mundo do tráfico de drogas e negócios escusos; enfim, tentando ser uma pessoa melhor numa sociedade tão hostil para a população negra e pobre.

Não deixa de ser um filme militante (e as cenas finais, mais uma vez trazendo os registros reais de pessoas protestando contra casos como os de Oscar, deixa isso bem claro enquanto discurso que o filme assume). Mas ainda assim, como narrativa, é bom o suficiente para nos envolver com aquela história e as implicações sociais que ela aborda. Destaca-se também os tensos momentos da confusão que envolve o acidente fatal com o protagonista, filmados com apuro e cuidado devido para que entendamos perfeitamente o que aconteceu. E sabemos que isso acontece mais comumente do que se tem notícia.


Nebraska (Idem, EUA, 2013)
Dir: Alexander Payne 


O que fazer quando seu pai, um senhor já senil, põe na cabeça que ganhou uma imensa soma de dinheiro num concurso qualquer e tem de ir a outro estado para resgatar sua grana? Esse é a desculpa que Payne e seu roteirista Bob Nelson (em seu primeiro longa escrito para o cinema) encontram para mais um road movie familiar. O filho resolve levar o pai de carro nessa viagem inútil, pois acredita que só assim o velho vai sossegar e deixar de fugir à noite a pé caminhando à deriva pela estrada.

O campo das comédias dramáticas com foco nas relações de família não ganha nada de novo aqui, especialmente vindo de um diretor tão clássico como Alexander Payne. Mas seu filme é tão bem cuidado narrativamente, tão bem escrito e atuado, que não é difícil assistir com um sorrisão no rosto, dado o apuro que a dupla tem com os personagens. Equilibra humor e drama na medida certa, num roteiro que faz questão de aparar todas as suas arestas até o final.

Ao mesmo tempo em que não se distancia tanto dos trabalhos anteriores do cineasta, Nebraska tem algo de mais maduro, com texto mais enxuto, uma direção mais precisa. Do pouco que se faz muito, Payne e Nelson exercitam ao máximo essa capacidade de síntese. Por menos que os personagens digam, há muito de significação nos seus atos,  expressões e olhares. Tudo é muito representativo sem necessariamente querer ser cheio de significações.

Se Bruce Dern surge como esse pai adoentado da cabeça numa performance sensacional (é incrível como seu personagem consegue inspirar fragilidade e determinação no mesmo nível), há de se fazer jus a todo o restante do elenco, desde uma impagável June Squibb, como a esposa desaforada (rendendo as melhores risadas do filme), até o taciturno filho vivido por Will Forte.

No fundo há muito de melancolia que esses personagens exalam, por mais que o lado cômico por vezes impere na trama. A fotografia preto-e-branco é representativa desse estado de espírito que o filme injeta na vida estanque dessa família que, se não resolve o conflito do pai, reforça os laços de união que ainda existem ali, sem grandes alardes emocionais. Nesse ponto a relação pai e filho ganha destaque pela forma sutil com que é tratada. Nebraska se faz belo por um conjunto harmônico de elementos, nada parece fora de lugar. É quando o cinema clássico mais convencional está tão afiado àquilo que se propõe que consegue construir uma trama tão fluida quanto emocional.


Chevrolet Azul (Blue Caprice, EUA, 2012)
Dir: Alexandre Moors 


Em 2002, um homem e um adolescente cometeram uma série de assassinatos nos Estados Unidos com armas de fogo a bordo de um Chevrolet Caprice azul. Parece a história ideal para se registrar, mais uma vez, um estado de violência brutal numa América carregada de ódio, especialmente com personagens condenados à rejeição social. 

Mas o diretor estreante no longa-metragem Alexandre Moors busca outro caminho para o seu filme: interessa a ele os motivos pelos quais esses dois personagens chegam a tal ponto de atrocidade, sem demonizá-los, na busca por uma compreensão da mente assassina. É um estudo dos mais interessantes porque se os atos pelos quais ficaram conhecidos são carregados de uma violência fria, a afinidade que se criou entre os dois tinha muito de uma estranha comunhão, aproximando-se de uma relação pai e filho.

