quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Mostra SP – Parte 1




Um Alguém Apaixonado
(Like Someone in Love, Japão/França, 2012)
Dir: Abbas Kiarostami


É bastante interessante acompanhar os caminhos de um cineasta como Abbas Kiarostami. Deixando para trás a vertente neorrealista do cinema iraniano que vigorou há algumas décadas, o diretor é um dos poucos que busca novas direções e questionamentos para seu cinema. Assim, Um Alguém Apaixonado dá prosseguimento aos propósitos vistos em Cópia Fiel, mas avançando um passo à frente, ambos realizados fora do Irã natal do cineasta. 

É como se Cópia Fiel se estabelecesse como um tratado sobre as ideias de originalidade/imitação, real/representação, verdade/mentira e suas validades (sobre os quais eu escrevi mais detalhadamente aqui); e esse Um Alguém Apaixonado fosse a aplicação dessas propostas numa história totalmente diferente. Daí que a ambientação no Japão não chega a causar estranhamento (embora evidencie as dificuldades de fazer cinema num Irã opressor).

Já na primeira cena do filme, ouvimos a protagonista dizer “Eu não estou mentindo”, e saberemos depois que ela falta com a verdade para o namorado ao dizer que está num lugar que não está. Estamos mais uma vez no terreno das incertezas. O filme tem dessas pequenas armadilhas, a partir das quais é possível duvidar das intenções e afirmações dos personagens.

Kiarostami não perde oportunidades para brincar com reflexos em espelhos e vidraças, visões embaçadas por cortinas, imagens sem nitidez, contraplanos não visíveis, tudo nessa dualidade do que a imagem é ou pode vir a ser. Para exercitar esses truques e imprecisões, o filme acompanha os descaminhos de uma acompanhante de luxo (Rin Takanashi) que despista o namorado super ciumento (Ryo Kase) enquanto ela atende um velho senhor (Tadashi Okuno) em seu apartamento.

Enquanto mise-en-scène, a mão de Kiarostami filma com delicadeza e sem pressa, moldando o tempo com uma leveza absurda, sendo guiado por seus personagens aonde eles querem ir. Nesses deslocamentos, observa os papéis assumidos por esses tipos e cada nova situação que se apresenta. O namorado da jovem prostituta soa como um dos mais interessantes pela oscilação entre o arrogante e o gentil, nessa dualidade que pode acometer um alguém louco de amor, esse que emana, calmamente, da bela música homônima de Ella Fitzgerald que ouvimos durante o filme e o intitula, belissimamente.


Brutal (Die Raeuberin, Alemanha, 2011)
Dir: Markus Busch


Uma mulher de meia idade chega a um pequeno lugarejo, quase como uma cidade fantasma pela ausência de vida nas ruas, mas parece que ali se sente em casa. Seria um ponto de partida interessante, mas o filme se perde na sua própria atmosfera de pesar, principalmente por insistir num tom melancólico que faz prolongar os encontros e conversas entre dois personagens e a dualidade de confrontos e atrações que surgem entre si. 

A outra figura desse polo de união é um jovem adolescente, inconsequente e imaturo, um quase arruaceiro de comportamento difícil. A improvável atração entre os dois é o que de mais curioso o filme carrega. Tentamos nos situar em meio a essa relação prestes a implodir. É como se essas duas pessoas desencontradas na vida (ela por conta de uma tragédia do passado, ele por sua própria condição de jovem irresponsável) precisassem de suporte mútuo, estando próximos um do outro.

Mas ao filme falta um certo tato no (des)arranjar entre os protagonistas, tudo soa muito confuso, estranho. Os diálogos entre os dois, funcionando quase como um jogo de vontades e imposições (que ela, em particular, tem prazer em jogar, demonstrando sua personalidade forte, por vezes agressiva) se demoram demais ao longo do filme, com a desculpa de desenhar os contornos psicológicos dos dois. Ao final, quando a mulher revela de fato sua história trágica, o filme parece querer justificar suas ações, como se pedisse a complacência do espectador. Até aí, Brutal já se tornou cansativo e mesmo repetitivo.


