sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Festival do Rio – Parte 3




O Mordomo da Casa Branca
(The Butler, EUA, 2013)
Dir: Lee Daniels



Como um todo, O Mordomo da Casa Branca coloca em pauta uma questão importante: como fazer filmes engajados numa causa social qualquer que seja, dentro de uma roupagem clássica, sem precisar recorrer a panfletarismos baratos? Parece um grande desafio esse, tipo de risco que Lee Daniels não está disposto a correr. Prefere o mais básico levantar de bandeira, sem acrescentar em nada na discussão. Seu novo filme vazio e cheio de pretensões.

O longa usa como desculpa a história de Cecil Gaines (Forest Whitaker), o mordomo negro que serviu na Casa Branca por quase 30 anos, para falar do preconceito racial e das lutas encabeçadas pela população negra nos Estados Unidos, estreitando a questão com os meandros do poder político. Enquanto seu filho adolescente luta nas ruas pelos direitos dos negros, o pai serve a casta política que seria responsável por mudar as leis de uma sociedade que aprendeu a segregar com apoio do Estado.

Pouco há para contar da própria biografia de Cecil e de seu trabalho, com foco nos conflitos familiares que isso causa. Ganha destaque aqui as briguinhas com a esposa, interpretada por Oprah Winfrey, enquanto o ativismo do filho Earl (David Banner) jogue o filme no campo do discurso politizado de resistência, já que dentro da Casa Branca nada de interessante parece acontecer.

Mas além de ser panfletário na forma como trata a questão racial como tema nobre e merecedor de atenção, o roteiro inchado torna tudo muito atropelado, especialmente pelo longo período de tempo que o filme abarca. Na tentativa de dar conta de tanta História, o longa acaba sendo muito pontual e superficial em tudo que resolve tocar.

O espectador assiste como quem acompanha um checklist: opressão dos negros nas plantações de algodão, confere; segregação nas ruas com lugares diferentes para brancos e negros, confere; o bom Kennedy visto como mártir, confere; Nixon presidente ignóbil, confere; discurso de Malcolm X, confere; importância e assassinato de Martin Luther King, confere; ação dos Panteras Negras, confere; e claro, Obama surgindo como um salvador para o povo negro já quando Cecil chega no fim da vida depois de ter presenciado tanta opressão e preconceito.

O impressionante é como o diretor não consegue aprofundar nada de seu discurso ideológico em nenhum desses momentos, para além de “denunciar” e mostrar a luta do contra a opressão. Se em Preciosa – Uma História de Esperança havia um fator altamente piegas dentro de uma história muito particular, aqui o foco é ampliado para colocar toda a sociedade americana e seus dirigentes em xeque. Mas nunca não consegue ultrapassar a barreira do mais raso filme engajado.


O Verão da Minha Vida (The Way Way Back, EUA, 2013)
Dir: Nat Faxon e Jim Rash 


Só depois de terminada a sessão, me dei conta de que o filme é dirigidos pela dupla de roteiristas do ótimo Os Descendentes, de Alexander Payne. O texto afiado e ligeiro, o tom agridoce e os conflitos familiares surgindo em sessões de lavagem de roupa suja marcam presença aqui, embora Nat Faxon e Jim Rash não sejam diretores tão bons quanto Payne.

É marcadamente um filme de atores e texto, sem exageros, que perpassa pelas questões, dúvidas e conflitos próprios da adolescência. Não foge do perfil das comédias dramáticas que divertem, contam com personagens hilários, mas que lá para o final faz desabar os conflitos emocionais de cada um.

Nesse caso, temos o jovem Duncan (Liam James) em férias na cidade natal do novo namorado de sua mãe. É como se ele fosse forçado a conhecer uma nova família, recheada de seres esquisitos (como a irmã do padrasto, interpretada por uma neurótica Allison Janney). Além de odiar o cara por quem sua mãe se apaixonou, e de estar sempre em conflito com ela por preferir ficar com o pai, a timidez do garoto não deixa que ele se aproxime da bela, mas esnobe Susanna (AnnaSophia Robb).

Os caminhos da amizade também surgem na pessoa do gerente de um parque aquático (vivido por um superdivertido Sam Rockwell) onde Duncan começa a trabalhar para matar o tempo, descobrindo uma gama de novos personagens que crescem em simpatia, revelando a importância do companheirismo. Simples na proposta, sem querer ser mais do que uma boa sessão de cinema, O Verão da Minha Vida diverte e comove na medida ideal.


A Garota de Lugar Nenhuma (La Fille de Nulle Part, França, 2012)
Dir: Jean-Claude Brisseau 


Brisseau está literalmente em casa. Seu novo filme tem um ar de coisa caseira, propositalmente amador, inclusive em termos cinematográficos, o que fica ainda mais evidente e característico quando descobrimos que o apartamento em que se passa a história pertence ao próprio cineasta, ele mesmo sendo o protagonista aqui.

É um claro filme sobre si, sobre seu cinema e sobre as questões que inquietam esse diretor. Na história, ele vive um professor de matemática aposentado e acolhe em sua casa a misteriosa Dora (Virginie Legeay), que encontrou machucada na escada de seu edifício. A relação entre eles, que poderia ser de cunho sexual, vide a filmografia do cineasta, surpreende por se manter no campo de uma amizade quase paternal, embora ela esteja longe da fragilidade da garotinha que precisa de cuidados.

