sábado, 12 de novembro de 2011

Mostra Cinema Conquista – Diário #4


Acabou-se (CE/BR, 2011)
Dir: Patrícia Baía


Marcado por um tom lúdico, Acabou-se fala da ideia de finitude (já marcada desde o título da obra) a partir da imaginação fértil de uma garotinha no interior do Ceará em meio a uma paisagem árida. O filme brinca com poder da imaginação no sentido de recriar e também de reviver (ou trazer à vida) figuras ou momentos que já não pertencem mais ao presente.

Patrícia Baía tem um cuidado extremo ao filmar tudo com propriedade, dotando seu curta de uma beleza plástica que revela não só sensibilidade como compreensão estética do que está fazendo, além da beleza de fotografia. Somente às vezes soa um pouco forçado, mas nada que tire a singeleza de seu trabalho. Por mais que as situações não sejam exatamente claras, fica a impressão de um filme sobre um rito de passagem de uma garotinha (mais um nessa Mostra depois de Uma Primavera), só que dessa vez um pouco mais duro.


De Lá Pra Cá (RS/BR, 2011)
Dir: Frederico Pinto


Primeiro De Lá Pra Cá nos apresenta a um homem e uma mulher em suas rotinas diárias de trabalho e dentro de casa, embora eles nunca se encontrem juntos nesse mesmo espaço. Mas aos poucos vamos sendo informados, através de detalhes, nunca dito de fato, que eles são casados, mas pouco se veem porque ele é segurança e ela, doméstica, um trabalha toda a noite, ela todo o dia. Quando se encontram? Somente num curto período em que se esbarram na estação de trem.

É muito singela a atmosfera que o filme cria sobre esses personagens, conferindo-lhes dignidade e um enorme carinho; a própria ideia de um casal que só se une por poucos instantes já é por si só bela na sua melancolia. No entanto, o filme não consegue ultrapassar esse argumento, apostando na sinceridade dos sentimentos que aquele casal ainda possui, apesar da dificuldade que é mantê-lo.


Na Quadrada das Águas Perdidas (PE/BR, 2010)
Dir: Wagner Miranda e Marcos Carvalho



Na Quadrada das Águas Perdidas é o nome de um disco que o cantor e compositor conquistense Elomar Figueira de Melo gravou e lançou no final dos anos 70, um de seus primeiros trabalhos. Os diretores Wagner Miranda e Marcos Carvalho usam as músicas que compõem esse disco e outras canções para dar vida a um filme sobre a busca no universo do sertão nordestino.

E é muito importante a presença da música (composições assinadas por Matingueiros, Geraldo Azevedo e o próprio Elomar) num filme em que praticamente inexistem diálogos. Ora, o personagem que vai sair em viagem num dia qualquer num tempo perdido interage basicamente com a paisagem ao redor. E por isso é muito gratificante ter um Matheus Nachtergaele compondo esse sujeito do qual nada sabemos a respeito de sua vida e sua história, mas do qual nos familiarizamos desde o princípio.

Dirigindo uma carrocinha caindo aos pedaços, levada por um jegue e de posse de duas cabritinhas e de alguns poucos mantimentos e pertences, esse homem sai de sua casa (onde parece viver sozinho) e ganha a estrada de chão. Seu destino parece incerto, não pra ele, que segue com determinação pelo caminho, se virando como pode.

Ao mesmo tempo, o filme revisita os elementos do imaginário folclórico desse ambiente já um tanto saturado pelo cinema. Há um esforço de mostrar diversas facetas, indo dos perigos aos prazeres daquele universo. No entanto, de uma forma geral, predomina um tom mais lúdico e apaziguador, além de umas doses de humor, num ambiente tão marcado pela dor e sofrimento.

Nesse sentido, a comida ganha um destaque muito pertinente no longa. É sabido da seca e pobreza que tanto assolam a vida de muitas famílias daquela região e que a falta de alimento (dificuldade de colher e de comprar) é uma constante. Por isso, o filme valoriza bastante os momentos em que o personagem procura e encontra alimento em meio à paisagem árida. Por isso, o melhor momento do filme se dá durante um sonho em que o protagonista se encontra diante de um banquete de farinha. Pura e seca. Mais nordestino, não há.

Interessante perceber também como a fotografia do filme tem um ar dos mais naturais, longe daquele tipo de iluminação forte e quase artificial comumente usada para compor a paisagem nordestina. Assim, a atmosfera do filme se mostra mais palpável e sincera, longe de idealizações.