Speed – Em Busca do Tempo Perdido (Speed – Auf der Suche Nach der Verlorenen Zeit, Alemanha, 2012)
Dir: Florian Opitz


Florian Opitz tem uma grande bronca com o tempo. Sente que sua vida se aprisiona aos desmandos dos ponteiros que não param de girar. Florian é o próprio diretor do filme que se coloca como personagem central em busca de compreensão e respostas para entender a relação do ser humano com o tempo na sociedade atual, ao mesmo tempo em que quer encontrar uma forma de viver em harmonia com esse mal da modernidade. 

Até aqui nada de novo, não é? Pois até o final do filme não vai ser diferente. Ninguém precisa tirar o mérito de Speed em investigar as agruras do tempo e suas consequências em nossas vidas (também eu gostaria de entender como dobrá-lo a meu favor), mas o filme insiste em lugares-comuns ao relacioná-lo com os avanços da tecnologia, a lógica do mercado capitalista, as novas relações interpessoais.

Se existe um interesse maior no filme, está na forma como o cineasta-sujeito se coloca como figura central à procura de respostas, alcançando esse tom mais pessoal, o que facilita bastante uma identificação com o espectador. Ele visita gurus, especialistas, empresários e cientistas, interrogando e se colocando quase como um paciente em busca de um diagnóstico. Da mesma forma, viaja a lugares remotos do globo para entender como alguns grupos sociais, especialmente no interior dos países, vivem em harmonia com um estilo de vida longe das preocupações dos grandes centros.

Mas no fim das contas, o filme pregoa ideias óbvias. Não muda muita coisa nem acrescenta novas perspectivas sobre como lutar contra a imposição do tempo, para além do que já temos em mente (fuja da cidade! parece implorar o filme). Mas a questão volta sempre como uma dor de cabeça, como algo que o filme não dá conta de responder: por que anda tão rápido o mundo? Vamos ao próximo filme.


Ladrão (Booster, EUA, 2012)
Dir: Matt Rusking


Esse filme começa como o típico conto do bom ladrão. Simon (Nico Stone) promove uma série de pequenos furtos em lojas para revender mais tarde os produtos roubados, mas faz isso para sobreviver no submundo de uma Boston criminosa (a avozinha que vive num asilo e de quem ele ajuda a cuidar é mais um pretexto nobre para o crime). Logo nos primeiros minutos, o filme desenha essa situação, mas vai impor ao protagonista um dilema: seu irmão é preso e acusado de um assalto; para livrá-lo, Simon precisa cometer uma série de outros furtos no mesmo esquema para despistar a polícia e livrar o irmão.

O filme passa todo sem julgamentos a esse modo de vida, a criminalidade é uma constante naquele universo, enquanto acompanhamos a rotina tortuosa, desoladora e sem grandes perspectivas desse jovem. A pressão em tentar ajudar ou não o irmão equilibra-se com envolvimento com uma bela jovem. Mas então o filme dá um tratamento morno ao estabelecer os dilemas do protagonista, tudo sem grandes atrativos depois de postas as questões. Até o tremular da câmera parece meio contido, o que acaba funcionando bem para o filme, sem abusar demais da inquietação emocional e também sem cair no cacoete da câmera na mão.

Mas parece que todo o filme está à espera de sua cena final, essa sim colocando o filme pra cima, apresentando uma contundência surpreendente na narrativa, vide a morosidade do que vimos até então. É também a grande chave de interpretação moral do filme. Porque Simon pode não saber o que quer da vida, quais serão seus próximos passos, que planos de futuro podem dar certos, mas ao menos ele descobre aquilo que não quer ser. Ladrão é um filme sobre destinos que, profundamente, não desejamos.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo



Há tempos que eu namoro isso aqui. A Mostra de Cinema São Paulo sempre foi uma fascinação, às vezes surgia como realidade distante, o sonho cinéfilo à espera de realização. E hoje estou aqui nessa cidade louca e borbulhante, disparando filmes para todos os lados, comigo tentando dar conta daquilo que me cai nas mãos em forma de cinema. Tudo parece acontecer muito rapidamente (é a cidade que impõe seu ritmo), mas o desafio é aproveitar suas possibilidades.