Na verdade, tudo é muito soturno, e a ideia é embarcar num universo de reflexões pessoais que os personagens acabam por destrinchar em conversas longuíssimas, sobre questões as mais diversas. Mas há ainda um toque de surrealidade quando Dora passa a revelar seus dons mediúnicos, e determinados eventos paranormais marquem presença no apartamento, com direito a aparições fantasmagóricas e objetos que mudam de lugar.

Mas por mais que sejam curiosas as proposições lançadas aqui e toda essa atmosfera surreal, Brisseau está bem longe de trabalhos anteriores, da provocação erótica com elegância e do apuro estético do todo. Aqui, seu tom verborrágico-filosófico acaba se tornando enfadonho na medida em que o filme soa como um compêndio das inquietações e posições dos personagens sobre a sua existência e sei mais o quê. Brisseau já foi muito mais provocador.


A Gatinha Esquisita (Das Merkwürdige Kätzchen, Alemanha, 2013)
Dir: Ramon Zürcher 


Uma das grandes surpresas do Festival do Rio, esse curioso filme alemão revela-se um ótimo exercício de observação de vidas cotidianas com um olhar muito aguçado para detalhes, esses que na nossa rotina consideramos irrelevantes. O filme é um desses projetos riquíssimos em detalhes de encenação e construção de atmosfera que encanta pela coesão e coragem de uma proposta singular.

Eis uma família que faz tarefas normais na rotina diária: cozinham, arrumam a casa, cuidam dos animais, descansam, brincam e brigam uns com os outros; movimentam-se, embora não sabemos exatamente para quê. E essa é uma das grandes sacadas do filme: presenciamos ações e conversas que parecem captadas pela metade, no intercurso do dia a dia, enquanto o diretor consegue extrair interesse por essas fagulhas de momentos.

Extrai também grande parcela de humor com coisas as mais banais, como a “experiência” da garota que joga no chão as cascas de uma tangerina e percebe que todas elas caem com o lado branco virado pra cima; e mesmo fatos aparentemente fora de lugar, como a garrafa que gira sozinha dentro da panela no fogão.

É aí que o filme se assemelha a um estudo das possibilidades de esquisitices do cotidiano, pois para aquelas pessoas tudo não parece escapar do rotineiro. Soaria tudo por demais estranho se não pensássemos o quanto nossas próprias ações do dia a dia possam ser também consideradas intrigantes aos olhos alheios. 

Pessoas, animais e objetos de cena parecem possuir o mesmo grau de importância cênica nesse filme que é puro jogo de cena. Se da metade em diante a proposta começa a se tornar repetitiva, sem muito mais o que acrescentar, ao mesmo o filme mantém uma coesão muito interessante e corajosa na forma de olhar o cotidiano.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Festival do Rio – Parte 2


Bastardos (Les Salauds, França, 2013)
Dir: Claire Denis

Bastardos pode ser facilmente reconhecido como um filme de Claire Denis. O que geralmente é cercado de mistério em muitos trabalhos da diretora, aqui ganha corpo ideal num thriller que mistura perversão sexual e o estranho caso que envolve o suicídio de um homem. A atmosfera soturna ronda o filme como um universo sombrio que o protagonista Marco (Vincent Landon) vai adentrar. 

O suicida é justamente o marido de sua irmã Sandra (Julie Bataille), que vive um momento ainda difícil pelo desaparecimento misterioso de sua jovem filha (Lola Cretón) e a falência dos negócios da família. Ele ainda vai se envolver com a vizinha Raphaëlle (Chiara Mastroianni), esposa do rico empresário Edouard Laporte (Michel Subor), que parece ter ligações escusas com as tragédias da família de Sandra.

É com essa gama de personagens e possibilidades várias de entrecruzamento que Denis trabalha o enredo aos poucos desenhado pela trama, embora por vezes se perca ao intercalar essas tramas. Mas é nesse clima de mistério que os segredos obscuros de cada personagem vão surgindo. Tudo é cercado de sombras.

É um filme que se faz muito mais por sugestões, à medida que os personagens, e Marco especialmente, vai adentrando naquele universo que esconde muito de sordidez, enquanto ele mesmo, na sua dureza, se envolve com Raphaëlle. Denis continua não facilitando a vida do espectador, mas apesar de um ritmo muitas vezes irregular (especialmente por conta de uma montagem um tanto desequilibrada), o que mais prevalece é um clima geral de coisas muito fora do lugar. E isso ela faz como ninguém.


Um Episódio na Vida de um Catador de Ferro-Velho (Epizoda u Zivotu Beraca Zeljeza, Bósnia-Herzegovina/França/Eslovênia/Itália, 2013)
Dir: Danis Tanovic 


São muitos os filmes que tentam captar certa atmosfera de vida cotidiana com naturalidade e espontaneidade. O novo trabalho de Danis Tanovic se distancia bastante de obras anteriores como Terra de Ninguém e Inferno, mas apresenta um retrato bastante convincente de uma família em dificuldade, sem grandes pretensões e nenhum traço de dramatismo. Mas o melhor de tudo é que tem o que dizer.