Chega a ser curioso quando o filme abre com algumas imagens reais de noticiários que dão conta dos trágicos acontecimentos, mas depois volta no tempo para mostrar como se deu a união dos personagens, apostando num ritmo mais lento, com justo foco no emocional desses personagens. Lee Malvo (Tequan Richmond) era um garoto abandonado pela mãe que encontra refúgio ao lado de John Muhammad (Isaiah Washington), que acabara de perder a guarda dos filhos. Está lançada a comunhão ideal, que logo se transforma nessa estranha relação paternal voltada para a atrocidade.

Aos poucos o ódio de John vai tomando corpo e transmitida a Lee, a partir de personagens com os quais começávamos a nos afeiçoar. E esse mal então passa a interessar aos dois como forma de vingança contra uma sociedade vista como opressora. É essa gênese do horror humano que o filme constrói de forma latente, cadenciada e que nos interpela sem maniqueísmos ou simples julgamentos.


Algumas Garotas (Algunas Chicas, Argentina, 2013)
Dir: Santiago Palavecino 


Existem cineastas que sabem usar muito bem a câmera na mão. Exemplos como os dos irmãos Dardenne, Brillante Mendoza e Olivier Assayas fazem parte do time de grandes expoentes desse jeito inquieto de filmar, criando dimensões de insegurança e/ou tensão para seus filmes. Mais do que um capricho ou modinha contemporânea, a câmera na mão deveria ser uma forma de traduzir certo estado de coisas fora do lugar. O cineasta argentino Santiago Palavecino, certamente, não sabe usar uma câmera na mão. 

Algumas Garotas é um filme tipicamente embevecido por essa forma de expor uma trama que conta com personagens machucados em busca de apaziguamento. É o caso de Celina (Cecilia Rainero), mulher em crise no casamento que resolve dar um tempo na casa de campo de uma amiga de tempos atrás. Mas lá, no contato com outras garotas, percebe que não é a única em desarmonia com o mundo.

É, portanto, um filme que merece justamente essa atmosfera de inquietação que a câmera na mão é capaz de trazer. Mas Palavecino filma tão mal, chacoalha a câmera de forma tão sem trato, que dá vontade de abandonar a sessão na metade. Além disso, o filme insiste em partir para o campo da fantasia, beirando o horror, e ainda por certa liberdade sexual experenciada por alguns personagens, nessa estranha equação se torna confusa num filme claramente desarranjado. Um grande desserviço para o cinema argentino atual.


A Dança da Realidade (La Danza de la Realidad, Chile/França, 2013)
Dir: Alejandro Jodorowsky 


Sessão de meia-noite lotada para ver um filme de um esteta do cinema underground. A Dança da Realidade rendeu no Festival do Rio uma das sessões mais animadas, com clima cult, dessas que contam com aplausos da plateia quando o nome de Alejandro Jodorowsky surge nos créditos iniciais do filme em fundo vermelho. 

Mas o melhor mesmo é poder conferir como o diretor franco-chileno parece ainda senhor de seu ofício (não só das artimanhas do cinema, como ainda mestre dos artifícios da surrealidade), mesmo sendo esse seu último filme depois de 23 anos longe das telas. O cineasta retorna com uma história claramente de tons autobiográficos em que ele mesmo surge como figura transcendental (ou futurista) que aconselha os passos do garoto Jodo (Jeremias Herskovits) na sua infância no Chile natal (e ditatorial) do diretor.