Mas mesmo com todas essas qualidades, a narrativa nem sempre consegue manter o mesmo nível de interesse já que as situações de busca de comida, principalmente, acabam ficando repetitivas, mudando somente de objeto de desejo. Nosso herói parece ter um destino definido, embora só descobriremos qual é na conclusão do longa. E não existe nada de grandioso nele, o que importa mesmo é o processo de chegada até lá.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Mostra Cinema Conquista – Diário #3


Uma Primavera (SP/BR, 2011)
Dir: Gabriela Amaral Almeida


O que era para ser somente a comemoração de mais um aniversário, ganha ares de rito de passagem aqui. Acompanhamos mãe e filha num piquenique comemorativo dos 13 anos da garota. Apesar da proximidade de ambas, nota-se logo um certo desconforto da filha por toda aquela cerimônia. Quando a menina desaparece no parque, a mãe entra em desespero à sua procura. E fica evidente como a mulher ainda trata a menina como uma criança (ao perguntar a um estranho se viu ele a garota, ela mostra uma foto dela dizendo: “é de quando ela tinha 9 anos, mas continua igualzinha”).

O mistério do que teria realmente acontecido à garota cria uma tensão constante, amparado no desespero da mãe. Mas apesar do pânico que toma conta dela, o curta possui toda uma calma, se aproveitando da atmosfera tranquila e silenciosa do parque (o som ambiente é bastante aproveitado nesses momentos). Uma Primavera parece seguir o rumo do drama intenso, mas vai encontrar seu caminho no deflorar da juventude. Mas mais do que isso, aponta para a necessidade de aceitação do crescimento dos filhos, pois sua garotinha não continuará sendo a mesma, nem será sua para sempre.


Qual Queijo Você Quer? (SC/BR, 2011)
Dir: Cíntia Domit Bittar


Esse é mais um (belo) filme de pretexto. Quando o senhor Afonso pede a sua mulher Margarete para trazer queijo do mercado, a esposa tem um surto verborrágico em que despeja toda a angústia que parecia estar presa na garganta. Começa aí a exposição de uma rotina desgastada, uma vida doada à criação dos filhos, em que o tempo reservado a si mesmo é sempre deixado para depois. Qual Queijo Você Quer? usa esse estopim para falar de relações desgastadas na terceira idade, tema muitas vezes ignorado no cinema.

O filme se beneficia ainda de uma composição visual acertadíssima, a começar por uma direção de arte que capricha ao preencher a sala de estar da casa do casal, onde se passa todo o filme, com uma série de objetos que remetem, paradoxalmente, a um lar preenchido e cheio de histórias pra contar. A fotografia amarelada reforça bastante não só a noção de coisa envelhecida, passada do tempo, como cria atmosfera de calor que a discussão suscita (por isso é bem sacada a presença de um ventilador ligado a toda velocidade). Mas o curta ainda vai trazer uma surpresa quando um relógio parado se tornar uma bela metáfora da vida que ainda segue, para o bem ou para o mal.


Estamos Juntos (RJ/BR, 2011)
Dir: Toni Venturi



Estamos Juntos ensaia, no seu início, um certo triângulo amoroso dos mais inusitados, mas vai ser por outros caminhos dramáticos que põem em cheque a situação dos personagens da mesma forma que a do projeto do filme em si. Isso porque alguns arcos dramáticos parecem mais bem resolvidos que outros, da mesma forma que o filme muitas vezes parece não saber o que fazer com seus personagens, criando novas válvulas de escape ou repetindo as mesmas situações, o que enfraquece bastante a força total do filme.

Carmem (Leandra Leal, uma de nossas melhores atrizes) é uma médica residente que conhece o músico argentino Juan (Nazarena Casero), com quem começa um tórrido envolvimento, passando para trás seu amigo gay Murilo (Cauã Reymond) que ainda reserva esperanças de ficar com Juan.

O filme começa com esse envolvimento amoroso, na mesma medida em que se esforça para expor a solidão de Carmem. Ela vai começar também a sentir tonturas que apontam para problemas sérios de saúde. O filme encontra ainda lugar para injetar um comentário social pelo envolvimento de Carmem com uma comunidade de sem-tetos em que faz trabalho voluntário de medicina preventiva.