A Mostra é a oportunidade de ter contato com os novos filmes de grandes cineastas contemporâneos ao mundo, ver ou rever os clássicos consagrados que retornam à tela grande, além de poder descobrir novos autores, se jogar no desconhecido, arriscar por filmes sombrios, se embaralhar nessa rede de oportunidades mil, querendo sair melhor, mais realizado. Ileso jamais, pois creio que a experiência do filme nos modifica de alguma forma. Se não acreditasse nisso, não faria o que faço agora.

Tentarei escrever as primeiras impressões sobre todos os filmes vistos aqui no blog, mas também alguns textos poderão ser encontrados no site Coisa de Cinema. Então, que o cinema reine por esses dias. O tempo não há de parar. É hora de dobrar a cidade.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Lisboa revisitada


Mistérios de Lisboa (Idem, França/Portugal, 2010)
Dir: Raúl Ruiz



Mistérios de Lisboa deve ser o maior filme do ano, em mais de um sentido. Penúltimo trabalho (sem contar um filme inacabado) dirigido pelo chileno radicado na França, Raúl Ruiz, morto ano passado os 70 anos de idade, trata-se de um drama de época grandioso, de tons novelescos, mas nunca superficiais. Reúne um sem-número de personagens com seus segredos que vão sendo desnudados ao sabor dos conflitos. O maior desfrute em assisti-lo é a ampliação desse painel de tipos e situações, o que torna o filme um sério candidato a épico cinematográfico pela força com que impõe sua grandiloquência narrativa.

Adaptado da obra homônima do romancista português Camilo Castelo Branco e encomendada pela TV francesa como uma minissérie de seis episódios, a versão para o cinema consta de 4h30 (dividida em duas partes), mas passa sem pesar, tão leve e conciso é o texto de Castelo Branco e, principalmente, tão sutil é a mão do cineasta franco-chileno. Raúl Ruiz filma com propriedade, sem pressa, demonstrando uma noção de encenação absurda na forma como movimenta lentamente a câmera e, principalmente, como orquestra a marcação dos atores no quadro, fazendo parecer fácil dirigir, tamanha a naturalidade em contar essas histórias.

Não deixa de ser um ritmo interessante para um enredo com tantos personagens, acontecimentos e reviravoltas. Dispondo de tempo, o filme monta com cuidado um mosaico de histórias que se desdobram à medida que novos personagens são apresentados e seus mistérios passam a fazer parte da teia que o filme constrói, conectando-se uns com os outros, mas nunca abruptamente.

É como se Ruiz, tomado pela elegância do ambiente aristocrático que registra (mesmo expondo os podres de muita gente mais ou menos tarde), fosse polido o suficiente para nos apresentar a cada um desses personagens, sempre acompanhados por movimentos e enquadramentos de câmera que só acentuam a beleza e as vicissitudes daquele ambiente nobre.

Se a história do pequeno João (João Arrais), órfão num convento, é o fio condutor de um roteiro que vai passear pelo século XIX, entre Portugal, França, Itália e Brasil, muitos outros tipos passarão pela tela trazendo seus segredos. João recebe repentinamente a visita da mãe que nunca conhecera, vive aos cuidados do padre Dinis (Adriano Luz), que, por sua vez, tem de lidar com a chegada do misterioso negociante Alberto de Magalhães (Ricardo Pereira) e com os desejos de vingança da Condessa de Montfort (Clotilde Hesme), sem falar nos próprios mistérios que ele mesmo carrega.


Cada novo personagem é uma promessa de novos caminhos que o filme percorre, justamente o que torna Mistérios de Lisboa tão delicioso e intrigante de acompanhar. Há ainda as liberdades narrativas que o diretor utiliza, buscando uma quase fuga da naturalidade que geralmente marca o tom do filme nesse ambiente burguês. Assim, num determinado momento em que uma senhora é confrontada verbalmente por uma réplica indesejada durante um baile, ela fraqueja e cai ao chão, como se o golpe moral tivesse ali um efeito físico, impositivo.