Mas seria injusto, e mesmo ingênuo por sabermos se tratar de obra de cineasta tão avesso a convenções, se isolássemos o filme ao âmbito das biografias. Primeiro porque o enredo só cobre a fase infantil de seu protagonista, o garoto mimado pela mãe que aprende na marra a se portar como homem através da educação autoritária do pai. Mas a figura paterna cresce tanto como personagem que em certo momento o filme se detém especificamente nos caminhos que ele traça longe da família. É como se a narrativa se levasse por aquilo que é mais latente e interessante na história que acompanha.

É de um frescor imenso a forma como tanta coisa acontece no filme, como a narrativa não cessa nunca seu ritmo, dando conta de diversas situações que envolvem uma gama de personagens esdrúxulos, fazendo coisas esquisitas, passando por uma série de situações bizarras. O espectador que se entrega a esse jogo de sedução pela imagem onírica e fabular pode sair satisfeitíssimo de uma sessão que se nutre de uma carga de cumplicidade para com a estranheza na tela. 

É tudo muito inventivo e muito intenso também (desde as cores fortes realçadas por uma fotografia calorosa até a música operística), um reencontro do diretor com a estética surreal que rendeu pérolas de sua filmografia como El Topo, A Montanha Sagrada e Santa Sangre. Seu mais novo filme pode não ter a verve anárquica que marcava o espírito da contracultura desses trabalhos anteriores, mas ainda assim é de uma força que permanece pulsante.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Festival do Rio – Parte 5



Halley (Idem, México, 2012)
Dir: Sebastian Hofmann


Curiosamente, esse foi um dos filmes que mais parece ter incomodado certo público do festival que foi abandonando a sessão a cada cena mais nojenta. E o filme nem é assim tão forte. Não é também uma proposta fácil e nem é dos que oferecem muita coisa ao espectador. Está mais preocupado em criar certa atmosfera. Faz isso muito bem, mas não se preocupa em dizer mais do que já apresenta. É como um filme exibido, que te prende a atenção, mas deixa uma sensação de vazio ao final.

É uma proposta a ser aderir. Muita gente pode não se afeiçoar ao ritmo moroso da narrativa, mas acima de tudo existe uma coesão muito interessante aqui, via proposta surreal em que um homem passa a subexistir como um morto-vivo. Seu corpo deteriora-se na nossa frente, mas ele continua vivo. Arrasta-se, sempre cansado, despedaçando-se literalmente, mas vivo.

O filme se esforça bastante para traduzir o estado sensorial desse indivíduo em estado peculiar, desfocando a imagem, embaralhando os sons ambientes, com se tentasse colocar o espectador nesse lugar tão estranho. Mas há também muito de humor negro que se tira daí (uma longa sequência no necrotério é impagável), meio por não sabermos muito como lidar com aquela situação e com os desdobramentos que ele acaba tendo nessa condição de desfacelamento físico. É portanto um filme que inquieta e isso já é muito positivo em termos de impressão.

O problema maior talvez seja o fato de que, para além de construir esse clima mórbido-cômico, o filme não consegue ir além de criar cenas e mais cenas engraçadas e escatológicas. Entendemos já no início a condição e o próprio universo não-realista em que o personagem se encontra, mas não existe um comentário a mais sobre sua condição, sobre seu estado de solidão, o descaso de todos ao seu redor.


Gare du Nord (Idem, França, 2013)
Dir: Claire Simon 


Depois de ter conferido um documentário anterior da diretora Claire Simon, Custe o que Custar, fica clara aqui a experiência e o olhar aguçado da realizadora francesa para observar o real e as pessoas circulando no espaço. Pois tem muito disso aqui nesse Gare du Nord, embora a impressão geral é de um filme já visto antes.

É tudo muito bem cuidado em termos de direção e texto, com personagens plausíveis carregando seus conflitos pessoais. Mas para além da ideia de reunir anônimos num lugar de tanta gente, o filme é mais um retrato de corações solitários que se encontram e desencontram nesse grande espaço de circulação que é a maior estação de trem da França.