É como vida bruta impressa na tela, uma vez que o diretor pediu para que os integrantes da família Mujic representassem no filme um caso real que aconteceu com eles. Apesar de se centrar numa família cigana, o filme está menos preocupado em demarcar questões culturais e mais em refletir sobre o sistema social que garante a qualidade de vida da população mais pobre. Pois quando Senada (Senada Alimanović), a esposa do catador de ferro-velho, sofre um aborto espontâneo e precisa de cuidados médicos imediatos, as dificuldades de atendimento vão se mostrando angustiantes.

Daí começa o calvário desses personagens que já no dia a dia trabalham muito para sustentar a família com mais duas filhas pequenas. Tanovic trabalha no campo do naturalismo e nunca exagera no tom. Há dureza naquela rotina endurecida dos personagens, mas o filme ainda encontra momentos de muito carinho que eles mantém uns com os outros, além da ajuda dos vizinhos que fazem o que podem para ajudar. O difícil é quando o próprio Estado não tem a mesma predisposição.

O filme tem muito de uma certa estética do cinema romeno recente, com uma piscadela de olho especial para A Morte do Sr. Lazarescu, com quem divide também semelhanças de enredo. Tanovic não consegue ser tão arrojado como Cristi Puiu, especialmente na preferência pelos planos-sequência, mas consegue ser tão contundente quanto.

O olhar é muito cuidadoso para com esse drama e as relações de união que possibilitam o enfrentamento da situação. O diretor lapida o tempo através do próprio cotidiano daquela família, e isso fortalece ainda mais a impressão de algo documental. Mas é também uma grande crítica social, sem panfletarismo barato.


Night Moves (Idem, EUA, 2013)
Dir: Kelly Reichardt


Muito curioso o estudo de personagens feito por essa que é considerada uma das cineastas americanas mais promissoras dos últimos anos. Antes de entregar de bandeja a história que quer contar, Kelly Reichardt cria um clima muito soturno nesse Night Moves, ao apresentar um grupo de militantes ecológicos que armam um plano para destruir uma represa.

Interessante que ao abordar um assunto relevante e socialmente engajado, ela prefira um caminho menos tradicional. Porque não há lugar aqui para ativismos, e sim para personagens que vão aprender a não confiar uns nos outros. É como um retrato de amadurecimento tardio em pessoas que de tão obcecados pela militância, parecem ter abdicado da juventude em prol de algo considerado maior, mais digno.

Mas a diretora é precisa também ao narrar os momentos mais tensos da história, tanto na tentativa do ato em si, quanto nas consequências que os personagens terão de enfrentar depois, quando a coisa foge mesmo do controle. É quando o filme se aproxima do thriller sem que pra isso mude necessariamente de tom e se torne algo quase policial (ou quase noir, já que o clima sombrio já faz parte daquela trama).

Porém, um grande senão do filme é um final abrupto que parece não saber o que fazer com os personagens em dada situação. Não há respostas definitivas, mas soa como um abandonar de pessoas falhas. De qualquer forma, Jesse Eisenberg, Dakota Fanning e Peter Sarsgaard, que vivem o trio de ecoterroristas, constroem cada qual figuras que parecem muito seguras de si e daquilo que se propõem a realizar, para que depois isso desmorone. É um belo filme de certezas desconstruídas.


Vic+Flo Viram um Urso (Vic+Flo Ont Vu un Ours, Canadá, 2013)
Dir: Denis Côté 


Num filme muito difícil de definir em termos de gênero ou direcionamentos dramáticos, Vic+Flo Viram um Urso (com esse seu título enigmático e graficamente estranho) se sai muito bem em muitas searas. Côté tem um olhar muito próprio para uma narrativa cheia de lacunas e uma mão muito eficiente para desenvolver um enredo que se sustenta mesmo com poucas informações. Acaba sendo um filme que toca muito mais no emocional daquelas personagens que vivem um momento singular de retomar a vida, mesmo numa idade já adiantada.

Como drama social da ex-presidiária Victoria (Pierrette Robitaille) que acaba de sair da prisão, aos 61 anos, o filme consegue não se prender a discursos condenatórios; como estudo da relação amorosa dela com outra mulher, Florence (Romane Bohringer), consegue ser muito natural ao colocar a questão sem levantar bandeiras e costurar uma relação por vezes difícil por conta da personalidade de ambas; como drama familiar, talvez se perca um pouco com essa personagem que retorna para a casa do tio paraplégico e que precisa de muitos cuidados. E há ainda um fator horror que surge quando o passado vem cobrar certas dívidas, para além da hostilidade dos vizinhos que sempre cuidaram do tio enfermo.

É um filme que poderia passear por vários caminhos, portanto. Mas o canadense Denis Côté, ao invés de se deter em poucos elementos para não correr o risco de inchar seu filme, consegue dar conta muito bem de todas essas questões que surgem no caminho de Victoria na medida em que ela tenta se restabelecer na sociedade, mesmo que reclusa na casa de campo da família.