Como produto de rara beleza e também força narrativa, para além de toda a suntuosidade da produção (direção de arte e figurinos saltam aos olhos), Mistérios de Lisboa é um passeio agradável pelos mistérios humanos, esses que uma hora ou outra virão à tona. Estão ali, escondidos, por entre salões, alcovas e descampados. O que Ruiz faz é trazê-lo à luz, da forma mais bonita possível. Coisa de mestre. 


quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Corda bamba de fé


Habemus Papam (Idem, Itália/França, 2011)
Direção: Nanni Moretti



Nanni Moretti é um lord. Nesse seu mais novo filme, o diretor-roteirista-ator bate forte na Igreja Católica, nos seus costumes, preceitos e, principalmente, na fé em crise. E essa crise nunca foi tão aparentemente levada na “brincadeira”, isso porque o filme toca nesses pontos com sutileza absurda, perpassando pela comédia ácida e perspicaz da qual o diretor é exímio em fazer, sem precisar ser agressivo. Por isso, o tom da comédia é bastante apropriado para espezinhar os católicos fervorosos. O resultado é um misto inusitado de filme duro e gracioso. Um filme maduro.

Se no seu longínquo A Missa Acabou (1985) Moretti já fazia sinais que acusavam a falência do catolicismo (interpretando ele mesmo um padre em crise na função), aqui sua mira aponta para algo maior, mais simbólico: o próprio Papa. E nada que ponha mais em xeque a instituição religiosa do que um líder que, ao ser escolhido Pontífice, é acometido por uma crise de pânico que o paralisa diante do poder. Não é recusa, é indecisão sobre capacidade própria de carregar tamanha cruz.

Daí que o filme se aproveita desse mote para alfinetar de várias maneiras aquele universo antes sacro, agora visto ser corroído por dentro. Começa com a religião cedendo lugar para sua antiga rival, a ciência, uma vez que um psicanalista (o próprio Moretti), o melhor de todos da Itália, é chamado às pressas para ajudar o novo Papa (vivido por um soberbo Michel Piccoli, a desolação estampada em seu rosto) a romper o trauma inicial. Quando o Pontífice acaba fugindo do cerco de todos e passa a perambular pela cidade à paisana (ninguém conhece ainda sua identidade), o médico acaba por ter de aplicar seus métodos de análise nos próprios cardeais, desesperados diante de situação tão inóspita que presenciam.

A partir daí, as duas “tramas paralelas” investem em muitos outros exemplos de como a Igreja e seus principais zeladores são revelados em pequenas problematizações. O momento mais marcante é quando os cardeais, reunidos no conclave para escolher o próximo papa, suplicam a Deus para não serem votados. Na verdade, toda a primeira meia hora do filme é soberba na construção de uma ritualidade que todos respeitam, mas que poucos querem que as atenções recaiam sobre si no final.

Depois disso, o longa perde um pouco sua força, talvez por esse início ser todo muito rico em dramaticidade que desestabiliza as convicções de um grupo de líderes religiosos que deveriam sustentar com afinco uma crença. Mas é como se o filme abraçasse o fake como forma de alcançar esse estado de impossibilidade, ao mesmo tempo em que acredita piamente no nonsense e precisa dele para fazer sua crítica a um certo estado de coisas.

Mesmo assim, o filme continua sua empreitada de cutucadas. Está no choque que o Papa tem no contato com pessoas comuns nas ruas, em especial vendo reavivar sua antiga paixão pelo teatro quando descobre uma trupe que encena Tchekhov (é sintomático o momento em que ele diz ser, na verdade, um ator); mas se encontra também nos cardeais sofrendo de dores de cabeça e jogando vôlei para aplacar as angústias, ou na cena em que o psicanalista, recitando trechos da Bíblia, diz que aquele se trata de um livro depressivo.

Se o absurdo das situações soa tão implausível, é daí mesmo que Moretti tira a graça do filme, a partir do inimaginável, junto com uma pitada de coragem. O filme mais conhecido de Moretti talvez seja o drama em luto O Quarto do Filho, Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2001. Apesar de ótimo (um de seus melhores trabalhos) não é a melhor referência aqui porque Habemus Papam trabalha no registro de um certo humor negro com fundo de seriedade. Nesse sentido, o filme se assemelha bastante ao longa anterior do cineasta, O Crocodilo, sátira pesada, mas fantasiada de comédia, a Silvio Berlusconi e sua figura de poderoso chefão da política e das comunicações na Itália.