Há ali um universo de vidas que se cruzam a todo instante, da qual a diretora pinça algumas delas para compor seu quadro de dramas. Mathilde (Nicole Garcia) é uma mulher de meia idade solitária que conhece e se apaixona pelo jovem estudante (Reda Kateb). Eles vão conhecer também Sacha (François Damiens), à procura por sua filha desaparecida que fugiu de casa, e Joan (Monia Chokri), uma mulher dividida entre o trabalho e a família, indo constantemente de Paris a Londres.

Apesar da sensibilidade na abordagem, o filme é morno ao dar consistência ao todo porque não há muito o que retirar dali para além do reprocessar dos dramas pessoais que cada um enfrenta, cercado por uma atmosfera de melancolia. Soa até mesmo enfadonho muitas vezes, apesar das ótimas intenções.


Heli (Idem, México/França/Alemanha/Holanda, 2013)
Dir: Amat Escalante 


Amat Escalante continua sua jornada para de retratar um certo mundo cão no México, especialmente ligado à violência e ao narcotráfico que impera em muitas regiões do país. Como em seus trabalhos anteriores, Sangre e Los Bastardos, sua estética naturalista, quase impassível diante da desgraça que filma, está a serviço de histórias brutais, sem concessões. Mas a grande diferença em relação a esse seu novo filme, e que faz Heli estar bem à frente, é que aqui existe uma boa história para contar. 

Se nos trabalhos anteriores o diretor estava muito mais preocupado na forma e dizia muito pouco como conteúdo, geralmente trazendo personagens pelos quais era difícil ter consideração, em Heli ele consegue de cara nos afeiçoar por Estela (Andrea Vergara), essa garota colegial que se apaixona por Beto (Juan Eduardo Palacios), jovem inconsequente envolvido no contrabando de drogas. Ele vai acabar escondendo mercadorias clandestinas na casa da garota, o que traz problemas para sua família, em especial seu irmão Heli (Armando Espitia).

Mas não seria um autêntico Escalante se já não começasse com uma cena de assassinato brutal. O filme vai retomar essa sequência depois, encaixada na história, à medida que vamos entendendo aos poucos, e sem meios explicativos, o pequeno quebra-cabeças que envolve os conflitos dos personagens. 

É muito interessante quando um diretor consegue construir esse universo que lhe parece tão caro e o caracteriza, mas vai evoluindo sua linguagem e lapidando melhor sua narrativa. Heli apresenta essa melhora e parece que estamos no mesmo terreno arenoso já visto antes, inclusive através do mesmo tom de fotografia e ritmo de tempo. É também a história de como a vida bandida e os perigos do narcotráfico invadem a vida dos de bem, destruindo famílias e passando por cima da dignidade.
 

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Festival do Rio – Parte 4



The Canyons (Idem, EUA, 2013)
Dir: Paul Schrader


Ao abrir seu filme com imagens de antigos cinemas de rua fechados e abandonados, Schrader cria uma interessante relação simbólica com seus personagens. The Canyons é como um estudo de degradação de pessoas ligadas a outras, via sexo e dinheiro, essas relações de poder tão atraentes e perigosas, especialmente no universo de uma Hollywood que vive de aparências. 

É um filme meio torto na forma como equilibra os conflitos dos personagens e cria uma série de reviravoltas e um jogo de segredos a serem revelados, na tentativa de tornar a história mais empolgante, nessa sua roupagem de thriller erótico. Mas esconde em sua natureza de produto alternativo, de baixo orçamento, um frescor muito latente em fazer cinema, num filme provocador e sem pudores.

Há o estranho triângulo amoroso (embora nem de todo baseado em afetos) o que vive Tara (Lindsay Lohan), seu rico namorado e empresário do ramo cinematográfico Christian (James Deen), e o ator com quem ela mantém um caso, um amor do passado que tenta conseguir um papel importante na próxima produção bancada por Christian. Esses e mais outras peças farão parte desse jogo de sedução e traição.