Assim, Estamos Juntos tenta dar conta de mais coisa do que consegue segurar e dar profundidade, em especial dos personagens secundários que Juan e Murilo se tornam; em determinado momento eles somem da narrativa já que essa passa a focar na saúde de Carmem. Quando parte para o campo social, perde muito na falta de contextualização daquela realidade, soando como uma tentativa frágil de parecer engajado. A sensação é de que seria preciso de mais de um filme para dar vazão a tantos arcos dramáticos, ou de que o roteiro de Hilton Lacerda (Amarelo Manga, Baixio das Bestas) carece de mais liga entre suas partes.

A solidão na cidade de São Paulo ganha corpo na pessoa de Carmem, e uma das ideias do filmes (mais uma, só que essa, bem boa) é a relação dela com um homem misterioso que aparece quando a personagem está sozinha. São os melhores momentos do longa pelas conversas entre os dois, pela entrega e pelo tom singelo e sensível que consegue alcançar, dotando o filme ainda de um interessante ar fantasioso.

E Leandra Leal ajuda muito a dar consistência a essa personagem que precisa transitar entre várias situações, deixando para trás o resto do elenco (e isso inclui Dira Paes!) tão mal cuidado pelo roteiro. Mas Toni Venturi filma muito bem, compondo planos com muita calma e beleza (fotografia é linda). Pena que a serviço de uma história que pede a todo momento por mais.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Mostra Cinema Conquista – Diário #2


Braxília
(DF/BR, 2010)
Dir: Danyella Proença


O discurso poético de Braxília se justifica justamente por retratar um pouco do trabalho do poeta brasileiro Nicolas Behr. Assim, o próprio biografado aparece no curta-metragem não só falando de sua escrita, possuidora de uma relação direta com a cidade de Brasília, mas também interagindo com o próprio ambiente urbano de quem parece ser bastante íntimo. A grafia da capital federal ganhou um “x” por um erro do poeta quando escrevia num dia qualquer, quando ele percebeu ali uma forma de enxergar uma outra cidade. Em suas palavras, “Braxília é minha Pasárgada”.

E por mais que exista toda essa liberdade estética, o curta toma o cuidado de nunca soar pedante demais, até porque a própria figura do poeta em cena é livre de qualquer autoridade literária. Além disso, o teor do trabalho de Behr mostra uma influência clara da poesia concreta, bastante pertinente a uma cidade traçada com tanto rigor arquitetônico. Uma bela homenagem à cidade, ao poeta, à arte.


Julie, Agosto, Setembro (GO/BR, 2010)
Dir: Jarleo Barbosa


Com uma singeleza extrema, Julie, Agosto, Setembro conta uma historinha que poderia ser das mais bobinhas, caso não tivesse um texto e um tratamento estético tão cuidadoso. O curta se apresenta quase como uma fábula de vivência, sem o teor fantasioso, em que uma estrangeira, a belga Julie, chega a Goiânia e precisa se familiarizar com a cidade. Nada sabemos de como ela veio parar no Brasil, mas o filme está mais interessado em captar a voz off dessa jovem em suas tentativas de adaptação, principalmente nas relações que desenvolve com alguns namorados.

Assim como em Braxília, existe uma relação muito forte de seus personagens (ficcionais ou não) com a cidade ao redor. Julie, Agosto, Setembro começa mostrando uma Goiânia desfocada, e vai ganhando contornos nítidos a partir da familiaridade que a própria protagonista vai conquistando no curto período de sua estadia. O texto, ligeiro e cheio de boas sacadas, sustenta grande parte do filme, que pouco tem de interação entre os atores em cena, além de uma montagem esperta e certeira. Dessa vez, a homenagem é ao nosso poder de adaptação.


Riscado (RJ/BR, 2010)
Dir: Gustavo Pizzi



Diferente de muitos trabalhos nacionais recentes que adoram experimentar com a forma (e a mescla entre documentário e ficção tem se tornado um tanto cansativo nesse sentido), Riscado, como produção independente, acerta muitíssimo bem ao injetar naturalismo num filme cuja maior força é a história que quer contar, focado numa personagem a quem nos identificamos de cara e por quem passamos a torcer, sem que o filme precise abusar de artifícios estéticos para isso.

Bianca (Karine Teles, esposa do diretor) é uma atriz de pequenos trabalhos. Faz desde animação de festas de aniversário vestida de Marilyn Monroe, Betty Page e Carmen Miranda, até entrega de panfletos nas ruas, fantasiada, além de atuar numa peça de teatro. Mas sua grande oportunidade aparece quando ela é convidada a protagonizar um filme, coprodução entre Brasil e França.