O segredo parece estar numa história que não quer ser necessariamente profunda em todos esses quesitos. Guarda muito dos segredos e do passado dessa personagem calejada, sem que com isso ela seja mal desenvolvida. Nunca saberemos por que ela esteve na prisão, nem como foi sua relação passada com a família, por que e por quem ela é perseguida e odiada. Tudo caminha num fluxo harmônico de desenvolvimento dos conflitos de cada uma.

Côté vai nos surpreendendo a cada nova sequência, e essa é uma das grandes qualidades de seu filme. Nada é previsível, ao mesmo tempo que consegue formatar personagens muito interessantes, como a também ex-detenta Flo, que surge de repente na história, mas cresce bastante. Acaba sendo um filme sobre essas duas mulheres em busca de direção, tentando encontrar alento juntas. E há também o agente de condicional de Vic, inicialmente hostilizado, mas que vai ganhando outras nuances no decorrer do longa. 

Mas o diretor reserva para o final momentos bastante tensos, algo do qual se tinha uma pequena prova antes, jogando o filme no campo do horror. No impasse de uma convivência pacífica entre os personagens, com a série de problemas que Vic vai enfrentando e com eles tentando se adaptar, Côté põe em xeque duramente a possibilidade de felicidade. Por mais que exista um carinho muito grande por elas, ursos perigosos andam à espreita.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Festival do Rio – Parte 1



Blind Detective (Man Tam, Hong Kong/China, 2013)
Dir: Johnnie To 


Para quem dirige filmes em escala fordista de produção, geralmente dois por ano, faz muito bem que Johnnie To tente diversificar um pouco seus trabalhos, embora ainda seja fiel ao gênero policial. Digo isso porque não estava preparado para o tom de escracho e comédia pastelão desse Blind Detective, um filme que não esconde sua verve de despretensão. 

E é curioso como esse humor dos filmes orientais é craque em não ter vergonha de enfiar o pé na jaca. É muito próximo daquilo que Stephen Chow fez em Kung-Fusão, para ficar num exemplo que vem de Hong Kong. Mas a diferença aqui é que To é um cineasta muito mais preocupado com a movimentação dos corpos no espaço, no cuidado de uma certa coreografia nas cenas de ação e perseguição, embora Blind Detective não tenha o mesmo rigor estético e a construção do clima de suspensão de Exilados.  

Isso porque nesse registro que se leva menos a sério, To está mais preocupado com a adrenalina e os desdobramentos da investigação do desaparecimento de uma garotinha há muito tempo. Andy Lau interpreta esse policial cego recrutado por conta dos seus dotes sensitivos de olfato e audição aguçados (paladar também, e come-se muito nesse filme). Daí que cheiro, som e sabores são como ferramentas de trabalho, o que possibilita uma série de situações curiosas, inteligentes e engraçadas usadas por To.

Mas apesar do todo divertido que esses elementos produzem, o filme se torna por vezes repetitivo e cansativo, se estendendo demais. É preciso também mergulhar nesse tom escrachado e muitas vezes gritado que os personagens assumem, o que pode afastar um pouco, tendo também sua culpa em irritar o espectador com seu tom acima do tom.


A Imagem que Falta (L’Image Manquante, Camboja/França, 2013)
Dir: Rithy Panh 


O cineasta cambojano Rithy Panh vem para fazer justiça. Sua arma é o cinema. O filme se engaja em denunciar os abusos do regime do Khmer Vermelho no Camboja, detentor do poder no país entre 1975 a 1979, promovendo um verdadeiro genocídio entre seu povo, relegado à miséria, fome e doenças; O cineasta está preocupado em não deixar que se esqueça dessa parte sombria da (sua) História.

Longe de ser um filme denuncista por si só, e autocentrado no depoimento do próprio cineasta que teve sua família dizimada durante o período, A Imagem que Falta é um apelo à memória. E acaba sendo também um belo tratado sobre a natureza política da imagem registrada, essa que revela para a posteridade as caras da realidade de seu tempo. São essas as imagens que faltam.

Na busca por retratar esse período nebuloso, o cineasta não encontrou imagens que dessem conta do horror e de todas as mazelas que seu povo sofreu durante o regime do Khmer. Por isso resolve ele mesmo, através da inclusão de bonecos de madeira em miniatura, “reinventar” imagens que contem os abusos que seu povo sofreu na mão do duro regime repressor.

Poderia até parecer boba a sobreposição dos bonecos em imagens documentais da época, mas o efeito de deslocamento e estranhamento é justamente a impressão que faz o discurso do filme soar tão forte. Para além de uma obra politizada e fortemente acusatória, o texto em off é de uma beleza dura e melancólica na forma como o diretor relata a experiência de reviver aqueles acontecimentos e os subterfúgios que teve de encontrar para realizar seu filme. 

Há algo de poético na fala dele, e isso torna A Imagem que Falta mais do que uma peça de resistência, um levantar de bandeira, longe do didatismo e do teor agressivo de muitos filmes que querem denunciar situações de opressão. A crueldade exposta, mesmo nessas imagens “deficientes”, bastam para que as facetas do horror sejam reveladas, muito embora essas imagens não querem ser definitivas. Como o próprio diretor coloca, não é uma imagem final porque desta estaremos sempre à procura. Nesse processo de busca, a memória revive. 