Marca presença ainda toda uma carga sexual que envolve os fetiches de Christian ao obrigar Tara a transar com homens e/ou mulheres na sua frente, o que revela uma ponta de sua personalidade dominadora e egocêntrica; traços de psicopatia não demoram a aparecer.

Embora James Deen (na vida real, um ator pornô) se esforce para criar um sujeito odiável, não deixa de ser uma atuação cheia de tiques de expressão, meio amador. Mas é incrível como Schrader consegue extrair um desempenho ótimo de Lindsay Lohan, sua personagem exalando fragilidade e submissão, dessa vez convencendo muito como atriz. Num filme sobre degradações, isso é muito curioso.


A Grande Beleza (La Grande Bellezza, Itália/França, 2013)
Dir: Paolo Sorrentino 


Apesar de ser uma maravilha assistir a essa profusão de vida e amargura que é A Grande Beleza, não deixa de ser um tanto complicado que um filme tão rico em questões tenha de ser apreciado na correria de uma maratona de filmes como essa. Mas ainda assim a obra permanece como uma peça única de frescor, ainda que sua intenção não seja das mais originais: primeiro, o de apontar o dedo para a cara de uma burguesia hipócrita, mas também olhar de esguelha para uma série de instituições sociais, embora nem tudo sejam críticas vazias.

Não é pouca coisa, mas Sorrentino consegue tocar em vários pontos sem necessariamente ser taxativo sobre eles; existe um tom que sempre passeia do sarcasmo ácido à dureza de certas constatações. Dá até para perdoar o cineasta pelo seu filme anterior, o terrível Aqui é Meu Lugar. É também um longa diferentes de obras como O Divo e As Consequências do Amor, em que o trabalho de encenação do diretor tinha algo de calculado, de muito marcado (com resultados infinitamente melhores no segundo caso).

Mas aqui o tom é outro. Já de início, cenas que evocam uma contemplação da Natureza e da majestosa arquitetura romana são interrompidas pelas sequências de uma superfesta, estranha e com gente esquisitíssima, que o jornalista bon-vivant Jep Gambardella (Toni Servillo) dá em sua mansão. Está marcado aí o jogo de futilidades que nega a beleza da existência, algo do qual o filme vai se ocupar em observar (e criticar). Impossível não lembrar Fellini e seu A Doce Vida, ambos compartilhando as mesmas preocupações temáticas, embora o filme de Sorrentino seja bem mais efusivo.

A classe artística, a Igreja Católica, os políticos e homens de poder, todos são postos na mira do filme, e de Jep também, ele cheio de si, elegante e egocêntrico, mas que parece olhar para esse mundo num misto de desprezo e compreensão, enxergando a si mesmo com melancolia, embora sem abrir mão da pose altiva. Embora consciente de que faça parte desse universo e com ele contribua para sua decadência, é sob a perspectiva do personagem que cruzamos com uma gama de outros tipos que expõem esse mundo de quase horrores.

O texto de Sorrentino (em parceria com Umberto Contarello) é dono de um bom humor refrescante. Talvez o filme fosse bem mais cansativo nas suas mais de duas horas, ocupado em criticar tanta coisa e tanta gente, se o texto não segurasse tão bem as situações. Mas o melhor é como ele nunca parece simplesmente condenar os personagens e aquilo que representam. Por mais decadentes que eles soem, há muito de humanidade ali, de natureza falível. Sem isso, sua crítica seria vazia. A beleza da vida parece ser essa coisa que está ali, em meio à decadência, mas poucos conseguem enxergar.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Festival do Rio – Parte 3




O Mordomo da Casa Branca
(The Butler, EUA, 2013)
Dir: Lee Daniels



Como um todo, O Mordomo da Casa Branca coloca em pauta uma questão importante: como fazer filmes engajados numa causa social qualquer que seja, dentro de uma roupagem clássica, sem precisar recorrer a panfletarismos baratos? Parece um grande desafio esse, tipo de risco que Lee Daniels não está disposto a correr. Prefere o mais básico levantar de bandeira, sem acrescentar em nada na discussão. Seu novo filme vazio e cheio de pretensões.