A filmografia do diretor é marcada pelo humor sagaz, sem precisar ser rasteiro ou recorrer a subterfúgios da comédia rasgada. Se parece tão fácil atacar a religião atualmente, com tanto exemplos de estagnação intelectual e retrocesso cultural, Habemus Papam busca um caminho mais enviesado, o que reforça mesmo sua singularidade. No fim, existe um alvo muito claro no filme, coisa que a cena final sacramenta como uma pancada contundente naquele universo de homens cuja fé se encontra na corda bamba.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Filmes de setembro




1. O Legado Bourne (Tony Gilroy, EUA, 2012) **

2. Elles (Malgorzata Szumowska, França/Polônia/Alemanha, 2011) **½

3. Vizinhos Imediatos de 3º Grau (Akiva Schaffer, EUA, 2012) *

4. Hahaha (Hong Sang-soo, Coreia do Sul, 2010) ***

5. 13 Assassinos (Takashi Miike, Japão/Reino Unido, 2010) ***

6. Barba Azul (Catherine Breillat, França, 2009) ***½

7. Seita Mortal (Kevin Smith, EUA, 2011) **

8. Poder Paranormal (Rodrigo Cortés, EUA/Espanha, 2012) **½

9. Memórias de Xangai (Jia Zhang-ke, China, 2010) ***½

10. Tropicália (Marcelo Machado, Brasil/EUA/Reino Unido, 2012*) ****

11. Os Mercenários 2 (Simon West, EUA, 2012) ***½

12. Aqui é o Meu Lugar (Paolo Sorrentino, Itália/França/Irlanda, 2011) *½

13. O Gato do Rabino (Joan Sfar e Antoine Delesvaux, França/Áutria, 2011) ***½

14. O Filme de Oki (Hong Sang-soo, Coreia do Sul, 2010) ***½

15. O Estranho Caso de Angélica (Manoel de Oliveira, Portugal/ Espanha/França /Brasil, 2010) ****

16. Post Mortem (Pablo Larraín, Chile/Alemanha/México, 2010) ****

17. O Dia em que Ele Chegar (Hong Sang-soo, Coreia do Sul, 2011) ***


quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Ingmar Bergman e o silêncio


A descrença é uma das marcas mais fortes da filmografia do sueco Ingmar Bergman. Seja ela religiosa (um de seus grandes temas) ou no próximo, apesar das esperanças e busca constante por respostas. Sua Trilogia do Silêncio forma um belo estudo de vidas marcadas pela esperança de um dia se completarem no outro, em Deus, na família, no amor. Mas em Bergman, como sabemos, dói muito essa busca e nem sempre se alcança.


Através de um Espelho (Såsom i en Spegel, Suécia, 1961)


Ponto de partida da trilogia, Através de Um Espelho parece ser das obras-primas de Bergman a menos festejada. Pai (Gunnar Björnstrand) se reúne com filho (Lars Passgård), filha (Harriet Andersson) e o marido desta (Max von Sydow), e a aparente sintonia do grupo, marcada pela cena do banho de mar no início, vai se corroendo à medida que os distanciamentos entre eles se tornam mais evidentes. Num filme em que a representação de Deus é uma aranha monstruosa, vista pela personagem de Andersson tomada de esquizofrenia, tem-se aí mais uma vez a crença religiosa como esperança infrutífera de salvação, tema tão caro ao cineasta sueco. 

É o silêncio de Deus, mas há também o silêncio entre o pai distante e o filho mais jovem e carente de atenção; o desgaste de um casamento fadado à dor, apesar da paixão que ainda resiste ali, representada principalmente pela expressão cansada, mas de doação total de Max von Sydow; e o tempo a corroer tudo isso. Eis aqui mais um estudo psicológico de uma família marcada pelo distanciamento, seja por culpa da doença, seja pela impossibilidade humana de enfrentar seus medos. Mas o que seria a afirmação do pessimismo total, ganha uma centelha rara de esperança na última cena, quando o pai fala abertamente com o filho sobre o amor terreno, sendo esse o verdadeiro amor. Taí um bom começo: fale com ele.