 
Vosso Ventre (Sinapupunan, Filipinas, 2012)
Dir: Brillante Mendonza 


Quem diria, Brillante Mendonza sabe ser terno. Essa é uma das grandes diferenças em relação a seus trabalhos anteriores, embora seja muito fácil reconhecer aqui o cineasta de Execução e Lola na forma como filma personagens em situações de compadecimento constante. Aliás, desse último filme o diretor resgatou um elemento que marca presença forte em Vosso Ventre: trata-se de uma obra de resistência, de luta.

Conhecemos a rotina das pessoas que vivem em casas de palafita no sul das Filipinas, em especial o casal Shaleha (Nora Aunor) e Bangas-na (Bembol Roco). Eles pescam, trançam e ajudam a realizar os partos das mulheres do local. São pobres e trabalham dignamente para se sustentar a cada dia. É essa a resistência, de (sobre)viver  num ambiente desfavorável, combatendo intempéries naturais e forças humanas (há a presença de um militarismo que ronda o lugar e deixa tudo num clima constante de insegurança).

Mendonza capta essa rotina de vida com sua câmera na mão que fortalece o tom documental; seu olhar continua aguçado para os pequenos gestos e acontecimentos cotidianos ao redor. Mas ao filme soma-se ainda o fator cultural-religioso porque estamos numa região de maioria islâmica, e logo os costumes começam a definir os caminhos dos personagens. Pois quando Shaleha percebe que não consegue dar um filho a seu esposo, decide procurar uma moça jovem que possa se casar com ele para lhe dar herdeiros.

Está dada mais uma prova de luta: eles se esforçam ao máximo pra conseguir arranjar esse casamento e ainda precisam pagar um dote valioso em dinheiro que eles ralam muito para tentar conseguir. É na dureza cotidiana que o diretor capta as motivações e desejos dos personagens, com destaque para o rosto e os olhos expressivos cheios de esperança de Shaleha. É essa ternura para com os personagens que tanto fortalece a história. 

Mas o mais curioso desse trabalho em relação aos anteriores do diretor é sua relação com o nascer. Enquanto antes a morte espreitava os caminhos dos personagens, ditando-lhes regras e comportamentos, aqui se celebra o nascimento como ato de amor e união, embora a vida daquelas pessoas naquele lugar esteja cercada de perigos. O filme abre e fecha ciclicamente com partos filmado com muita crueza (e como símbolo extremo do esforço), mas sem deixar de lado uma celebração de vida. Nessas dualidades (nascer/morrer, dureza/ternura), Mendonza cria um dos mais belos retratos do cotidiano de personagens carentes. Bruto, mas com afeto.

domingo, 29 de setembro de 2013

Festival do Rio 2013


Oportunidade para ir para o Festival do Rio este ano surgiu meio por acaso, acrescido de uma vontade que aumentava à medida que as atrações iam sendo divulgadas. A programação está cheia de coisas que crescem os olhos, e isso faz uma grande diferença quando há tanto para se ver e escolher.

Como as coisas foram caminhando para que a cobertura do evento se tornasse uma realidade pra mim, chego na Cidade Maravilhosa para o meu primeiro Festival. O ritmo de maratona é igual ao das grandes mostras de cinema, como a de São Paulo. A ideia é não deixar escapar aqueles filmes badalados de gente boa que se destacou no último ano, mas também se arriscar e conhecer novos filmes, diretores e olhares.

Tentarei escrever aqui no blog as primeiras impressões sobre todos os filmes vistos, mas também alguns textos poderão ser encontrados no site Coisa de Cinema. Que venham os filmes, então. A fome é sempre grande.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Medos clássicos

Invocação do Mal (The Conjuring, EUA, 2013)
Dir: James Wan


É muito curioso e gratificante ver que Invocação do Mal não traz nada de novo no front dos filmes de terror (nem parece querer essa posição), mas consegue feitos muito bons de tensão e horror. Dentro de um gênero tão mal tratado e que carece de bons exemplares recentes, isso é muita coisa, ainda mais por uma obra tão clássica, sem firulas. Sua história parece um requentar de tantas outras que vemos há tempos, com os mesmos elementos de sempre, mas funciona muitíssimo bem ao que se propõe.

Estão lá a casa mal assombrada, as aparições nos armários e cantos escuros, os relógios que param sempre no mesmo horário de madrugada, crianças que têm seus pés puxados à noite na cama, portas que rangem, aparições nos espelhos. Todos os elementos que o cinema de terror já cansou de repetir, sem que aqui eles apareçam com um novo ar; tudo é facilmente reconhecível.

Mas o grande trunfo desse filme é investir suas energias em bons personagens, conflitos críveis e explicações palpáveis (mesmo que reprocessadas do filme anterior de Wan, Sobrenatural) para os eventos macabros. Porque não estão em jogo somente os tormentos da família Perron, que se muda para uma nova casa infestada de espíritos maléficos, mas também os desafios do casal de paranormais Ed e Lorrain Warren (Patrick Wilson e Vera Farmiga), famosos por assumirem uma série de casos que se mostraram furados. Mas agora o que eles enfrentam é diferente, é demoníaco, e ainda envolve os instintos maternos de Lorraine.