O longa usa como desculpa a história de Cecil Gaines (Forest Whitaker), o mordomo negro que serviu na Casa Branca por quase 30 anos, para falar do preconceito racial e das lutas encabeçadas pela população negra nos Estados Unidos, estreitando a questão com os meandros do poder político. Enquanto seu filho adolescente luta nas ruas pelos direitos dos negros, o pai serve a casta política que seria responsável por mudar as leis de uma sociedade que aprendeu a segregar com apoio do Estado.

Pouco há para contar da própria biografia de Cecil e de seu trabalho, com foco nos conflitos familiares que isso causa. Ganha destaque aqui as briguinhas com a esposa, interpretada por Oprah Winfrey, enquanto o ativismo do filho Earl (David Banner) jogue o filme no campo do discurso politizado de resistência, já que dentro da Casa Branca nada de interessante parece acontecer.

Mas além de ser panfletário na forma como trata a questão racial como tema nobre e merecedor de atenção, o roteiro inchado torna tudo muito atropelado, especialmente pelo longo período de tempo que o filme abarca. Na tentativa de dar conta de tanta História, o longa acaba sendo muito pontual e superficial em tudo que resolve tocar.

O espectador assiste como quem acompanha um checklist: opressão dos negros nas plantações de algodão, confere; segregação nas ruas com lugares diferentes para brancos e negros, confere; o bom Kennedy visto como mártir, confere; Nixon presidente ignóbil, confere; discurso de Malcolm X, confere; importância e assassinato de Martin Luther King, confere; ação dos Panteras Negras, confere; e claro, Obama surgindo como um salvador para o povo negro já quando Cecil chega no fim da vida depois de ter presenciado tanta opressão e preconceito.

O impressionante é como o diretor não consegue aprofundar nada de seu discurso ideológico em nenhum desses momentos, para além de “denunciar” e mostrar a luta do contra a opressão. Se em Preciosa – Uma História de Esperança havia um fator altamente piegas dentro de uma história muito particular, aqui o foco é ampliado para colocar toda a sociedade americana e seus dirigentes em xeque. Mas nunca não consegue ultrapassar a barreira do mais raso filme engajado.


O Verão da Minha Vida (The Way Way Back, EUA, 2013)
Dir: Nat Faxon e Jim Rash 


Só depois de terminada a sessão, me dei conta de que o filme é dirigidos pela dupla de roteiristas do ótimo Os Descendentes, de Alexander Payne. O texto afiado e ligeiro, o tom agridoce e os conflitos familiares surgindo em sessões de lavagem de roupa suja marcam presença aqui, embora Nat Faxon e Jim Rash não sejam diretores tão bons quanto Payne.

É marcadamente um filme de atores e texto, sem exageros, que perpassa pelas questões, dúvidas e conflitos próprios da adolescência. Não foge do perfil das comédias dramáticas que divertem, contam com personagens hilários, mas que lá para o final faz desabar os conflitos emocionais de cada um.

Nesse caso, temos o jovem Duncan (Liam James) em férias na cidade natal do novo namorado de sua mãe. É como se ele fosse forçado a conhecer uma nova família, recheada de seres esquisitos (como a irmã do padrasto, interpretada por uma neurótica Allison Janney). Além de odiar o cara por quem sua mãe se apaixonou, e de estar sempre em conflito com ela por preferir ficar com o pai, a timidez do garoto não deixa que ele se aproxime da bela, mas esnobe Susanna (AnnaSophia Robb).