De uma simplicidade incrível, sem os cacoetes do cinema alternativo, Riscado acompanha a luta de uma atriz em se firmar no mundo como tal. Seu maior desafio é ser reconhecida pelos outros dessa forma, e com a dignidade de uma profissional. Mas além das oportunidades que surgem ou lhe escapam das mãos, um outro obstáculo de Bianca são as pessoas que não conseguem enxergar ali seu verdadeiro ganha pão (e uma cena com a locatária de seu apartamento é bastante sintomática nesse sentido).

Interessante notar que Bianca, ao ser escolhida como a protagonista, trará muito de sua vida para a história do filme a ser rodado. E não deve ser difícil perceber o quanto da experiência da própria Karine Teles deve constar em Riscado. E esse efeito só é reforçado pela atuação super espontânea da atriz Karine Teles, que cria uma empatia direta do público com aquela mulher e sua luta diária.

O diretor sabe brincar, sabiamente, com o formato dos quadros do filme. Por vezes ele apresenta cenas em 16 mm ou em super 8 (perceptível pelo aspecto quadrado da projeção), o que confere uma atmosfera bastante intimista para essas situações. Se inicialmente elas parecem fazer parte de um acervo de imagens que a própria protagonista faz de si mesma (em determinado momento ela chega a dar esse material ao diretor do filme em que vai atuar), elas ganham outra significação quando parecem revelar a intimidade da personagem em seus anseios e desejos mais particulares, como fica evidente quando Bianca se prepara para dar uma entrevista.

De qualquer forma, são passagens que só reforçam o olhar singelo sobre essa mulher tentando sobreviver com o seu trabalho, digno, com aquilo que sabe fazer. Riscado é um filme que faz dessa motivação sua maior arma, mesmo que a luta ainda pareça ser bem mais dura de vencer.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Mostra Cinema Conquista – Diário #1


Foi dada a largada para mais uma Mostra Cinema Conquista – Um Olhar para o Novo Cinema em meio ao frio e à chuva que não parece dar trégua. E nada mais justo do que começar celebrando o cinema feito na Bahia, o de outrora e o de hoje (a Mostra se encerra ainda com o polêmico O Homem que Não Dormia), num ano em que muitos projetos, finalmente, ganharam as telas. Vale agora discutir a força e dimensão desse cinema, assim como de uma produção nacional que precisa de público. Portanto, momento melhor não há. Então, que se abram os trabalhos.


A Morte das Velas do Recôncavo (Idem, BA/BR, 1976)
Dir: Guido Araújo


Homenageado da Mostra este ano, Guido Araújo esteve presente na noite de abertura e apresentou seu curta-metragem A Morte das Velas do Recôncavo, documentário um tanto didático sobre como a utilização das estradas rodoviárias acabaram por fazer desaparecer os saveiros que faziam o transporte de mercadorias para a cidade. Do traço paisagístico que marcava a Baía de Todos os Santos (onde as embarcações ficavam ancoradas) ao teor sócio-econômico de sua importância para a vida daqueles que dependiam desse trabalho para o sustento da família, o curta, visto hoje, ganha contornos de registro histórico de uma Bahia em transformação (inclusive pela preservação das imagens da época).

Mas parece percorrer um caminho inverso justamente por revelar a contrapartida do desenvolvimento econômico que o transporte terrestre passou a representar naquela época. Não que exista nele um tom de denúncia, mas mais de lamentação pelos que tiveram suas vidas mudadas (e/ou pioradas) por essa questão. Como revela um construtor de saveiros em tom de tristeza no final do curta, “nós vivemos agora emborcados”, assim como passou a ser o destino de seus saveiros.

O Jardim das Folhas Sagradas (BA/BR, 2010)
Dir: Póla Ribeiro



Um filme baiano por excelência, esse O Jardim das Folhas Sagradas. Traz consigo uma série de discussões de tolerância no campo social, mas tem nas tradições e preceitos do candomblé sua sustentação maior. Uma pena o filme seja inchado com um discurso pra lá de didático sobre as formas de preconceito que seu protagonista vive, fazendo da obra uma bandeira panfletária incansável. Mesmo quando o foco da história recaia sobre os ritos do candomblé, momento em que o filme se sai melhor, o peso de um texto mastigado ainda aparece, muito embora o filme venha embrulhado por um conjunto técnico muito bem cuidado.