Se a primeira parte do filme serve para desenvolver os personagens, apresentar todos esses elementos que compõem a atmosfera assustadora do filme e causar uma série de sustos no espectador, a terça parte final ganha muito em tensão e eleva o que já estava interessante em termos de sensação de medo e apreensão. Quando as brincadeiras de fantasma tornam-se um caso de possessão demoníaca, a coisa fica realmente mais apreensiva.

É quando o filme consegue acelerar o ritmo sem atropelar a narrativa e ainda fazer convergir os conflitos que estão espalhados pela história. É também quando ele mostra que não precisa reinventar a roda. Mesmo no estilo mais clássico, consegue inspirar medinho dos mais genuínos, com truques muito simples de montagem e som.

O final talvez seja um tanto piegas e meio apressado, quando a força do mal precisa ser suplantada por algo tão do nível do emocional, mas talvez esteja aí a coragem e diferença desse filme para os demais. Perde um pouco em realismo, mas não desmerece todo o senso de suspense e horror que veio antes.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Agruras íntimas

Amor Pleno (To the Wonder, EUA, 2012)
Dir: Terrence Malick


O tom e a estética parecem a mesma de antes. Terrence Malick filma com essa câmera inquieta paisagens e pessoas em movimento como se passeasse por essas vidas, como se estudasse esses deslocamentos num espaço grandiloquente que está a serviço dos personagens. Em Amor Pleno tudo é muito fugidio, sem muitas palavras, como se tentasse captar estados de espírito enquanto a beleza do exterior se torna também uma fascinação.

Mas há aqui um interesse muito maior na introspecção. É aí que o novo filme de Malick distancia-se tanto de A Árvore da Vida, apesar de ambos compartilharem propostas estéticas bem próximas. No trabalho anterior havia um interesse no humano como parte de algo maior, da vida em confluência com o universo, com um viés existencialista, enquanto os personagens destilavam seus porquês contra o mundo.

Aqui esses porquês ainda são marca da trajetória dos personagens, mas há uma perturbação que é muito mais íntima, muito mais introspectiva, o que tem afastado muita gente. E de fato não é um filme dos mais palatáveis porque não é de coisas dadas, assim como o anterior também não era. Apesar das inquietações serem também expressas no texto em off, as angústias dos personagens estão ali, em suas expressões, nos caminhos tortuosos que insistem em traçar.


Porque nem tudo são maravilhas nesse filme de belas imagens. Enquanto o mundo ao redor resplandece em luz e grandiosidade, e a natureza continue nos oferecendo belas vistas, internamente há muito embate. Daí que a grande personagem do filme seja Mariana (Olga Kurylenko), essa mulher russa que vive na França com sua filha pequena e se vê encantada pelo charmoso Neil (Ben Affleck) que as levam para viver nos Estados Unidos. Renasce nela uma paixão que já tinha dada como perdida. Mas logo esse amor se estremece, sem muita explicação aparente.

Há ainda as agruras de um padre (Javier Bardem) numa espécie de crise de fé, e as próprias incertezas emocionais de Neil quando ele se envolve com a bela, e também machucada, Jane (Rachel McAdams). De longe, a inclusão desses personagens parece um tanto dispersa no filme, não ganham o mesmo destaque e, apesar de personagens interessantes, o filme perde quando muda o foco para eles e depois os descarta.

O filme também abusa um tanto do texto em off, sempre muito enigmático. Às vezes funciona como algo poético e sincero, mas em outros momentos surge obscuro demais (e por isso mesmo distante, um tanto frio). Mas os corpos e corações inquietos dos personagens continuam belissimamente fotografados. Malick os observa como que perdidos no mundo, na busca por subir os degraus para a maravilha.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Moviola Digital, 6 anos










Mais um ano, mais bons ventos, embora isso aqui tenha dado uma parada nos últimos meses e também precise de uma reforma no layout. Mas não estou reclamando, passa o tempo e continuo adorando isso aqui, as conversas, as trocas, as descobertas, as reflexões, a autocrítica.

O último ano foi bom porque continuei no meu caminho de escrever e, nesse processo, conhecer mais de cinema. Sinto que as redes sociais acabaram tomando o lugar de interação que antes estava mais presente nos comentários do blog, mas esse é um sinal dos tempos e de como as pessoas, hoje, se relacionam mais com o espaço virtual. De qualquer forma, o blog continua ativo, e assim pretendo mantê-lo por muito tempo.

Porque as coisas não param. Acabei de ser aceito na Associação Brasileira de Críticos de Cinema – Abraccine (o que me deixa muito honrado por estar ao lado de um punhado de gente grande que faz crítica de cinema no Brasil), além de continuar os trabalhos na Liga dos Blogues Cinematográficos e na Sociedade Brasileira deBlogueiros Cinéfilos. O site Coisa de Cinema, onde colaboro, tem sido também um espaço interessante de discussão. 

E tem todos aquelas pessoas que (ainda) acessam o Moviola Digital, motivo pelo qual ele se mantém de pé até então. Agradeço enormemente quem acompanham essas palavras aqui, mesmo os mais tímidos. E como sempre na comemoração de aniversário, uso 10 imagens de grandes filmes que comentei aqui nesse último ano pra ilustrar o post. Que venham mais 10 ou quanto mais quiserem.