Os caminhos da amizade também surgem na pessoa do gerente de um parque aquático (vivido por um superdivertido Sam Rockwell) onde Duncan começa a trabalhar para matar o tempo, descobrindo uma gama de novos personagens que crescem em simpatia, revelando a importância do companheirismo. Simples na proposta, sem querer ser mais do que uma boa sessão de cinema, O Verão da Minha Vida diverte e comove na medida ideal.


A Garota de Lugar Nenhuma (La Fille de Nulle Part, França, 2012)
Dir: Jean-Claude Brisseau 


Brisseau está literalmente em casa. Seu novo filme tem um ar de coisa caseira, propositalmente amador, inclusive em termos cinematográficos, o que fica ainda mais evidente e característico quando descobrimos que o apartamento em que se passa a história pertence ao próprio cineasta, ele mesmo sendo o protagonista aqui.

É um claro filme sobre si, sobre seu cinema e sobre as questões que inquietam esse diretor. Na história, ele vive um professor de matemática aposentado e acolhe em sua casa a misteriosa Dora (Virginie Legeay), que encontrou machucada na escada de seu edifício. A relação entre eles, que poderia ser de cunho sexual, vide a filmografia do cineasta, surpreende por se manter no campo de uma amizade quase paternal, embora ela esteja longe da fragilidade da garotinha que precisa de cuidados.

Na verdade, tudo é muito soturno, e a ideia é embarcar num universo de reflexões pessoais que os personagens acabam por destrinchar em conversas longuíssimas, sobre questões as mais diversas. Mas há ainda um toque de surrealidade quando Dora passa a revelar seus dons mediúnicos, e determinados eventos paranormais marquem presença no apartamento, com direito a aparições fantasmagóricas e objetos que mudam de lugar.

Mas por mais que sejam curiosas as proposições lançadas aqui e toda essa atmosfera surreal, Brisseau está bem longe de trabalhos anteriores, da provocação erótica com elegância e do apuro estético do todo. Aqui, seu tom verborrágico-filosófico acaba se tornando enfadonho na medida em que o filme soa como um compêndio das inquietações e posições dos personagens sobre a sua existência e sei mais o quê. Brisseau já foi muito mais provocador.


A Gatinha Esquisita (Das Merkwürdige Kätzchen, Alemanha, 2013)
Dir: Ramon Zürcher 


Uma das grandes surpresas do Festival do Rio, esse curioso filme alemão revela-se um ótimo exercício de observação de vidas cotidianas com um olhar muito aguçado para detalhes, esses que na nossa rotina consideramos irrelevantes. O filme é um desses projetos riquíssimos em detalhes de encenação e construção de atmosfera que encanta pela coesão e coragem de uma proposta singular.

Eis uma família que faz tarefas normais na rotina diária: cozinham, arrumam a casa, cuidam dos animais, descansam, brincam e brigam uns com os outros; movimentam-se, embora não sabemos exatamente para quê. E essa é uma das grandes sacadas do filme: presenciamos ações e conversas que parecem captadas pela metade, no intercurso do dia a dia, enquanto o diretor consegue extrair interesse por essas fagulhas de momentos.

Extrai também grande parcela de humor com coisas as mais banais, como a “experiência” da garota que joga no chão as cascas de uma tangerina e percebe que todas elas caem com o lado branco virado pra cima; e mesmo fatos aparentemente fora de lugar, como a garrafa que gira sozinha dentro da panela no fogão.

É aí que o filme se assemelha a um estudo das possibilidades de esquisitices do cotidiano, pois para aquelas pessoas tudo não parece escapar do rotineiro. Soaria tudo por demais estranho se não pensássemos o quanto nossas próprias ações do dia a dia possam ser também consideradas intrigantes aos olhos alheios. 

Pessoas, animais e objetos de cena parecem possuir o mesmo grau de importância cênica nesse filme que é puro jogo de cena. Se da metade em diante a proposta começa a se tornar repetitiva, sem muito mais o que acrescentar, ao mesmo o filme mantém uma coesão muito interessante e corajosa na forma de olhar o cotidiano.