Bonfim (Antonio Godi), negro, bissexual, pretende deixar o engessado emprego numa agência bancária para se dedicar à fundação e gestão de um terreiro de candomblé com preocupações ecológicas. Com essa curta apresentação, podem-se notar as preocupações de teor racial, sexual, religioso e ecológico que se misturam à trajetória do protagonista. E o filme não vai perder nenhum momento para colocar na boca de seus personagens frases de teor educativo que soam como ensinamentos do bem, munindo o filme com uma metralhadora do politicamente correto atirando para vários lados.

E não há problema nenhum se o cinema, como meio de comunicação, toma para si uma função conscientizadora, apontando o dedo para as mazelas que pairam sobre a sociedade. O entrave maior é quando o tom geral se mostra pedante e carregado de lições e frases de efeito (sem tanto efeito assim), como acontece aqui. E aí se esgota grande parte da força que o filme poderia ter ao tocar em assuntos ainda delicados. Da forma como se constrói, O Jardim das Folhas Sagradas passa como um discurso moralista, justamente o oposto daquilo que se espera dele.

Desse jeito fica muito fácil atacar os evangélicos fervorosos contrários ao candomblé, ou os brancos de visão preconceituosa sobre os negros, tipos de personagens caricatos, com discurso idem, que pouco aprofunda essas questões que ainda, infelizmente, são tão importantes de serem discutidas no Brasil.

E se a transição do Bonfim ainda cheio dúvidas, no início da projeção, para aquele Bonfim que toma para si a tarefa de erguer o terreiro Ilê Axé Opô Ewê se mostre um tanto brusca (aquele seu casamento com uma mulher evangélica, por exemplo, é dos mais inverossímeis), o filme parece encontrar seu caminho quando o protagonista se encontra ocupado com sua verdadeira vocação.

E mesmo que ainda exista um discurso pedante aqui (tentativa clara de vender a ideia da religião afro como algo positivo, do bem, em prol da natureza), o filme consegue apresentar alguns preceitos e ritos do candomblé de modo a serem facilmente compreendidos pelo público em geral, apesar de alguma ou outra coisa que só funciona para entendidos. Ajuda muito a caprichada fotografia do filme que confere beleza a esses momentos, aliada aos planos cuidadosos, mas nunca exibicionistas, que o diretor cria.

Como disse o próprio Póla, também presente na noite de abertura de ontem, o filme começou a ser preparado bem antes da primeira edição da Mostra. Talvez todo esse tempo seja o responsável pelo discurso didático que tanto atrapalha sua narrativa. Nota-se que existe ali uma vontade genuína de combater problemas sociais e de promover o candomblé, ambos objetivos bastante dignos. Pena que escolha o tom errado para isso.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Mostra Cinema Conquista – Ano 7


7 anos não é pouco. Vitória da Conquista, apesar da oferta reduzida de atividades culturais e da resistência de um público que ainda pouco prestigia esse tipo de evento, consegue acolher este ano mais uma edição da Mostra Cinema Conquista – Um Olhar para o Novo Cinema. Muitas são as pequenas mostras e festivais que começam, mas têm vida curta. Mostra Cinema Conquista, por sua vez, tem enfrentado as dificuldades e permanece de pé.

A partir de amanhã até o sábado, 12, Conquista volta sua atenção para sétima arte, com a exibição de filmes da nova safra da produção nacional, além das habituais conferências, palestras, lançamentos de livros, exposições e atividades culturais. O homenageado deste ano será o cineasta e professor Guido Araújo.

Toda a programação e as atividades da Mostra podem ser conferidas no site oficial do evento.

Este ano, minha cobertura crítica dos filmes e curtas apresentados na seleção principal da Mostra será publicada também no site Vitória da Conquista, onde mantenho uma coluna semanal de críticas. Atualizarei o blog à medida que os textos forem publicados no site. Então, que venham os filmes!!!

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O mal da mesmice

Contágio (Contagion, EUA/Emirados Árabes, 2011)
Dir: Steven Soderbergh



Uma doença epidêmica desconhecida e facilmente contagiosa se espalha pelo mundo gerando caos e mortes. Muitas mortes. Essa é a premissa escolhida por Steven Soderbergh para construir o que ele promete ser um de seus últimos filmes depois de anunciar uma aposentadoria precoce. Golpe de marketing ou não, Contágio não passa de mais um exemplar de filme de calamidade, sem muito o que dizer sobre, mas filmado de forma correta. Parece pouco por tudo que já vimos antes.