Luz de Inverno (Nattvardsgästerna, Suécia, 1963)


Bergman sempre teve uma bronca com os preceitos religiosos, muito por conta da educação rígida imposta pelo pai, pastor luterano. Em Luz de Inverno ele expurga esses anseios justamente na figura de um pastor, vivido por Gunnar Björnstrand, já descrente e em crise de fé, mas que continua ali, pregando a palavra bíblica com certa mecanização. De fato, toda a cena da missa celebrada no início do filme é mostrada como algo desinteressante, arrastada, sem paixão, o que justifica os poucos que ainda a frequentam. Entre eles, Märta (Ingrid Thulin), a professora apaixonada pelo pastor, e o casal Persson (Gunnel Lindblom e Max von Sydow).

O grande conflito do pastor é não saber mais lidar com as responsabilidades de líder e conselheiro espiritual que seu ofício exige. Além das investidas e insistências de Märta, não sabe como ajudar o Sr. Persson que leu nos jornais que a China logo pode desenvolver a bomba atômica e causar mais um conflito mundial; o homem cai em depressão e passa a alimentar desejos suicidas. Preso em sua própria descrença e incapacidade de ajudar os outros a desanuviar seus conflitos, o pastor se perde cada vez mais na sua fraqueza e desamor, principalmente depois da morte de sua querida esposa. Björnstrand vacila o tempo todo com o olhar (numa cena emblemática, olha para o altar da igreja e diz: “Que imagem ridícula”) e sua atuação é pura desolação, assim como Thulin se doa a essa mulher que crê e sofre, fervorosamente, com amor pelo pastor. No fim, Bergman ainda faz uma analogia genial entre a Paixão de Cristo, cuja dor é menos física e mais de ordem psicológica pela sensação de ter sido abandonado por todos (Pai e discípulos), e a própria condição de solitude do pastor. Mas o fardo aqui promete ser eterno.


O Silêncio (Tystnaden, Suécia, 1963)


O Silêncio parece ser o filme mais antonioniano de Bergman (data dessa mesma época a produção da Trilogia da Incomunicabilidade, concebida pelo diretor italiano), ou pelo menos é o que se sente na primeira metade do filme em que duas irmãs (Ingrid Thulin e Gunnel Lindblom), em viagem de volta à Suécia natal, pernoitam num hotel de uma cidade desconhecida por conta da doença repentina que acomete uma delas. Num país de língua desconhecida e sem muito que fazer, o clima geral é de paradeiro, quase mistério, como demonstra as andanças do filho de uma delas pelo hotel, ganhando ares de estranheza, até pelo encontro com uma trupe de anões circenses espanhóis hospedados no lugar.

Mas as dificuldades de entendimento logo se destacam na relação conflituosa entre as irmãs, pontuadas por suas personalidades conflitantes; uma é controladora e depressiva enquanto a outra se revela mais despojada, esbanjando sensualidade à procura de relacionamentos casuais na cidade. O filme antecipa de certa forma Persona (no falatório e confissões entre as personagens) e Gritos e Sussurros (na eminência da morte de uma delas em contraponto à dificuldade – e falta de vontade – em socorrer da outra). O cineasta sueco transforma o que inicialmente era calmaria, em ebulição emocional, desfilando seu já marcante pessimismo ao abordar relações familiares. Nesse casso, não parece haver conforto nos mais próximos, e sim no desconhecido, representado pelo velho atendente do hotel. O silêncio permanece.


domingo, 16 de setembro de 2012

Moviola Digital, 5 anos







Há exatos 5 anos, também num domingo, comecei uma nova fase com a criação do Moviola Digital. A ideia era discutir cinema, essa paixão que tomava forma cada vez maior na minha vida e que encontrava na crítica cinematográfica (ou no ideário do fazer crítico) a forma mais interessante para um estudante de jornalismo expor seu fascínio pela sétima arte. 

Era também um modo de começar um aprendizado autoditada sobre o cinema e, consequentemente, sobre a própria escrita reflexiva dos filmes. Pelo visto tem dado certo. Continuo adorando esse espaço, o contato que tenho com gente tão diversa e de lugares tão distintos, a possibilidade de falar sobre os filmes e de fazer as pessoas se interessarem por determinada obra do cinema.

Durante esse tempo muita coisa aconteceu. Fiz bons amigos e mantive bons contatos, o blog faz parte da Sociedade Brasileira dos Blogueiros Cinéfilos e também da Liga dos Blogues Cinematográficos, pude cobrir algumas mostras e festivais, fui convidado para algumas atividades (comentário de filmes em projetos e cineclubes, participei de júri e curadoria), escrevo também para outros espaços. Tudo isso vejo como um reflexo do que tenho feito e exercitado no Moviola Digital.