 

sábado, 14 de setembro de 2013

Mil e uma noites

Holy Motors (Idem, França/Alemanha, 2012)
Direção: Leos Carax

Depois de 13 anos sem um longa-metragem, Leos Carax retorna com esse corpo estranho, belissimamente estranho, que é Holy Motors, provando ainda seu vigor criativo e suas inquietações cinematográficas. O grande trunfo de Holy Motors reside na sua faceta múltipla de direções, um filme de várias identidades, que discute a própria identidade (obstinação?) do cinema em contar histórias, possíveis e inimagináveis.

Como metalinguagem do próprio ato cinematográfico, o filme realiza um passeio pelas possibilidades narrativas que o cinema é capaz de realizar e ainda assim nos surpreender, mesmo depois de tanto tempo de imagens acumuladas pela História, revivendo gêneros e situações as mais incomuns da vida (e não é disso que o cinema mais se alimenta?).

Percorrendo a cidade numa limusine, o misterioso Oscar (Denis Lavant) vai assumindo a identidade de uma série de personagens os mais estranhos e bizarros, em situações incomuns. Essa é sua sina, seu trabalho, ele está preso a esse ofício, embora nunca saberemos por quê. E ele já se encontra fatigado dessa rotina, mesmo que a próxima parada seja algo sempre diferente, talvez desafiador.

De início, Carax evidencia a própria encenação como questão fundamental de seu dispositivo fílmico. Explicitamente, os personagens falam em “encomendas” ao se referir ao próximo “papel”, a próxima identidade a ser assumida, trabalhada, interpretada. Mas o filme também põe em xeque a própria validade das situações. Quantas histórias o cinema ainda é capaz de contar? E mais do que isso, quem está interessado em vê-las?, parece interrogar o filme.

É aí que o longa alfineta o expectador de hoje. O filme abre com uma plateia num cinema, todos dormindo (ou cegos?), em estado de apatia, quase mortos. Se a cinefilia tal como floresceu na década de 1950 está morta, como já aventou Antonie de Baecque e Susan Sontag, quem é esse sujeito que hoje reage às imagens em movimento do cinema? Que cinefilia é essa que temos hoje, certamente tão mudada e alterada quanto nosso tempo?


Quando questionado sobre os motivos que o prendem a esse seu trabalho de ser outros, Oscar afirma que tudo ainda vale pela beleza do gesto; e essa estaria no olhar do espectador, conclui seu misterioso interlocutor. “E se não houver mais expectador?”, rebate Oscar. A preocupação está posta, mas o filme está feito, foi lançado ao mundo para ser visto. Ou seja, ainda há quem se interesse em ver, caso contrário não estaríamos aqui. Holy Motors seria, então, uma carta de intenções a favor das necessidades do narrar, do por em cena, mas também do estar dentro e frente à tela. Celebra, assim, mil e uma noites de cinema. Resta saber quantas mais virão.

Mas para além da discussão metalinguística, há graça também na força das imagens que Carax constrói, de onde vem a insistência em continuar vendo/fazendo. Poucos filmes conseguem nos entregar um punhado de cenas memoráveis: presenciamos um espetáculo de captura de movimento num estúdio que transforma luta em sexo; o grotesco Merde sai de um bueiro de esgoto para raptar uma linda modelo numa sessão fotográfica; o personagem – o filme? – se dá um intervalo num dos momentos mais animados do filme; Oscar reencontra uma antiga paixão, também ela exercendo a mesma função que ele, e se dão conta, através de um momento musical, dos rumos duvidosos que suas vidas tomaram, longe um do outro. E é de toda essa energia que se alimenta o excepcional desempenho de Denis Lavant, vivendo mais de uma dezena de personagens, todos eles em ruptura total com o anterior.

Como herdeiro legítimo dos tempos da Nouvelle Vague, Carax consegue se renovar com um filme que, aparentemente complexo, não tenciona explicar como e por que se dão esses encontros, sua logística narrativa, flertando assim com o fantástico e o surreal, à medida que os caminhos de Oscar e de suas personas acumulam-se como imagens possíveis e depois como missões cumpridas. Trata-se de uma existência que só parece ter corpo no cinema, via arte, ficção, fantasia. Uma existência cinematográfica, portanto.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Curtinhas

Wolverine Imortal (The Wolverine, EUA/Austrália, 2013)
Dir: James Mangold 


Nada podia ser pior que o filme anterior do Wolverine, certo? Isso mesmo. Essa nova aventura solo de um dos personagens mais queridos dos X-Men tem momentos bem interessantes, de pancadaria e desenvolvimento dos dramas do protagonista, ainda (e sempre) perseguido por seus demônios pessoais. Mas o frescor do filme está na formatação de uma história totalmente nova no cinema, bem conduzida, ao envolver um velho soldado japonês que, quando jovem, foi salvo por Logan (Hugh Jackman) durante a Segunda Guerra. Agora dono de um império industrial riquíssimo e já à beira da morte, ele tenta convencer o mutante de que é possível transmitir para ele sua mutação, o que livraria Logan da prisão da vida eterna.