Talvez por isso, o filma aposte numa gama de rostos conhecidos do cinema para compor um extenso quadro de personagens que irão lidar com a doença em situações distintas (ela é a própria protagonista da história): a mulher que contraiu o vírus em Hong Kong (Gwyneth Paltrow), seu marido que se revela imune à doença (Matt Damon), um jornalista que desde os primeiros casos percebe o potencial de uma impactante reportagem sobre o assunto (Jude Law), uma médica sanitarista responsável por identificar os primeiros infectados (Kate Winslet), outra médica, na Suíça, contada para pesquisar sobre a doença (Marion Cotillard), além de alguns outros.

Essa opção por múltiplos pontos de vista têm lá suas vantagens, mas também desacertos. Se por um lado os personagens perdem em profundidade, pois têm pouco tempo em tela (alguns somem e parecem que nunca mais irão voltar – assim como não sabemos o que acontece com todos eles ao final), por outro o filme também cria uma atmosfera dinâmica e ágil, muito pertinente a um estado de perigo constante em que o fator tempo é preponderante, além da história não possuir um foco específico. Enquanto uns tentam sobreviver, outros procuram entender a doença para encontrar uma cura, e outros ainda tentam lucrar com o caos.

Para marcar esse tom, o filme já começa estabelecendo um clima de tensão calculado, auxiliado por uma trilha sonora pontual, insistente, muito embora seja difícil segurar essa atmosfera em todos os momentos. O primeiro plano do longa revela o rosto pálido e abatido de uma Gwyneth Paltrow com olheiras bem marcadas, sinal claro da doença sobre a qual nem sabemos do que se trata, mas que não deixa dúvidas de já ter infectado a mulher.

Mesmo desprovido de novidades narrativas ou temáticas, o filme só sobrevive pela condução segura do diretor, ganhando gás com um ritmo equilibrado entre a agilidade e o senso de risco. Em meio à calamidade crescente, Soderbergh encontra tempo para filmar pequenos objetos em cena (uma maçã, a maçaneta de uma porta) porque são típicos focos de infecção, embora poucos percebam isso, tipo de cuidado que revela um diretor atento a detalhes interessantes.

Mas se o filme parecia se importar mais com seus personagens e as consequências dessa epidemia generalizada, a partir da segunda metade acaba se entregando à burocracia de buscar explicações sobre como, onde e por que surgiu o vírus, fugindo um tanto do foco humanista que a história poderia tomar (e os minutos finais soam como um desperdício total ao voltar ao primeiro dia da infecção, o que não parece mudar muita coisa do que já sabíamos, sem nada de novo a acrescentar).

Quando se coloca no piloto automático (e isso acontece na maioria das vezes), Contágio revela toda sua fragilidade, apesar do tratamento classe A de produção. A impressão é de um filme que passeia pelos lugares-comuns desse “subgênero”, dando voltas em torno de um mesmo perfil temático. A diferença é que traz a “assinatura” de um diretor de grife e de um elenco respeitável (em boas atuações, diga-se). Só me pergunto para qual finalidade.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Coisa de Cinema


No Coisa de Cinema, já publiquei textos sobre O Palhaço, Não Tenha Medo do Escuro, Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual, Gigantes de Aço, Além da Estrada e Árvore da Vida. Espero a visita de vocês também por lá. E divulguem!!



Filmes de outubro


1. Contra o Tempo (Duncan Jones, EUA/França, 2011) ***

2. Balada do Amor e do Ódio (Álex de la Iglesia, Espanha/França, 2010) ***½

3. Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual (Gustavo Taretto, Argentina/ Espanha/Alemanha, 2011) ****