A todos que ainda visitam o blog, dos mais explícitos aos mais calados, meu muito obrigado, porque é isso que faz este lugar ainda vivo. Que mais aniversários venham porque os filmes estão aí, soltos, prontos para serem cutucados, apreciados, revistos, discutidos, amados, redescobertos, desprezados. Ilustram o post, como de praxe, 10 filmes que passaram aqui pelo blog no último ano. A paixão nunca vai acabar.




segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Amor em fragmentos


360 (Idem, Reino Unido/França/Brasil/Áustria, 2012)
Dir: Fernando Meirelles


Sabe-se de antemão que 360 reúne uma gama enorme de personagens cujas histórias se cruzam levemente. Podíamos concluir que cada um deles teria pouco tempo em tela, que suas histórias não seriam abordadas com profundidade, que carisma era essencial e que as histórias precisariam ser boas o suficiente para sustentar o interesse pelas casos em separado. O grande desafio, portanto, era revestir essa proposta de força narrativa, de algo que pudesse elevá-lo e engrandecê-lo.

Mas o que 360 consegue mesmo é ser desinteressante a maior parte do tempo, apesar do esforço e das boas intenções ali. De fato, grande parte das histórias são muito curiosas, mas a frieza com que tudo é tratado desmerece praticamente quase todas elas (menos talvez a da prostituta interpretada por Lucia Siposová, que abre e fecha o filme). Dá muita vontade de conhecer mais aquelas pessoas, adentrar seus dramas, torcer por eles, o tipo de desejo que o filme não permite. É como se se autosabotasse a todo instante.

O mais curioso é que esses problemas são prévios à própria realização do filme. Basta ler o roteiro de um projeto assim para perceber que é preciso um algo a mais para que o todo ganhe força e desperte interesse. Mas a direção de Meirelles é didática, talvez numa escolha um tanto equivocada já que o diretor, apesar de ter dirigido grandes obras, não tem um estilo firme, um conceito estético do qual consegue ser lembrado e que pudesse imprimir a 360 como uma marca consistente.
  
O que mais se destaca no longa é o trabalho de Daniel Rezende que monta o filme com uma habilidade nata de entrelaçar essas histórias, mantendo uma unidade estável de ritmo. Quando ele divide a tela, por exemplo, para mostrar ao mesmo tempo personagens em locais diferentes, faz isso com precisão, no tempo certo, sem abusar do recurso, mantendo sensibilidade. É mais por causa dele que o filme não é um fracasso maior.

Nem mesmo o elenco misto de renomados e desconhecidos atores, todos na medida certa, sem grandes destaques (talvez Anthony Hopkins e seu pai alcoólatra ou o ex-condenado por abuso sexual de Ben Foster), consegue extrair algo a mais do que a história de pessoas perdidas entre seus sentimentos. Não dá pra fazer milagre assim. 360 dá voltas, se fecha, mas chega num mesmo ponto de esvaziamento.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Incorreto e certeiro


O Ditador (The Dictator, EUA, 2012)
Dir: Larry Charles


Sacha Baron Cohen continua sua missão de propagar o politicamente incorreto através dos personagens inusitados que vem fazendo em seus filmes. Voltando a tocar em questões políticas, como em Borat - O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América, filme que o tornou conhecido pela galhofa que perpetra contra o governo norte-americano, o ator aparece agora transformado no general Aladeen.

Se especialmente em Borat, e em menor medida também em Brüno, havia um tom de humor ácido que vai ficando cansativo e agressivamente pastelão até o final daquele filme, a nuance aqui é outra. O Ditador, ao investir melhor numa trama levemente mais clássica, sem improvisos, parece mais bem organizado na desorganização que o personagem faz ao chegar à América.

Interessante essa escolha de formato porque ele perde o que de melhor havia nos dois trabalhos anteriores, a estética do documentário falso. Mas ao mesmo tempo ganha um texto um pouco mais controlado, com boas piadas, embora exageros aqui e ali não deixam de marcar presença (a cena do parto seria o exemplo mais latente nesse sentido, perde a graça à medida em que a coisa vai ficando mais estúpida e nonsense). Também o fato de Baron Cohen já ser uma ator mais conhecido dificulta que ele possa tirar sarro e graça com a estupidez média do norte-americano nas ruas.