O maior pecado do longa está somente nas diversas reviravoltas que a história vai tirando da manga, nunca satisfeita com suas intrigas estabelecidas, sempre pronta para sacar mais algumas. Não chega a quebrar o ritmo, mas já vai casando lá pelo fim do filme. A cultura japonesa surge como marca interessante aqui, contrapondo tradição e o aparato hype-tecnológico contemporâneo. Mas a cereja do bolo é mesmo a cena pós-créditos, retomando a relação com os outros filmes do universo mutante e apontando para direções bem interessantes a serem conferidas em X-Men: Dias de um Futuro Esquecido. Não chega a ser um grande filme pipoca, mas a contar com a leva deste ano, está bem acima de muitos.


Uma História de Amor e Fúria (Idem, Brasil, 2012)
Dir: Luiz Bolognesi 


Há algumas belas ambições nesse Uma História de Amor e Fúria, para o bem ou para o mal: além do fato de ser uma animação num país com pouca tradição nessa técnica, existe no filme todo um discurso politizado, rodeado por entrelaços amorosos, que ainda tenta dar conta de uma trajetória histórica do Brasil, chegando até a um contexto futurístico, permeado ainda por toques de fantasia. São muitas questões que o filme suscita, portanto, e que nem sempre consegue sustentar ou defender tão bem, apesar dos esforços inegáveis. É também o primeiro longa-metragem de ficção dirigido por Luiz Bolognesi, mais conhecido como roteirista, especialmente dos longas de sua esposa, Laiz Bodanzky, como Bicho de Sete Cabeças, Chega de Saudade e As Melhores Coisas do Mundo, todos muito bons.

O intuito com essa nova história é de estar do lado dos oprimidos e renegados de nossa sociedade, aqueles que encontram pouco espaço nos livros de História. Incomoda certo ar de peninha para com esses personagens, eles que parecem reencarnar a cada novo segmento como casal (ganhando vida a partir das vozes de Camila Pitanga e Rodrigo Santoro) que precisa lutar contra forças sócio-políticas repressoras. O filme tem ritmo, o problema é quando cada segmento parece reprisar o anterior em sua estrutura narrativa, mudando somente o pano de fundo. De qualquer forma, é um projeto corajoso e louvável pelos riscos que corre. E correr riscos é sempre bom no cinema nacional.


2 Mais 2 (Dos Más Dos, Argentina, 2011)
Dir: Diego Kaplan 


Não queria começar esse texto evocando possíveis comparações do cinema argentino com o brasileiro, mas quando se vê um filme tão funcional como esse 2 Mais 2 e se pensa na produção nacional de comédias recentes, fica evidente um fosso aí. Vale lembrar que estamos diante de um produto comercial argentino que raramente chega a nosso mercado e não duvido que tantos outros de gosto duvidoso sejam feitos por lá. Mas a maior qualidade desse filme aqui é tratar de sexo, numa comédia, sem ser desrespeitoso, escrachado, fútil, caricato.

A história funciona como uma iniciação ao swing, a prática da troca de casais que Diego e Emília (Adrián Suar e Julieta Díaz) descobrem ser uma atividade comum entre seus melhores amigos, Richard e Betina (Juan Minujín e Carla Peterson). Eles então ficam tentados a experimentar a coisa, com toda a sorte de confusões que a situação pode gerar. Talvez o mais interessante nesse conflito seja a reticência de Diego e a tentativa de convencê-lo a aceitar o swing como algo interessante, vantajoso para a relação do casal e longe de moralismos. Não existe chacota, mas sim uma busca pela aceitação de uma certa liberação dos desejos e atos sexuais. O filme diverte na mesma medida em que não ofende, e isso é uma grande qualidade.


Mekong Hotel (Idem, Tailândia/França, 2012)
Dir: Apichatpong Weerasethakul 


Talvez pela curta duração de uma hora ou pela simplicidade do projeto enquanto produção mesmo, Mekong Hotel aproxima-se mais de um filme-ensaio, um work in progress, em que personagens e situações poderiam carecer de melhores desdobramentos. Mas Weerasethakul continua fazendo seu cinema peculiar, zen, etéreo, dialogando com o mundo dos espíritos e com a natureza ao redor. Por isso o filme parece mais palatável para quem já se afeiçoou e se acostumou ao universo cinematográfico desse peculiar cineasta tailandês. 

Existe uma interessante dualidade entre o cotidiano dos personagens e a natureza fantástica (ou fantasmagórica) que eles assumem, representantes de um espírito carnívoro que toma posse do corpo das pessoas. É diferente de seu filme mais famoso, Tio Boonme que Pode Recordar Vidas Passadas, em que o tom religioso-fantástico se revela assustadoramente diante de nossos olhos. Aqui não, o fantástico assalta a vida cotidiana, e nada no filme parece se abalar com essa presença, por mais que as cenas mostrem as pessoas se alimentando de vísceras, como animais carniceiros. A música doce e melancólica que permeia todo o filme é o indicativo do ritmo banal, apesar do surreal das situações. O Mekong Hotel do título, mais que um lugar, é um estado de ser e estar.