4. Submarino (Thomas Vinterberg, Dinamarca/Suécia, 2010) ***

5. Mamute (Gustave de Kervern e Benoît Delépine, França, 2010) ***

6. A Margem (Ozualdo Candeias, Brasil, 1967) ****

7. Elvis & Madona (Marcelo Lattiffe, Brasil, 2010) *

8. Um Sonho de Amor (Lucas Guadagnino, Itália, 2009) ***½

9. Um Conto Chinês (Sebastián Borensztein, Argentina/Espanha, 2011) ***

10. Os Residentes (Tiago Mata Machado, Brasil, 2010) *½

11. Capitães da Areia (Cecília Amado, Brasil, 2011) **½

12. O Dia da Besta (Álex de la Iglesia, Espanha, 1995) ***½

13. Mouchette – A Virgem Possuída (Robert Bresson, França, 1967) ****

14. Trágica Separação (Claude Chabrol, França/Itália/Bélgica, 1970) ***½

15. O Homem que Amava as Mulheres (François Truffaut, França, 1977) ***½

16. Tudo Ficará Bem (Christoffer Boe, Dinamarca/Suécia/França, 2010) ***½

17. Não Tenha Medo do Escuro (Troy Nixey, EUA/Austrália/México, 2010) ***

18. Meu País (Andre Ristum, Brasil, 2011) ***½

19. Gigantes de Aço (Shawn Levy, EUA/Índia, 2011) **

20. Rock Brasília – Era de Ouro (Vladimir Carvalho, Brasil, 2011) ***

21. O Palhaço (Selton Mello, Brasil, 2011) ****

22. Um Homem, Uma Mulher (Claude Lelouch, França, 1966) ****

23. Esses Amores (Claude Lelouch, França, 2010) **½

24. Contágio (Steven Soderbergh, EUA/Emirados Árabes, 2011) ***


Revisões:

25. O Quarto Poder (Costa-Gavras, EUA, 1997) ***½

26. Nas Garras do Vício (Claude Chabrol, França, 1958) ***½

27. Rio (Carlos Saldanha, EUA, 2011) **


sábado, 22 de outubro de 2011

O rock da capital federal

Rock Brasília – Era de Ouro (Idem, Brasil, 2011)
Dir: Vladimir Carvalho



Longe do epicentro de grande parte da produção cultural e musical que girava (e continua girando) em torno das cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, uma geração de músicos em Brasília ousou em trazer o rock para a cena cultural local. Ou então simplesmente se aventurou em tocar a música que gostava de ouvir, evocando suas inúmeras referências mundiais. Dessa forma, conquistou e formou um público cativo em todo o país, marcando profundamente uma geração.

São os percursos dos responsáveis por esse movimento libertário que o documentário Rock Brasília – Era de Ouro resgata. Bandas como Legião Urbana, Plebe Rude, Capital Inicial e Aborto Elétrico (menos conhecida e de pouco tempo de vida) surgem no início da década de 80 na capital federal dando um novo gás à cena o rock and roll brasileira. Assim, o documentarista Vladimir Carvalho vai em busca das histórias e momentos-chave que marcam essa época ilustre para compor o processo de surgimento (que começa já com as famílias desses jovens se mudando para Brasília ainda na década de 60) e desdobramento desse período áureo.

No entanto, o filme nem sempre consegue manter uma linha ordenada e organizada, algumas vezes indo e voltando no tempo. Talvez pela própria dificuldade em encontrar pessoas que, hoje em dia, possam relembrar suas experiências daquela época, e também pela própria irregularidade de alguns depoimentos (não à toa os melhores comentários são os de Renato Russo, recuperados em arquivos).

Rock Brasília está atrelado à tradição documental de Vladimir Carvalho (O País de São Saruê, seu longa de estréia em 1971, talvez seja seu filme mais emblemático e importante), ainda um tanto quadrada. Existem algumas tentativas de modernização do formato, como a inclusão de rápidas dramatizações de fatos ocorridos (quase desnecessárias de tão ligeiras) ou mesmo a presença do próprio Vladimir e de elementos cenográficos (câmeras, microfones, fios) que o filme faz questão de mostrar. Seria uma forma de expor o documentário como construção, como processo de captação, mas aqui soa um tanto gratuito e pouco contribui para a história que está contando.

Mas nada que estrague o trabalho de reconstituição que é feito. O longa resgata a efervescência musical e confirma a enorme contribuição que esse grupo deu à música brasileira de uma forma geral, com seus momentos emblemáticos (como o controverso show do Legião Urbana do Estádio Mané Garrincha em 88). Há ainda todo o discurso politizado (marca do cineasta) que aparece entremeada na história daqueles jovens que faziam rock no epicentro de uma vida política que não via com bons olhos os discursos inflamados que aqueles jovens expressam através da música.