De qualquer forma, o farsesco é uma regra seguida com afinco pelo filme. Começa pelo país de origem de Aladeen, a República de Wadiya, claramente um reduto árabe fictício onde o general abusa de seu poder ditatorial. Ao chegar aos Estados Unidos, é traído pelo tio Tamir (Bem Kigsley), substituído por um sósia e precisa retomar seu posto com a ajuda de uma ativista social (Anna Faris) e um expatriado (Jason Mantzoukas).

Embora algumas pequenas participações soem tão decepcionantes (como a de Megan Fox), são compensadas por outras mais espirituosas (Edward Norton numa pontinha), e por momentos bem engraçados (Aladeen descobrindo a masturbação – “Que bruxaria é essa?”, ele diz – é impagável).

Mas o melhor de O Ditador está guardado para o final, uma alfinetada política muito bem situada em meio à comédia geral do filme. Ao se apegar a esse personagem condenável e nos fazer torcer por ele na busca de reconquistar seu poder, o filme bate forte no ideal de democracia desenhado como um sistema de possibilidades de corrupção e favorecimento de poucos. Sem histrionismos ou exageros cômicos, e ainda munido de discurso politizado, O Ditador promete uma boa nova fase para esse humorista. 

domingo, 2 de setembro de 2012

Filmes de agosto



 1. Depois do Ensaio (Ingmar Bergman, Suécia, 1984) ****

2. A Guerra dos Botões (Yann Samuell, França, 2011) **½

3. À Beira do Caminho (Breno Silveira, Brasil, 2012) **

4. O Nascimento do Amor (Philippe Garrel, França/Suíça, 1993) ***

5. O Abrigo (Jeff Nichols, EUA, 2011) ****

6. As Bem-Amadas (Christophe Honoré, França/Reino Unido/República Checa, 2011) ***½

7. O Retorno (Andrey Zvyagintsev, Rússia, 2003) **½

8. O Vingador do Futuro (Paul Verhoeven, EUA, 1990) ***½

9. O Vingador do Futuro (Len Wiseman, EUA, 2012) ***

10. Intocáveis (Eric Toledano e Olivier Nakache, França, 2011) ***

11. E Agora, Aonde Vamos? (Nadine Labaki, França/Líbano/ Egito/Itália, 2011) ***

12. Polissia (Maïwenn, França, 2011) ****

13. A Vida Vai Melhorar (Cédric Kahn, França, 2011) ***½

14. Titeuf (Zep, França, 2011) ***

15. Aqui Embaixo (Jean-Pierre Denis, França, 2012) **½

16. My Way – O Mito Além da Música (Florent-Emilio Siri, França/Bélgica, 2012) **

17. O Ditador (Larry Charles, EUA, 2012) ***

18. Uma Garrafa no Mar de Gaza (Thierry Binisti, França/Israel/Canadá, 2011) **

19. O Monge (Dominik Moll, França/Espanha, 2011) **½

20. Paris-Manhattan (Sophie Lellouche, França, 2012) **

21. A Arte de Amar (Emmanuel Mouret, França, 2011) ****

22. Americano (Mathieu Demy, França, 2011) *

23. Adeus, Berthe ou O Enterro da Vovó (Bruno Podalydès, França, 2011) ***

24. Aliyah (Élie Wajeman, França/Israel, 2011) ***½

25. 360 (Fernando Meirelles, Reino Unido/Áustria/França/Brasil, 2012) **

26. O Menino dos Cabelos Verdes (Joseph Losey, EUA, 1948) ***

27. Aquele que Sabe Viver (Dino Risi, Itália, 1962) ****


Revisões:

28. Fanny e Alexander (Ingmar Bergman, Suécia/França/Alemanha Ocidental, 1982) ****

29. O Sétimo Selo (Ingmar Bergman, Suécia, 1957) *****

30. Mônica e o Desejo (Ingmar Bergman, Suécia, 1953) ***½

31. Fausto (Aleksandr Sokurov, Rússia, 2011) ***½