Na estreita relação política/música, a própria cidade de Brasília surge como emblema dessa geração que sonhou em sacudir o país através da arte, da música que eles sabiam fazer, numa cidade que era (ou pelo menos assim foi pensada) como símbolo da renovação sócio-política (junto com o tanto de outras coisas que essas duas palavrinhas carregam em seu sentido amplo) de um Brasil que deixava para trás um regime militar duríssimo. É a geração Brasília e sua música que marcam a cultura brasileira e nos ajudam a pensar que país é esse.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Marginalidade idealizada

Capitães da Areia (Idem, Brasil, 2011)
Dir: Cecília Amado



É muito bom que Capitães da Areia, adaptado do livro homônimo de Jorge Amado pela própria neta do escritor baiano, tenha lá suas liberdades de transposição para as telas. Além de mudar a ambientação temporal da trama para a década de 50 (o livro foi lançado em 1937), o filme ainda se concentra numa quantidade razoável de personagens, dos muitos que povoam o universo dos moradores mirins e malandros das ruas de Salvador.

Porém, mesmo com essas escolhas, o filme de Cecília Amado está longe de se redimir de problemas, muito por um tom idealista que a história carrega, injetando doses de autopiedade que pouco ajudam a criar um universo mais crível e, principalmente, mais crítico sobre uma mazela social. Sob a liderança do jovem Pedro Bala (vivido por Jean Luis Amorim), aquelas crianças se constituem como uma gangue juvenil, astuta e sorrateira, se instituindo como uma família, reconhecida do povo da região pela malandragem com que vive de roubos e pequenos delitos.

Não existe um conflito específico na história, uma problemática que surja e guie a narrativa. Pode-se pensar na própria ideia de meninos e meninas vivendo nas ruas de uma grande cidade, marginalizados e marginalizando, como o grande foco do filme, ponto de intersecção entre os personagens que ganham destaque: fora o líder Pedro Bala, há o Professor, único que sabe ler e escrever; Gato, que mantém um relacionamento apaixonado e correspondido por uma mulher da vida; Sem Pernas, garoto coxo que explora sua deficiência para ganhar a confiança das senhoras de família; Boa Vida, o mais engraçado do grupo; e Dora, a menina desamparada que chega trazendo desconfiança, mas que conquista seu lugar (e o amor de Pedro Bala).

Cada um deles possui seus próprios anseios, conflitos específicos, ainda que o filme não consiga reservar espaço suficiente para desenvolver seus dramas (grande armadilha das histórias com muitos personagens). Nesse sentido, Capitães da Areia aproveita essas histórias para acentuar o caráter de infância roubada através daqueles garotos que precisam se portar como homens, donos de seus próprios destinos. Esse é um dos pontos mais enfatizados pelo longa, sempre nos lembrando dessa relação (a cena no carrossel é emblemática nesse sentido porque revela a veia ainda infantil daquelas “crianças”), embora não haja aí nada de muito novo.

Por outro lado, para essa caracterização, incomoda muito os atores mirins não-profissionais que atuam e proferem seus diálogos sem grande emoção, quase que mecanicamente. Salva a gaiatice de Boa Vida (Jordan Matheus). A direção de Cecília Amado também não confere muita movimentação aos atores nas cenas, abusando do stop motion e de uma montagem picotada para conferir um tom de “agilidade” ao longa.

(É de se pensar essa obstinação em trabalhar com atores não profissionais que, de alguma forma, estão próximos da realidade retratada. O fato de meninos terem familiaridade com ambiente e situações do filme não significa que eles são os intérpretes ideais, porque aqueles na tela não são eles, são representações idealizadas, pensadas e repensadas por roteiristas e diretores. Quando mal dirigidos, os resultados são incômodos).

Mas o maior entrave de Capitães da Areia se encontra num tom idealista que parece apresentar tudo de forma romântica demais. Mesmo nas situações de perigo (como a briga entre as duas gangues), há um tom mais aventuresco do que de risco propriamente. A partir do momento que o filme não se esforça para fazer nenhum comentário sobre as dificuldades e complexidades daquela situação social, a história recai para o bonitinho demais dentro de uma realidade nada bonitinha. É como se o filme, ao tentar nos tapear com a sensação de “lirismo”, enganasse (e cegasse) a si próprio como projeto de valor.

Esse idealismo tão mal representado no filme (nem todo idealismo é negativo, não vamos exagerar) talvez já estivesse presente lá no livro (faz um bom tempo que eu li, desculpem pela imprecisão), que o filme só reproduz. Mas independente de quem seja a culpa, o resultado é o mesmo: o retrato idealizado de uma marginalização.